A USP invadida pela PM

por Demétrio Toledo * – José Serra, ex-prefeito-atual-governador-queiram-os-céus-jamais-presidente, acabou de dar mais uma demonstração de inépcia crônica e de sua já notória truculência – fato que mesmo seus correligionários não desdizem, e quem duvidar pode perguntar pro Aecinho o que ele acha da proverbial delicadeza do Serra.

Ano passado o pré-candidato tucano já havia posado de presidente de província em guerra civil na República Velha (lembram da treta Polícia Civil versus Polícia Militar na entrada do Palácio dos Bundeirantes?), mas nem mesmo os mais imaginosos poderiam esperar pela última: a invasão do campus da USP (a Cidade Universitária) pela Polícia Militar – que parece, aliás, ter tomado aulas de apreço pela democracia com o chefe, a julgar pela violência com que executou seu serviço.

Tirando talvez ele mesmo, todos sabem que o Serra é pessimamente assessorado (mas ele também nem se lixaria se soubesse, a julgar pelo nível dos secretários de governo que escolhe: Geraldo Alckmin, Paulo Renato et caterva); dessa vez, o hábil animal (político) conseguiu transformar uma greve de funcionários da USP, parcial e de baixa adesão, em uma das maiores besteiras que alguém já cometeu ocupando um cargo de governo (consciente ou inconscientemente).

A história, resumida em seus pontos fundamentais, é a seguinte: depois de quase um mês de uma greve bastante fraquinha e sem maiores emoções, o Serra, quer dizer, a Justiça, instada pela reitoria da USP, mandou a PM invadir o campus e montar guarda em prédios da administração, sob o pretexto de coibir e debelar piquetes de funcionários grevistas. A atitude foi tão grotesca e causou tamanha repugnância na comunidade acadêmica que de pronto estudantes e professores, que até então vinham emitindo apenas as costumeiras moções de apoio aos funcionários em greve, solidarizaram-se e entraram em greve (só o Serra acha razoável colocar de bedéis policiais de metralhadoras). Ponto central da pauta: a saída da PM do campus.

Como o Serra não passa sem um gran finale, ontem o bicho pegou, com a polícia invadindo a USP, coisa nunca antes vista nem pensada (se bem que meus colegas da PUC-SP já viram esse filminho xexelento duas vezes…), com direito a balas de borracha, gás pimenta, bombas de efeito moral (quem deu nome a esse singelo artefato – imagino que tenha sido o animal que o inventou – nunca ficou perto de um quando ele explode; é caco pra todo lado, e dói, acreditem em mim) e aquele jeitinho que só a polícia tucana tem. Enfim, coisa pra não esquecer.

Mas acho que quem vai rir por último não será o Serra não. Ele e seus geniais assessores não perceberam o buraco em que estavam se metendo; até pouco mais de uma semana atrás, a greve não tinha pegado. Ontem, ele conseguiu a façanha de juntar todo mundo contra ele. Vai ver, ele acha que isso dá votos…

Serra acordou hoje um dos piores e mais reacionários governadores da história de um estado famoso por seu reacionarismo político e pela incompetência de suas classes políticas (já se vão 23 anos de tucano-quercismo por aqui; sai fora!). Vai dormir ao lado de Gustavo Díaz Ordaz Bolaño e do coronel Erasmo Dias: o primeiro, quando presidente do México, ordenou o Massacre de Tlatelolco, em que foram mortos número até hoje incerto de estudantes durante a invasão pelo exército mexicano do campus da Universidade Nacional Autónoma do México (UNAM) – as estimativas falam de 200 a 1.000 mortos; o segundo comandou a invasão da PUC-SP em 1977, prendendo uns 700 estudantes.

E ainda dizem – mas ele nega – que quer ser presidente…

* Demétrio Toledo, sociólogo, é membro do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP). Este artigo foi publicado primeiramente no blog do Lauro Mesquita, colega e leitor do Amálgama. Agradecemos ao Lauro e ao Demétrio por autorizarem a reprodução do texto.





Amálgama

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MAIS RECENTES


  • Mörie

    Coisas que não sabem as pessoas que criticam a PM no campus:
    *Os grevistas PRETENDEM invadir a reitoria (e acho que todos nos lembramos do que aconteceu da última vez);
    *Os grevistas estavam exercendo seus ideais democráticos IMPEDINDO as pessoas que não aderiram a greve de trabalhar/estudar;
    *A polícia estava quietinha quando os MANIFESTANTES começaram a implicar com eles;
    *Mesmo depois da PM no campus haviam alguns professores que continuavam a dar aula. Eles foram AMEAÇADOS pelos grevistas.

    A polícia NÃO PODE sair do campus, senão aquilo vai firar festa
    Só que se a polícia não sair a ADUSP não sai de greve.

  • Taiguara

    Peço licença para reproduzir uma carta escrita pelo professor Pablo Ortellado que vivenciou o vergonhoso conflito na USP.

    **

    Hoje, as associações de funcionários, estudantes e professores haviam deliberado por uma manifestação em frente à reitoria. A manifestação, que eu presenciei, foi completamente pacífica. Depois, as organizações de funcionários e estudantes saíram em passeata para o portão 1 para repudiar a presença da polícia do campus. Embora a Adusp não tivesse aderido a essa manifestação, eu, individualmente, a acompanhei para presenciar os fatos que, a essa altura, já se anunciavam. Os estudantes e funcionários chegaram ao portão 1 e ficaram cara a cara com os policiais militares, na altura da avenida Alvarenga.

    Houve as palavras de ordem usuais dos sindicatos contra a presença da polícia e xingamentos mais ou menos espontâneos por parte dos manifestantes. Estimo cerca de 1200 pessoas nesta manifestação. Nesta altura, saí da manifestação, porque se iniciava assembléia dos docentes da USP que seria realizada no prédio da História/ Geografia. No decorrer da assembléia, chegaram relatos que a tropa de choque havia agredido os estudantes e funcionários e que se iniciava um tumulto de grandes proporções. A assembléia foi suspensa e saímos para o estacionamento e descemos as escadas que dão para a avenida Luciano Gualberto para ver o que estava acontecendo.

    Quando chegamos na altura do gramado, havia uma multidão de centenas de pessoas, a maioria estudantes correndo e a tropa de choque avançando e lançando bombas de concusão (falsamente chamadas de “efeito moral” porque soltam estilhaços e machucam bastante) e de gás lacrimogêneo. A multidão subiu correndo até o prédio da História/ Geografia, onde a assembléia havia sido interrompida e começou a chover bombas no estacionamento e entrada do prédio (mais ou menos em frente à lanchonete e entrada das rampas).

    Sentimos um cheiro forte de gás lacrimogêneo e dezenas de nossos colegas começaram a passar mal devido aos efeitos do gás – lembro da professora Graziela, do professor Thomás, do professor Alessandro Soares, do professor Cogiolla, do professor Jorge Machado e da professora Lizete todos com os olhos inchados e vermelhos e tontos pelo efeito do gás. A multidão de cerca de 400 ou 500 pessoas ficou acuada neste edifício cercada pela polícia e 4 helicópteros. O clima era de pânico. Durante cerca de uma hora, pelo menos, se ouviu a explosão de bombas e o cheiro de gás invadia o prédio.

    Depois de uma tensão que parecia infinita, recebemos notícia que um pequeno grupo havia conseguido conversar com o chefe da tropa e persuadido de recuar. Neste momento, também, os estudantes no meio de um grande tumulto haviam conseguido fazer uma pequena assembléia de umas 200 pessoas (todas as outras dispersas e em pânico) e deliberado descer até o gramado (para fazer uma assembléia mais organizada). Neste momento, recebi notícia que meu colega Thomás Haddad havia descido até a reitoria para pedir bom senso ao chefe da tropa e foi recebido com gás de pimenta e passava muito mal. Ele estava na sede da Adusp se recuperando.

    Durante a espera infinita no pátio da História, os relatos de agressões se multiplicavam. Escutei que a diretoria do Sintusp foi presa de maneira completamente arbitrária e vi vários estudantes que haviam sido espancados ou se machucado com as bombas de concusão (inclusive meu colega, professor Jorge Machado). Escutei relato de pelo menos três professores que tentaram mediar o conflito e foram agredidos. Na sede da Adusp, soube, por meio do relato de uma professora da TO que chegou cedo ao hospital que pelo menos dois estudantes e um funcionário haviam sido feridos. Dois colegas subiram lá agora há pouco (por volta das 7 e meia) e tiveram a entrada barrada – os seguranças não deixavam ninguém entrar e nenhum funcionário podia dar qualquer informação. Uma outra delegação de professores foi ao 93o DP para ver quantas pessoas haviam sido presas. A informação incompleta que recebo até agora é que dois funcionários do Sintusp foram presos – mas escutei relatos de primeira pessoa de que haveria mais presos.

    A situação, agora, é de aparente tranquilidade. Há uma assembléia de professores que se reuniu novamente na História e estou indo para lá. A situação é gravíssima. Hoje me envergonho da nossa universidade ser dirigida por uma reitora que, alertada dos riscos (eu mesmo a alertei em reunião na última sexta-feira) , autorizou que essa barbárie acontecesse num campus universitário. Estou cercado de colegas que estão chocados com a omissão da reitora. Na minha opinião, se a comunidade acadêmica não se mobilizar diante desses fatos gravíssimos, que atentam contra o diálogo, o bom senso e a liberdade de pensamento e ação, não sei mais.

    Por favor, se acharem necessário, reenviem esse relato a quem julgarem que é conveniente.

    Cordialmente,
    Prof. Dr. Pablo Ortellado
    Escola de Artes, Ciências e Humanidades
    Universidade de São Paulo”

    **

  • Fabio Rossano Dario

    O Coronel Erasmo Dias (está vivo ainda?). Se estiver, deve ter adorado a última ação deste canalha, quero dizer, do Serra.

  • Interessante o supracitado nesse artigo. É compreensível que a PM fez merda. Mas os argumentos do comentário acima descortinam um outro lado da história, apto a ser analisado, para depois uma síntese e, aí sim, advogarei um lado.
    Ceticismo sempre. É a lei do bom senso.

  • Pingback: Blog do Digão » Blog Archive » Cenas de repressão policial na greve da USP - veja o vídeo amador()

  • Linkei no meu blog, se me permitem!=)

    Anyway, apenas uma questão, apesar da canalhice da invasão da PUC pela PM nem de perto vimos por lá o que aconteceu na USP, mas nem de MUITO perto…

    A invasão na USP foi algo terrível, espancamento de estudantes, agressão à professores, uma baderna geral e sem qualquer provocação.

    NA PUC ao menos pode-se dizer que houve ocupação de reitoria e etc (o que não justifica, por favor, invadir a PUC foi um crime) no caso da USP qual o argumento? Os estudantes provocaram a PM com perigosas flores?

    É uma piada….

  • Pingback: José Serra: truculento e covarde | ESTADO ANARQUISTA()

  • Bosco

    A mesma truculência do FHC contra os manifestantes que protestavam diante das privatizações e contra os portuários. É a marca registrada do tucanato. A desculpa para a truculência desse MOTO-SERRA é a mesma: estudantes fizeram cara feia para os policiais e cruzaram os braços.

  • Barbara Brosch

    …queiram -os -céus- jamais- presidente… ñ. se preocupe tanto… q. tal a Dilminha? Graças aos céus q. estudei noutro lugar, mas tinha q. todo semestre ir assistir às palestras etc na PUC e várias vezes presenciei a manifestos e greves, e realmente dá medo, mas lá nunca nenhum grevista impediu aulas ou simpósios ou qquer atividade, mas o clima ficava horrível e não dava p/ prestar atenção 100%, então posso imaginar qdo. ‘a coisa’ explode de verdade. Não é assim que se resolvem as questões, odeio truculência, ‘isso’ sim é atitude imoral, ridícula e covarde e não importa de qual lado.
    Desculpa, mas agora lembrei de um professor de sociologia, q. dizia q. se o mundo ainda está inteiro é por causa das mulheres, elas tem o poder de acalmar o espírito bélico dos homens.
    O Serra tá precisando de uma mulher p/ acalmá-lo e assesorá-lo e não o Gustavo ou o Erasmo (q. os céus o tenham). A PM tb. q. moda é essa de metralhadora, gente…é preciso mesmo?
    Sei lá, ñ. gosto de violência, exceto qdo.é p/ se defender, mas, vão dizer, ah…era o caso! Mas… não dava p/ conversar +?
    Meu pai foi professor do estado durante 35 anos, cresci escutando estas histórias e mais, o papis tinha armas pela casa toda, a mais singela era uma espingarda usada p/ matar pardais. Ele estava sempre treinando tiro ao alvo no quintal, e eu o amava, mas o odiava qdo. matava.
    A gente procura levar na ‘esportiva’ mas estes fatos são seríssimos e bem q. poderiam não se repetir mais.
    Concordo c/ vc. Demétrio qdo. diz q. a comunidade acadêmica deve se mobilizar p/ dialogar sensatamente, exercendo o direito da liberdade de pensamento e ação. Mas o outro lado tb. deve fazê-lo.
    Em todo caso qdo . um não quer…dois não brigam. “Éntôni Éliza… !”pq. brigaram?bjos.

  • Bosco

    Uma bomba de fabricação caseira explodiu no Largo do Arouche, no centro de São Paulo, junto a um grupo que comemorava a realização da Parada Gay na noite de ontem (domingo). Centenas de pessoas estavam no local, sendo que pelo menos 20 foram atingidas pelos estilhaços. Equipes do Serviço de Atendimento Móvel de Urgências (Samu) socorreram as vítimas com ferimentos leves para cinco hospitais da região. O registro da ocorrência foi feito no 3º Distrito Policial (Campos Elísios)

    A pouco mais de um quilômetro de distância, um caminhão de mudança pegou fogo. O motorista, que dormia na cabine, não ficou ferido. Uma testemunha disse ter ouvido o barulho de uma explosão antes de se iniciar o incêndio. A intransigência de certos grupos contra a população GLBT, é fruto do fundamentalismo religioso que incute nas crianças, adolescentes, e adultos de modo geral que a população homoafetiva é doente ou possuída pelo demônio. Esse conceito insidioso e discriminatório é o combustível da intolerância geradora do terror.

  • No momento que o confronto com a PM iniciou, estavamos eu e varios estudantes em uma reunião aqui na Universidade Federal do Maranhão, em reunião discutindo a respeito de varias medidas arbitrarias tomadas por parte da Administração Superior com relação a mudanças de horario que prejudicariam os estudantes que trabalham, ou que estudam em tempo integral. Neste momento um amigo nos liga (o movimento estudantil, pra quem não sabe, é muito unido) do meio do tumulto. Diogo, que atendeu o telefone, disse que dava pra ouvir os gritos e a confusão… Pediam urgentemente do nosso movimento uma moção de repudio ao atos da PM, e de total apoio a Greve…
    Quando você vê acontecer uma barbarie dessas, ainda mais quando pensa que poderia ser você que está ali, a unica coisa que se sente é raiva e medo, mas você pode até recuar, mas nunca desistir.
    Me lembrei da greve dos professores estaduais que teve por aqui no ano de 2007… Professores e estudantes nas ruas, e proximo a sede do Governo surgiu a tropa de choque e a cavalaria que queria fazer com que recuassemos a passeata, mas não desistimos. A cavalaria nos perseguiu, tropecei e por pouco não fui pisoteada por um cavalo… A tropa de choque vem pra cima e joga bomba, gás, e você corre com os olhos ardendo da fumaça, você sente pavor ao ver a sua colega atinginda por uma bala de borracha… Mas me diz por que nós é que temos que recuar?
    Por que os professores, tecnicos e estudantes tem que se calar, e deixar a universidade funcionar quando o que está em jogo é, para além dos salarios, a existencia do próprio sentido de universidade, do próprio sentido de educação.
    Por que a PM, oprimida, mal paga, falida, na figura de seus agentes continua a defender o Estado, que por ser minimo, é o agente mediador da sua própria miseria.
    As pessoas clamam por dialogo, por bom senso, mas não entendem que isso nunca existiu, pois nós do lado de cá levantamos os braços pela oportunidade de falar, e eles do lado de lá apontam o dedo ordenando o cala boca. E se não há dialogo, então nos resta calar? Por que só nos é permitido calar e conformar, e pedir a Deus que os dias melhorem? Lembrei agora de Galeano, quando diz que as coisas não são assim por vontade divina, por mais que queriam que a gente acredite.
    As universidades hoje estão se tornando em um campo de venda de algo que nunca deveria ser encarado como mercadoria: conhecimento. E diante desta perspectiva é necessario ver que, enquanto existirem pessoas que atrapalham aulas a favor da não conformidade com os fatos e um Estado que manda surrar em favor desta ordem, as coisas só tendem a piorar.

  • Roberto Soares da Cruz

    A Policia Militar existe para obedecer a constituição do Estado sendo ela ameaçado,tanto territorialmente quando patrimonialmente.O que pensa os estudante?esqueceram que na bandeira do Brasil esta escrito Ordem e Progresso?,a democracia no Brasil esta impalntada errada,tudo pode,até os estudantes que estão no banco da escola aprendendo o que ,a bagunçacria,quem grita mais alta esta tudo certo.Vamos parar com isso se preocupem de aprender,ser alguem util ao país.Ai quando não conseguem se formar ou talvez um emprego poem a culpa no governo.Esta na hora de cada um pensar no seu futuro,esse negocio de “turminha” vai, a turminha vai fazer isso ja era,chega ja passou do limite.

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