Meios de comunicação e os caminhos dos protestos

Quando da manifestação de apoio aos moradores de Pinheirinho, os grandes veículos não protestaram contra o bloqueio da PM a jornalistas.

- No domingo (22), manifestantes foram à Paulista em protesto contra a ação da PM em Pinheirinho (foto: Pádua Fernandes) -

No dia seguinte ao ato em São Paulo de apoio a Pinheirinho, o jornal Folha de S. Paulo publicou matéria no estilo Diário Oficial do Estado sobre a destruição da comunidade de Pinheirinho. No tocante à manifestação na Paulista, apenas uma foto e uma legenda afirmando que ela continha apenas cem pessoas. Como leciono habitualmente para turmas de setenta alunos, posso declarar que o jornal está errado e que havia bem mais gente, apesar de a passeata ter sido convocada em pouco menos de três horas.

Por sinal, aconselho a ver as fotos de Thiago Miranda dos Santos Moreira.

O Estado de S. Paulo fez uma cobertura bem superior do evento, calculando em 500 participantes, e revelou que a moça que carregava o cartaz “Quando morar é um privilégio, ocupar é um direito” era a estudante de Psicologia Camila Santos. Parabéns para ela, que mostrou um entendimento do direito à moradia bem superior ao do Tribunal de Justiça de São Paulo.

O jornal também deu o destaque acertado à declaração de Ophir Cavalcante, em nome da OAB, de que a ação havia sido ilegal. E incluiu uma declaração no mesmo sentido do poeta e professor de Filosofia do Direito da Facamp, Tarso de Melo (também meu amigo). Tarso, por sinal, estudou e publicou sobre a função social da propriedade.

Os grande meios de comunicação, aparentemente, não se mostraram pressurosos a protestar contra o bloqueio contra jornalistas feito pela Polícia Militar na região.

Os pequenos não são necessariamente melhores em termos de crítica ao poder (vejam este exemplo, que finge não haver presos políticos em Cuba), mas alguns buscam furar o bloqueio policial e exercer dignamente o jornalismo. E há quem consiga, fora da imprensa, documentar de forma independente ações abusivas da polícia de São Paulo.

Não tenho tevê, mas li comentários de pessoas chocadas com certa cobertura dos acontecimentos – emissoras que, em vez de irem atrás da notícia, ficam na frente dela, acobertando-a. Este vídeo parece ser mais fiel ao que ocorreu:

Ele foi realizado pelo Coletivo de Comunicadores Populares; a filmagem e as entrevistas: Cristina Beskow, Yan Caramel, Gabriel de Barcellos, com edição de Jefferson Vasques. No final, ouve-se uma declaração oportuna sobre “ditadura”.

Como se dá a resistência a essa ordem de coisas? Ainda é possível a via judicial. O Ministério Público Federal, eu ignorava até descobrir pelo Twitter, propôs ação contra a Prefeitura daquele município por omissão no atendimento à população de Pinheirinho. Como se sabe, a Prefeitura acabou agindo, mas não no sentido que o MPF desejava: a Guarda Municipal ajudou a Polícia Militar a atacar aquela população.

Outra notícia é que a Associação Democrática por Moradia e Direitos Sociais de São José dos Campos propôs mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal contra a desocupação. Provavelmente o tribunal vai agir depois do fato consumado.

Há outras vias além da judicial, evidentemente. Numa ação virtual, foram derrubados no dia 24, ontem, mais ou menos às 22 horas, os portais do governo do Estado de São Paulo e do Tribunal de Justiça de São Paulo, e não as autoridades correspondentes.

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P.S. Merece destaque a matéria do The Guardian escrita por Rodrigo Nunes, “The fight against Brazil’s Pinheirinho eviction can be an inspiration“, que analisa como a esquerda tem sido em geral pouco crítica em relação às desocupações forçadas no Brasil (e ao governo de Dilma Rousseff), e como as redes sociais estão sendo usadas para furar o bloqueio da grande imprensa.

  • Jorge

    Pelo que ouvi no rádio, a PM evitou o máximo de contato possível com a imprensa para não atiçar ainda mais o animosidade entre os invasores.
    Com relação a Dilma e Gilberto Carvalho que, numa atitude oportunista, condenaram a ação policial falando até em crimes de guerra e outras idiotices durante o fórum social, é interessante ressaltar que o governo a nível federal sabia da invasão do terreno desde 2005 e de lá até hoje, absolutamente nada se fez para resolver o problema e provavelmente sabia que o Estado de SP seria condenado de qualquer forma, inclusive se não cumprisse com a decisão judicial de reintegração.

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