Brasil partido

Há quanto tempo não se noticia que um partido negou a filiação de um integrante de um partido rival alegando diferença ideológica?

Estão a caminho no Brasil mais dois partidos políticos. O grupo arregimentado pela ex-senadora Marina Silva trabalha para fundar o Rede, ao mesmo tempo que sindicalistas de um racha da Força Sindical, liderados pelo presidente da central e deputado federal Paulo Pereira da Silva (hoje no PDT-SP), tentam levantar o Solidariedade. Ambos devem participar das eleições de 2014.

O Brasil já tem 30 partidos reconhecidos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Sim, trinta. Se ambos – Rede e Solidariedade – saírem do papel, teremos, ao final deste ano, pelo menos 32 partidos políticos no País.

O leitor certamente conhece os dois partidos dos Estados Unidos – Democrata (do presidente Barack Obama) e Republicano (do antecessor George W. Bush). E no Brasil?

Como o Brasil, que vive em liberdade partidária apenas há 33 anos, consegue ter 32 ideologias diferentes? Há quanto tempo, leitor, não se noticia que um partido negou a filiação de um integrante de um partido rival alegando diferença ideológica?

No início dos anos 1990, o PSDB fez exatamente isso, ao negar a filiação da deputada Sandra Cavalcanti, que fora da Arena (o partido de sustentação da ditadura militar entre 1965 e 1979). Cavalcanti foi considerada muito conservadora pelo partido de FHC, Mário Covas e Franco Montoro. O leitor consegue imaginar o mesmo PSDB (ou qualquer outro partido) fazendo isso hoje?

O caso de Marina Silva talvez seja o mais acabado para responder essas perguntas sobre fidelidade partidária e perda de identidade dos partidos. Marina foi uma das fundadoras do PT no Acre. Sua história é muito semelhante àquela de outros líderes originais do PT, a começar por seu nome maior, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Marina teve infância e adolescência muito pobre, ascendeu por força própria e vislumbrou um futuro melhor para o país por meio da construção de um grande partido dos trabalhadores.

Dito e feito, Marina modelou o PT dos anos 1980 e 90, foi eleita senadora e, com a chegada de Lula ao Palácio do Planalto, virou ministra do Meio Ambiente. Marina foi ministra de Lula até junho de 2008, e liderança petista até o começo de 2009. Seu plano de voo, diante da ascensão de Dilma Rousseff no PT, passou a ser ganhar a presidência em 2010.

Não podia pelo PT, é claro. Foi para o Partido Verde (PV), por meio do qual foi a grande sensação das eleições, ao obter mais de 20 milhões de votos. Mas o PV, com os vícios dos demais 29 partidos brasileiros já instituídos, não oferecia a Marina um futuro. Resultado: Marina agora vai criar um partido só para si.

O Brasil hoje é um país de figuras acima dos partidos. É assim com Lula no PT, FHC no PSDB, José Sarney e Michel Temer no PMDB, Paulo Maluf no PP, Eduardo Campos no PSB, Gilberto Kassab no PSD, e, agora, Marina Silva no Rede.

Última pergunta, caro leitor: dá para continuar assim?

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12 comentários

  1. Hugo Silva  20/02/2013 at 3:42 pm

    Parece-me que os EUA tem muito mais do que dois partidos… http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_political_parties_in_the_United_States

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  2. Oscar Cox  20/02/2013 at 3:49 pm

    Alguns detalhes sobre “os dois partidos americanos”: http://www.politics1.com/parties.htm

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  3. daniel  20/02/2013 at 5:39 pm

    acho que o autor quis dizer partidos com… corpo. por esse critério, alguns dos trocentos partidos brasileiros também seriam excluídos, é verdade, mas ainda assim nosso sistema é infinitamente mais difuso.

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  4. Hugo Silva  20/02/2013 at 5:57 pm

    Parece-me que os EUA não possuem apenas dois partidos… Nem menos partidos que o nosso país: http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_political_parties_in_the_United_States

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  5. João Villaverde  20/02/2013 at 6:24 pm

    Caros Hugo Silva e Oscar Cox,

    Eu sei que os EUA tem mais do que dois partidos. Mas a maior parte dos americanos não – tanto é que votam, majoritariamente, nos mesmos. Na realidade, tirando os filiados aos demais nanicos americanos, ninguém conhece. Isso é o que importa. Não quis, nesta análise, tratar como se fosse uma dissertação ou tese. Trata-se de uma análise simples: temos 30 partidos. Trinta.

    Eles estão recebendo fundo partidário (formado com dinheiro público), tem direito a tempo de TV (também pago com impostos) e, assim, um poder discricionário gigantesco para apoiar chapas (formadas pelos seis ou sete maiores partidos, aqueles de maior expressão) e em troca obter um favorecimento (como cargos, por exemplo).

    Nada disso passa pelo eleitor. Este é que é o problema.

    E, claro, enquanto nada é feito, o sistema vai aumentando… em 2012, por exemplo, foi fundado o Partido da Pátria Livre (PPL). Sim, “Pátria Livre”. E sim, em 2012. Antes dele, o PSD, de Gilberto Kassab. Também temos, para ficar na esquerda, o PSOL, o PSTU, o PCO, o PCB, o PT do B, o PDT, o PT, o PC do B, o PSB e, bom, até outros.

    O que difere cada um desses partidos? Como deve ser a política econômica brasileira para o PPL? Como deve se dar a relação federativa para o PSD? Qual deve ser a inserção nacional no mundo para os partidos?

    Porque é isso o que importa, né? Você sabe que, nos EUA, os Republicanos se opõem fortemente à taxação dos mais ricos, enquanto os Democratas, via de regra, abominam corte nos gastos de programas sociais. E aqui?

    Este é o esgotamento. Estamos partidos… :)

    Abraços!

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  6. Hugo Albuquerque  21/02/2013 at 2:51 am

    João,

    Não, não dá para continuar assim. Se por um lado o personalismo — que infelizmente é tradicional por aqui — grassa, por outro, os novos partidos são todos tão cordiais, abertos e negociais que são insuficientes. A forma partido ainda é viável? Eu duvido, mas o fato é que a lei brasileira ainda a consagra e qualquer ação tática precisa considerar isso. Acho que é interessante ver Marina falar de partido-movimento, embora saibamos que isso está longe da prática e envolva uma disputa eleitoral logo ali. E nem é questão de três dezenas de ideologias, mas três dezenas de programas. Há? Não. Seria maravilhoso que tivéssemos mais de três dezenas de projetos, mas não é o caso. Nem em geral, nem aqui. O Rede, no entanto, obriga PT e PSDB a criarem mecanismos mais efetivos para dirimir conflitos internos, uma vez que existe agora um novo pólo de atração e cooptação de grandes quadros. Eis o lado bom da coisa, o aspecto aproveitável. Mas no geral, as coisas vão tensas para 2014.

    abraços

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  7. Antonio Oswaldo Cruz  21/02/2013 at 11:46 am

    Também está para sair do papel o Partido Pirata do Brasil, elevando para 33 o número de partidos.

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  8. Maria Inez do Espirito Santo  21/02/2013 at 12:26 pm

    Não foi exatamente por distanciamento ideológico que Marina deixou o PT e o PV? Pode ser inquietante que não consigamos dar continuidade aos projetos, mas a bipolaridade da política norte-americana não é nada mais saudável.

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  9. João Villaverde  21/02/2013 at 2:14 pm

    Nossa, Antonio, bem lembrado. Ainda tem o Partido Pirata…

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  10. João Villaverde  21/02/2013 at 2:25 pm

    Concordo contigo, Hugo

    A forma partido não é mais viável. Estou curioso, e até torcendo, para ver o que será de Rede. Há uma tentativa de subverter o sistema partidário, ainda que, para isso, como vc disse, seja preciso seguir as leis e…criar um partido.

    Porque uma coisa é um PT, criado no bojo das lutas sindicais, em 1980, o PMDB, que foi a extensão do MDB que lutou contra a ditadura pela via institucional entre 1965 e 1979, ou um PDT, nascido do trabalhismo de Brizola e Darcy Ribeiro, um PSDB, de um racha à esquerda do PMDB (que começava a virar essa massa sem rosto que é hoje), ou até um PFL-DEM, de uma direita genuína mesmo.

    Era um Brasil aquele dos anos 1980, onde o entusiasmo com a democracia e as novas bandeiras (reforma agrária, movimento sindical, fim da desigualdade, criação de uma nova Constituição etc.) gerou uma série de partidos razoavelmente coesos, que lutavam pelo poder.

    Outra coisa é, vinte anos depois, e diante de uma clara falência do sistema partidário, grupelhos e rachas do racha criarem novos partidos, sem bandeiras, programas, posicionamento ideológico, base popular, nada, nada, nada.

    Mas é claro que, em se tratando de Brasil, nada vai acontecer, né? Isso só vai ser resolvido na hora que estourar uma crise.

    Abs

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  11. Glauco Lima  25/03/2013 at 2:05 pm

    Tanto no texto quando nos comentários do autor fica clara a síndrome do vira-lata. Sempre a coisa se resume ao: … em se tratando de Brasil…
    …Neste país…

    É incrível como um país com 500 anos pode ser o inventor e ter a exclusividade da desonestidade, no atraso, da corrupção, da bagunça.
    O resto do mundo é uma beleza!!!
    E la nave vá…

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  12. Alexandre Porto  30/03/2013 at 4:41 pm

    Há muitos casos em que o possível rejeitado “por alegadas diferenças ideológicas” sequer ousa pedir a filiação.

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