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Sudário de Jesus, mortalha de Veja

por Carlos Orsi

01/04/2012

A matéria faz uma audaciosa proclamação. Pena que não há nada que a sustente

Deve ser efeito da Semana Santa: Veja apareceu com uma capa dizendo que há novas provas científicas apontando para a autenticidade do Sudário de Turim. A matéria em si é uma espécie de informercial de um novo livro que está saindo por aí, pela Companhia das Letras, chamado O Sinal, de Thomas de Wesselow.

Em meu Livro dos Milagres, dediquei um capítulo inteiro à questão do sudário, então o tema obviamente me interessou. Existem, em resumo, quatro linhas de evidência, independentes entre si, que apontam para o fato de que o sudário é uma falsificação criada na França medieval:

1. Datação por carbono 14: três fragmentos do sudário foram submetidos a datação por radiocarbono em três diferentes laboratórios, e os resultados, publicados na revista científica Nature, convergem para uma data entre os séculos 13 e 14.

2. Exame microscópico: Walter McCrone, um dos maiores especialistas em microscopia do mundo e perito em autenticação de obras de arte, descobriu no sudário pigmentos do século 14 aplicados com uma técnica usada no século 14.

3. Evidência documental: a despeito de teses fantasiosas em contrário, os primeiros documentos a citar o sudário são, adivinhe só, do século 14. Entre eles, há o depoimento de um bispo francês que afirma ter conhecido o artista responsável pela criação do sudário.

4. Evidência estética: a imagem do sudário não representa um corpo humano real, e sim um corpo humano distorcido de acordo com as convenções da arte gótica, que floresceu, adivinhe só, no século 14. As linhas são alongadas demais, e há assimetria no comprimento dos membros. Além disso, o sudário traz a impressão da panturrilha e da sola do pé de uma das pernas de Jesus. Tente fazer isso na cama, tocar o lençol, ao mesmo tempo, com a panturrilha e a sola da pé, os dois da mesma perna. Cuidado com a cãibra. Em seguida, imagine-se fazendo isso depois de morto.

Para ressuscitar (trocadilho intencional) a respeitabilidade científica — em oposição à respeitabilidade tal como vista pelos olhos dos sindólogos, entusiastas que estão para o sudário como os ufólogos estão para óvnis — da tese de que o sudário é verdadeiro, seria preciso, portanto, refutar, se não todos os pontos acima, ao menos a maioria deles.

Se Veja (ou suas fontes) tivesse encontrado provas capazes de eliminar pelo menos duas dessas dificuldades, o feito seria fenomenal. Assim, pela segunda vez nesta década, comprei a revista. As afirmações do texto são peremptórias: ele diz, por exemplo, que os argumentos do novo livro da Companhia das Letras “põem para escanteio todos os desmentidos científicos” (já disse que a matéria toda parece um infomercial?) acerca do sudário.

Audaciosa proclamação! Pena que não há nada, ali, para sustentá-la.

-- Imagem "milagrosa" do sudário de Turim (E) e réplica criada pelo cientista italiano Luigi Garlaschelli --

É irônico, entre outras coisas, que a matéria comece citando o trecho do Evangelho de João onde se descreve que Jesus foi sepultado com lençóis (note o plural) de linho, incluindo uma faixa em separado para a cabeça. Claro que, se essa descrição é correta, o sudário, uma imagem ininterrupta do corpo inteiro (cabeça inclusa) num pano só, não pode ser verdadeiro.

Para ser justo, há um infográfico na matéria que tenta conciliar o sudário de peça-única à menção dos “panos” e da faixa da cabeça, mas com sucesso um tanto quanto discutível.

Das quatro linhas de evidência que apontam para o sudário como uma falsa relíquia, Veja se dirige a apenas uma: a datação de carbono 14. Um dos argumentos levantados é o do pólen — de que teriam sido encontradas, no tecido do sudário, amostras de pólen de plantas típicas da Palestina. Veja cita pólen identificado em 2001, aparentemente se referindo a uma nova análise das amostras obtidas por Max Frei, vários anos antes.

O que é engraçado, porque Frei morreu em 1983 com a reputação em frangalhos, depois de ter autenticado os infames (e decididamente falsos) “Diários de Hitler”. Análises posteriores mostraram que Frei provavelmente contaminara suas amostras com pólen palestino deliberadamente, a fim de criar uma “prova” a favor do sudário. Então, o fato de estudos posteriores de seu material confirmarem o pólen não provam nada, já que foi Frei quem, provavelmente, colocou-o lá, para começo de conversa.

O outro argumento contra a datação de radiocarbono é o de que a faixa de tecido extraída para ser analisada teria vindo de um trecho restaurado do sudário. O artigo da Nature descreve a remoção da faixa para análise nos seguintes termos: “O sudário foi separado de seu pano de fundo ao longo de sua margem esquerda e uma faixa (aproximadamente 10 mm por 70 mm) foi cortada imediatamente acima do local de onde uma amostra havia sido removida anteriormente em 1973, para exame. A faixa veio de um único local do corpo principal do sudário, afastado de quaisquer remendos ou queimaduras”. A extração foi feita sob a supervisão de especialistas em tecidos e tecelagem.

Eles podem ter se enganado? Claro. Todo mundo erra. Podem ter tido azar, também, pegando um trecho exatamente do único ponto do sudário onde o tecido teria sido reconstituído por meio de uma “costura invisível”. Mas a principal evidência a favor da existência de um “remendo indetectável” a olho nu — a presença de algodão e de um corante vegetal, garança — não é conclusiva: algodão e garança aparecem em outras partes do sudário, além do trecho extraído.

No entanto, mesmo que o pessoal do carbono 14 tenha sido especialmente incompetente, ou azarado, ou ambos, as outras três linhas de evidência em favor da tese da falsificação se mantêm. E Veja não gasta uma única mísera linha com elas. Embora mencione que o bispo de Poitiers proibira, em 1355, a veneração do sudário, a revista não diz o motivo: porque ele sabia que a peça era uma fraude.

Então resumindo: para o sudário ser autêntico, a datação de radiocarbono tem de ter sido conduzida por incompetentes azarados, o bispo de Poitiers tem de ter sido um canalha mentiroso (assim como Walter McCrone), todas as provas documentais da existência do sudário pré-1350 têm de ter sido destruídas ou escondidas, e o caráter gótico da imagem tem de ser uma curiosa coincidência.

Tudo isso é possível? Claro. Assim como aquela luz intensa junto à Lua pode ser uma nave de Andrômeda, por que não? Mas, se tiver de apostar, eu aposto que é o planeta Vênus.

Carlos Orsi

Jornalista e escritor. Repórter do Jornal da Unicamp. Autor, entre outros, dos romances Guerra justa (2010) e As dez torres de sangue (2012), e de O livro dos milagres: A ciência por trás das curas pela fé, das relíquias sagradas e dos exorcismos (2011).