O descaramento de Julian Assange

O “freedom fighter” vai marcar presença na estreia de um documentário contra a ditadura na Bielorrússia. Então é bom saber qual sua verdadeira colaboração para a liberdade no país de Alexander Lukashenko.

- Bielorrússia -

No dia 1º de março, o teatro Old Vic em Londres abrigará a première de Europe’s last dictator – um filme documentando as torturas, assassinatos e seqüestros patrocinados pelo estado na Bielorrússia de Alexander Lukashenko. Não sei se a produção se parece com o brilhantemente subversivo Teatro Livre da Bielorrússia, que tem se posicionado na linha de frente do movimento dissidente, mas fiquei comovido ao ver atores britânicos – Ian McKellen, Jude Law, Sienna Miller, Samuel West – respondendo aos apelos por solidariedade de seus colegas de profissão na Bielorrússia e aderindo à causa da oposição. Não é surpresa saber que Joanna Lumley será co-anfitriã no Old Vic.

Mais do que uma surpresa é saber que a seu lado estará Julian Assange.

Para cada exemplo de ativismo artístico de princípio, há uma Jemima Khan ou uma Bianca Jagger: celebridades ridículas que insistem que o WikiLeaks é uma força para o bem. Talvez elas estejam além de qualquer salvação, mas alguém precisa reunir a administração do Old Vic e explicar o quanto o “freedom fighter” Assange tem lutado pela liberdade na Bielorrússia.

Conseguir informação do aparato de segurança da Bielorrússia é uma dura tarefa. Mas aqui está o que sabemos.

Assange permitiu que Israel Shamir, um genuinamente sinistro negador do Holocausto, levasse documentos do Departamento de Estado americano, não editados, para a Bielorrússia. Eles se mostraram puro ouro para a KGB de Lukashenko, pois continham os nomes de figuras da oposição que haviam se comunicado com oficiais americanos.

Shamir vangloriou-se no site americano de extrema esquerda Counterpunch que o WikiLeaks havia “revelado como … dinheiro não declarado segue dos cofres dos EUA para a ‘oposição’ bielorrussa.” (As aspas em “oposição” são dele.)

Os valentões de Lukashenko não poderiam ter apreciado mais. Shamir chegou na Bielorrússia pouco depois dos protestos de rua contra o roubo na eleição geral de 2010 levado a cabo pelo ditador. A KGB surrou, recolheu e aprisionou centenas de manifestantes. A mídia estatal bielorrussa informou que Shamir permitira à KGB “mostrar o contexto do que havia ocorrido, nomear os organizadores, instigadores e baderneiros, incluindo estrangeiros, sem meias palavras, bem como expor o esquema financeiro das organizações destrutivas”.

Entre as figuras que a imprensa estatal disse que o WikiLeaks havia “exposto” como colaboradores dos Estados Unidos estavam Andrei Sannikov, amplamente tido como o verdadeiro vencedor da eleição; Olga Bebenin, secretária de imprensa de Sannikov, que veio a morrer em circunstâncias turvas, como costuma ocorrer com os oponentes de Lukashenko; e Vladimir Neklayayev, um escritor e ex-presidente do PEN bielorrusso, atualmente sob prisão domiciliar.

As teorias conspiratórias antissemitas de Shamir não incomodaram Assange – em uma furiosa ligação telefônica para o editor da Private Eye, Assange alegou que jornalistas judeus na Grã-Bretanha (dos quais vários nem eram judeus) estavam conspirando contra ele. Ele também tem se mostrado um amigo leal de autocratas pós-comunistas, como ficou provado depois que aceitou um cargo no Russia Today, uma plataforma de propaganda de Putin em língua inglesa.

Os efeitos do WikiLeaks na oposição bielorrussa não são segredo, embora Assange tenha tentado abafar o caso. Quando repórteres e funcionários rebeldes do WikiLeaks protestaram, Assange tentou fingir que Shamir nunca havia trabalhado para ele. Em privado, Assange disse a Shamir que este devia evitar dificuldades, escrevendo sob pseudônimo. Quando o programa Panorama, da BBC, revelou o jogo duplo de Assange, seus advogados acusaram a BBC de usar documentos roubados para expor seu cliente – uma acusação impagável vinda do apóstolo da abertura total, após receber 250.000 documentos americanos roubados.

Na divulgação prévia do filme Europe’s last dictator, a Srta. Lumley diz que, “Como muitas pessoas no Reino Unido, eu não tinha ideia da natureza opressiva do atual governo da Bielorrússia, até que fui convidada para se juntar a uma manifestação contra a detenção e desaparecimento de um dos muitos presos políticos do país”.

Mas Assange, esse sabia, e seu agente ainda ajudou o regime.

Seu descaramento é chocante, mas não surpreendente para qualquer um que tenha assistido o crescimento de sua megalomania. O comportamento dos organizadores da première é mais deprimente; um sinal de como mesmo intelectuais – ou talvez eu deva dizer especialmente intelectuais – caem refém das toscas simplificações da mídia moderna. Agora já virou truísmo para comentaristas políticos dizer que, uma vez que uma figura pública tem sua imagem construída, ela jamais conseguirá se desfazer dessa imagem.

Menos observado é o fato de que aquilo que o público pensa saber acerca de uma figura pública está invariavelmente errado. Margaret Thatcher nem sempre era a Dama de Ferro – ela dava meia-voltas sem cerimônia. Tony Bair não era escravo de grupos de interesse – se tivesse sido, não teria envolvido tropas britânicas na derrubada de Saddam Hussein. David Cameron nem sempre é um cavalheiro – como prova sua vulgaridade. E assim por diante.

O WikiLeaks já foi um projeto emancipador. Digo isso com algum sentimento, porque há coisas minhas publicadas no site, coisas que advogados tentaram abafar. Mas o projeto foi corrompido pelo esquerdismo infantil de Assange e por seus horripilantes colaboradores, que trabalharam com a premissa de que, já que a Rússia e a Bielorrússia eram antiocidentais, seria legítimo repassar a seus serviços secretos informações que poderiam lhes ser úteis. O rótulo de Assange continua sendo o mesmo de sempre. Como originalmente as pessoas o viram como uma força em prol da liberdade e da abertura, ainda hoje não conseguem lidar com o conhecimento de que ele ajudou regimes ditatoriais e fechados.

Será uma delícia observar a presunção de Assange na estreia de Europe’s last dictator. Mais maravilhosa ainda será a credulidade daqueles que o convidaram.

* original no Spectator


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