Lições de um sonâmbulo

Em um monólogo bastante íntimo, o herói de José Luiz Passos se desvenda ao longo dos quatro cadernos e um anexo de reminiscências que constituem um romance pungente e comovente.

"O sonâmbulo amador", de José Luiz Passos

“O sonâmbulo amador”, de José Luiz Passos

Quando eu leio, faço perguntas. Esqueçam jargões acadêmicos, ou profundas análises, não sou capaz disso. Perguntas assim: Como pensou nisso? Como essas ideias vieram parar aqui? Que caminhos percorreu para conceber essa obra? Me pergunto sobre o estilo, estrutura, os recursos que um escritor pode usar. No caso de O sonâmbulo amador, do pernambucano José Luiz Passos, desisti de perguntas, e simplesmente, me atirei no universo do protagonista.

A história se passa no final dos anos 60. Jurandir, sexagenário beirando a aposentadoria, supervisor de segurança de uma grande indústria têxtil, é designado para ir ao Recife resolver uma questão trabalhista de um jovem operário acidentado. Em um surto psicótico, coloca fogo no carro da empresa e consequentemente é internado em um sanatório na cidade alta de Olinda. Durante a internação, começa escrever além de um simples relatório diário – Dr Ênio, diretor da clínica, recomenda a Jurandir que comece a escrever sobre o passado, presente e até mesmo os sonhos detalhadamente. Além do apoio do psiquiatra, conta com a companhia e amizade da também interna madame Goes e do enfermeiro Ramires.

Paulatinamente, através do exercício da narrativa, Jurandir vai deixando Doutor Ênio, Madame Góes, Ramirez e o leitor a par de suas tragédias pessoais, sem entregar nada de bandeja para quem lê. Faz um balanço de sua vida conjugal, da relação com a amante, o acidente fatal de seu único filho. Pontua, contradiz, reinventa-se ao longo do seu solilóquio – reconsidera suas amizades através dos sonhos e memórias, como disse o próprio autor em entrevista. Há uma ambientação discreta na agitação política da época, o enfermeiro Ramires menciona prisões de comunistas, a movimentação dos militares em Olinda. Já Madame Góes é uma figura repressora cheia de conselhos que poderiam caber em para-choques de caminhão, como o próprio Jurandir confessa ao leitor.

O que se percebe de Passos é a habilidade em contar uma história de tantas idas e vindas no tempo. Os eventos desta trama são muito bem distribuídos ao longo da obra – não é confusa, é reflexiva. A narrativa dos sonhos faz com que o leitor perceba junto com Jurandir o que o passado representa diante de um presente pouco promissor.

O livro é repleto de bons momentos, tanto nas construções da narrativa como nos diálogos. Aqui, um exemplo:

Já tão tarde num dia santo e a senhora ainda falando de mim, ele (Ramires) disse.
Falo de quem merece. E o senhor não se cansa de escutar a conversa alheia?
A rua é do povo Madame Góes.
A rua é de quem trabalha pela rua, ela disse…..
(Ramires se retira da conversa)
“É que ele odeia a vida, Jurandir. (Madame Góes)
O Ramires?
É odeia.
Acho que não, falei. E ele não dança?
Ela riu e se explicou. Uma vez, animado na conversa, o Ramires confessou que se tivesse um botão, como o presidente americano, apertava ali com tudo, para apagar o planeta. Bastava ele ter esse botão. Ele odeia a vida, Madame Góes repetiu. E você? Também tem raiva da alegria, abomina as classes?

Quanto às reflexões do personagem, não deveria ficar de fora este trecho:

Quem quiser, faça uma coisa. Diante do espelho, olhe nos olhos e repita duas ou três vezes aquele seu nome de infância. Jura, Jura, isto no meu caso. Vão e façam igual, qualquer coisa lá dentro se abre. Na vertigem dessa palavra vão voltar, tenho certeza, de bem longe as cenas de um tempo adormecido, o começo das coisas, momentos que passaram sem se fazer notar, com gente que não nos pedia nada em troca. Eram apenas o que eram. E não deixa de ser incrível que uma centelha disso tudo sobreviva nas cinzas de um mero apelido defasado.

E a pergunta que fiz foi somente no final da leitura. Quanto tempo para conceber uma obra relevante como essa? Versões diferentes foram escritas e prazos editoriais eram coadjuvantes, e com paciência José Luiz Passos foi construindo Jurandir e sua jornada, ao longo de cinco anos. O que levei, entre outras lições desta obra, foi algo que deveria ter já em mente: que a paciência é ainda mais importante para o escritor.

::: O sonâmbulo amador :::
::: José Luiz Passos :::
::: Alfaguara, 2012, 248 páginas :::
::: compre na Livraria Cultura :::


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