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A ciência derrotou a religião, mas não seus males

por Nick Cohen

10/04/2011

Martin Rees diz que não quer forçar os muçulmanos a escolherem entre Deus e Darwin

por Nick Cohen [caption id="attachment_5533" align="alignnone" width="350" caption="-- Martin Rees --"][/caption] Como bem sabia a Sra. Merton, há perguntas que respondem a si mesmas. “O que mais atraiu o Astrônomo Real Martin Rees para o prêmio Templeton de 1 milhão de libras?” certamente parece uma delas. Se uma organização de caridade americana lhe oferecesse uma pequena fortuna por você ter “afirmado a dimensão espiritual da vida”, você deveria se certificar de ter fortes princípios e um parceiro de conversa compreensível antes de responder: “Nunca sofri tamanho insulto.” As razões, para Lord Rees, da atração da Fundação John Templeton parecem mais óbvias. Trata-se de uma bem dotada firma religiosa, alimentada pelo saque coletado pelo falecido Sir John Templeton, um financista sem escrúpulos com uma veia pia. Inicialmente, ela não fazia segredo de sua admiração por mascates clericais e liberou prêmios para o showman evangélico Billy Graham e para Madre Teresa, que preferiu chafurdar na pobreza a acabar com ela. Agora, ficou mais sofisticada e deseja premiar intelectuais que permitem à religião insinuar-se em uma amizade com a ciência; que sugerem, por mais vagamente, que pesquisa baseada em evidência e fábulas da antiguidade são compatíveis. Não são muitos os que estão preparados para fazê-lo. Levantamentos com cientistas, quer sejam membros da Sociedade Real britânica ou da Academia Nacional de Ciências nos EUA, mostram consistentemente que cerca de 90% não acredita nos deuses das religiões convencionais. Eles provavelmente concordam com a observação de A.C. Grayling de que o projeto da Fundação Templeton de unir religião e ciência “é como misturar astrologia com astronomia ou vudu com pesquisa médica”. Mas o surpreendente no caso de Rees é que ele não está nos 10% restantes. Em suas frequentemente brilhantes obras e ensinamentos, Rees nunca “afirmou a dimensão espiritual da vida”. Ele sempre disse que é um darwinista sem dogma religioso. Tudo que compartilha com os religiosos é um “sentimento de admiração diante do universo”. Os religiosos, no entanto, o inundaram de dinheiro porque ele é uma figura sintomática de nossa era de discurso enviesado. Como milhões que deveriam saber melhor, Rees não é ele mesmo religioso, mas “respeita” a religião e quer viver em “coexistência pacífica” com ela. Seu respeito vem em parte de uma nostalgia com apelo até mesmo para meu coração ateu. Ele ama o grandeur gótico da Catedral Ely, e os hinos e liturgia da Comunhão Anglicana, que celebram “os costumes da minha tribo”, como bem coloca. Se tudo que respeito acarretasse fosse um devido tributo às conquistas do passado ou uma sensível compreensão de que a Igreja Anglicana faz mais bem do que mal, eu não discordaria dele. Mas o respeito concedido pelo secular muitas vezes envolve concessões mais tenebrosas e previne uma honesta confrontação com o Islã radical ou qualquer outra variante de extremismo religioso, e previne uma solidariedade apropriada com as vítimas do extremismo. “Não quero forçar muçulmanos a escolherem entre Deus e Darwin”, fala Rees, esquecendo-se de que cientistas não “forçam” ninguém a escolher Darwin, enquanto que teocracias forçam populações inteiras a reverenciarem seus deuses. Tão enfastiante é a defesa, que poucos tomam conhecimento de como o pedido de “respeito” trai a superficialidade do pensamento religioso contemporâneo. No passado, os crentes não acusavam seus críticos de simples más maneiras. Acusações de blasfêmia e heresia eram como acusações de calúnia. O pecador quis espalhar falsidades contra a verdadeira religião, que seus acusadores expunham na corte. Os caçadores de bruxa puritanos e a Inquisição espanhola discordavam violentamente sobre como Deus havia organizado o mundo. Mas eles não duvidavam de que Deus organizara o mundo e que a fé os levaria à verdade. Muito depois de pedreiros construírem a Catedral Ely, talvez até o Iluminismo, ou até a publicação da Origem das espécies, crentes podiam assegurar-se de que os mais sábios pensadores de seu tempo acreditavam no divino. Crenças na veracidade da ciência e do mágico coexistiram mesmo na grande mente de Isaac Newton, que dividia seu tempo entre a tentativa de compreender as leis do movimento e a tentativa de descobrir para quando o Apocalipse previa a “grande tribulação e o fim do mundo”. Hoje em dia, você precisa ser um crente muito ignorante para imaginar que sua religião ou qualquer religião possa fornecer explicações abrangentes. Quando estudam além de certo nível, todos os crentes aprendem que as teorias mais confiáveis sobre as origens da vida não necessitam do Deus dos livros sagrados. Os cientistas mais brilhantes e as melhores ideias já se moveram para além da religião. É por isso que religião, que já inspirou as criações mais sublimes do homem, não produz mais arte, literatura ou filosofia de qualquer valor; é por isso que é impossível imaginar uma nova alta cultura religiosa. As dúvidas secretas de fundamentalistas certos de tudo não são diferentes das concessões que os anglicanos moderados fizeram ao secularismo. Em algum nível, os fanáticos assassinos que amaldiçoam a humanidade sabem que suas ideologias são redundantes; que os morteiros que atiram, as armas nucleares pelas quais anseiam originam-se de uma tecnologia sem qualquer conexão com os Alcorões e Hadiths do Islã militante, o Talmude do judaísmo ortodoxo, a Bíblia dos fundamentalistas cristãos ou as lendas dos nacionalistas hindus. Para deterem uma abordagem cética, baseada em evidência, da esfera religiosa e o desafio a suas ortodoxias, eles insistem, não na defesa de suas verdades, que agora não pode mais ser feita, mas no “respeito”. Eles são o equivalente das celebridades que vão aos tribunais para que a imprensa não revele seus segredos. Como sabem os editores, as ações judiciais por invasão de privacidade que os famosos movem não poderiam ser mais diferentes de uma ação por calúnia. O recurso a ações por calúnia existe para proteger o indivíduo dos danos causados por fofoqueiros maliciosos que espalham mentiras. Na calúnia, a verdade é uma defesa absoluta para o editor acusado. Em casos de invasão de privacidade, a verdade não é uma defesa, mas uma irrelevância. Juízes evitam que jornais informem que o externamente sadio ator trai a esposa ou que o externamente respeitável magnata contrata dúzias de prostitutas para o chicotearem. A lei intervem não porque as histórias sejam falsas, mas porque elas dizem verdade além do que os envolvidos podem lidar e os expõem à gozação, ao sofrimento... ao desrespeito. Posso entender por que a privacidade de celebridades deve ser protegida. Mas a ideia que Lord Rees tão naturalmente endossa – de que você tem que respeitar a privacidade de ideólogos que ordenam violência, subjugação de mulheres e perseguição de homossexuais, e tratá-los como se estivessem além da crítica e da refutação científica – é a mais covarde evasão de responsabilidade intelectual de nossos dias.

Nick Cohen

Escritor e comentarista político britânico. Colunista do The Observer e da revista Standpoint. Autor, entre outros, de What's Left: How the Left lost its way e You can't read this book: Censorship in an age of freedom. Seus textos são traduzidos no Amálgama com sua autorização.