Entra Gleisi Hoffmann

por André Egg

Antonio Palocci entregou seu pedido de demissão do cargo de Ministro Chefe da Casa Civil. A imprensa e a oposição foram os mais ativos em tentar fritá-lo, mas no fundo ele foi vítima de fogo amigo. Parece que as explicações que deu sobre seu crescimento patrimonial satisfizeram o Ministério Público, e ele tinha inclusive declarado tudo no Imposto de Renda.

O caso do enquecimento do ministro assusta não porque ilegal. Ele fez o que fizeram muitos, usando seu conhecimento privilegiado da máquina pública para amealhar dinheiro com consultorias. Afinal, que empresa não gostaria do conhecimento da máquina pública que tem a oferecer um “consultor” que já foi Ministro da Fazenda? Assusta que dentro do próprio PT ninguém tenha se mexido em sua defesa. O fato é que suas pretensões políticas (candidato a governador de São Paulo? a presidente?) o tornaram alvo fácil de denúncias.

Alçado a um posto importante no governo Lula, Palocci surgiu como possível contraponto a uma perigosa onipotência de José Dirceu como articulador político. Dirceu era o homem que conhecia o Congresso e que controlava o PT. Caído Dirceu, Palocci podia cair também – afinal, não interessava a Lula que Dirceu fosse um superpoderoso dentro da máquina federal, nem tampouco que Palocci gozasse do poder que teria sem Dirceu para enfrentá-lo. Essa a habilidosa engenharia política de Lula.

E, afinal, parece que Palocci desempenhou um papel importantíssimo em ser o homem a convencer Lula de que a estabilidade da moeda era uma questão prioritária. No governo Dilma, foi cuidadosamente mantido distante do núcleo da política econômica, onde Dilma vem fazendo mudanças significativas, sem o medo que Lula tinha, causado pela sua total ignorância no assunto. Já Dilma tem o medo e a ignorância inversos ao de Lula: é inábil no trato político com os aliados e, para cuidas dessas necessidades, tinha designado Palocci.

Palocci tinha acabado de ser inocentado pela arquivação do pedido de investigação por parte da Procuradoria da República, mas decidiu pedir demissão justamente porque sua situação no governo ficou insustentável. Ele já vinha sendo fritado quase que desde antes de assumir.

A indicação da senadora Gleisi Hoffmann para o cargo causa diversas surpresas. Mas devia ser previsível.

Primeiro, porque Dilma quer oportunidades de nomear mulheres em seu governo. E não eram muitas as possibilidades, um dos motivos que levou à atabalhoada nomeação de Ana de Holanda (outra que podia cair logo). Com a nomeação de Gleisi, Dilma atende essa necessidade.

Outra questão envolvida indiretamente é que, com a ida de Gleisi para o ministério, assume o Senado um indicado de Orlando Pessuti, aquele governador do PMDB que desistiu da candidatura à reeleição no Paraná a pedido de Lula e para apoiar uma chapa de consenso.

Se Gleisi será boa ministra?

Não sei. Parece que é uma boa gestora (Dilma a conheceu quando era ministra das Minas e Energia, Gleisi trabalhava na diretoria finceira de Itaipu – antes disso, já tinha sido secretária do governo de Zeca do PT no Mato Grosso do Sul), e tem articulação próxima com o núcleo duro do governo há tempos, por ser casada com o ministro Paulo Bernardo.

A nomeação de Gleisi tem efeitos contraditórios para o Paraná: por um lado, um aumento da influência política do estado no Governo Federal, que agora será maior do que talvez já tenha sido nos tempos de Ney Braga (além de Gleisi, Paulo Bernardo está nas Comunicações, onde tem Lygia Pupato na Secretaria de Inclusão Digital); por outro lado, a representação do Paraná no Senado fica ridícula – dois ex-governadores caquéticos e uma cara que nunca exerceu nenhuma atividade política significativa.


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