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Não existe polícia em São Paulo

por Camila Pavanelli (22/01/2012)

Se você defende a ação da PM no Pinheirinho, não está do lado da lei e da ordem

Uma das coisas que The Wire me ensinou sobre a guerra contra as drogas é que ela acaba com a polícia, impedindo-a de realizar as funções de proteger e servir que deveriam ser as suas. A guerra contra as drogas transforma policiais – que protegem uma comunidade – em soldados – que saem por aí fazendo batida e prendendo traficante pé-de-chinelo. E, é sempre bom lembrar, para que haja uma guerra, é preciso que haja um inimigo. Muito rapidamente, os cidadãos que o policial deveria proteger transformam-se em inimigos, e os bairros que deveria policiar transformam-se em território ocupado.

Além da guerra contra as drogas – que, particularmente na cidade de São Paulo, assume contornos específicos de guerra contra os dependentes químicos -, o estado de São Paulo vem sediando também guerras contra estudantes e contra manifestantes que usam o espaço público para advogar por uma causa qualquer. A recente guerra contra os moradores (que amanhã serão sem-teto) do Pinheirinho não foge a esta lógica de transformação da polícia em exército de ocupação. Há aí uma pequena diferença, porém, que vale a pena ser apontada.

Nas outras guerras citadas acima, as vítimas da polícia costumam ser vistas pela imprensa e por boa parte da opinião pública como uma combinação de três ou quatro adjetivos: viciados e maconheiros, desocupados e vagabundos. Faça uma busca por “maconheiro vagabundo USP” e divirta-se, só que ao contrário.

No caso dos moradores do Pinheirinho, outro estigma já lhes está sendo aplicado: o de bardeneiros esquerdistas. Era de se esperar: sem-teto – sem-terra – MST – Stedile – aquela vez que apareceu no Jornal Nacional um bando de sem-terra destruindo uma laranjeira – etc.

Esta, porém, não é uma diferença significativa. Estigma é estigma, seja de vagabundo seja de baderneiro. Ambos são contra a lei e a ordem, em todo o caso.

A diferença maior que eu vejo é que, com os chamados maconheiros e vagabundos que vem apanhando da polícia ao longo de toda a gestão do PSDB no estado de São Paulo, não existe um beneficiário claro e cristalino da porrada, a quem se possa atribuir um nome e um CPF. Estudantes da USP e dependentes químicos do centro apanham, e quem ganha com isso? Os interesses são difusos.

No caso do Pinheirinho, o beneficiário da porrada tem nome – Naji Nahas – e CPF, se bem que se fôssemos um país sério seu CPF seria inválido.

Para os que defendem as ações do governo e da polícia, ficou um pouquinho mais complicado. Porque desta vez, se você defende a invasão do Pinheirinho, não adianta dizer que está do lado da lei e da ordem. Você está do lado de Naji Nahas.

Camila Pavanelli

Doutoranda em Psicologia Social na USP.

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Bruno Pinheiro

É isso aí, Camila!

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[…] de Camila Pavanelli, no Coletivo Amálgama […]

Camila Pavanelli de Lorenzi

Parece que a tese dos baderneiros esquerdistas já caiu. A palavra de ordem agora é associar o Pinheirinho à… Cracolândia. Voltamos aos quatro adjetivos iniciais. A criatividade dessa gente é infinita.

léo mariano
léo mariano

independente o q se acha do pinheirinho, independente o q se acha do caso da usp, o impressionante é ver como a policia de sp, a policia de “alta tecnologia”, parece apenas saber resolver tudo na base da porrada.
e o mais impressionante é ver como essa atitude de baixar o “cacete” encontra proteção nas vozes de quase todo nós, os paulistas.
me parece q nós só sabemos resolver os problemas das cidades na base da porrada, legitimando e institucionalizando um grupo para isso.

Cleiton
Cleiton

Não existe polícia em SP?
E quem foi que prendeu os 150 mil criminosos no Estado?
Essa coisa de afirmar que PSDB em SP só sabe bater em vagabundos e maconheiros parece frase copiada de blogs do Paulo Henrique Amorim e seus assemelhados.
Enquanto isso, no RJ, se mata vagabundos a rodo com a ajuda de tropas federais e ninguém comenta as barbaridades locais, nem os Direitos Humanos, Ministério Publico, OAB, Igreja e ONGs.
Interessante o tratamento especial dado a PM de SP.

léo mariano
léo mariano

a percepção q tenho não eh apenas q a policia bate apenas em “maconheiro e vagabundo”, mas d q a policia so sabe bater p/ resolver os problemas. e olha q eu moro no interior, numa cidade bem legal.
e conversando com pessoas q trabalham na corporação e com alguns policiais civis ouve-se q essa violencia muitas vezes é apoiada e exigida por muitos, e eu me incluo nessa, paulistas.
qto ao rio lá realmente a coisa e tão feia quanto outros lugares e mereciam um olhar atento.

abs

Hugo Albuquerque

Para os que defendem as ações do governo e da polícia, ficou um pouquinho mais complicado. Porque desta vez, se você defende a invasão do Pinheirinho, não adianta dizer que está do lado da lei e da ordem. Você está do lado de Naji Nahas.

Nada a acrescentar: perfeito.

P.S. E conste que hoje foi o dia em que Daniel Dantas teve o sequestro de suas 27 fazendas revertido pela Justiça Federal.

Ines
Ines

Da mesma forma que a foto de soldados americanos urinando sobre corpos afegãos circulou pelo mundo provocando indignação, essas fotos da PM de Geraldo Al-ckmin atirando sobre mulheres, crianças, idosos, jovens e trabalhadores deveria ser divulgada para que o mundo se posicionasse, para que a ONU protestasse contra a barbárie violenta cometida contra os Direitos Humanos. Fala-se em sete mortos. Isto é GENOCÍDIO senhores! Um governante GENOCIDA não pode permanecer. CASSAÇÃO JÁ AO GOVERNADOR GENOCIDA GERALDO AL-CKMIN.

Breno
Breno

Com licença mas você deve estar muito bem desinformada.
Ninguém morrreu durante a ação mas uma pessoa saiu baleada e não se sabe de onde partiu esse tiro já foram usadas somente balas de borracha.
Se for pra cassar Alckmin, deveria cassar todo mundo, já que todos estão usando a mesma estratégia, inclusive o Governo Dilma ao mandar tropas para atuar em outros estados e até para Haití, onde há denuncias de abusos.

Welington Leal
Welington Leal
O seu texto tem o seu valor, mas aparentemente coloca os policiais na mesma generalização que voce reclama que os estudantes da USP, frequentadores da Luz, os sem-terra e outros grupos sofrem. A questão da moradia que deve ser discutida. O governo de SP não investe suficiente, não distribui adequadamente e nem cria condições da classe mais baixa conseguir moradia decente. Eu mesmo sofro com esse problema, não se acha um casa de coisa dormitorio em um bairro classe media baixa por menos de 500 reais na cidade onde eu moro. É a lei da oferta e da procura. Imagine… Leia mais »
Pablo Vilarnovo
Concordo contigo. Isso sem contar com o fato que nesses acontecimentos há sempre um grupo que investe na violência. Assim como aconteceu na USP e seus grupelhos de extrema esquerda que com o motivo de manchetes e propaganda, investem no conflito, em Pinheirinho aconteceu a mesma coisa. Da mesma forma que se calam sobre o “dízimo” que era pago pelas famílias a esses grupelhos de extrema esquerda. Tal qual as milícias do Rio cobram. Outra coisa, há uma enorme confusão, que prefiro acreditar que é por conta da ignorância em saber que a ordem foi judicial cabendo ao governo de… Leia mais »
Andre Rodrigues
Andre Rodrigues

Estar ao lado da lei independe de quem seja o beneficiário da ação de reintegração de posse, faça-me o favor.

Carlos

Na verdade o terreno é da massa falida de uma empresa que era do Nahas. Creio que o “dono”, de fato, sejam os credores. Que podem até ser trabalhadores com direitos a receber, vá-se lá saber.

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[…] (as UPP’s cariocas são a solução?) e pergunta: de que lado está a lei e a ordem? – Não existe polícia em São Paulo. Foto: Cassio […]

Daniel Ramos
Daniel Ramos
Não concordo com a ação emitida pela a Ordem Judicial,mas ao mesmo tempo penso que a Polícia Militar não têm nenhuma culpa do que ocorreu,ela simplesmente foi o instrumento utilizado pelo o Estado e a Justiça para realizar o “trabalho sujo”,pois nunca veremos Juízes,Promotores e Políticos com a Farda do Choque organizados e indo fazer as ações de retirada,isso jamais veremos.Por isso que existe a PM e ela estava somente obedecendo a Ordem Judicial emitida por uma Juíza de Direito,por isso que não acho justo querer colocar uma instituição que simplesmente estava cumprindo Ordens superiores a ela. Se querem culpar… Leia mais »
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[…] doutoranda em Psicologia Camila Pavanelli criticou as ações recentes da polícia de São Paulo no caso Pinheirinhos e em outros: Além da guerra […]

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[…] via Cirandeiras, texto por Camila Pavanelli, no Coletivo Amálgama […]

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[…] Cartoon by Carlos Latuff, under CC license Doctoral student in Psychology Camila Pavanelli criticized the recent actions of the police of Sao Paulo in the Pinheirinho case and in other events: Além […]

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[…] Cartoon by Carlos Latuff, under CC license Doctoral student in Psychology Camila Pavanelli criticized the recent actions of the police of Sao Paulo in the Pinheirinho case and in other events: Além […]

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[…] Não existe polícia em São Paulo […]

Marcos André
Marcos André

Mas quanta imbecilidade… O terreno não tem mais nada a var com o Naji Nahas, há uma ordem judicial determinado a desocupação etc… E o texto em geral não fala nada com nada, não tem um argumento…

ueslei de melo morais
ueslei de melo morais

invadirão intão estão errados,não interessa de quem é o terreno!

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[…] a pior e mais primária de todas. Vídeos aos montes, fotos aos milhares,  além de relatos emocionados de testemunhas oculares – como o nosso Tsavkko – e […]

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Silvio Pedrosa

O terreno foi desapropriado para qual massa falida? A que não existe há mais de 5 anos? E agora reacinhas? Ficou feio, hein? Apoiando o Naji Nahas? Mas é claro que sim. Pensam exatamente como ele.

http://www.redebrasilatual.com.br/radio/programas/jornal-brasil-atual/alckmin-desembargador-sartori-e-naji-nahas-devem-ser-presos-por-crimes-no-pinheirinho-afirma-procurador/view

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