A queda de braço PT-PMDB

por André Egg * – Parece que o episódio do “valerioduto”, ou “mensalão”, provocou profundas mudanças na trajetória política do governo Lula. Zé Dirceu, um dos homens-fortes do governo, foi defenestrado, o que depois aconteceu também com Palocci por outros motivos. Lula teve seu pior momento de popularidade, só não sofreu processo de impeachment porque a oposição avaliou que seria melhor deixá-lo no cargo para ser derrotado nas urnas. Ao menos essa é a história que está contada nessas reportagens. Alguma coisa de errado tinha na cabeça da turma PSDB-PFL, pois eles achavam que poderiam derrotar Lula apresentando como candidato o Geraldo Alckmin, que é um político sem nenhuma expressão.

Bem, Lula reelegeu-se, superou os momentos mais difíceis e mudou uma série de coisas para o segundo mandato. A principal mudança, sem dúvida, foi trazer o PMDB para dentro do governo. O partido já apoiava o governo Lula meio informalmente, meio indiretamente. Tornou-se o principal aliado, alijando os partidos de esquerda que eram os mais tradicionais aliados políticos do PT: PSB, PDT e PCdoB passaram a formar o chamado “bloquinho”. O PMDB ganhou ministérios, cargos de segundo escalão, e passou a contar com a responsabilidade em fazer o governo ganhar batalhas no congresso. Pela primeira vez Lula tinha maioria na casa, ou pelo menos na Câmara dos Deputados, que no Senado a coisa sempre foi mais difícil. Isso explica um pouco por que Lula assumiu a desgastante tarefa de sustentar políticamente José Sarney, pois o governo não podia se dar ao luxo de perder apoio no Senado.

O sucesso eleitoral do PMDB em 2008 se explica por causa disso. O partido era decadente, claramente, eleição após eleição. Já tinha sido indiscutivelmente o maior partido do Brasil, depois veio perdendo relevância. Em 2008 houve uma virada: o PMDB saiu-se como maior partido brasileiro das eleições municipais. Analistas comentaram muito sobre os motivos do desempenho do PMDB, só esqueceram de falar uma coisa: o PMDB cresceu por que passou a ser um partido do governo Lula. Como tal, atraiu inclusive muitos neófitos, como os prefeitos José Fogaça, de Porto Alegre, e João Henrique Caneiro, de Salvador, que vieram, respectivamente do PPS e do PDT para se reelegerem pelo PMDB (derrotando os candidatos do PT em suas cidades). Como o PT é um partido que ainda tem algum tipo de escrúpulo na filiação de políticos por interesse efêmero, quem colheu o maior ônus do lulismo em 2008 foi o PMDB, não o PT.

Quando Lula começou a trabalhar pela candidatura de Dilma Roussef à sua sucessão, uma das primeiras medidas que tomou foi tentar fechar um acordo para que o PMDB entrasse oficialmente na chapa, com candidato a vice, trazendo seus preciosos minutos de televisão no horário eleitoral gratuito, além de toda a capilaridade partidária nacional que só ele tem. O PMDB tratou de superfaturar seu valor político: aceitou compor chapa, mas fez inúmeras exigências, sem o cumprimento das quais se recusaria a participar.

Ficou assim: o PMDB estará coligado com o PT, e indicará o vice da chapa. Desde logo surgia o nome de Michel Temer, figura de proa da ala lulista do partido. É importante lembrar que o PMDB tem capilaridade regional justamente por não ter o que se pode chamar de uma liderança nacional. Atende sempre à lógica dos interesses regionais, por isso não tem e nunca terá candidato próprio a presidente. O único foi o Dr. Ulisses Guimarães, em 1989, que concorreu sem nenhum apoio do próprio partido.

Michel Temer não é o vice dos sonhos de nenhum político que se preze. O PT tratou logo de tentar uma saída pela tangente com a filiação do presidente do Banco Central – Henrique Meirelles, ao PMDB, provavelmente para ser imposto como vice na chapa de Dilma. Cogitava-se também uma candidatura dele a governador de Goiás. Navegar pelos mares da política partidária é mais difícil do que manobrar a taxa SELIC, e Meirelles resolveu continuar no Banco Central. Malogrado o plano B, voltava à cena a candidatura de Michel Temer na chapa de Dilma Roussef.

O PMDB segue com a faca no pescoço do PT. A composição da chapa está certa, mas não está certa. O PMDB diz que está com Lula, mas também diz que só estará com Lula se o PT apoiar alguns candidatos em estados importantes. A conta apresentada pelo PMDB para fazer parte da aliança em torno de Dilma é altíssima. Exige apoio do PT a seus candidatos no Rio Grande do Sul (o mesmo José Fogaça), Minas Gerais (Hélio Costa – ministro das comunicações), Rio de Janeiro (Sérgio Cabral, candidato à reeleição), Bahia (Gedel Vieira Lima, ministro), Maranhão (Roseana Sarney) e Pará (Jader Barbalho).

Em São Paulo, onde o PMDB não elegerá nunca mais o governador, depois dos desastres que foram os governos Quércia (1987-1991) e Fleury (1991-1995), o partido não tem candidato mas já tem acordo com o PSDB. Apoiou Kassab (DEM) em 2008, em troca da vaga de senador na chapa peessedebista, que ficará com Quércia.

Com o PMDB é assim. Pede tudo, não dá nada em troca. Ameaça constantemente com o pulo fora do barco, julgando que o PT não poderia sair com a candidatura Dilma sem seu apoio, uma vez que ela é uma novata em eleições, é pouco conhecida, e o PT não teria força suficiente no congresso para governar.

O único estado onde a aliança PT-PMDB é natural e já está bem fechada, é no Rio de Janeiro, onde o governador Sérgio Cabral é um apoio de primeira hora a Lula, faz um bom governo e é candidato à reeleição. Lá o PT já fez convenção para escolher quem ocupa a vaga ao Senado na chapa, que ficou com Lindberg Farias, ex-prefeito de Nova Iguaçu.

Nos demais estados exigidos pelo PMDB, o PT tem candidatos naturais, muito bons, o que torna as exigências peemedebistas, para dizer o mínimo, ridículas. O PMDB pede que o PT abra mão das candidaturas de Tarso Genro (RS), Fernando Pimentel (que derrotou Patrus Ananias na convenção do partido em MG), do governador Jaques Wagner (BA), da governadora Ana Júlia Carepa (PA), e do apoio ao candidato do PCdoB Flávio Dino (decidido na convenção do partido no Maranhão).

Por enquanto fica o dito pelo não-dito. O PMDB apóia sim a candidatura Dilma, e irá compor sua chapa. Mas condiciona seu apoio aos apoios estaduais por parte do PT. Ao contrário do PMDB, o PT é uma coisa chamada partido político, com instâncias estaduais participativas. Cada estado está decidindo, obviamente, que não vai abrir mão de suas candidaturas para apoiar os nomes ridículos que o PMDB está apresentando. Resta uma intervenção do Diretório Nacional do PT em cada estado. O que precisaria de um sinal claro de Lula, que tem hoje o Diretório Nacional do partido na mão. Enquanto isso o PMDB adia sua própria convenção que oficializa o apoio à chapa de Dilma, o que tem que ser feito nos próximos 30 dias, por causa dos prazos da legislação eleitoral.

Lula, que não nasceu ontem, usa o tempo a seu favor. Afinal, ele tem um governo exageradamente bem avaliado e sua candidata cresce muito em todas as pesquisas: Vox Populi, Sensus e Datafolha já apontam a candidata de Lula na frente, ultrapassando José Serra. Isso levando em conta que ele é candidato desde 2002, que a campanha na TV ainda nem começou, e que a maioria dos eleitores mal conhece Dilma e nem sabe que ela é a candidata de Lula.

-- Pesquisa Datafolha sobre a aprovação do presidente --

Obviamente o PT pode prescindir do apoio do PMDB na eleição, como o desempenho do governo Lula e da candidatura de Dilma nas pesquisas comprovam fartamente. O que está em jogo é uma possível mudança profunda na política brasileira: a possibilidade de superação das velhas lideranças que construíram verdadeiros impérios regionais, associando negócios de diversos tipos, corrupção política, crime organizado, apropriação de recursos públicos, grilagem de terras, uso das concessões de rádio e TV como moeda de troca, entre outras práticas. Se o PT achar que vale a pena manter esse pessoalzinho para eleger Dilma, eu acho que estaríamos condenando o Brasil ao domínio do atraso por mais um longo período.

A hora de romper com as velhas estruturas é agora. Se isso vai acontecer ou não, saberemos dia 5 de julho, quando as candidaturas forem registradas no TSE. Depois, restará ao eleitor escolher o menos pior entre os nomes que os partidos nos apresentarem como opção.

* André Egg, Curitiba-PR. Blog: andreegg.opsblog.org.

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  • http://tsavkko.blogspot.com Raphael Tsavkko

    O mais irritante nesta queda do braço – fora a guerra suja em si- é a falsa idéia de que não há alternativas. A Mídia não se interessa em mostrar o que existe além e o povo se sente confortável em cair nesse jogo estúpido.

    tsavkko.blogspot.com

    • http://andreegg.opsblog.org André Egg

      Acho mesmo desonesto que a candidatura do Plínio de Arruda Sampaio não receba nenhuma cobertura da mídia. Por exemplo, mesmo sendo de um partido que teve o 3° colocado em 2006 (Heloísa Helena, com 6,5 milhões de votos, ou 6,85% dos votos válidos), o candiato do PSOL não foi convidado para a série de entrevistas da rádio CBN com os presidenciáveis.

      Agora, eu também ficou um pouco em dúvida se as propostas do PSOL são realmente uma alternativa. A insistência no socialismo é problemática como discurso eleitoral – o capitalismo vai bem no Brasil e não se pode pedir da mídia capitalista que insufle candidaturas que pretendem, em última instância, por a pique o sistema do qual elas fazem parte.

      • http://tsavkko.blogspot.com Raphael Tsavkko

        Há de se compreender o Socialismo proposto pelo PSOL e por Plínio. Conversei com ele há coisa de 2 ou 3 semanas depois do protesto contra a manutenção da Lei da Anistia e o “Socialismo” pregado pelo PSOL é um horizonte e não algo simplesmente imediato, para amanhã.

        O PSOL não tem por objetivo, em um curto prazo de tempo, modificar radicalmente o modelo, senão buscar inicialmente respostas dentro do modelo atual para que, então ele seja superado. Falamos de etapas, de um longo processo de superação do modelo atual e não de uma ruptura.

  • http://www.obemomaleacolunadomeio.blogspot.com dade amorim

    Ideologias à parte, é preciso pensar com a isenção que o momento exige. Já torci muito pelo socialismo, fui militante na faculdade, mas hoje acredito que, assim tudo na vida se modifica e sofre influências de todos os lados – porque a vida não para. O capitalismo também recebeu seu quinhão de mudanças, e hoje, até pela influência das ideias das décadas anteriores, já não precisa impedir o desenvolvimento social para dar certo.

  • http://aterceiramargemdosena.opsblog.org/ Lelec

    Oi André,

    Parabéns pelo texto e pela análise.

    É taxativo demais dizer que o PMDB “(…) não tem e nunca terá candidato próprio a presidente.” É um vaticínio que pode não se comprir em um futuro a longo prazo. Havia quem dizia que Lula nunca seria presidente… Enfim, em política nacional, a previsão mais prudente é não fazer previsões a longo prazo.

    Mas não era isso que eu queria falar.

    Gostei muito do que o Alencastro disse ao Valor Econômico, em entrevista feita pelo Diego:

    “O que me assusta é a ideia de ter Michel Temer como vice-presidente. Ele é deputado há décadas e foi presidente da Câmara duas vezes. Controla a máquina do PMDB e o Congresso à perfeição. Vai compor chapa com uma candidata que nunca teve mandato e é novata no PT. O presidencialismo pressupõe um vice discreto, porque ele é eleito de carona, para trazer alianças e palanques. Aos trancos e barrancos, instaurou-se um sistema presidencialista que tem dado certo no Brasil. O fato de haver dois turnos, associado à integração do vice na chapa do presidente, deu estabilidade ao sistema. Foi assim com Fernando Henrique e Marco Maciel. Foi assim com Lula e José de Alencar. Dilma e Temer formam uma combinação inédita: uma candidata até então sem mandato associada a um político cheio de mandatos e dono do PMDB, que é o maior partido do Brasil, mas nunca elegeu um presidente e vai com sede ao pote. O PMDB pode estabelecer um vice-presidencialismo, com um papel de protagonista que seria descabido.”

    Vejo com muita preocupação a aliança PT-PMDB. Creio que essa aliança representa definitivamente uma guinada de pragmatismo político do PT, que deixa seu papel de alternativa a uma hegemonia política com raízes históricas profundas para se tornar, ele mesmo, um sustentador dessa hegemonia histórica. Deixa de ser um vento modernizador e de boas idéias na gestão pública para se aliar ao que há de pior na política brasileira: a corrupção de Newton Cardoso, o coronelismo de Jader Barbalho, o clientelismo dos Sarney. É um pragmatismo político que representa um intolerável retrocesso.

    O exemplo de Minas é emblemático. O PT vai deixar de lançar Pimentel, um bom gestor público, com um histórico de competentes administrações municipais na prefeitura de BH, para apoiar Hélio Costa. Apoiar o PMDB em Minas é apoiar Newton Cardoso. Não por menos, o processo de apoio do PT mineiro a Costa foi tremendamente traumático para o diretório estadual do partido, provocando uma fratura difícil de ser cicatrizada.

    Temo que o desentendimento entre os diretórios nacional e estaduais fragmente politicamente o partido, fazendo-o perder sua coesão interna. E, quando se perde a coesão, é difícil se recompor: veja o PSDB, que ainda não se recuperou da disputa interna entre Serra e Alckmin pela candidatura de 2006. E, se o PT se fragmentar, quem irá preencher o vácuo será o PMDB de Jader Barbalho, de Sarney, de Newton Cardoso… É preocupante, como disse o Alencastro.

    Bom, é isso, desculpe-me pelo tamanho do comentário…

    Abraço!

    • http://andreegg.opsblog.org André Egg

      Lelec,

      obrigado por vir comentar. Comentários longos são sempre bem-vindos, quando tem a consistência que você costuma dar aos seus.

      Quando eu escrevi este artigo tinha esperança que o PT não fosse de Hélio Costa.

      Conheço a avaliação do Alencastro, mas discordo dele em um aspecto: o Temer não tem o PMDB na mão, sequer em São Paulo, seu próprio estado, onde o partido apóia Serra.

      Eu jamais vou votar numa chapa com o Temer de vice. Não que eu ache que ele vai dominar alguma coisa. Simplesmente considero o fato de que acidentes acontecem, Dilma pode ir pro vinagre, e aí, não quero entregar o país na mão desse cara.

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