Mockumentary, ou Baseado em fatos irreais


Cena de Atividade Paranormalpor Luiz Biajoni – O termo é novo, mas o estilo não. Reunião das palavras “mock” (falso) e “documentary” (documentário), a definição surfa na nova onda de filmes como Atividade Paranormal e Contatos de Quarto Grau.

Como a “realidade” desses filmes tenta nos aproximar do terror, o primeiro filme geralmente citado, quando se fala em “falsumentários”, é Canibal Holocausto, de Ruggero Deodato, lançado em 1979. Já falei sobre esse filme aqui no Amálgama – um grupo de pesquisadores desaparece durante uma expedição e os rolos de filmes que eles gravavam são encontrados. É uma espécie de Bruxa de Blair mais violento e nojento, rodado 20 anos antes. A Bruxa de Blair acabou sendo o catalisador desse novo tipo de filme, graças ao acesso a câmeras menores, com qualidade digital e mais baratas.

Porém, o primeiro “falsumentário” que me vem à mente é Um Assaltante Bem Trapalhão, de Woody Allen, realizado em 1969. A diferença, claro, é que Allen não tenta vender seu filme como realidade; apesar de ser “em estilo documentário”, é claramente ficcional, no registro da sátira. Assim como são Zelig (Allen, 1983), This is Spinal Tap (Reiner, 1984) e Bob Roberts (Robbins, 1992) – e assim devia ser Borat (2006), mas a mim parece haver uma insistência para que o filme se apresente como Realidade e, por isso, sempre o chamo de desonesto para com o público.

Alguns filmes não podem ser considerados falsumentários, embora utilizem o clima do estilo, como REC (Balagueró/Plaza, 2007), Cloverfield (Reeves, 2008) ou mesmo Distrito 9 (Blomkamp, 2009) e Diário dos Mortos (Romero, 2008).

Justiça seja feita, quando Orson Welles narrou Guerra dos Mundos no rádio, como se fosse verdade, começava a confundir as coisas. Welles gostava desse tipo de confusão e fez o falsumentário F for Fake em 1974.

O espectador gosta de ser confundido e tudo o que tem sabor de realidade impressiona mais. Assim, cresceu assustadoramente a quantidade de filmes “baseados em fatos reais”. O “baseado” nesses casos geralmente está muito distante da realidade. Quando fizeram Fargo (1996), os irmãos Coen venderam o filme como baseado em fatos reais, mas depois dos Oscars eles desmentiram, contaram que a história toda nasceu nas suas insanas cabeças. Um dos prêmios foi para Roteiro Original.

Nesse sentido, a mágica do cinema pode estar exatamente em desconstruir a realidade, mesmo quando a reconstrói. Ou quando a destrói. Nesse sentido, Bastardos Inglórios (2009) pode mesmo ser considerado o melhor e mais original filme do ano passado: ele está longe de se basear em fatos reais. Muito pelo contrário.





Luiz Biajoni

Jornalista e escritor. Publicou em 2015 o romance A viagem de James Amaro.








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