Histórias de fantasmas

por Taize Odelli * – Existem temas que cativam leitores de todos os estilos, envolvendo em narrativas que encantam ao mesmo tempo em que assustam. Ou será que o encanto vem justamente dos sustos? Estou falando das histórias de fantasmas. O relato de alguma aparição, pelo menos, todo mundo já ouviu, esse é tema recorrente em rodas de conversas. Fantasmas prendem até aqueles que dizem não gostar do assunto, contribuindo para que as histórias sejam tão propagadas e ouvidas. Agora, adoradores do sobrenatural conseguiram uma boa fonte de “causos” fantasmagóricos: O grande livro de histórias de fantasmas.

A antologia propõe a reunião de contos sobre seres sobrenaturais, organizados pelo pesquisador literário Richard Dalby. Contudo, não é qualquer um que entra nessa coletânea. Primeiro, o texto tem que ser de qualidade. Segundo, deve ser assustador. E terceiro, tem que ter sido escrito por uma mulher. A iniciativa da reunião foi da editora inglesa Virago Press, que publica apenas livros escritos por mulheres.

Richard Dalby, amante de histórias de fantasmas, publicou outros dois livros dedicados ao gênero do horror: The mammoth book of Victorian and Edwardian ghost stories e Dracula`s brood: Neglected vampires classics. Para O grande livro, ele usou como fonte o Virago book of ghost stories: The twentieth century (1987 e 1991) e Virago book of Victorian ghost stories (1988). Assim, a obra abrange contos dos séculos XIX e XX, que representam o melhor da história de horror do período.

Contos fantasmagóricos se tornaram febre em publicações como Household word e All the year round. As edições que mais vendiam eram as de Natal, repletas de histórias fantásticas. Muitas das grandes autoras do gênero escreveram para essas revistas, como Elizabeth Gaskell (1810-1865), Charlote Riddell (1832-1906) e Margaret Oliphant (1828-1897). “A história da velha babá”, de Gaskell, é um dos contos mais arrepiantes. Ele fala de uma babá que luta para manter sua protegida longe de assombrações, montando uma atmosfera aterrorizante que causa no leitor o mesmo medo que as personagens sentem. “A porta aberta”, de Oliphant, tem a mesma intensidade, mostrando que o fantasma pode apavorar não só quando é visto: basta ser ouvido.

Uma boa história de fantasma propõe ser real os fenômenos nela retratados, e para isso o narrador deve tratar o leitor como seu amigo mais íntimo. Dessa forma, os textos contam a história literalmente, como se narrador e leitor estivessem juntos tratando de um fato presenciado ou então apenas repassado por outra pessoa, geralmente envolvida na trama. O único conto que foge desse padrão é “Os alegres campos outonais”, de Elizabeth Bowen (1899-1973). Ela explora as reações humanas ao sobrenatural, não deixando claro no texto o que é assombração e o que é a realidade. Passado e futuro se alternam, mostrando duas irmãs com um comportamento peculiar e uma mulher que supostamente as vê.

Vários tipos de fantasmas preenchem O grande livro. Eles vão de mulheres adultas a homens, crianças e até objetos. Quando a alma perturbada é uma mulher, geralmente as histórias se centram em um caso de amor com um fim trágico, resultante do abandono e opressão. É essa uma das características feministas dos contos, que também apresentam mulheres fortes e independentes. Além do amor, botar ordem no comportamento dos vivos é outro estopim das aparições. É assim em “Os olhos”, de Edith Wharton (1862-1937), onde um par de olhos tira o sono de um homem que faz falsas promessas.

Quando o assunto é objetos assombrados, “O livro”, de Margaret Irwin (1889-1967), é o mais assustador. Um misterioso livro aparece na biblioteca da casa de uma respeitada família e chama a atenção do pai. Ele passa a traduzir os dizeres em latim impulsionado pela curiosidade, ao mesmo tempo em que seu comportamento com a esposa e filhos muda. Não é um fantasma propriamente dito que aterroriza o homem, mas a influência que o livro tem sobre ele, ditando seus passos e o levando a cometer atos terríveis. Um conto que pende mais para o lado dos demônios, retratando uma possessão, fenômeno que não ocorre nos outros.

Há espaço também para contos que falam da bondade de assombrações, ou então de sua irreverente presença. May Sinclair (1863-1946) retrata em “O símbolo” uma mulher que não abandona seu marido até que ele lhe diga que a ama, algo nunca feito em vida. Ela não deseja o mal, apenas quer uma resposta. Já “Não conte para a Cissie”, de Celia Fremlin (1914-2009), é um dos contos mais extraordinários, que pega o leitor de surpresa. Cissie é uma atrapalhada senhora de bom coração que acaba com qualquer programa de suas melhores amigas. Elas então resolvem investigar um fantasma e deixar Cissie de lado para não frustrar seus planos. Digamos que elas encontraram um fantasma, mas não o que esperavam. Assim como o leitor.

O livro abre uma porta para a descoberta de novos trabalhos dessas grandes autoras, para muitos desconhecidas.

::: O grande livro de histórias de fantasmas ::: Richard Dalby (org.) :::
::: Suma de Letras, 2010, 456 páginas :::
::: compre na Livraria Cultura :::

* Taize Odelli, São Leopoldo-RS, é estudante de jornalismo. Blog: rizzenhas.wordpress.com.

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  • isadora

    eu gostei do site
    mais vcs podiam ter textos de historias de fantasmas ? resumo lenda de fantasmas

    eu gostei me deu interesse no site mas se poderem colaborar eu adoraria

    bjos isadora 10 anos

    minas gerais belo horizonte

  • alvaro dias

    Cara Taize, realmente esse livro é muito, mas estou lendo um que simplemente maravilhoso, pois trata dos nossos “fantasmas”, aqueles que vivem bem dentro de nossas cabeças! O nome do livro é Ordem dos Fantasmas, tenho certeza que você vai adorar!

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