As FARCs e os muitos jogos na cidade

por Maurício Santoro

Um amigo que trabalhou para a ONU na região andina em meados da década passada havia comentado comigo que as FARCs utilizavam o território do Equador e da Venezuela como “hotel, hospital e bordel”. A presença guerrilheira na área era ostensiva, bem como seus vínculos com o tráfico de drogas. Há dois anos as Forças Armadas da Colômbia bombardearam um acampamento das FARCs no Equador e mataram diversas pessoas, incluindo Raúl Reyes, responsável pelas relações internacionais do grupo. O ataque fez parte da estratégia colombiana em assassinar a cúpula das FARCs, que levou à morte mais da metade do scretariado da organização. Nele foram apreendidos computadores e documentos.

Dado o nível de polarização ideológica na região andina, o governo colombiano entregou o material ao Instituto Internacional para Estudos Estratégicos, um centro de pesquisas britânico, para que analisasse sua autenticidade. O resultado foi divulgado na semana passada e confirma a importância de Venezuela e Equador como santuários para a guerrilha, além de mostrar que as FARCs doaram dinheiro à campanha presidencial de Rafael Corrêa. Também revela que o serviço secreto venezuelano conversou com os guerrilheiros sobre a possibilidade de que treinassem pistoleiros para assassinar oponentes de Hugo Chávez, no clima de tensão exarcebada que se seguiu à tentativa de golpe da oposição, em 2002. O “Sem Fronteiras”, da Globo News, cuja edição da semana passada examinou os documentos, apresentou ótimas análises.

No Brasil, a ação das FARCs era política, não militar. O governo brasileiro negou acesso dos guerrilheiros ao alto escalão oficial, mas autorizou a abertura de um escritório de representação para fins de propaganda e negociações. O representante das FARCs no país, o ex-padre Oliverio Medina, acabou preso pela Polícia Federal, mas depois foi considerado “refugiado político” e o pedido da extradição da Colômbia foi negado. Muitos líderes políticos do Brasil são oriundos da luta armada contra a ditadura e tendem a avaliar o conflito colombiano em ótica semelhante. Erro grave. A longa insurgência naquele país ocorreu quase toda contra regimes democráticos, por parte de grupos da extrema-esquerda que recusaram-se a aceitar as regras do jogo eleitoral, no pacto que encerrou a guerra civil entre conservadores e liberais, na década de 1950.

Trinta anos mais tarde as FARCs fizeram uma tentativa de lançar um partido, a União Patriótica, cujos candidatos e militantes foram massacrados. Outros grupos guerrilheiros, como o M-19, fizeram a transição com sucesso. Mas as FARCs nunca abriram mão das armas e a criação da UP fazia parte de sua estratégia de “combinação de todas as formas de luta”. O fracasso da via partidária apenas reforçou a lógica da violência como forma de obter ganhos políticos e econômicos.

A situação entre Venezuela e Colômbia mudou nos últimos meses, com a posse de Juan Manuel Santos na presidência colombiana. Os venezuelanos chegaram inclusive a extraditar guerrilheiros para os vizinhos. Não é uma guinada rumo à defesa dos direitos humanos, mas preocupações econômicas com a queda acentuada do importante comércio bilateral, depois de anos de tensões diplomáticas.

A democracia só se consolida quando vira o único jogo na cidade. A única maneira legítima de obter poder político no Estado. A persistência das FARCs e o apoio aberto ou velado que o grupo recebe de governos é um fator que debilita e mina os regimes democráticos não só nesses países, mas também nas demais nações andinas. O Peru, divivido entre a filha de um ex-ditador e um ex-golpista militar, exemplifica esse drama.



  • Luis Henrique

    “Muitos líderes políticos do Brasil são oriundos da luta armada contra a ditadura e tendem a avaliar o conflito colombiano em ótica semelhante.”

    Nomes, por favor.

  • José Mendes

    Enfim, mais uma denúncia do nosso digníssimo Prof Hariovaldo.

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