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Quando confunde-se religião com práticas

por Raphael Tsavkko Garcia (02/02/2011)

Quem conhece muçulmanos o suficiente, vê que o islamismo dos fanáticos nada mais é que uma versão fascista e deturpada de suas crenças

por Raphael Tsavkko Garcia

É possível afirmar, como o fez Amâncio Siqueira em artigo recente no Amálgama, que o Irã é uma teocracia islâmica e, ao mesmo tempo, que é uma ditadura com diversos aspectos que merecem nosso franco repúdio.

Não há problema nisso.

Problema há quando ligam ditadura e repressão ao islamismo. Quando a ideia de “ditadura repressiva” passa a estar intimamente ligada ao islamismo, quando estamos diante não do islamismo, mas de uma leitura que, em geral, envergonha a maior parte daqueles que professam a religião.

Ditaduras independem de religião. São políticas. Feitas por homens que encontram uma desculpa para manter seu poder e perpetuar a repressão. Pode ser o Islamismo, Cristianismo ou até o Pastafarianismo – basta acreditar. Pessoas matam e morrem em nome de grandes ou de pequenas religiões. Entregam todo seu dinheiro para templos evangélicos. Trata-se de leituras deturpadas.

Obviamente a religião em si abre portas para o fanatismo, mas não pode ser totalmente responsável pelas leituras mais radicais que são feitas. Senão todos os crentes seriam fanáticos por princípio.

Imagino que nenhum cristão se vanglorie dos milhões de mortos durante as Cruzadas ou defenda a Inquisição, ou mesmo reconheça estes dois exemplos como base ou resultados do “Cristianismo”, mas apenas faces de uma igreja ou mesmo uma interpretação absurda da “palavra” de seu deus.

Quem já leu o Corão ou ao menos conhece muçulmanos o suficiente para ter uma ideia de seus costumes e práticas, vê que o suposto islamismo pregado por aqueles fanáticos nada mais é que uma versão fascista e deturpada de suas crenças. É a leitura crua, sem atualização ou interpretação honesta. É a politização de uma crença levada ao mundo estatocêntrico com o intuito de garantir a alguns o poder sobre os demais.

Seria, em paralelo, o mesmo que o Comunismo (sic) nas mãos de Stalin. O Comunismo seria naturalmente ruim pela interpretação genocida de alguns. Assim como as religiões, as teses marxistas foram usadas por milhões da pior forma possível. O problema não está na religião/ideologia, mas na prática desta, na apropriação e leituras feitas a posteriori por quem tinha claros interesses em desvirtuar aquilo que milhões seguem ou acreditam. Da mesma forma que você precisa interpretar e atualizar os escritos de Marx, que não têm nem 300 anos, você precisa interpretar e atualizar aquilo que foi escrito a 1500 ou 2 mil anos.

A própria gênese de muitas religiões se baseia apenas no interesse de um ou uns dominarem um grupo através do medo ou de promessas de benesses eternas. É bom ter isto em mente, porém: o neopentecostalismo, como tal, é nocivo desde seu princípio e por base.

Não estou aqui falando que o Islamismo ou mesmo o Cristianismo sejam “puros” — imagino já ter deixado isto claro –, que mesmo em seus ensinamentos não exista algo recriminável, longe disso, o problema na verdade são as interpretações ou, mais ainda, a insistência dos mais puristas em evoluir a si mesmos e à própria religião. No fim das contas, o problema surge quando, de apoio, religião passa a ser a razão da vida.

Religião, enquanto re-ligamento, não me parece poder ser encarado como um monolito, senão estamos ligando o homem do século XXI a um deus do século 1 ou 5. Não me parece haver conforto para um alma do século XXI em seguir preceitos que no século XV já estavam ultrapassados.

Mas o que há de reconfortante na religião permanece inalterado, a sensação de proximidade com um deus, com uma verdade, com uma forma de viver. E é isto que deve ser defendido, e não os aspectos obscurantistas que são comumente usados por aqueles em busca de poder.

Notem que sou ateu, não sigo qualquer religião e tampouco entendo a necessidade que muitos têm de encontrar conforto em um deus, em algo externo e inexplicável. Mas respeito.

Teocracia nada mais é que uma ditadura fascista, mas ao invés do discurso puramente político, adotam medos ancestrais e utilizam a religião como subterfúgio para suas práticas. E encontramos isto em todas as grandes religiões e não apenas no Islamismo, que, parece, está na moda. As razões, aliás, para tal “moda”, ao menos no Oriente Médio, foram dadas neste post em que analisei o terrorismo no Cáucaso Russo.

É fato, aquilo que está em livros religiosos propicia o surgimento de fanáticos e genocidas. São livros (Bíblia, Corão…) que não só podem ser interpretados de diversas maneiras como também possuem incontestáveis mensagens de ódio, da necessidade de conversão forçada, de machismo, odes à violência etc., mas devem — como tudo na vida — ser interpretados.

E falo “interpretado” não no sentido de deturpar ainda mais ou de se seguir ao pé da letra (como quem vive sem eletricidade ou contato com o mundo exterior achando que assim agradará a deus), mas no sentido de se enxergar estes livros como peças de uma época completamente diferente e extrair destes mensagens que possam ser trazidas até os dia de hoje.

Não importa se na Bíblia de quase 2 mil anos ou, por exemplo, no Manifesto Comunista — o que está escrito é passível de e deve ser interpretado, trazido para os dias atuais, ou senão iremos nos limitar a repetir erros ou viver eternamente no passado.

Sim, o Irã é uma teocracia islâmica assassina. Mas os EUA são uma suposta democracia baseada em princípios cristãos e com presidentes tementes ao seu deus e são ainda mais genocidas. Seria então culpa do islamismo? Do cristianismo? Ou da transformação de religião em política? Ou ainda pior, na transformação da religião, de algo subsidiário, de um suporte, para um valor imprescindível e que permeia nossas vidas — acima da razão?

Alguns fanáticos islâmicos proíbem o contato entre homens e mulheres… Outros cristãos fazem o mesmo. Alguns fanáticos islâmicos colocam as mulheres como inferiores… Mas a Igreja Católica não faz o mesmo? Entre evangélicos as mulheres não são muitas vezes forçadas a deixar sua feminilidade de lado e a se submeter à vontade dos homens? Os judeus mais ortodoxos não relegam à mulher o papel de subalternas?

Mas, muitos dirão, os islâmicos são diferentes, afinal, eles matam pela religião! Oras, até bem perto do século XX os cristãos à mando da Igreja Católica faziam pior. A Inquisição durou na Espanha até princípios do século XX. E mesmo a extrema-direita dos EUA, neonazistas e gente ligada à KKK são cristãos fanáticos, que acreditam que todos os não-crentes devem morrer – além de negros, imigrantes, judeus…

Mubarak é um ditador e é muçulmano. Ben Ali era um ditador e é muçulmano. Saddam Husseim era um ditador e era muçulmano… O ponto em comum entre todos estes não é só o islamismo, mas o fato de terem chegado ao poder o ao menos terem sido apoiados por um grande país cristão, os EUA, com presidentes cristãos.

E a Nicarágua foi uma ditadura – seu ditador era cristão. O Brasil teve sua ditadura, assim como a Argentina, o Uruguai… Todos os ditadores eram cristãos.

Religião é, enfim, apenas parte do problema, senão o menor deles.

Raphael Tsavkko Garcia

Formado em Relações Internacionais (PUC-SP), mestre em Comunicação (Cásper Líbero) e doutorando em Direitos Humanos (Universidad de Deusto).

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Henry Albert
Henry Albert

Boa, Raphael!
É preciso que as pessoas saibam separar uma coisa da outra.
E a tarefa é árdua…

Amâncio Siqueira
Não esperava a honra de entrar numa polêmica convosco, entretanto tentarei contribuir. Primeiramente, minha visão sobre o problema da religião e das práticas: considero a religião sim como um problema central, nada periférico. Mas não considero assim todas as religiões. Não imagino, por exemplo, uma invasão de budistas para libertar sua terra santa dos infieis jainistas. A Irlanda não teria guerras civis com fundamentos religiosos se fosse dividida entre hinduístas e budistas, ou jainistas e confucionistas. Líderes militares não conseguiriam justificar seus atos com a desculpa da religião. Também duvido que os iranianos aceitassem o regime de Ahmadinejad sem o… Leia mais »
Raphael Tsavkko
Aí está o problema, dividir o mundo entre religiões “boas” e “ruins”. Isto não funciona. Toda religião tem princípios interessantes e outros que envergonham, a questão é o que você faz deles, que lado você irá. O Budismo parece pacífico, mas o Dalai Lama já foi um líder teocrático que nem de longe era este santo com seu povo. E, no Vietnã, por exemplo, monges budistas caem na porrada por cargos e posições na estrutura religiosa. Também tem seus defeitos. Toda religião tem. Veja que eu sou um anti-religioso por princípio, mas da mesma forma que religiões são passíveis de… Leia mais »
Edurdo Prado
Rafael, Henry e Amãncio, Talvez a pior confusão que o Ocidente faz com relação ao Islã seja entre religião e cultura, mais até que entre religião e pratica religiosa. É comum ouvir comentaristas, e até mesmo “especialistas” em Oriente Médio, relacionando o Islamismo com práticas sociais machistas, como se o cristianismo, baseada no Antigo e no Novo Testamento, fosse menos machista, ou como se esse machismo não fosse prática institucionalizada em todo o mundo cristão há apenas algumas décadas. Outra confusão muito frequente é quando se relaciona a mutilação feminina, pratica que ainda resiste em algumas comunidades africanas, com o… Leia mais »
Raphael Tsavkko Garcia

Eduardo, perfeito! É exatamente por aí! Por vezes costumes são interpretados por religião e vice-versa, é muito difícil separar as coisas, especialmente olhando de fora. Às vezes esquecemos do cristianismo como ele é (ou como está escrito) porque é nossa realidade e olhamos com estranhamento para as demais. E com tanta propaganda islamofóbica, não surpreende.

Ramiro Catelan
A religião, em si, não é o problema. O que estraga, como tu mesmo apontou, é o fanatismo. Mas por vezes acaba sendo muito difícil distinguir um do outro; acabam se fundindo e aí tá feito o desastre. Quando religião, fanatismo e POLÍTICA se fundem, então, as coisas ficam ainda mais complicadas. Porque religião e política eram pra ser coisas imiscíveis, não concorda? E essa mistura nefasta permite situações como as teocracias islâmicas e – numa dimensão menor, mas nem tanto – a interferência latente do cristianismo no Estado brasileiro. Agora, discordo quanto ao “respeitar” religiões. Não se respeitam religiões… Leia mais »
Raphael Tsavkko Garcia

Eu sou idealmente um cara anti-religioso, mas não dá pra colocar toda a culpa do mundo na religião, e sim nas interpretações feitas – por mais que a gênese das religiões seja não a de explicar o mundo e sim o de dominar. No caso dos Islâmicos a coisa é pior, há um enorme preconceito e, pior, desconhecimento. são alienígenas que parecem ter surgido semana passada.

Flavia (@ladyrasta)

Uau!! Você sabe que não costumamos ter opiniões semelhantes em quase nada, por isso faço questão de vir dizer que assino embaixo. Texto claro, coerente, objetivo e imparcial. parabéns!

Raphael Tsavkko Garcia

Haha, verdade!=) Milagres acontecem e são bem vindos!=)

Amâncio Siqueira
Tenho a ligeira impressão de que esse preconceito sobre o islamismo remete a mim, então reproduzo o final do meu artugo anterior, para melhor esclarecimento: Penso que a maneira europeia de tratar as relações internacionais seja mais positiva que a maneira americana, em especial em relação a nações com apego maior à religião. O sistema puramente punitivo tende a criar maior atavismo, um repúdio mais profundo e duradouro a influências estrangeiras, vistas como interferência não de um povo igual, mas de um poder hostil. Uma política integracionista, com incentivos ao exercício pleno dos direitos humanos, conseguiu integrar sessenta milhões de… Leia mais »
Raphael Tsavkko Garcia

Oi Amâncio, na verdade não era em si direcionada a você, mas foi bem geral. Deu pra notar que sua questão é outra, mas venho há muito notando uma crescente islamofobia (como seria de se esperar) e um imenso desconhecimento sobre as bases mais simples da religião islâmica!=)

Eu concordo, aliás, com a parte final do seu texto. Apenas tenho certo problema com a idéia de permitir que os muçulmanos conheçam uma sabedoria diferente.. Tenho resistência em nos chamar de sábios!=P Especialmente quando boa parte do radicalismo muçulmano se dá como resposta à nossa “sabedoria”.

Amâncio Siqueira

Seu segundo parágrafo remete à maneira americana (majoritariamente falando: há europeus que pensam assim, americanos que não), que também condeno. Falei sobre sabedoria no sentido de que somos todos sábios, enquanto seres humanos. Por isso sabedoria diferente, e não “nossa” sabedoria, ou “a” sabedoria. Lembrando que a sabedoria que conhecemos hoje foi, em grande parte, legada por eles no passado medieval.

Raphael Tsavkko Garcia

Na verdade me remetia à sociedade “judaico-cristã” como um todo, mas sua explicação foi muito boa!

Rainor
Rainor
TODAS as religiões são perigosas pois procuram a hegemonia total, o domínio dos pensamentos e ações do povo. E isso é ditadura. Sempre que uma religião se julga majoritária ela tenta (e muitas vezes consegue) eliminar as outras e qualquer contestação aos seus mandamentos. Lembrem o que a Igreja Católica já fez, matando MILHÕES de pessoas, aterrorizando populações com torturas e fogueiras. Os muçulmanos de hoje são os que os católicos já foram, reprimindo qualquer pensamento ou ação que seja contra o Islã (ou o que eles dizem ser contrário). Mulheres são tratadas como objetos, propriedades dos pais e dos… Leia mais »
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[…] com a religião de Maomé o texto do Tsavkko, intitulado “Quando confunde-se religião com práticas”. Raphael, como sugere no título, mostra-se incomodado quando “ligam ditadura e repressão ao […]

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[…] começo de fevereiro, escrevi para o Amálgama o post “Quando confunde-se religião com práticas” em resposta a outro artigo, de Amâncio Siqueira, sobre as práticas religiosas e, em […]

Welington da Cunha Leal Junior (@Welington_Leal)
Welington da Cunha Leal Junior (@Welington_Leal)
Pq todos os intelectuais ateus tratam “aqueles que acreditam em Deus” como idiotas??? Eu sou cristão, creio no exemplo de Jesus. Mas tb acredito no livre-arbitrio, cada um faz da vida oq quiser. Creio que a salvação é pessoal, isso quer dizer que não é se mostrando aos outros o quanto tú é crente que vai conquistar o reino dos ceus e a consolação. Jesus ensinou a sermos humildes, caridosos e misericordiosos. Impor a nossa vontade sobre os outros não condiz com a essas virtudes. Machismo? Sim, pode ser interpretado como machismo o versiculo do velho testamento que o homem… Leia mais »
Giuseppe
Giuseppe

Paranéns pelo texto Raphael, mostra a fundo como a religião, numa visão deturpada e corrompida, é usada para legitimar regimes ditatoriais ao redor e também para se cometer crimes em nome de Jeová/Allah/Deus/*Insira o nome da divindade aqui*.
Possuo amigos muçulmanos que ficam muitos tristes com essa imagem que é passado dos muçulmanos e do islã, como se todos fossem intransigentes e fanáticos.

Gilmar Alberto Daniel
Tá bom,nenhum de voces é radical…fundamentalista ou algo que o valha…pois bem, quando alguém ai acima diz que religião é estupidez está sendo respeitoso…quando outro diz que respeitar religião jamais! está sendo tolerante…quando outro prega “o fim das religiões está respeitando o direito individual…Ora! só conheço um termo para defini-los:intolerantes, o que voces são na verdade: radicais que se nivelam por baixo com os maiores perseguidores religiosos da história! os mesmos que voces dizem não concordar… Aliás;voces devem saber onde isso irá levar! http://salmo12.blogspot.com.br/2009/08/guerra-comunista-contra-religiao.html Por saber que poucos se darão ao trabalho de lincar ai vou postar r um trecho… Leia mais »
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