Bento XVI, impunidade e silêncio

Otimistas veem uma lenta flexibilização da lei do silêncio. Mas o passo crucial, um decreto com força de lei da Igreja, tornando compulsória a comunicação dos crimes cometidos por padres à polícia, não foi e, ao que parece, não será dado.

- Bernard Law (mão no rosto) no Vaticano -

– Bernard Law (mão no rosto) no Vaticano -

Com a renúncia de Bento XVI, as mídias, tanto as tradicionais quanto as “novas”, viram-se inundadas por avaliações que preenchem todo o espectro entre o generoso e o ácido, passando por tentativas de uma leitura mais moderada sobre o significado e a herança do reinado de Joseph Ratzinger. No que parece um vício muito comum da comunicação contemporânea, porém, uma questão crucial — a dos abusos de menores por membros do clero — parece-me ter sido tratada, aqui no Brasil, tanto ad nauseam quanto não o bastante: ao menos, não com foco correto e profundidade suficiente.

Mas, sem foco e profundidade, é difícil, se não impossível, fazer uma avaliação correta do legado de Ratzinger, primeiro como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) e, depois, como sumo pontífice, diante do que se convencionou chamar de crise dos padres pedófilos.

O nome, em si, já trai o problema: a essência da crise não está na existência de padres pedófilos. Como muitos defensores da Igreja apontam, corretamente, criminosos sexuais há em toda parte: também existem músicos, escritores, professores, blogueiros, jornalistas e atletas pedófilos. O ponto nevrálgico do escândalo está na forma como a hierarquia católica reagiu, historicamente, à presença de predadores sexuais em seu seio: acobertando-os, protegendo-os das autoridades civis, transferindo-os de diocese em diocese, de país em país, garantindo que se mantivessem impunes e com novas vítimas insuspeitas sempre à mão.

O rastro de tragédias deixado por essa prática é tema de inúmeras reportagens de cortar o coração, e é por ele que a Igreja e os homens que compõem sua hierarquia devem satisfações — a suas consciências, às leis dos homens e, caso estejam certos em sua terrível metafísica, ao diabo a que dizem se opor.

Para existir, a rede de acobertamento de pedófilos dependia de duas condições, perversas e necessárias: uma era a certeza da impunidade dos bispos que se dispunham a proteger e esconder os padres criminosos; outra, o segredo – a certeza de que nem as vítimas, nem membros do clero iriam levar os casos de abuso à polícia.

Ambas as condições sustentaram-se por anos a fio, graças à cultura interna de segredo da Igreja e a uma certa interpretação do direito canônico. Responsável pela CDF, Joseph Ratzinger foi encarregado pelo então pontífice João Paulo II, em 2001, da investigação dos casos de abuso. É possível argumentar que, na maior parte dos mais de dez anos em que esteve envolvido diretamente na questão – primeiro como investigador, depois como papa – Bento XVI nada fez para alterar essas condições fundamentais.

Até hoje, por exemplo, nenhum dos bispos envolvidos no tráfico secreto de pedófilos foi punido. Pelo contrário: no auge do escândalo, ainda sob o reinado de João Paulo II, o cardeal Bernard Law, ex-arcebispo de Boston e figura-chave no acobertamento dos crimes sexuais naquela diocese, foi transferido para Roma, a uma distância confortável da polícia americana. Law votou no conclave que elegeu Bento XVI.

A questão do segredo, por sua vez, é analisada a fundo no livro O Papa é Culpado? (L&PM, 2011), do jurista britânico Geoffrey Robertson. Ele cita uma série de documentos da Igreja, incluindo uma carta pastoral da CDF, assinada pelo então cardeal Ratzinger e pelo atual secretário de Estado do Vaticano, Tarcisio Bertone, que exigem segredo absoluto no trâmite dos casos de abuso sexual contra menores cometido por padres.

Otimistas veem uma lenta flexibilização da lei do silêncio. Em 2010, o site do Vaticano publicou um texto que sugere – mas, crucialmente, não determina – a cooperação entre a autoridade eclesiástica e a autoridade civil, em casos de abuso sexual. Em 2012, o cardeal William Levada, então encarregado da CDF, fez um pronunciamento onde citou a importância de “comunicar crimes às autoridades competentes”.

Mas o passo crucial, um decreto com força de lei da Igreja, tornando compulsória a comunicação dos crimes cometidos por padres à polícia, não foi e, ao que parece, não será dado. Da mesma forma, a punição exemplar dos bispos responsáveis pelo acobertamento e pela impunidade dos padres pedófilos continua a ser um ideal distante. Bento XVI falhou nesses dois campos.

Reportagem do New York Times publicada na última terça-feira faz um retrato desanimador dessa última questão: “Pelo menos uma dúzia de cardeais manchados pela acusação de terem falhado em remover padres acusados de abusar sexualmente de menores estavam entre os que iam se reunir em Roma para se prepararem para o conclave que escolherá o sucessor de Bento XVI. Não havia sinal nenhum de que a promessa da Igreja de confrontar o escândalo de abusos sexuais levaria a alguma pressão direta sobre aqueles cardeais, para que se ausentassem do conclave”.

A mesma reportagem diz, mais adiante: “Não é que esses cardeais tenham se comportado de modo diferente dos demais (…) só que vêm de pontos do mapa do mundo católico onde antigos segredos vieram a público, porque as vítimas se organizaram, os governos investigaram, advogados processaram e a mídia prestou atenção”.

Em outras palavras, os dois pilares da crise — a cultura de segredo e a impunidade dos hierarquicamente responsáveis — só periclitam quando há forte pressão externa: das vítimas, da mídia, da polícia. E entre os homens que deveriam assumir como obrigação moral a tarefa de desmontá-los, a partir de dentro, estão seus maiores beneficiários.



  • André

    A ICAR deve estar contando com o esquecimento desses casos. Infelizmente, para eles, padre está para pedófilo assim como gillete está para lâmina de barbear.

  • Pedro Neto

    A questão da pedofilia recua aos tempos de antes e pós-cristianismo, passando assim pelo império romano, império grego, babilônico, egípcio, fazendo escalas na cidade de Pompéia, nas cidades bíblicas de Sodoma e Gomorra e de muitas outras da antiguidade, incluindo-se aí China, Japão, Índia, etc, etc.

    Lembramos que, recentemente, durante a segunda grande guerra mundial, inúmeras mães, abominavelmente negociavam os bumbuns de seus filhos meninos, aos soldados invasores ou heróis das forças aliadas, em troca de alimentos e outros benefícios para suas sobrevivências.

    Em todas as profissões e atividades, como disse Orsi, houve e há pedofilias (e toda pedofilia é covarde, afinal de contas) como continua a existir dentro dos lares de nossas famílias a despeito das denúncias e pálidas reações de nossas leis.

    Como então, um padre idoso, visivelmente sem energias desde o início de seu pontificado, iria dominar esta situação nesse mundo religioso sobrenatural, de profundos e fantasmagóricos abismos e subterrâneos de infindáveis segredos – terríveis – do presente e passado, iria, este simples e comprometido padre, uma vez elevado ao trono e ungido à categoria de imortal por rituais solenes dos mortais, vir sustentar toda esta corrente contrária conspirativa, que ele já conhecia muito bem, e com seguido golpes de seu belíssimo bastão sacerdotal, puniria e remiria à Igreja e ao mundo deste doentio, bestial e inominável impulso sexual, destruidor de vidas?

    É o que criticam os tolos e superficiais que colocam somente a Igreja no cadafalso e fingem não olhar o longo rabo de seus próprios e criminosos atavismos, bem como a hipocrisia de todos que fazem parte deste imenso mundo de mentiras e encobrimentos da corroída sociedade humana.
    Não creio que esta tara seja um dia erradicada dos impulsos sexuais do homem perturbado, simplesmente por repreensões religiosas ou por leis mal feitas. Nem pela psicologia ou psiquiatria de hoje, a menos que haja uma real conscientização do que seja a consciência, a alma e o espírito em níveis acima da mediocridade dos debates intelectuais científico-materialistas, e pela aplicação direta do conhecimento oriental do ser e suas técnicas, aliados, vejam bem, às conquistas da ciência ocidental que, infelizmente, ainda não abriu as portas para a corrente do conhecimento das energias obsessivas que circundam e permeiam ao ser humano há milênios.

    • André

      A pedofilia pode existir em qualquer instituição, mas supõe-se que uma instituição que diz zelar pela moral e bons costumes fosse mais (e não menos) rigorosa que as demais instituições. Ou o celibato só vale para relações sexuais com mulheres adultas? Além disso, o Ratz já era um dos responsáveis pela condução desse assunto muito antes de ficar muito velho.

    • Gerson B

      Fico p da vida quando vejo esse argumento tipo “os outros fazem tambem”, como se isso fosse defesa. A Igreja quer comandar a sexualidade de todo mundo, mas não consegue comandas a de seus sacerdotes. E agora vem com essa defesa petistóide. “Todo mundo faz, não dá pra segurar aqui tambem, não é culpa nossa.”

      E mesmo que houvesse uma tendência incontrolável para a pedofilia em muitas pessoas, isso não justifica o acobertamento dos pedófilos pela igreja.

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