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Certo e errado na língua portuguesa

por Carlos Orsi (17/05/2011)

Se os populistas tiverem sucesso em abolir os pronomes oblíquos, o povo tratará de reinventá-los

por Carlos Orsi

Parece que a elite jornalística brasileira descobriu, na semana passada, que os professores de língua portuguesa não se referem mais a formas “certas” ou “erradas” de emprego do idioma, e sim a formas “adequadas” e “inadequadas”.

O que é engraçado, porque eu me lembro de que, em minhas primeiras aulas de gramática de ensino médio, lá se vão 25 anos, as coisas já eram assim. Lembro-me até de como o professor introduziu o assunto, exemplificando que, embora uma forma como “É nóis aí, bróder” possa ser útil na pelada de fim de semana, chamar o pai da namorada de “mermão” poderia prejudicar as chances de sucesso do romance.

Enfim, se a coisa é ensinada dessa forma há 25 anos (pelo menos), por que o escândalo agora? Os jornalistas em atividade hoje não fizeram ensino médio? Fizeram e esqueceram? Faltaram nessa aula? Se deixaram os bancos escolares em eras ainda mais remotas, nunca prestaram atenção nas lições que seus filhos, netos, bisnetos, traziam para casa?

O que talvez tenha causado espécie, ao menos pelo que se vê nos exemplos destacados pela mídia, é a brutal relativização a que a chamada norma culta da língua é submetida no livro que serviu de estopim ao escândalo, o tal Por uma vida melhor. Fica a impressão de que a norma culta é fruto de uma espécie de conspiração das “zelite” para submeter o povão a “preconceito linguístico”.

Essa visão, tacanha e populista, deixa de dar à norma culta, construída pelo esforço de estudiosos, dicionaristas, gramáticos, escritores e, sim, falantes “comuns”, o devido valor. O respeito às normas estritas de concordância de gênero e número dá à língua uma expressividade e um poder de sutileza que ela não teria de outra forma. Uma das frases destacadas do livro criticado é: “Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado“. O plural parcial seria, argumenta-se, suficiente. Mas esse uso impediria a construção de uma sentença mais rica, como “Os livros ilustrados mais interessantes e o mapa estão emprestados, mas ele será devolvido amanhã”. O português oferece recursos fantásticos, como o sujeito oculto e a elipse, que dependem, crucialmente, do cuidado com as concordâncias, principalmente a concordância verbal.

Resumindo, achar que a norma culta só está aí para que as pessoas que não votam no PT e que se dão ao trabalho de conhecer a língua portuguesa com algum grau de intimidade possam chamar o Lula de preguiçoso apedeuta é um erro (essa possibilidade é apenas um bônus extra). A norma culta está aí porque, primeiro, é preciso haver uma “língua franca” que permita a comunicação entre as diferentes tribos; segundo, porque ela permite articular um grau de precisão e expressividade que as demais normas — tribais, profissionais, étnicas, etc. — não atingem, ou atingem apenas em campos muito específicos.

Numa reação, compreensível, ao sufocante beletrismo engendrado pelo período parnasiano, o modernismo brasileiro entronizou o coloquialismo como uma espécie de valor absoluto. Isso foi um erro. A linguagem coloquial certamente tem seu lugar; é, no mínimo, ridículo imaginar mesóclises, digamos, numa briga de bêbados. Mas uma coisa é reconhecer que o coloquial tem seu espaço e seu lugar. Outra é tratá-lo como valor absoluto.

Falando de minha experiência pessoal como escritor, digo que às vezes me sinto numa camisa de força ao notar que pronomes oblíquos e tempos verbais como o mais-que-perfeito soam “estranhos” em determinados contextos. Trata-se de um empobrecimento líquido da língua: uma perda de poder de precisão, da capacidade de reduzir ambiguidades no texto.

Mas ontem aconteceu uma coisa engraçada no almoço: na fila do quilão, ouvi uma mulher comentando com a amiga, “Esta salada parece boa, você vai comer ela?”. Só que a mulher não pronunciou o “r” do “comer”, e a sentença soou “… vai comê ela?” Daí para a forma correta (ou “adequada de acordo com a norma culta”) “comê-la”, é só um pulinho.

O que me faz imaginar que, se algum dia os populistas linguísticos tiverem sucesso em abolir os pronomes oblíquos, o povo tratará de reinventá-los. Eles não são frutos de uma conspiração das zelite: a língua simplesmente funciona melhor assim.

Carlos Orsi

Jornalista e escritor. Repórter do Jornal da Unicamp. Autor, entre outros, dos romances Guerra justa (2010) e As dez torres de sangue (2012), e de O livro dos milagres: A ciência por trás das curas pela fé, das relíquias sagradas e dos exorcismos (2011).

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Georgenor Franco Neto

Prezado Carlos,
parabéns pelo texto. Também me lembro das observações dos professores sobre as variações linguísticas. Porém, jamais o coloquial e os erros foram postos como absolutos.
Abs.

ProfeGélson
ProfeGélson

Esse jeito de falar ”não inflói nem diminói”: o ”Álvaro”, como dizia Adoniran Barbosa, é o Lula.

sleo

È por aí, excelente. Só derrapa ao partidarizar a coisa. Não são só petistas que têm essa tese equivocada da norma culta como conspiração para manter o poder das elites. É toda uma corrente de especialistas com variadas colorações aprtidárias, agluns até antui-Lula. Reduzir esse debate a uma tentativa de legitimar o falar errado de Lula é empobrecer a discussão, que você descreve muito bem no início do artigo.

Pedro Moreno

Foi um dos melhores textos sobre o assunto que eu li. Pena que a grande imprensa não mantém em suas fileiras pessoas como você.

Luiz André
Luiz André
A grande questão sobre a língua portuguesa – tanto a que é ensinada nas escolas quanto àquela que é falada nas ruas – está referida ao grau de comunicação entre seus interlocutores, isto é, independentemente se a mensagem escrita não supra as exigências gramaticais ou se a fala coloquial use de subterfúgios linguísticos (gírias e contrações) para que o sujeito se expresse. Pessoalmente, fico do lado das pessoas que sabem manejar a língua portuguesa de acordo com o que a situação requer: não há problema em abreviar palavras em textos virtuais, mas pode ocorrer problemas se for necessário ser objetivo… Leia mais »
Carla Bernardes
Carla Bernardes

Só sei de uma coisa, se eu ouvir filho meu falando “a mina é ponta firme”, vai ouvir poucas e boas, e nas escolas a molecada toda fala dessa maneira, e o pior, até escreve! As mesmas crianças que futuramente serão cobradas em exames, provas e na vida pelo português correto, e é uma grande pena pensarmos que elas não tem capacidade de aprender o correto, falar correto. Hipócritas são os que defendem esses dialetos e erros e pelas costas zombam da pessoa que fala “pobrema” e mais ainda, não a levam a sério.

Bosco
Bosco
Não entendí nada desse medo desnecessário tão bem colocado aqui através da norma culta. O que eu sei é que o livro não veio para acabar com a norma culta, nem para ensinar a norma coloquial doravante. A norma dita culta sempre existiu e sempre existirá, no livro não há condenação a ela e nem prega a sua extinção. A linguagem coloquial que usamos na pelada do sábado e nos botiquins, e até no dia dia com nossos familiares, a linguagem da net em emeios e msm sempre são coloquiais e sempre serão. Se eu escrevo um emeio posso utiliza-la… Leia mais »
Flavio
Flavio
Bosco, Quem nunca comeu um plural, que queime o primeiro livro. O livro não tem nada de absurdo. Ele apenas expõe que a fala é diferente da escrita. Sim, o “nós vai” é uma variante linguística. E o “você vai comer ela” é legítimo na linguagem coloquial, inclusive por escrito, não há problema nenhum nisso. O importante é saber escolher a variante adequada ao tipo de discurso e situação. Querer calar a voz do aluno é que é, sim, preconceito linguístico, a que os professores mais conscientes estão atentos. Os críticos simplesmente não entenderam o texto do livro. Como diz… Leia mais »
Carla Bernardes
Carla Bernardes

Bosco, concordo plenamente com você, o grande problema é quando constatamos que boa parte dessas crianças saem da escola sem saber usar a norma culta e nem falar de forma culta, aí pergunto, onde está o problema?

Bosco
Bosco

Acho que não há porblema nenhum. Talvez essa norma culta não faça nenhuma diferença na vida deles. Para que aprender algo que não seja tão relevante?

Ricardo Lima
Prezado Carlos, há ideias coerentes assim como enganos no seu texto. Realmente não é novidade relativizar os usos e tratar de adequação/inadequação. Mas, dentro da ciência que chamamos Linguística, realmente não faz sentido hierarquizar as normas ou registros, e perceber isso não se trata de denúncia de conspiração das “zelite”. O que a Linguistica faz é descrever cientificamente o que acontece, em vez de valorar uma ou outra forma. Se algum petista usa isso de forma torta, isso não invalida todos os esforços da ciência. Existem variedades em TODAS as línguas, e a escolha da variedade de prestígio é uma… Leia mais »
Ricardo Lima

Para resumir: se os falantes de maior prestígio social começarem a falar “os livro” e “os peixe”, é bem capaz de explicarem que a pronúncia sem “s” indica uma sutileza ímpar do falante culto, que percebe, de forma perspicaz, que o artigo já contém a marca do plural. Pronunciá-lo vai ser considerado um erro grosseiro de quem não tem essa mesma capacidade perceptiva desenvolvida ou não teve acesso às melhores escolas.

Flavio
Flavio

Ricardo, se as “zelite” passarem a falar “os livro”, vão dizer que se inspiraram na pronúncia dos plurais em francês… (quem sabe francês entendeu a referência).

Os “mano”. Eh!
As “mina”. Ah!

Josué Tomaz
De todas as pérolas que falaram sobre a questão, esta foi a mais caprichada. “O que me faz imaginar que, se algum dia os populistas linguísticos tiverem sucesso em abolir os pronomes oblíquos, o povo tratará de reinventá-los. Eles não são frutos de uma conspiração das zelite: a língua simplesmente funciona melhor assim”. Será que o autor acredita seriamente que a proposta seja abolir os coitados dos pronomes? O autor acredita – só pode ser uma crença – que a língua funciona melhor de um jeito do que de outro, como se tivesse sido enviada pelos deuses e deturpada pelos… Leia mais »
Ricardo Lima
Aproveito para indicar o link http://facebook.com/LinguaBrasileira. É mais positivo refletir sobre a língua e observar os belíssimos fenômenos envolvidos com a formação do Português Brasileiro do que ficar reproduzindo dogmas acientíficos, movidos por crenças irracionais. Todo brasileiro tem o direito de assimilar, manipular e usar a seu favor a variedade de prestígio, assim como tem que ter toda a liberdade – sem bullying nem patrulhamento – de usar a variedade com a qual expressa as suas emoções e os seus pensamentos. Isso pode ser inclusive inferido a partir da Declaração Universal dos Direitos Linguísticos. O que chamamos de “norma culta”… Leia mais »
Lucas Jerzy Portela

Pela bucentésima vez: não existe, nunca existiu, nunca existirá “Norma Culta”.

Existe Variante Culta da Norma Padrão.

Ou, como quer Carlos Alberto Faraco (um dos maiores gramáticos da língua portuguesa): apenas variantes. Variante Padrão, Variante Culta, outras Variantes Orais. Nada de Norma.

Se Faraco diz, não sou eu quem ha-de discordar.

Bosco
Bosco

Carlos Orsi;
Acho que você deveria ler esse poste do bule voador e os comentários de lá. Parafrazeando um comentário: “Essa tua birrinha com o Lula e com o PT não te exime de ser mais bem informado, principalmente em um assunto que tivestes a coragem de escrever um texto”:
http://bulevoador.haaan.com/2011/05/18/sitp_poa_4/#comments

Gabriel
Gabriel
Incrível como jornalista adora se meter a falar de coisa que não sabe! Desbanca toda a produção acadêmica/científica da sociolingüística dos últimos 40 anos sem nunca sequer ter presenciado uma aula de lingüística numa universidade, pelo visto. Você nem sequer distingue norma, sistema e língua. Você acha que norma culta é paradigma, sendo que as mesmas – porque normas cultas não são únicas – se encontram no eixo da fala, tanto quanto as normas vernaculares. Norma culta é diferente de norma padrão (esta sim no eixo da escrita). Ou você por exemplo utiliza os clíticos conforme a lei de Tobler-Moussafia?… Leia mais »
Bosco
Bosco

Jornalistas desinformados abrem um livro didático, leem metade de meia páginae saem falando coisas que depõem sempre muito mais contra eles mesmos doque eles mesmos pensam (se é que pensam nisso, prepotentementeconvencidos que são, quase todos, de que detêm o absoluto poder da informação).
http://marcosbagno.com.br/site/?page_id=745

Idelber Avelar
Gabriel, Ricardo Lima e Josué Tomaz já disseram tudo, não há necessidade de repetir. O autor pode ter feito o ensino médio, mas com certeza jamais abriu um livro de Linguística na vida ou pesquisou um fato linguístico por mais de dois minutos. Não leu sequer o capítulo que gerou a polêmica, que em momento nenhum fala em “conspiração” da “zelite” (se há um conceito que não tem qualquer papel na Lingústica, é o de conspiração). Sugiro, para começar, as pesquisas feitas por Dinah Callou, Eugenia Duarte e Célia Lopes, da UFRJ, no projeto Nurc (Norma Linguística Culta Urbana), que… Leia mais »
Julia
Julia

Por que ela não falou logo “comê-la”, né? Era só um pulinho!
Será que é porque ela estava na fila do quilão e não numa banca examinadora? SERÁ??
A língua NÃO funcionaria melhor assim, funcionaria da mesma maneira!
O que isso significa? Que vc começou começou falando bem, mas terminou falando merda.

ps: quer apostar que logo logo a ênclise não vai mais existir no nosso português?? E não serão os populistas a derrubá-la e sim o povo.

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