Turista acidental

O livro de Michael Lewis deve servir como fonte de material histórico que bons estudiosos usarão, no futuro, para análises mais profundas e ilustradas.

"Bumerangue: Uma viagem pela economia do novo terceiro mundo", de Michael Lewis

1.

O lado mais exposto de toda crise econômica é, evidentemente, o mais negro: calotes, desvalorizações, desemprego, caos social… Há, porém, certas categorias de profissionais que inequivocamente se beneficiam com crises: políticos populistas, economistas catastrofistas e alguns gestores de fundos, para citar alguns exemplos. Crises também fornecem rico material para escritores de não-ficção – toda convulsão histórica chama por cronistas, desde Heródoto e Tucídides – e nenhum deles saiu da crise iniciada em 2007 com mais prestígio que Michael Lewis.

Lewis encontra-se hoje no auge da carreira, após uma porção de best sellers, duas adaptações de grande sucesso para o cinema (Um Sonho Possível, sobre futebol americano, que teve como efeito colateral um Oscar para Sandra Bullock; e Moneyball, sobre beisebol e que até pouco tempo atrás estava nos cinemas do Brasil), o status de melhor escritor não-técnico sobre economia e mercados e comparações com uma longa tradição de grandes escritores de não-ficção (ou jornalismo literário) americanos, como Tom Wolfe, Gay Talese e Joan Didion. Se até 2008 ele já havia publicado 10 livros e era evidente seu talento para promover personagens relativamente obscuros ao centro de grandes histórias, a crise o levou a ser contratado pela revista Vanity Fair (a, diz-se, US$ 10 por palavra publicada) e atingir o grande público – Vanity Fair tem mais de 1 milhão de exemplares impressos por edição e outros incontáveis leitores na internet. (Um texto do tamanho desta minha resenha renderia cerca de 27 mil dólares para Michael Lewis.)

Bumerangue é uma coletânea de cinco artigos publicados na Vanity Fair entre abril de 2009 e novembro de 2011, levemente modificados para o livro e acrescidos de um pequeno prefácio. A inspiração para os artigos, conta o autor, veio enquanto ele trabalhava em outro livro (A jogada do século, The Big Short no original), sobre a crise do mercado imobiliário dos EUA contada do ponto de vista de alguns poucos investidores que, antecipando-a, embolsaram lucros enormes. Um deles, um gestor de fundos de Dallas chamado Kyle Bass, chamou a atenção de Lewis por acreditar que a destruição das hipotecas subprime era sintoma de uma crise muito mais profunda e difundida, que em pouco tempo iria afetar diretamente as finanças dos governos de diversos países.

Com a ideia em mente e após alguns meses recolhendo dados que pareciam alarmantes, Bass foi visitar o professor Keneth Rogoff, de Harvard, um dos maiores especialistas mundiais na história do endividamento (e calote) de governos e coautor, com Carmen Reinhart, do grande livro de referência sobre o assunto, Oito séculos de delírios financeiros: Desta vez é diferente. O encontro, como narrado por Lewis, é uma bela ilustração da dificuldade, mesmo entre acadêmicos extremamente competentes, de antecipar grandes crises econômicas:

“Mostramos os números a Rogoff”, contou Bass, “e ele simplesmente os olhou, depois reclinou-se em sua cadeira e disse: ‘Não consigo acreditar que a coisa esteja tão ruim.’ E eu retruquei: ‘Espere aí. Você é o maior especialista do mundo em balanços governamentais. Lecionou em Princeton com Ben Bernanke. Apresentou Larry Summers à segunda esposa dele. Se você não está por dentro disso, quem está?’”

O agregado de compradores e vendedores que costumamos chamar de “mercado” não estava. A crise nos EUA já tinha há algum tempo deixado de ser restrita ao mercado imobiliário e se tornado a maior crise bancária em sete décadas. Dia 15 de setembro de 2008, o Lehman Brothers, banco de investimentos com 150 anos de história, 26 mil funcionários e US$ 640 bilhões em ativos, foi à falência. No mesmo dia, foi possível comprar proteção contra um calote (na forma de credit default swap, CDS) em US$ 1 milhão em títulos da Islândia pagando-se US$ 33 mil por ano. Menos de um mês depois, o país nacionalizou seus três maiores bancos, viu sua moeda perder quase metade do valor contra o dólar americano e elevou os juros para 18% para combater a inflação e desencorajar fuga de capitais. O prêmio cobrado pelo CDS triplicou. Bass tinha acertado novamente, e, pouco tempo depois, Michael Lewis desembarcou em Reykjavik para começar a série de reportagens (ou “viagens pela economia do novo terceiro mundo”, como diz o subtítulo do livro) que se transformou em Bumerangue.

2.

A Islândia, por seu isolamento, tamanho (pouco mais de 300 mil habitantes) e disposição em abraçar a desregulamentação bancária e os prazeres e dores da alavancagem financeira é o mais bem acabado arquétipo da crise que ainda não deixou o mundo. Lewis conta que, em 2003, o setor bancário do país carregava ativos equivalentes a uma vez seu PIB. Em 2007, esses ativos haviam crescido sete vezes, em parte graças à popularidade das contas Icesave, oferecidas, com juros atrativos, pelos bancos islandeses a poupadores britânicos. Desnecesário dizer, a essa altura, que as contas (perdoem o trocadilho) foram congeladas e posteriormente derretidas e evaporadas. O tesouro britânico compensou alguns investidores e chegou a evocar leis de contraterrorismo na tentativa de recuperar o dinheiro. Poucos anos depois, a fumaça do vulcão Eyjafjallajökull atrapalhou diversos dias do tráfego aéreo do Reino Unido, e forneceu um grande epílogo metafórico para a relação entre essas ilhas do Atlântico norte. A conta total do calote dos três maiores bancos islandeses (para todo o mundo, não só o Reino Unido) ficou em US$ 63 bilhões.

O livro conta a história do espetacular colapso financeiro do país por meio de seus principais protagonistas: os islandeses, etnicamente homogêneos, ultraeducados e que, segundo Lewis, compensaram a frustração de aplicar seus anos de estudo nas indústrias pesqueira e de alumínio abraçando as mais sedutoras carreiras de banqueiros e gestores de hedge funds. A tese antropológica pode ser meio furada (a Noruega, outra nação com características parecidas, não experimentou nada próximo), mas as histórias contadas e personagens entrevistados formam uma leitura divertida e instrutiva.

Hoje, a Islândia é um caso de relativo sucesso no pós-crise, mostrando que há vida depois do calote de dívida e desvalorização da moeda – fato que os países da periferia da Zona do Euro preferem, por enquanto, deixar em segundo plano, na tentativa impossível de perdurar os desequilíbrios acumulados ao longo de anos sob uma política econômica desenhada para países que já eram ricos. Até agora, o país segue como raro caso onde más decisões de investimento e política foram efetivamente punidas: investidores perderam dinheiro, bancos quebraram e foram nacionalizados, oficiais do governo foram acionados na justiça como responsáveis pela crise. O país conseguiu enxergar que havia vida (de ótimo padrão) antes da financeirização; ajudaram, claro, suas instituições e padrões morais. Talvez por isso sua saída não seja replicável no resto do mundo em crise, mas segue como o grande exemplo de auto-engano e volta à realidade dos nossos tempos. Se o capitalismo idealmente deve ser tanto sobre benefícios quanto custos, a Islândia é o modelo a ser perseguido.

Por aqui, a revista piauí publicou dois ótimos relatos de viagens do editor João Moreira Salles à Islândia, um perto do auge da crise (“A grande ilusão“, de janeiro de 2009) e outro bem recente (“A ilha-laboratório“, de fevereiro deste ano). Ambos são altamente recomendáveis, até melhores que o capítulo de Bumerangue. João Moreira Salles tem um dos melhores textos da imprensa brasileira, seria muito bacana se ele resolvesse também viajar pelo mundo e narrar (ou filmar) suas histórias e impressões.

3.

Respeitando a ordem cronológica de publicação, o segundo capítulo de Bumerangue é sobre a Grécia. Escrito em outubro de 2010, segue altamente pertinente. Lewis desenterra uma história incrível envolvendo os monges do Monte Athos, uma península isolada do mar Egeu que é algo similar da igreja ortodoxa grega ao Vaticano católico romano – não é um estado soberano, mas goza de muita autonomia e influência. O caminho que levou os monges a se tornarem especuladores imobiliários (com ativos avaliados em mais de US$ 1 bilhão!) é a melhor história do livro (não vou adiantar aqui para não estragar a leitura).

Um bom ponto de partida para estudar a crise, creio, seria investigar o que levou uma sociedade a gerar incentivos para que monges fossem levados a acreditar que deveriam passar a comprar e vender propriedades no país inteiro. As respostas, evidentemente, não são simples. Se até hoje discute-se o que causou o crash da bolsa de Nova York em 1929 e a profunda depressão que se arrastou pelos anos 1930, a crise mais documentada da história do capitalismo deve ainda passar por muita discussão, sem grande esperança de uma conclusão definitiva. O professor do MIT Andrew W. Lo recentemente publicou um artigo (.pdf) no qual tenta extrair uma narrativa mais ou menos unificada da crise a partir da leitura de 21 livros (The Big Short é um deles) sobre o tema, escritos por acadêmicos ou jornalistas. A conclusão (tradução minha):

Nenhuma narrativa única emerge desta ampla e frequentemente contraditória coleção de interpretações, mas a total variedade de conclusões é informativa, e sublinha a urgente necessidade da profissão de economia em estabelecer um conjunto único de fatos do qual inferências e narrativas mais precisas possam ser construídas.

Conhecendo ou não as causas da crise, o povo grego continua a viver sua agonia, ao mesmo tempo querendo permanecer no Euro e sem disposição ou condições para atender às exigências da união monetária. As eleições parlamentares e a ascensão de partidos populistas e extremistas é a consequência política e social mais recente desse episódio, cujo fim, ainda que algo previsível, parece longe de ser enxergado.

4.

O caso da Irlanda é, em alguns aspectos, parecido com o da Islândia: um país insular, relativamente pequeno, que mergulhou de cabeça na desregulamentação financeira e alavancagem. O resultado parecia espetacular: no início deste século, a Irlanda era, em termos de renda per capita, o segundo país mais rico do mundo, e o modelo do “Tigre Celta” era tratado como o maior caso de sucesso da continuação e aprofundamento das políticas liberais iniciadas nos governos Reagan e Thatcher. Como na Islândia, o estouro da bolha foi devastador. O resgate dos bancos irlandeses custou ao tesouro nacional mais de 30% do PIB, e o desemprego pulou de uma mínima de 4% para perto de 14% atuais.

O fenômeno irlandês estava baseado no inflamento de uma grande bolha imobiliária. Alguns dados citados por Lewis: o setor de construção civil chegou a corresponder a um quarto do PIB do país e empregar um quinto da força de trabalho. De 1994 até o pico, o preço médio de imóveis em Dublin foi multiplicado por seis. Colm Tóibín, talvez o escritor contemporâneo mais conhecido do país, escreveu, no início de 2011, para a piauí:

Em 2006 fui convidado a debater essa relação entre o milagre econômico irlandês e a cultura irlandesa num simpósio nos Estados Unidos. Decidi observar primeiro a anatomia do milagre econômico, e algumas coisas que descobri me chocaram. Eis o que escrevi na época: “Um grande volume de atividade econômica na Irlanda está concentrado não no comércio ou na consolidação da produção, mas na construção civil. A Irlanda é, de acordo com o Bank of Ireland, a segunda nação mais rica do mundo, atrás do Japão. E, observa o banco, um aspecto crucial dessa riqueza é que é riqueza de primeira geração, criada nos últimos dez anos. Se analisarmos a riqueza da Irlanda, veremos que não é como a riqueza em outros lugares. Os irlandeses estão gastando e tomando empréstimos à vontade, mas não investem em áreas como pesquisa e desenvolvimento, que criariam mais prosperidade no futuro, mas em imóveis, que dependem dos preços do mercado imobiliário para manter seu valor.”

Tóibín, sem formação em Economia, enxergou o óbvio: em nenhum modelo ou teoria de desenvolvimento econômico de longo prazo entram alavancagem ou crescimento da importância da construção civil. A Irlanda está descobrindo que não há atalhos para o desenvolvimento, e, a julgar pelo ponto de partida antes da exuberância financeira, ainda terá pela frente vários anos de contração até voltar a um patamar de riqueza compatível com sua economia.

5.

Os dois últimos capítulos, sobre a Alemanha e a Califórnia, são os mais fracos do livro, com histórias algo deslocadas com relação às anteriores. Não houve, em ambos os casos, colapsos econômicos de proporções históricas, e os problemas dos dois lugares têm características bastante distintas.

A Alemanha descrita por Michael Lewis guarda pouca semelhança com o país que é visto como a esperança de salvação da crise européia e mostrou ter a economia mais robusta do continente – por muito tempo visto como um caso de crescimento baixo e falta de dinamismo, colhe agora os frutos de uma certa prudência ou menos atração por fogos de artifício financeiros. No livro, os financistas alemães (sobretudo os de Düsseldorf) são visto como as sardinhas que alimentavam os tubarões de Nova York e Londres, os otários que compravam os piores títulos e derivativos de crédito. A ridícula explicação de Lewis para isso passa por uma suposta atração alemã por fezes, que teria sido documentada desde Gutemberg e Lutero, passada por Hitler e chegada aos banqueiros do século XXI. Mesmo que a teoria sirva para explicar algo do caráter alemão, restaria saber como aplicá-la, por exemplo, ao caso da seguradora americana AIG, esta a maior receptora dos efluentes financeiros gerados pelas operações de securitização dos bancos de investimento.

Na Califórnia, Lewis conversou com o governator Arnold Schwarzenegger, que tentou, durante seus sete anos no cargo, encontrar uma solução para as finanças do estado mais rico do país mais rico do mundo, uma economia de tamanho aproximado (medido pelo PIB) ao do Brasil. Deixou o governo em 2011, com aprovação inferior a 25% e um estado, sob qualquer medida sensata, quebrado, tomando medidas como fechar bibliotecas públicas e reduzir efetivo do corpo de bombeiros para tentar fechar as contas. As disfunções da Califórnia poderiam servir como base para uma reflexão mais profunda sobre as consquências do desmantelamento do estado de bem-estar social e de uma estrutura tributária que não tenta corrigir desigualdades, problemas comuns ao próprio governo federal dos EUA e de outros países. Isso, porém, não tem espaço num livro dedicado ao público leigo, cuja principal função é informar com um verniz de entretenimento (ou vice-versa), o que não chega a ser um grande defeito, pensando no contexto. Bumerangue deve servir como fonte de material histórico que bons economistas, sociólogos e cientistas políticos usarão, no futuro, para análises mais profundas e ilustradas.

6.

Bumerangue, como se vê, é muito mais uma crônica do que uma história econômica. Não traz tabelas e gráficos; não defende nenhuma grande tese unificadora dos casos e, quando tenta teorizar para além deles, comete deslizes, como os descritos nos capítulos sobre a Islândia e a Alemanha. Funciona melhor como relato de viagem do que como obra de referência, mas não deixa de ter importância histórica, nem que seja apenas porque os textos de Lewis vão ser o único material que muitas pessoas vão ler sobre a crise global. Nesse sentido, esses leitores poderiam estar muito pior servidos: Lewis escreve bem, é claro e objetivo, tem grande capacidade de simplificar na medida adequada conceitos complexos (como derivativos de crédito) e tem bagagem acima da média nos assuntos que cobre: completou um mestrado em economia na London School of Economics e chegou a trabalhar em um grande banco de investimentos (o Salomon Brothers, depois fundido com o Citi). Ao deixar o banco, escreveu Liar’s Poker, um dos relatos clássicos sobre os excessos da Wall Street dos anos 1980, e iniciou uma das carreiras de escritor mais bem sucedidas dos nossos tempos.

Desde a publicação de Bumerangue, a crise financeira global não deu mostras de estar próxima a um final, e deve seguir fornecendo material para as matérias de Lewis. Não estranharia ver, em poucos anos, uma nova edição ampliada de Bumerangue, com tantos outros países com grande potencial para se juntar ao “novo terceiro mundo”. E a fama justamente conquistada por Lewis deve mantê-lo, apesar de alguns deslizes, na posição de um dos principais contadores da história desses tempos estranhos.

::: Bumerangue: Uma viagem pela economia do novo terceiro mundo :::
::: Michael Lewis (trad. Ivo Korytowski) :::
::: Sextante, 2011, 224 páginas :::
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