Brasil 0 x 0 Argentina

por Homero Mattos Jr. * – É com alguma preocupação e inquietude que tenho lido e assistido na imprensa – já há algum tempo e com crescente vigor – manifestações de evidente chauvinismo, presentes em comentários relativos à performance da seleção de futebol argentina.

Aparentemente, sobre tema eivado de subjetivismo, nada a obstar quanto à crítica esportiva. Contudo, quando no bojo de tais manifestações é possível identificar pequenos “ovos de serpente” tais como, “Ganhar da Argentina é mais gostoso” (Galvão Bueno, ad nauseam) ou “Nós 9 X 1 Eles!” (ref. do Lance aos jogos BRA 3×1 PER e BOL 6X1 ARG)… fico a pensar na lenta e insidiosa maturação de todas as antinomias étnicas que – da Grécia à Pérsia a.C ao Ocidentalismo versus Orientalismo dos nossos dias (passando pela França e Alemanha do final do século XIX) – em nada contribuem para a paz entre as nações.

Sobre a Argentina e suas relações com o Brasil, acredito que (com poucas exceções) a maior parte dos jornalistas e/ou comentaristas esportivos pouco mais saibam do que, se tanto, a localização de ambos os países no mapa. Diferentemente de boa parte de seus leitores e/ou telespectadores que, infelizmente, penso, nem mesmo saberiam localizar geograficamente a Argentina se instados a fazê-lo. Some-se a ignorância disseminada em largas camadas da população ao, possível e costumeiro, protecionismo comercial dos tempos de crise, não será espantoso que um eventual desemprego em massa resultante possa vir a gerar tensões inéditas no continente sulamericano, porquanto, antes, tais conflitos pareciam relegados, apenas, ao antigo sistema europeu.

Torcidas organizadas e desempregados são os componentes latentes das Sturmabteilung, as quais, no devido tempo, o “nacionalismo” se encarrega de uniformizar. Portanto, sobre tal questão (comentários chauvinistas), talvez seja o caso de o Ministério das Relações Exteriores realizar algum tipo de ação esclarecedora junto à direção dos principais órgãos de informação pública do País. Sei que a tarefa é delicada, posto que os interesses comerciais envolvidos são substancialmente atraentes para, alardeando ameaças à liberdade de imprensa, deixar de lado reservas morais e, de modo pretensamente pragmático, desabridamente lançar-se à “briga pela audiência”. Entretanto, a consciência cidadã se impõe, e o Itamaraty, na tarefa de cuidar de nossas relações exteriores, deve ser auxiliado por todas as instâncias de representação da nossa nacionalidade.
* Homero nasceu em São Paulo, morou por muitos anos em Salvador, período em que investiu algum dinheiro na Bolsa, e hoje conta História para um grupo de adolescentes paulistas do Programa Social Gotas de Flor com Amor.


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