A tragédia do comunismo desvendada

Se o socialismo em quase momento algum serviu para enriquecer os pobres, desde os primórdios do séc. XIV já substituía tal ideia pela “vingança” de apenas atacar “os ricos”.

"Ascensão e queda do comunismo", de Archie Brown

Quando damos de cara com um livro histórico descrevendo os fatos do séc. XX, os fatos do mundo bipolarizado, como os que aparecem nesse Ascensão e Queda do Comunismo, a primeira pergunta que se faz é: que lado o autor defende?

Em se tratando do comunismo, uma ideia que povoa um romantismo idealizado, virginal à realidade, sobretudo na mente de jovens, a resposta obrigatória é lembrar que um livro sobre o nazismo que omitisse as mortes do totalitarismo fascista seria desacreditado. Archie Brown, pesquisador cuja extensão de fontes exige uma vida de muitas décadas, não se furta a falar das mortes incrivelmente mais numerosas causadas pelo comunismo, e nem de outros “detalhes” pouco elogiáveis desse sistema: da falta de liberdade de imprensa até as mortes aos milhões por fome que ele legou ao séc. XX (curiosamente, ao se digitar “capitalismo” no Google Images, veremos muitas fotos de genocídios e mortos de fome, praticamente nenhum deles em um sistema capitalista).

As fontes e notas de Brown, aliás, cobrem sozinhas quase 80 páginas. É recomendável usar dois marcadores de página para não perder algumas notas que acrescentam dados ao texto. Eruditíssimo, a narrativa de Brown começa com os primórdios das ideias comunistas pré-Marx, e tenta seguir alguma complicada cronologia dali para frente. Como tal seria impossível com acontecimentos tão distintos ocorrendo simultaneamente em países tão diversos da União Soviética e da Cortina da Ferro (basta pensar em 68, com a Primavera de Praga, as agitações na Polônia e os estudantes em Paris), por vezes há algumas idas e vindas, e até alguns spoilers do autor para poder tratar de coisas importantes (como explicar a política externa de Brejnev bem antes de apresentá-lo ao leitor).

– O ideal de paraíso e o inferno real –
As ideias primordiais do comunismo pré-Marx são apresentadas ao novato no tema, embora não no modelo pente fino de Edmund Wilson em seu ultra-clássico Rumo à Estação Finlândia. Apenas são comentados alguns experimentos comunistas a partir do séc. XIV. Curiosamente, apesar da petulância de Marx em chamar seu sistema de “científico”, fica claro que muitos comunistas anteriores a ele, pechados de “utópicos”, de fato testaram suas ideias, enquanto Marx cada vez mais as tratou como abstrações: um jogo de “tentativa e erro” cujos erros custariam quase 150 milhões de vítimas em apenas um século. Seus erros, sua fé cega e seus palpites inconseqüentes já transparecem nas primeiras páginas.

Para quem já brincou de comunismo no modo very hard, no entanto, algumas críticas filosóficas ficaram de fora (como as feitas por Wilson e Kolakowski em seu obrigatório, e não ainda traduzido, Main Currents of Marxism). Não vemos por exemplo a linha direta que vai de Maquiavel a Vico, que influencia profundamente Marx e, posteriormente, Lênin e Gramsci: o poder ser completamente dissociado da moral, e a aplicação de princípios que mantenham o Príncipe (ou o Partido) no poder a qualquer custo (Lênin mostraria ser o primeiro discípulo prático de Marx poucos dias após seus cupinchas tomarem o poder, ao mandar fuzilar até o filho de 5 anos do tzar Románov).

Antes mesmo de qualquer comunista tomar o poder, ou antes dessas ideias serem apresentadas (geralmente às armas) a quem é de fora, o próprio Bakunin já zombava da alegação dos marxistas de que “somente uma ditadura, a deles próprios, é claro, pode trazer liberdade às pessoas”. Em verdade, se o socialismo em quase momento algum serviu para enriquecer os pobres, desde os primórdios do séc. XIV já substituía tal ideia pela “vingança” de apenas atacar “os ricos”.

O estilo socialista centralizador e oligárquico, quando não ditatorial e abertamente homicida, parece ser um “acidente” que ocorreu na história da URSS nas mãos de Stalin (ou ao menos é o que a propaganda socialista quer até hoje fazer crer). Vemos já em Lênin o quanto o estilo ditatorial é uma obrigatoriedade do socialismo, e não um desvio da norma (que Marx nunca deixou clara em seus escritos, mas que ele mesmo praticou).

Apesar de Hegel ser apenas citado de passagem, fica claro o erro do pensamento marxista durante todo o livro: o materialismo histórico-dialético, herdeiro do hegelianismo, preconiza uma inevitabilidade do socialismo após o capitalismo “não se sustentar” perante a “massa operária”. Um erro grosseiro, visto que nunca foram os operários que tomaram o poder, e nunca o capitalismo ruiu sozinho, sendo sempre forçado a tal por intelectuais de classe média (qualquer semelhança com a atualidade não é mera coincidência). Para tal, uma disciplina rígida, para-militarizada e mortal com os próprios revolucionários, além do centralismo antidemocrático de decisões, impera nos movimentos comunistas antes mesmo de se formarem como partidos.

Assim, antes de uma república de “operários” (que geralmente chegavam tarde nos Partidos), via-se um sistema romântico (como já criticado por próprios pensadores marxistas, como Horkheimer e Habermas) de amigos de armas que decidiam tudo mais por carisma e por capacidade de influenciar e de liderar do que perguntando a qualquer pobre qual era sua opinião, desejo ou necessidade (Lênin, por exemplo, declara ser “proibido” não gostar de um livro de um seu cupincha, Chernyshevsky, e pode-se imaginar a punição). Rapidamente, os crentes em um futuro poder político para as “classes operárias” eram devorados pelos burocratas que ajudaram a colocar no poder, e o “formalismo” democrático dava lugar ao socialismo (que, afinal, é, em essência, totalitário). Não parece à toa que os comunistas se tratem até hoje como “companheiros”.

Até mesmo Trotsky foi capaz de observar tal perigo, escrevendo ainda em 1904: “Os métodos de Lênin levam a isso: primeiro, a organização do partido substitui a si própria pelo partido como um todo; depois, o Comitê Central substitui a si próprio pela organização; e finalmente, um único ditador substitui a si próprio pelo Comitê Central…” (Nashi politicheskie zaddachi, citado por Isaac Deutscher, e na p. 61 deste livro).

Foi o próprio Marx que preconizou que as ideologias são indissociáveis de suas conseqüências práticas. Infelizmente, nenhum marxista no mundo parece ter aprendido bem a lição: tratam os genocídios e a oligarquia violentíssima do socialismo como “acidentes” por alguns psicopatas terem subido ao poder, mas tratam até hoje problemas com bancos ou empreiteiras como crises do “sistema”. A levar a sério o materialismo histórico-dialético, deveríamos perguntar por que um sistema tão perfeito (e “inevitável”) levou ao poder Stalin, um dos maiores genocidas da humanidade. Caso seja por acidente, perguntemos então por Mao, o número um como maior genocida. Caso aí seja uma “coincidência” de outro tarado psicótico subir ao poder no mais perfeito sistema já inventado, caberia ainda perguntar: mas e na Polônia? E na Iugoslávia? E na Hungria? E na Tchecoslováquia? E no Vietnã? E em Cuba? E na Coréia do Norte? No Afeganistão? E em Angola? E no Congo? E no Camboja? Tudo “coincidência acidental”, e o socialismo ainda dará certo?

Um pouco mais de teoria aparece estranhamente perdida após bons capítulos de relato histórico (até a Segunda Guerra). Vemos, por exemplo, por que Brown prefere o termo Comunista (com C maiúsculo) a socialista: era assim que se chamavam e, à possível exceção de Kruchev, é difícil crer que algum líder Comunista realmente acreditava na futura “sociedade sem Estado” que seria o comunismo para Marx.

Suas características essenciais do Comunismo são claras: o monopólio do poder pelo Partido Comunista (que, na melhor manobra marqueteira do planeta, permanece sendo chamado de “partido”, quando na verdade as eleições são abolidas e outros partidos proibidos, sendo a parcela da sociedade que discorda do comunismo verdadeiros mortos em questão de tempo), posteriormente trocado pelo eufemístico papel de liderança do Partido – através destes nomes os comunistas puderam matar muito mais e até hoje não terem seus crimes retidos na memória histórica, muito menos na de professores de História; o centralismo democrático, ou seja, a discussão fechada entre os “camaradas”, mas a aceitação irrestrita do que estes decidiram por toda a sociedade – se parece o modelo “assembleístico” de decisões por assembléias entre mancomunados da USP, basta lembrar que “soviet” em russo significa “conselho”. O caminho para o morticínio ditatorial com nomes bonitos como “democracia” e “partido” está aberto.

As características econômicas são a posse não-capitalista dos meios de produção (nunca confundir: direito à propriedade individual existiu em todos os países do mundo) e uma economia de comando, em que os burocratas-chefes se preocupavam com metas, e não com consumidores. Mais de uma vez fica claro um problema não abordado no livro, o que o maior economista do mundo, Ludwig Von Mises, chamou de “Problema do Cálculo Econômico”, ou seja: a falta de um sistema de preços impede que se conheça a vontade da população, e apenas se produza o que políticos manda-chuvas exigem à força. Na prática, o Comunismo ignora a realidade para se aferrar cegamente à sua ideologia, usando a própria força do seu fanatismo ao dogma como prova de que o dogma está correto:

“Compromissos ideológicos limitam as opções. Diante de um sanduíche de queijo e outro de presunto, a maioria das pessoas pode escolher qualquer um deles. Um rabino ortodoxo não pode. Os bolcheviques não podiam optar por ressuscitar as reformas de Stolypin ou tolerar por muito tempo uma economia mista.” (Alec Nove, The Soviet System in Retrospect: An Obituary Notice, citado na p. 138.)

As soluções da genialíssima Escola Austríaca de Economia, nas vozes de Menger, Böhm-Bawerk, Mises, Hayek, Rothbard e Hazlitt, fora análises geniais como as de Ayn Rand (que descreve com precisão o horror de qualquer política de “distribuição de renda” e “bem-estar social” em seu romance A Revolta de Atlas), Thomas Sowell ou Bertrand de Jouvenel (em O Poder ou Ética da Redistribuição) não são abordadas no livro, mas são uma leitura complementar recomendadíssima.

Há também a esfera ideológica: o objetivo final declarado de construir o comunismo, que só servia para justificar todos os desastres, mortes, os trabalhos forçados e o permanente estado de guerra, nunca de paz. Além disso, ser Comunista implica pertencer ao Movimento Comunista Internacional, embora esse movimento tenha sido liderado pela URSS e a Iugoslávia de Tito, posteriormente a China maoísta (que quase entrou em guerra com a URSS) e quase a Tchecoslováquia tenham saído do movimento e permaneceram Comunistas para o autor. Uma crítica possível a este último fator é que muitos regimes comunistas floresceram na África (República Popular de Angola, República Democrática Popular da Etiópia, República Popular de Moçambique) mas, sem fazerem parte de uma Internacional Comunista (Comintern, depois substituída pelo Cominform) com a URSS em frangalhos com a Guerra Fria, são colocados como apenas “de orientação socialista”, como a URSS os tratava. O perigo de se cair na litania de que o capitalismo gera fome na África não é dirimido.

– A história da catástrofe –
A narrativa da ascensão de Lênin ao poder é marcada antes de tudo pela atitude centralizadora e vaidosa de Lênin – mostrando sua personalidade autoritária e seu vezo em se acreditar sempre correto. A visão romanceada de Lênin e Trotsky apresentada por Bertram Wolfe em Three Who Made a Revolution e Edmund Wilson em Rumo à Estação Finlândia que conquistou gerações de jovens é destruída (Wilson ainda era trotskysta quando terminou o livro, apesar de sua acuidade técnica, e acrescentou posteriormente um posfácio em que admite esconder traços desagradáveis de Lênin e Trotsky quando da primeira edição do livro).

A disputa entre Trotsky e Stalin após o derrame prematuro de Lênin é apresentada de maneira alienígena a quem só conhece a velha conversa dos professores trotskystas de História: Stalin não queria um “socialismo em um só país” e Trotsky um internacionalizado, apenas disputaram o comando do Partido após a morte de Lênin com tal retórica (já que não eram exatamente “eleições” que por lá ocorriam). No entanto, é algo extremamente momentâneo: Trotsky, tão logo a Revolução Bolchevique eclodira, foi a principal voz a pedir para a Rússia sair da Primeira Guerra Mundial e ainda dar territórios à Polônia, sem se preocupar com a “internacionalização do movimento” (a URSS e, sobretudo, a população polonesa, pagaria caro por tal gesto algumas décadas depois), enquanto Stalin orquestrou a Terceira Internacional Comunista (Comintern), organização que dirigia os partidos comunistas no poder e fora dele pelo mundo, além de, obviamente, ter realizado uma política imperialista de dominar com tanques 13 países do Leste Europeu (os EUA, chamados sempre de “imperialistas”, nunca fizeram uma colônia outre-mer). Algo não dito no livro: Trotsky chamara Stálin de “a mais notável mediocridade do partido”. Stálin, que sempre ganhou dele, obtemperou que Trotsky, como revolucionário, era um ótimo jornalista.

Como o livro pretende documentar o ocorrido nos países Comunistas, Trotsky é um personagem um tanto apagado no livro, para quem tanto ouviu falar dele. Talvez também por já ter sido fartamente documentado: aparentemente toda editora universitária lança uns 5 livros novos por ano sobre o revolucionário que “poderia ter sido” e não foi (novamente, a vantagem do Comunismo escuda-se indo para o etéreo plano das ideias platônicas), além de ter vasta bibliografia, como a de Isaac Deutscher, recentemente relançada no Brasil.

Vale complementar com algumas histórias desconhecidas que não estão no livro. Isaac Babel, no conto “Linha e Cor” (1924, incluído no volume A Cavalaria Vermelha, lançado em 2000 pela Ediouro), alude a um discurso de Kerensky, o primeiro-ministro da revolução comunista antes do golpe de 1917, ante uma multidão enfurecida pelo sofrimento imposto. Saindo sob vaias, surge Trotsky para fazer seu discurso, e começa: “Camaradas!”. Aí termina o conto. Nada mais é preciso ser dito.

Babel morreu executado pela polícia soviética em 1949. Os artigos publicados no Pravda (o jornal com nome de “verdade”) que justificavam os primeiros expurgos de escritores e intelectuais, levavam a assinatura de Trotsky. Em março de 1921, o revolucionário dirigira o massacre dos marujos do Kronstadt (estes que tinham o apoiado alguns anos antes). Na guerra civil, sua disposição para matar indiscriminadamente o fez mandar executar mais gente do que o próprio Stálin, como lembra Robert Conquest, grande historiador do terror soviético. Os arquivos que a própria polícia política (NKVD) escreveram sobre Trotsky chegaram a ocupar três andares do prédio, no número 2 da rua Dzerzhinsky, em Moscou.

Tais informações não se encontram nas mais de 1800 páginas da trilogia O Profeta Armado/Desarmado/Banido, de Isaac Deutscher, notório trotskysta. Seriam um tempero especial neste livro, ainda mais por verdadeiros historiadores, como Adam Ulam, questionarem com documentos na mão o valor destes livros como pesquisa – livros estes que fazem a festa entre universitários de esquerda.

Trotsky era profundo crente na “História”, confundindo a História consigo próprio. Como mostrou Edmund Husserl, se John Jay Chapman disse que Browning usava Deus em sua obra como substantivo, verbo, adjetivo, advérbio, interjeição e preposição, o mesmo é verdade quanto ao poder e dever da “História” de Trotsky. Era um rapaz que daria a vida pela União Soviética – desde que tivesse uma boa platéia. Para sua infelicidade, acabou morto no México, por força dos espiões do Comintern stalinista.

A vida e atuação de Stalin aparecem em cores curiosas: com o perigo nazista, Stalin surge até como um cara simpático vez ou outra. Não à toa que até mesmo Churchill e Truman gostaram de sua companhia. Entretanto, as mortes que comandava são vistas de sua origem: a maioria, por verdadeiros chiliques. Um episódio que passa muito rapidamente no livro é a fome ucraniana de Holodomor, que matou cerca de 3 milhões de pessoas, causada deliberadamente pela cúpula do partido. Não sem ironia, Lênin, alguns anos antes, aceitara permitir algum capitalismo disfarçado nas fazendas longe de Moscou, ao perceber que mataria de fome as cidades russas todas se mantivesse ideais socialistas nos campos. Os números das mortes, tanto em Stalin quanto em Mao, são discutidos em casos específicos, mas o livro evita se embarafustar em demasia na discussão sobre os milhões totais.

As conquistas socialistas, como a educação, a alta alfabetização, a rápida industrialização e a corrida para se tornar uma potência militar também não ficam de fora, embora, é claro, devidamente contextualizadas.

Na China, os comunistas lutavam contra os nacionalistas do Kuomintang de Chiang Kai-chek. Alguns países do Leste Europeu realizavam revoluções “nativas”, sem intervenção da URSS. As forças anti-fascistas da Segunda Guerra se uniam: a única característica em comum foi o fato de todos os que apoiaram um regime comunista terem sido traídos e, muitas vezes, mortos por aqueles que ajudaram a chegar ao poder.

Stalin fez isso até com seus melhores marechais, os prendendo sob qualquer desconfiança. Chegou a mandar soldados marcharem sobre campos minados durante a Segunda Guerra, fazendo com que as mortes de russos chegassem a 9 milhões antes da invasão nazista. Mas nenhum país sofreu tanto com a Segunda Guerra quanto a Rússia. A morte de poloneses na floresta de Katyń não passa batida: após a abertura dos arquivos da URSS, hoje se sabe que foi um genocídio gratuito promovido por comunistas, e não pelos nazistas, como por décadas se acreditou (há um excelente filme recente sobre o caso, com trilha sonora do mestre Krzysztof Penderecki).

Com a vitória sobre Hitler (pergunta rápida: qual foi o primeiro país que Hitler invadiu? tm certeza?), a União Soviética, partilhando espólios, pode ter o tamanho que teve. No entanto, o laxismo da Inglaterra em atacar a Alemanha permitiu que muitas mortes de judeus ocorressem desnecessariamente, fez a guerra demorar mais e, sobretudo, impediu que as populações locais se revoltassem esperando ajuda externa, como ocorreu na Iugoslávia e Tchecoslováquia em outros tempos.

Os grandes expurgos de Stalin ficavam cada vez mais violentos – e igualmente anti-semitas. Tito, o mais liberal dos Comunistas, acabou fazendo a Iugoslávia ser o primeiro país comunista a rachar com a URSS. Stalin, para dar um “recado” ao Comunista Béla Kun da Hungria, que ousadamente chegara a cogitar aceitar o Plano Marshall, pediu para este dar aviso no rádio de que não estava preso… e o prendeu logo a seguir. Essas e outras maluquices são marca do estilo stalinista, que conquistou os comunistas ocidentais até Kruchev, que o sucedeu, expor seus crimes (para poder controlar seus antigos parceiros) no XXII Congresso do Partido.

Apenas Kruchev foi um líder soviético que não morreu no cargo, sendo apeado por uma conspiração bem parecida com a que ele próprio armou para tirar o poder dos sucessores de Stalin, como Malenkov e Molokov. Ser o segundo nome num regime não-democrático como o comunista era sinal de perigo para a pele, na URSS, na China ou onde quer que fosse. Cenas de deixar filmes absurdos de Hollywood comendo poeira no non sense são vistas com freqüência, como a prisão de Beria, chefe da Defesa soviética, que não poderia ser preso “normalmente” por seus crimes por poder controlar o Exército contra o próprio Partido. Curiosamente, as ações do KGB aparecem muito pouco, mesmo no curto período em que o seu ex-chefe, Yuri Andropov, foi o supremo chefe da URSS.

Kruchev, que pelo estilo e histórico lembra muito Lula, foi o arquiteto da crise dos mísseis em Cuba, que por uns 5 dias arriscou a varrer a vida do planeta. Perto de Stalin e Mao, tanto ele quanto Tito, Zhekov e outros facínoras parecem verdadeiros hinos de humanismo.

A Revolução Cultural chinesa também ganha destaque, tal como a Revolução Cubana. O capítulo sobre Cuba (o autor é grande estudioso do Leste Europeu para frente) traz algumas curiosidades, como o fato de que os EUA poderiam salvar Cuba do comunismo com 10 dólares (e comprova como Fidel Castro é imortal), além de abordar tabus para a esquerda, como o racismo desenfreado que a Revolução Cubana promove até hoje, mas ainda recai em algumas visões simplistas de fora, sobretudo numa espécie de aura de boas intenções de Che Guevara (que, na verdade, sequer era médico). Para mais detalhes sobre Cuba, é muito saudável ler o livro de Leandro Narloch e Duda Teixeira, o Guia Politicamente Incorreto da América Latina (Leya Editora), além de O Verdadeiro Che Guevara: E os idiotas úteis que o idolatram (É Realizações), de Humberto Fontova.

Regimes absurdamente violentos, como o do Camboja, que chegou a matar 1/3 da população do país (inteira, não apenas homens adultos), passam muito rápido. A Guerra do Vietnã também, embora os motivos para a guerra contribuam para um debate mais esclarecido – o erro de Einsenhower e sua crença de que perderia a Ásia se perdesse o Vietnã, que acabou deixando os EUA sem força para lutar na Primavera de Praga, são mais bem explicados do que na visão igualmente simplória de que tudo foi um gigantesco fiasco americano, embora tenha claramente perdido a guerra. A URSS faria o mesmo erro no Afeganistão, pouco depois.

O capítulo mais impressionante para o leitor brasileiro talvez seja referente à Primavera de Praga. Infelizmente nunca estudada nas aulas de História (alguma questão sobre ela já caiu em algum vestibular?), a forma como intelectuais e promotores de mudanças democráticas escaparam da morte por um fio (a URSS não poderia matar tantos nomes famosos de uma vez) é assustadora. Mas mais ainda o silêncio que acadêmicos brasileiros fazem sobre ela. Se tivesse dado certo, teríamos uma perestroika 20 anos antes daquela em Moscou. A coragem de seus orquestradores mesmo sendo avisados de que seus “protetores”, os homens de Moscou, lançavam tanques e meio milhão de soldados contra professores e escritores, deveria ser lembrada por cada candidato a uma faculdade de Humanas neste país. A voz de Brejnev, usando a típica novilíngua comunista, afirmava que “a classe operária” ficaria contra os líderes tchecos. Para sorte de Brejnev, ele nunca se perguntou o que a classe operária soviética achava de qualquer dirigente do Partido russo.

A mão mais pesada do sucessor de Kruchev, Brejnev, deu novos ares tanto para a URSS quanto para o Leste, a Polônia (que ganharia destaque com Lech Wałęsa fazendo greve contra dirigentes comunistas), a Alemanha Oriental e a futura derrocada sob Gorbachev. A Guerra Fria apenas impera hoje em lugares como a Coréia ainda dividida ou Cuba.

Mas o livro termina com uma importante questão: por que o Comunismo durou tanto tempo? O lado óbvio é a lei militar e a paranóia instituída na população (vide filmes como A Vida dos Outros ou Sem Fim, de Krzysztof Kieślowski). Porém, o Comunismo, mesmo fracassando miseravelmente em 99% do que pretendia, ainda cativa jovens que discutem suas vantagens no Facebook, sem atentar para a contradição disso.

É o caso claro de entender doutrinas como o marxismo como Mises o explicou com a teoria do polilogismo , Noïca o explicou com As Seis Doenças do Espírito Contemporâneo ou o Délire d’Interprétation de Paul Sérieux. A ânsia por controle, o medo de uma “desigualdade” (e a ideia da igualdade como um valor em si, mesmo que seja igualdade de pobreza) e todo um discurso em nome de uma suposta “classe” estanque em oposição a outra tida como inimiga (a única diferença para os nazistas é que estes criticavam a burguesia pela “raça” judia), em pleno séc. XXI, é apenas um grande estratagema para encobrir o que uma ação comunista sempre foi: uma doutrina de ódio e controle, e como todas as doutrinas de culto à morte da humanidade que funcionaram, é muito bem encoberta por um discurso com floreios humanistas que conquista jovens – os únicos adultos e velhos comunistas são aqueles que não mudaram de opinião desde os 17 anos.

::: Ascensão e queda do comunismo ::: Archie Brown (trad. Bruno Casotti) :::
::: Record, 2011, 854 páginas :::
::: compre na Livraria Cultura :::





Flavio Morgenstern

Analista político, palestrante e tradutor. Escreve para o jornal Gazeta do Povo e o site do Instituto Millenium, entre outros. Seu primeiro livro é Por trás da máscara, sobre os protestos de 2013.










MAIS RECENTES


  • Qualquer um que teorize um sistema ideal e coloque o Estado no meio, irei chamar de mentiroso. Comunismo e Capitalismo, parafraseando Akira Riber Junoro, o primeiro “comia criancinhas” e o segundo matam-nas de fome.”

  • jorge pimentel

    150.000.000 de vítimas em um século!!!!! certamente, mataram gente que nem chegou a nascer ou sequer moravam lá. Parem de falar e escrever bobagens.

  • Os dados das 150 milhões de vítimas são da própria esquerda, embora haja muita discussão entre o número exato (de cerca de 90 milhões até algo próximo de 160 milhões, nas contas mais pessimistas).

    Na verdade, a grande dificuldade do cálculo não é bem contabilizar as mortes, e sim o que atribuir ao comunismo: Stalin mandou prender seus 4 melhores marechais e, além de mandar soldados marcharem sobre campos minados, os usou quase como escudos humanos em batalhas como a de Stalingrado. São mortes devidas ao comunismo ou ao nazismo, então, se cada um teve sua parcela de culpa? Muitos milhões ficam nesse limbo.

  • Ary

    Sugiro que esse blog vá procurar um grupo de direita para se hospedar (Veja, Noblat, etc.). Nunca vi tanta asneira e má-fé juntas.

    • Noblat, de direita? Preciso rever todos os homens no mundo que se auto-proclamaram de direita e criaram essa idéia e ver se pelo menos um deles é ao menos razoavelmente parecido com o Noblat.

      • Luis Henrique

        “Noblat, de direita?”

        E quem seria de direita, afinal?

  • Ary

    Só falta agora publicarem um livro caluniando Idi Amin – acusando-o de sanguinário e de antropofagia, talvez.

  • Roberto Aranha

    Muito boa sua crítica mas o que mais chama minha atenção é essa intolerância desses cretínos “esquerdistas” que, estamos cansados de saber, como lhes faltam conhecimento, educação formal, estudo e principalmente consistência no debate, rebatem qualquer crítica ou comentário com essa estupidez nunca antes vista na historia desse país…
    Parabéns

    • Obrigado, Roberto! No texto há análise do livro parte a parte, comentários sobre as idéias que a obra expõe, comentários sobre as críticas do livro, sobre as concepções do autor, até uma pincelada ou outra sobre seu método, comparação com outras obras através dos detalhes que o espaço de uma (longa) resenha (para um longo livro) permitem.

      Mas tudo o que criticaram até agora é que nem eu, nem o autor concordamos com o morticínio comunista.

  • Luiz Octávio Bandeira

    “(…) é muito saudável ler o livro de Leandro Narloch e Duda Teixeira, o Guia Politicamente Incorreto da América Latina”.
    Acho que seria mais saudável tomar um coquetel de resina, naftalina e fanta uva.

    • Luis Henrique

      Hahaha, é verdade!

  • Paulo Roberto Lagos

    Partindo da premícia que é um livro com certas responsabilidades que fala do comuismo e outras ideologias abarcadas, mas também tem no bojo idéias capitalista , pois a própria comercialização dos exemlares assim corroboram. Ceio que a questão que incomada a todos é a bondade do se humano, pois é o único animal que mata por bel prazer e disso faz uso para justificar seus intentos. Todos regimes que ascenderam criaram muitas vítimas e continuaram assim as fazendo para apagar as idéias contrárias. Creio que não precisamos ser juízes, mas devemos começar a criar uma nova onda de zelo, carinho, amor e respeito as pecualiaridades inerete a cada ser humano se é que queremos perpetuar no Universo esse pobre vivente que sofre por sua extrema bondade e vaidade.

  • Fernando Santana

    Acho esse tipo de resenha é absolutamente obscurantista. Se o livro é crítico do comunismo, se faz partidarismo do liberalismo, da esquerda ou da direita, não há problema! O pluralismo de opiniões e posições políticas é absolutamente enriquecedor, para todos. O patético é o resenhista tomar partido ideológico e um tanto quanto acriticamente fazer planfletarismo de um liberalismo vulgar, a lá Ayn Rand, ou da Escola Austríaca de economia, assinalando que Mises é “o maior economista do mundo”. Se quiser fazer propaganda desses autores que faça, mas não nas entranhas de uma resenha de um livro.

    De resto, já li ótimas resenhas por aqui, como as do Celso, mas se o nível descer ao ponto desta, ficará difícil manter a frequência nesse site.

    • Não há panfletarismo em momento algum do livro: há recomendações de leituras para quem quiser se aprofundar no tema, e nos problemas que o livro expõe. O livro claramente é muito mais histórico do que econômico, e apenas citei autores que explicam por que acontece o desgaste econômico socialista, exposto na obra em mais de uma ocasião.

      Da mesma forma, comparei a presente obra com outros grandes tratados sobre o socialismo (ou Comunismo, como o autor coloca), além de biógrafos e outros críticos. Nada mais justo do que fazer o mesmo no campo econômico.

      • Fernando Santana

        Não sei se o livro fez planfletarismo, pois não o li e, provavelmente, não o lerei; o planfletarismo está justamente nas ‘sugestões’ de sua resenha.

        A sugestão de autores como Jouvenel, Mises e Rand não me parece que seja uma simples recomendação de leituras para aprofundamento, até porque muito do que se pode aprender com eles são teses filosoficamente insustentáveis sobre uma liberdade vazia – que nada condiz com um Kant ou, mesmo, com um Mills – e argumentos mirabolantes e patéticos sobre a distribuição de renda. Mas isso é sintomático do elitismo nacional mais escroto e estúpido, que não tem a mínima intenção de propagar liberais contemporâneos da estirpe de um Rawls ou de um Dworkin, preocupados com o arranjo institucional do Estado, com a democracia e a justiça, inclusive a social.

        Mas isso não me surpreende, é algo bem típico de boa parte da elite nacional. Não é trivial lembrar que no século XIX, no Brasil, o liberalismo com seus valores universalistas e princípios morais impessoais justificou paradoxalmente por um bom tempo a escravidão e as mais perversas iniqüidades da elite. Agora, no século XXI, pode servir curiosamente para a mesmíssima coisa. Talvez trate-se simplesmente do ‘eterno retorno’…

        • É um pouco estranho supor liberalismo no Brasil em qualquer momento histórico (que dirá no séc. XIX), mas mais estranho ainda me pechar de elite. Gostaria de que você estivesse correto, meu caro…

          Abraço

  • jorge pimentel

    Algum sabichão aí sabe qual era a população da Rússia em 1917, época da revolução?????? ratazanas da direita, pelo amor de DEUS!!!! parem de escrever asneiras!!!!!!!

    • Esses dados, como já expostos, são da própria esquerda, de ex-comunistas. Não da direita. Já expliquei em outro comentário.

      E o que se opor ao maior genocídio de toda a História mundial tem a ver com esquerda ou direita? Sendo ambas tendências de pensamento político que só existem dentro de uma discussão democrática, ambas devem se opor com unhas e dentes ao Comunismo.

      E a população da Rússia, a maior da Europa, era de cerca de 171 milhões de habitantes em 1914.

      • Luis Henrique

        Hoje em dia, 9 milhões de crianças morrem de fome por ano e “ninguém” culpa o sistema capitalista global por isso. Em pouco mais de 16 anos, ultrapassa fácil fácil a cifra inflada e elástica (pois as estimativas variam bastante) dos “150 milhões de mortos pelo comunismo”, a maioria deles justamente atribuida a… períodos graves de carestia.

        Na Rússia pós-URSS a população já declinou em mais de um milhão e, novamente, “ninguém” culpa o sistema por isso.

        Enfim, vale a pena a leitura deste texto em contraponto a este para não ficarmos mais nessa lutazinha infantil de “quem matou mais”.

        • Luis Henrique

          Aliás, seus dados demográficos sobre a Rússia contrastam com estes. Percebam que o período de queda populacional coincide com os das grandes guerras mundiais.

  • Marcos

    Ai que preguiça desses autoproclamados intelectuais pátrios, de esquerda e de direita, incapazes não apenas de fazer, de conceber que alguém faça, um exame adulto de um fenômeno histórico. Um monte de coisas interessantes pra dizer e o sujeito lá, preso na política estudantil e gritando palavras de ordem contra a UJS. Buu, fora comunistas! Vamos crescer, né?

    O Amálgama não tem que ser monotônico – a pluralidade é sua força – mas pedir um pouco de sofisticação argumentativa não faz mal, faz? Isso não é análise, é senso-comum de comentarista de jornal. O livro teoricamente resenhado é só uma escada pro autor despejar essa cantilena de lugares-comum sobre os comunistas, os facínoras, a esquerda, etc etc etc. Ctrl+C, Ctrl+V. Previsivelmente, sobrou até pro Lula, coitado, que não tem nada com o peixe. Não tinha nada menos original pra dizer? Senti falta apenas daquela referenciazinha ao Gramsci pra poder gritar “bingo”. A esquerda brasileira muitas vezes é tosca, mas quando a direita resolve ser tosca não tem pra ninguém.

    Aliás, sobre esse livro do Nardoch, alguém disse em algum lugar que o título deveria ser Guia Politicamente Correto da América Latina. Politicamente incorreto só se for no estilo Caco Antibes, o sujeito reafirmando com ares de superioridade aquele pastiche antiesquerdista que a classe média sabe recitar salteado.

    Venha para o século XXI, Flávio! Tente trazer o pessoal da UJS também, quem sabe a FFLCH inteira! É verdade que os debates são menos preto-no-branco, não tem DOPS nem gulag, mas a vantagem é que tem várias coisas coisas acontecendo! Estou certo de que vocês vão adorar!

    • Marcos, meu convite para o séc. XXI foi ter conhecido bem o séc. XX, e sua reclamação a mim foi eu ter citado algumas das obras fundamentais sobre o tema deste livro, comparando-as com o que vai neste. A mim é um grande elogio.

      Uma pena que as críticas sejam não pela falta de conhecimentos que eu poderia ter apontado, mas talvez pelo excesso. É disso que padece a FFLCH inteira ainda acreditando em Comunismo por conhecer um livro apenas, aliás.

      Abraço.

      • Luis Henrique

        “É disso que padece a FFLCH inteira ainda acreditando em Comunismo por conhecer um livro apenas, aliás.”

        Isto não é verdade, você mesmo é prova-viva disto. Não seja desonesto.

  • Alexandre Reis

    Sob um perspectiva materialista-histórica e dialética do discurso (Bakhtin) a ideologia é inalienável do mesmo.

    Também em uma resenha é inevitável os juísos de valor.

    Mas nenhuma dessa duas premissas justifica que em um gênero como a resenha abandonemos a obra analisada para criticar uma concepção de mundo (ideologia), afinal, quando alguém vai ler uma resanha, como foi o meu caso, buscamos informaçoes da obra e a opinião do resenhista SOBRE a obra.

    Se eu quisesse ter contato com um discurso reacionário como o que acabei de ler, não viria procurá-lo em um site como esse, mas na Veja, Folha, G1, etc.

    Quanto ao socialismo.

    Grosso modo, porque isso é um comentário e não uma tese.
    Você como bom estudante de Letras deve estar cansado de saber das eternas dicotomias saussureanas, não é?
    Lembra-se da arbitrariedade do signo? Pois então. Ela não foi só uma revolução na análise do signo de primeira categoria (palavra), mas também em signos de segunda (literatura), de terceira (mito) e até de quarta categoria (história). Onde quero chegar…

    Quando você critica “O socialismo” você simplesmente critica um sistema político que de coincidência com o socialismo cientifico marxiano possuia somente o nome.

    Gramsci é hoje em dia um dos maiores teóricos marxistas mais consultados justamente por ter alertado que um materialismo-histórico e dialético que não mude com a história, é tudo, menos materialista, histórico e dialético.

    • Alexandre, os melhores resenhistas que vi neste mundo (entre os 10 maiores, talvez inclua Edmund Wilson, vastamente citado nesta minha própria resenha) não se furtam em momento algum a criticar, aceitar, discutir, dialogar e comparar as obras analisadas com outras.

      Vê-se que apenas quem criticou esse método (e foram vários até agora) têm um pézinho sério nas idéias Comunistas, ou ao menos acreditam que não se deva criticá-lo historicamente (pois isso seria obscurantismo e uma atitude aparentemente quase maccarthysta). É um problema do método ou da crença dos leitores que não aceitam críticas, portanto?

      Tanto Saussure já foi, por vezes, refutado, quanto por vezes se viu que sua grande “revolução” era um continuísmo gritante. E sou um árduo defensor do mestre de Genebra e do trabalho de compilação de seus alunos.

      Já no caso de Bakhtin você usa um método no mínimo engraçado: parte do pressuposto de que Bakhtin com seu materialismo histórico-dialético está correto, percebe que não vou contra ele ao criticar o próprio materialismo histórico-dialético (até dando exemplos das falhas) e… me critica por ver diante dos seus olhos um exemplo do método bakhtiano de análise, mas num texto do qual você não gosta por suas próprias crenças.

      Quanto a ser “reacionário”, sugiro meu comentário nesse artigo, e já adianto que tomo a palavra por elogio: http://bit.ly/x3WyKR

      As outras partes acho que já deixei meu ponto de vista claro em respostas a outros comentários (inclusive essa loucura de acreditar que Folha e G1 têm algo de direita – ?!?!?!).

      No mais, o próprio livro e minha curta resenha sobre ele (são 7 páginas do Word contra 850) ainda pincelaram a relação entre marxismo e o que o autor prefere chamar de Comunismo (teve muita gente que se ofendeu, e disse que o autor não entende nada de comunismo porque “comunismo nunca existiu”, sem nem ler sequer a resenha). Afirmar que Marx e os genocídios de Lênin, Stalin, Kruchev, Brejnev, Andropov, Mao, Pol-Pot, Ceauşescu (faltou falar mais dele), Tito, Fidel, Jabłoński et caterva pouco têm a ver com a ortodoxia marxista é tanto chover no molhado (quando até este curto texto já tratou destas relações), quanto um erro absurdamente grotesco (basta ver o que acontecia com a população cada vez que havia desvios da doutrina marxista pura, e o livro está abarrotado de exemplos).

      • Luis Henrique

        Botar todo mundo “no mesmo saco” é tua especialidade, não?

        Aliás, há uma contradição em seu texto. Você afirma que, para a esquerda, seria uma “coincidência” que em todos os regimes ditos socialistas foram governados por facínoras, mas você mesmo afirma isso, que: ser socialista = ser assassino!

  • Jorge

    “Se o socialismo em quase momento algum serviu para enriquecer os pobres, desde os primórdios do séc. XIV já substituía tal ideia pela ‘vingança’ de apenas atacar ‘os ricos’.”

    Enriquecer os pobres…fico me perguntando o porquê de isso me lembra tanto um slogan capitalista…

    • Eu não vejo problema algum em enriquecer os pobres ao invés de só matar os ricos.

  • O livro teoricamente resenhado é só uma escada pro autor despejar essa cantilena de lugares-comum sobre os comunistas, os facínoras, a esquerda, etc etc etc.

    Receio ter que concordar com o Marcos aqui. Desse modo ficamos sem saber se o livro em tela traz alguma novidade, ou é apenas mais um livro-negro-do-comunismo.
    O que é certo é que ainda não informaram ao autor da resenha que a Guerra-Fria acabou, e que o cara pode ser de direita sem espumar pela boca, e babar na gravata.
    Ademais, o que acho curioso nesse tipo de cantilena é que parece que o mundo era uma maravilha só, um verdadeiro paraíso, até aquele fdp do Lenin, com transporte e financiamento alemães, desembarcar na Estação Finlândia, e liderar a Revolução de Outubro. E na sequência tirar a Rússia daquela que ficou conhecida como I Guerra Mundial, a qua cobrou a vida de mais de 17 milhões de pessoas, entre civis e militares, em meros 4 anos (ou 1/25 de século).
    Mas quem está contando, não é mesmo?

    • Espumar de raiva contra o totalitarismo em larga escala que mais matou gente em um século do que todos os outros regimes brutais anteriores a ele mataram JUNTOS durante toda a História mundial? Opa, contra isso espumo de raiva, magna cum lauda. 🙂

      • Luis Henrique

        E o colonialismo, meu amigo, que dizimou mais de 300 milhões de pessoas numa época que a população mundial era BEM menor do que a do século XX?

        • Luis Henrique

          Minto, o colonialismo dizimou milhões de pessoas, mas não creio que chegou a 300 milhões… é um número alto, mas faltam estudos sérios sobre o assunto, mas posso dizer com certeza que na faixa de dezenas de milhões de índios foram dizimados só no Brasil.

    • Luis Henrique

      Concordo.

  • pedro

    bom texto, mas esqueceu um pouco do livro e até se estendeu demais. mas bom mesmo.

    • Obrigado, Pedro. Quis falar algo além do que apenas alguém pouco iniciado no tema poderia falar apenas lendo o livro e contando para alguém. Pena o livro ter tantas páginas, o que realmente complica pra resumir. Mas obrigado mesmo! 🙂

  • Francisco Quiumento

    Acho que está havendo uma epidemia de falácias do “espantalho”, “rótulo odioso” e “falsa dicotomia” pela internet.

    Cita-se o banal e comprovado fato que regimes totalitários de clara inspiração planificadora (leia-se marxista) mataram dezenas de milhões. História, só lamento, o “conjunto de todas as coisas que se deve evitar”.

    Nega-se o banal fato.

    Acusa-se o autor (ou a citação que coloca) como “direitista” e como cereja do bolo do colar de pérolas, que deveria se mudar sabe-se lá para que publicação ou mídia, como se estas, “obviamente” fossem o inquestionável “mal”.

    Mais um pouco, aparece um enxame de “ad Hitlerum” polvilhado por cima das feridas abertas.

    Não sei se gargalho da estampada desonestidade intelectual ou choro da patologia que se alastra.

    • Francisco, o curioso é que no mundo inteiro, criticar um totalitarismo é algo como dever moral, não coisa da ponta oposta do espectro político. Teoricamente, um democrata de esquerda deve ser MUITO mais parecido com um democrata de direita do que com um comunista. Bush e Lula se parecem muito mais do que Lula e Ceauşescu, só pra ficar num exemplo óbvio.

      O que engoliram foi a capacidade quantitativa. Se você critica um totalitarismo, e ainda por cima não é um esquerdista dentro da democracia, esquecem-se de que você é bem mais parecido com os esquerdistas do que estes com os ditadores, e aí sobra pra você – e não pros genocidas.

  • Excelente texto Flávio. Cumpre a finalidade de toda boa resenha, a saber: um verdadeiro convite a não só ler, mas a querer compreender o todo de um livro.

    Os críticos poderiam prestar o bom serviço, simplesmente estudando as tantas páginas do livro e resenhá-lo numa perspectiva contrária à sua.

    Saudações,
    Francisco

    • Francisco, muito obrigado! Essa é uma trágica verdade: criticam o que penso e inclusive o fato de ir além do livro. Infelizmente, sabe-se que, se lessem mesmo as várias centenas de páginas do livro, ainda não se poderia esperar ligações melhores e mais bem documentadas da maioria dos críticos. Abraço!

  • Flávio, sem querer ser redundante, mas você precisa ter uma coluna semanal só para nos recomendar livros. E onde você arruma tanto tempo para ler tanto nesse tanto tempo em que você lê tanto? xD Valeu.

    • tibartz, sendo bem pago, largo as outras atividades e faço isso com a maior facilidade. 🙂

      Na verdade, trabalho com livros, lendo e comentando coisas. Assim sempre fica mais fácil. O resto é ir pra faculdade de metrô e ficar lendo no caminho, ao invés de preso no trânsito inutilmente. Abraço

  • Rapaz, você obviamente tem direito de expressar sua opinião, mas seria conveniente que ela aparecesse no confronto com o livro resenhado, e não em seu lugar. Senti falta do livro do Brown na sua resenha, e achei uma pena, porque o livro é bem bom.

    A melhor parte da sua resenha é justamente o único ponto em que você confronta abertamente o Brown, na discussão sobre o socialismo africano. Na verdade, na África já houve fomes causadas tanto pelo capitalismo (quando a terra foi cercada como propriedade privada, os nômades se deram mal) quanto pelo socialismo (em esforços variados de socialização que desorganizaram a agricultura). Na Etiópia, se bem me lembro, já houve os dois.

    Também valeria a pena checar em que ponto suas ideias resistem ao confronto com as evidências levantadas pelo livro (que não é, de modo algum, uma defesa do socialismo real). Por exemplo, concordo que os austríacos (mais Hayek do que Mises) venceram o debate sobre o cálculo socialista, mas a URSS, como é amplamente documentado, existiu. Durante algumas décadas, um sistema planificado cresceu e funcionou, e só com a vantagem do retrospecto é que parece óbvio que não funcionaria. Vale a discussão sobre o que exatamente era aquilo: um sistema planificado mesmo (o que refutaria o Mises)? Uma economia de mercado distorcida (há austríacos que defendem isso)? Algo que excepcionalmente funcionou em um contexto excepcional (por exemplo, durante a transição para uma economia industrial)? Não há um diagnóstico indiscutível sobre isso, e vale a pena evitar simplismos. Finalmente, é claro que uma hora parou de funcionar, mas não é óbvio que tenha sido pelos motivos apontados pelos austríacos (o Tyler Cowen tem um paper em que ele levanta essa dúvida).

    O que nos leva ao ponto mais frustrante da resenha: no final você levanta a questão colocada pelo Brown – como o socialismo durou tanto – e oferece suas próprias respostas, sem mencionar as possibilidades discutidas pelo autor; deixando, inclusive, de comentar o retrato bastante positivo (e documentado) que o Brown pinta do Gorbachev.

    Enfim, resta lembrar que, como deveria ser óbvio, a queda do Muro de Berlim não refutou todo e qualquer argumento igualitário: a turma que derrubou o muro queria era a socialdemocracia desfrutada por seus compatriotas ocidentais.

    PS:O capitalismo, a propósito, já caiu sozinho diversas vezes, uma delas outro dia desses. Ninguém conseguiu bolar uma alternativa melhor: mas que o capitalismo dá sopa para o azar, dá.

    PSTU: aconselho cuidado com livro que tem “politicamente correto” no título; e desista da Ayn Rand.

    PSTUdooB: gostei de “comunismo no modo “very hard”.

    • NPTO, obrigado pela crítica.

      Como já afirmei, resolvi não falar apenas do que está no livro e ignorar qualquer outra coisa. Creio que, como alguma forma de interessado no tema, fui escolhido para comentar o livro por isso: lendo minha resenha, sabe-se em que lugar a obra se encaixa nos estudos sobre o comunismo, e quais outras leituras são recomendáveis para quem quer se aprofundar em cada tema.

      Veja que curioso: você criticou isso, mas me pediu justamente para tratar do problema do cálculo econômico mais a fundo – não apenas tema alienígena ao livro, como também que exige certa fluência básica em economês. De toda forma, como está afirmado no texto, o livro comenta em diversos pontos que, ignorado o sistema de preços, não havia outro caminho para os comunismos que não a falência. Tal ocorre repetidas vezes, desde logo após a Revolução Russa, causando a morte por fome de milhões de pessoas na Ucrânia, na China, no Vietnã, na Tchecoslováquia, na Hungria e de novo na Rússia, só para ficar em exemplos que tenho de cabeça. Por diversas vezes, Brown comenta que a atuação comunista no campo geralmente tinha um componente produtivo (distribuição de terras) e um componente que gerava catástrofes logo a seguir (coletivização das fazendas).

      Contudo, de fato é uma boa discussão. Na análise de Brown, porém, fica claro que na verdade a URSS nunca prosperou. Ela se tornou uma grande potência militar e tinha quase 1/4 do mundo sob sua liderança nos momentos mais fortes da Internacinal Comunista e do Cominform, mas economicamente, foi sempre um desastre. Não custa lembrar, aliás, que um cientista revolucionário na URSS, a não ser quando protegido do governo, ganhava menos do que um atendente ganhava em 2 dias de trabalho na Califórnia (isso também não está no livro).

      No mais, vale o que afirmei pro Francisco aí em cima. Não eram todos que pensavam em social-democracia, todavia, ao contrário do que afirma: Brown faz uma distinção clara, o tempo todo, entre forças de reação ao totalitarismo comunista vindas de liberais e de social-democratas.

      Não citei a Ayn Rand por eu ser um discípulo objetivista dela, apenas afirmei que a sociedade descrita em seu romance A Revolta de Atlas explica direitinho o que é o pesadelo comunista, indo de encontro a sua utopia bagaceira.

      O capitalismo no modelo social-democrata ou pseudo-liberal tem diversas crises. Agora comparar isso à queda da URSS me soa um tanto quanto desproporcional em níveis manicomiais. De toda forma, a explicação liberal está aí, desde Mises até Ron Paul (leu O Fim do FED?), mesmo quando discordo dessa turma libertária.

      No mais, gostei dos seus “PS”. Abraço

  • Carlos

    O problema básico desta resenha é o de não saber do que está falando.

    Contrariamente ao que a Direita pensa, marxismo NÃO tem a ver com sociedade ideal, e isto fica bem claro num texto que nada tem de misterioso, o Manifesto Comunista, em que Marx & Engels escrevem que o problema do Capitalismo não é a exploração, mas a substituição do trabalho vivo pelo trabalho morto (i.e. automação) e o desemprego crônico daí resultante, em função da qual “[a burguesia] não pode exercer o seu domínio porque não pode assegurar a existência do seu escravo mesmo no quadro da sua escravidão”. A passagem ao Socialismo, para Marx, é uma necessidade objetiva, não um dever moral, e tem menos a ver com a crítica da exploração em si do que com o fato do capitalismo subtrair ao proletariado “até” o direito de ser explorado….

    Precisamente por isso, clamar aos céus pelas violências das revoluções socialistas é esquecer que estas revoluções não foram feitas para criar a Boa Sociedade, e sim que foram soluções de emergência para responder a situações de disfuncionalidade absoluta: daí o resenhista não ter respondido a pergunta sobre se a Rússia tzarista (ou a China de Chiang-Kai-Check, ou a Cuba de Batista) eram lindos jardins que floresciam antes dos malditos vermelhos chegarem quebrando a porcelana. Parece-me que tempo não faltou a todos estes antigos regimes para proporem soluções alternativas.

    Enfim, a resenha caiu no erro de criticar o que se opõe sem tentar entender os termos do adversário, caindo na crítica fácil de identificá-lo como mal intencionado e/ou idiota.

    • Marcos

      Cara, não quero simplificar a questão, e, como dito acima, também achei a resenha fraca. Mas acho que, se você considerar que todas as tentativas de implantar um sistema marxista até hoje não apenas começaram em banho de sangue (coisa que aparentemente está meio que dentro dos planos) mas degeneraram em regimes autoritários, alguns bastante longevos, acredito ser justo que quem continua defendendo essa solução tenha o ônus de provar que uma coisa não produz a outra.

      Quanto à automação ser uma coisa ruim, eu não saberia nem por onde começar. Isso tem até nome em economia, Lump of Labour Fallacy. Tá na Wikipedia, com crítica e tudo. Mas acho que uma olhada ao redor demonstra o nonsense, né? Podemos começar substituindo todos os carros por riquixás pra aumentar o emprego, substituindo trabalho morto por trabalho vivo…

      • No mais, isso seria destruir um dos aspectos mais importantes do hegelianismo de marx, e da do materialismo histórico-dialético como crítica (o que o faria um “filósofo”, e não apenas um economista chinfrim). Diversas filigranas bem mais específicas encontram-se em obras de apoio citadas no texto. Mas recomendo sobretudo A Teoria da Exploração do Socialismo-Comunismo, de Eugen von Böhm-Bawerk, que esmirilha o marxismo doidivanas antes mesmo de O Capital ter sido finalizado.

      • Carlos

        Desculpe-me, mas você comete o erro de querer julgar um processo histórico real a partir de um padrão ideal a priori, e a história não tem consideração alguma pelo nosso bom gosto. É perfeitamente possível reconhecer os crimes do stalinismo e do maoísmo, e, ao mesmo tempo, reconhecer os ganhos reais das revoluções socialistas – a derrota dos nazistas, o welfare state ocidental como produto do medo do comunismo, etc. E se toda revolução socialista até agora terminou no autoritarismo, as tentativas de realizar a modernização liberal no Terceiro Mundo, na quase totalidade, terminaram em sociedades completamente disfuncionais com um verniz de “democracia” por cima. Não que isso preocupe os liberais, que acham apenas que isso mostra que o “verdadeiro” liberalismo ainda não foi alcançado…. Gramsci dizia disso: uma idéia que nunca se realiza “realmente” em lugar nenhum é apenas uma Utopia.

        Quanto à automação, é óbvio que Marx não era contra ela, e sim contra o seu uso pelo capitalismo. O que ele diria é que, sob o socialismo, o aumento de produtividade física do trabalho deveria servir para a redução generalizada da jornada de trabalho, não para a intensificação da exploração – como na nossa ordem neoliberal, em que o pleno emprego se tornou inalcancável , enquanto os que ainda trabalham trabalham cada vez mais e em piores condições.

        • Marcos

          Cara, não sei. Acho que você cai no que pra mim é o pior erro da esquerda pátria, que é a superteorização. Você tem tantos conceitos filosóficos, movimentos e processos históricos na cabeça que não consegue mais pensar em termos mais simples. É preciso pôr a cabeça pra fora e olhar.

          E uma olhada ao redor, sem grandes grades conceituais, é suficiente pra ver que a massa de empregados apenas aumenta, e as condições em que trabalham – embora sujeitas, é verdade, a imensos problemas – também têm melhorado. É óbvio que tem bolivianos sendo escravizados em SP, funcionários da Foxconn suicidando na China etc etc, mas nada disso se compara à Londres ou à Manchester de Marx. Cada absurdo precisa ser combatido, mas uma olhadinha nas estatísticas – ou uma comparada entre o mundo de Dickens e o nosso – deixa claro que é uma falácia absoluta essa de que as condições estão piorando.

          E fazer crítica do capitalismo fingindo que o mundo está piorando, eu diria, é que nem tirar doce de criança. Difícil é reconhecer que está melhorando (como mostra qualquer indicador de escolaridade, ou expectativa de vida, ou nível de vida, ou total de pessoas com trabalho, ou média de horas trabalhadas por trabalhador, ou renda do trabalho, ou índice de mortes no trabalho, escolha aí sua estatística e verifique os últimos 50 anos) e ainda assim ter o que dizer.

          O capitalismo funciona – e uso o verbo sem nenhuma inocência. Ele funciona para o rico, e funciona (pior, óbvio) para o pobre, que no Brasil de 1970 era excluído e hoje é incluído como trabalhador, como consumidor e como pagador de crediário. Esse é o abismo para o qual a esquerda universitária insiste em não olhar. E é por isso que acho que esse tipo de debate “quem é mais feio e mau” é estúpido. Há todo um mundo funcionando, e funcionando em velocidade cada vez mais alta. Temos um Brasil do século XXI, mas teóricos discorrendo sobre um mundo do século XX com base em teorias do XIX.

          PS – E Flávio, qualquer economista sério leva Marx a sério, argumentando que se trata de mais um economista com excelentes ideias entre outros economistas com excelentes ideias. De certa forma, é um meio muito mais eficaz de neutralizar o marxismo do que esse desprezo fingido por quem – 150 anos depois – é obviamente seu principal interlocutor.

          • tecnocaos

            Cara, este comentário aí é uma das melhores coisas que li na internet nos últimos meses. Eu tenho insistido em argumentos parecidos durantes anos na minha universidade, e poucos conseguem simplesmente escutar tais premissas, pois é como se toda a visão de mundo desmoronasse ao ceder alguma coisa de boa do capitalismo (ou do socialismo). O triste é que a maioria oscila entre certo radicalismo de esquerda ou de direita, e não consegue estabelecer uma linha de raciocínio minimamente coerente com nosso contexto atual.

            • Carlos

              Empiricamente, ambos estão certos, e já há três séculos Locke dizia a mesma coisa: que o mais miserável camponês inglês vivia melhor que um chefe índio da América da época. Mas aí é que está, esta constatação não leva em conta o elemento subjetivo da vida material. Um favelado de 2012 pode consumir muito mais que um favelado de 1970, mas está ainda exposto a uma precariedade geral das condições de vida (criminalidade, fila do SUS , brutalidade policial, esgoto a céu aberto) que praticamente anula os ganhos do seu acesso a bens de consumo. Como marxista, pediria um pouco menos de materialismo mecânico de vocês….

              • Marcos

                Sei bem. Esse, aliás, é o argumento clássico. E é também o mais fácil. Consiste em colocar o sarrafo tão alto que nenhuma melhora de vida no mundo real será capaz de satisfazer os critérios de excelência de vida supostamente almejados. Digamos que em 20 anos a criminalidade baixe a níveis europeus, a fila do SUS fique sob controle, a brutalidade policial atinja níveis ingleses e o esgoto a céu aberto termine. Sobram então umas favelinhas aqui e ali, devidamente esterilizadas, pra serem pontos turísticos e bairros charmosos – todos os bairros charmosos europeus são a antiga morada dos miseráveis.

                Isso será suficiente para satisfazer sua exigência e comprovar que realmente o Brasil caminha para a frente? Acredito que não. Bastará então apontar o endividamento das famílias, a sujeição à mídia e ao mundo do consumo, o que aparecer, além, claro, do meu favorito: a falta de “emancipação social”, “controle efetivo pelo cidadão da sua própria existência” ou algo igualmente genérico que não admita base de comparação objetiva.

                No seu comentário esse espaço é ocupado “elemento subjetivo da vida material”, tão subjetivo que o teórico se encarrega de decidir, no lugar do sujeito, que este está “exposto a uma precariedade geral das condições de vida”. Ou você acredita sinceramente que uma perguntada em volta corrobora essa tese? Todas as pesquisas dizem que o brasileiro anda bem otimista e acha que sua vida não só melhorou mas vai melhorar mais…

                Colocado desta forma, do “elemento subjetivo da vida material”, pode-se dizer o mesmo do finlandês médio, que está exposto a uma “precariedade geral”. Isso só é obviamente maluco porque temos uma base de comparação: o brasileiro médio, o congolês médio, o finlandês de 1950, que vivem muito pior. Mas não existe melhora objetiva possível que vá reverter essa ideia de uma percepção subjetiva de precariedade, curiosamente baseada na subjetividade do sujeito que teoriza, não do sujeito teorizado.

                Enfim, não quero passar uma imagem rósea do Brasil Que Vai Pra Frente. Ainda é um país com problema pra caramba. Aliás, não conheço país que não tenha problema pra caramba – eles normalmente só se substituem, como na vida da gente – e acho que a vida ficaria bem chata se os desafios acabassem. Só que não é a mesma coisa ser um país com os problemas do Canadá ou com os problemas do Haiti. E esses conceitos nebulosos, baseados na comparação com um lugar que não é que não exista, é que nem nos é apresentado em seu projeto, igualam pobres do Canadá e pobres do Haiti. E quando você aponta a obviedade de que são pobrezas bem diferentes (como são pobrezas diferentes a de um atendente de call center e a de um retirante nordestino de 1970) vem esse argumento, na forma que seja, de que isso é de alguma maneira irrelevante porque o importante é alguma outra coisa – coisa essa, insisto, que não nos é apresentada, mas fica subentendido que existe e é infinitamente melhor do que o Canadá. Esse passe de mágica que ultrapassa o “materialismo mecânico”, é claro, tem nome. Só não podemos perguntar muito sobre ele 😉

                • Luis Henrique

                  O problema é que esta “melhora” dos padrão de vida se dá em cima de um consumismo insustentável para o planeta aguentar… o capitalismo só prospera com o ciclo realimentado positivamente – mais produção, mais consumo, mais produção, mais consumo… quem estuda o mínimo de sistemas de controle sabe que um sistema realimentado positivamente ou explode ou gera um oscilador…

  • Essa é nova para mim, não sabia que aqui é cheio de discípulo de Stephane Courtois… que horror…

  • Jerry

    Flávio, acabei de terminar o volume 2 da Revolta de Atlas e vi no livro algumas coisas geniais e outras bem fraquinhas. Daria para você dar uma pincelada no que acha? Brigadão.

  • Pingback: OS ERROS DE ERIC HOBSBAWM: UMA CONTABILIDADE DE MORTES* « Jornal O Coyote()

  • Pingback: Reinaldo Azevedo contra a camarilha do Oscar Niemeyer | Implicante Beta()

  • Pingback: Os erros de Eric Hobsbawm: uma contabilidade de mortes | Implicante Backup()

  • Pingback: Lições de Hugo Chávez ao Brasil » Implicante()

  • Pingback: Os erros de Eric Hobsbawm: uma contabilidade de mortes* | Jornal O Coyote()

  • realizações do comunismo pelo mundo
    1)estupro de 5.000.000 de mulheres pelos comunas(comunistas)
    2)assassinato de 100.000.000 de pessoas pelos comunistas
    só isso é o suficiente para mostrar que comunismo não presta

  • Pingback: Carta aberta a Luciana Genro pt. 1: Eu aceito o desafio e estudei o socialismo. • Instituto Liberal()

  • jorgecarrero

    Comunismo em síntese final, simples e fácil para pessoas de boa índole e sem flexibilidade de caráter: É a ideologia que matou mais de 150 milhões de seres humanos!

  • Lilian Amaral

    Excelente texto Flávio, como sempre é um prazer em acompanhar suas escritas. Obrigada, um abraço.

  • Pingback: Filme que você precisa ver: Chuck Norris vs Communism (2015) - Senso Incomum()

  • Pingback: Lindbergh Farias defende ditadura ao votar contra impeachment - Senso Incomum()