MPB4: Contigo Aprendi

O grupo vocal visita a música latino-americana em versões em português com instrumentais, entre outros, de Toninho Horta.

O quarteto vocal MPB4 é um dos conjuntos musicais mais antigos em atividade no Brasil. Eles estão em evidência desde que apareceram com Chico Buarque em “Roda Viva”, no Festival de 1967 da TV Record. Neste meio tempo, o conjunto continuou fazendo gravações antológicas, fez versões com belos arranjos vocais das principais canções da MPB. Este ano comemorou 45 anos de carreira com shows pelo Brasil.

Agora, acaba de lançar um disco em que mostra uma fantástica vitalidade e uma grande capacidade de se reinventar. As vozes continuam as mesmas – e também a qualidade dos arranjos vocais. A novidade é que o grupo se associou aos principais instrumentistas em atividade no Brasil para incorporar impressionantes arranjos em colaboração. O resultado é que, ao soberbo desempenho do conjunto vocal, se associam arranjos instrumentais de primeira linha de grupos que estão entre os melhores do mundo na atualidade. Some-se a isso o fato de que visitar boleros e outros gêneros latino-americanos é uma coisa que hoje os grupos brasileiros fazem sem se preocupar com aquele discurso bossanovista que recusava a vizinhança latina que tanto marcou os ouvintes brasileiros nos anos 1950, em prol de outras influências mais “chiques”. Nisto, o MPB4 aprofunda uma aproximação iniciada por Caetano Veloso em Fina Estampa – seu melhor disco como intérprete. Não à toa, Caetano escreve um interessante texto de apresentação ao disco, ressaltando justamente este lado anti-latino-americano da MPB e a delícia de ouvir o repertório na voz do MBP4.

Além dos aspectos de escolha do repertório, colaboração com grupos instrumentais e arranjos, o disco também é um marco da inserção de um conjunto quase semi-centenário no mundo das novas mídias. O MPB4 tem agora um ótimo sítio na internet, com os melhores recursos de diagramação e interatividade. O disco foi lançado pela gravadora Biscoito Fino, que hoje centraliza as melhores produções brasileiras e também tem um novo sítio bem dinâmico – foi certamente a primeira gravadora pátria a usar a internet de maneira eficiente. Mas o principal é que a Biscoito Fino aderiu sistematicamente ao iTunes da Apple – o disco do MPB4 me fez criar uma conta no sistema de venda de música eletrônica recém disponível no Brasil. É mais barato e mais rápido que comprar o CD físico. E tem muitas possibilidades para quem usa dispositivos da Apple (o que não é o meu caso – escuto no PC mesmo).

Falando especificamente do disco: eu sou suspeito para comentar. O MPB4 praticamente formou meu ouvido para música vocal, os discos e CDs do grupo que possuo eu quase furei de tanto ouvir. Todos os conjuntos que acompanham o grupo no CD têm uma coisa em comum: fazem parte do que existe de melhor no cenário violonístico mundial. O quarteto de violões Maogani já tem uma boa discografia e é um marco no cenário violonístico – ampliando em muito o conceito de arranjos para o instrumento. O Trio Madeira Brasil, com bandolim, violão e 7 cordas, é o principal conjunto de raiz no choro, ampliando o diálogo com outros gêneros musicais, trazendo belíssima contribuição ao disco. Duofel é outro conjunto de existência de décadas – os caras tocam juntos há tanto tempo que já chegaram ao “estado alfa” de entrosamento musical, mais ou menos como o próprio MPB4. No caso deles, um duo de violões que incorpora a sonoridade do violão de aço e os acordes do rock. Por último, o violão de Toninho Horta, um dos guitarristas mais influentes do mundo, principal instrumentista do Clube da Esquina, parceiro de primeira hora de Milton Nascimento, etc. Sua maneira particular de harmonizar formou os ouvidos de toda uma geração, e a guitarra brasileira é, em grande parte, filha do seu trabalho pioneiro.

Pra resumir o negócio – quem tem gosto pela sonoridade latino-americana, pelos grupos vocais brasileiros e pela música de violão (solo ou em conjuntos), vai se deliciar com este disco.

É difícil dizer qual música é a melhor. Acho que não seria exagero nenhum dizer que todas as músicas incluídas têm, neste disco, a melhor versão jamais gravada. Para afirmar isso, eu precisaria ouvir tudo, o que obviamente não fiz; mas não tenho medo dizê-lo tomando por base as músicas mais conhecidas: “Quizás, Quizás, Quizás” e “Tu me acostumbraste”.

Também não tenho medo de dizer que este é o melhor disco da carreira do MPB4, feito impressionante para um conjunto tão longevo. Digo isso porque poucas vezes ouvi um entrosamento tão ótimo entre arranjo vocal e instrumental. Que o MPB4 são quatro vozes que soam como uma só, e que eles tem alguns dos melhores arranjos vocais da música brasileira já faz um tempo que a gente sabia. A novidade é a capacidade de interagir com perfeição com arranjos instrumentais tão elaborados. Os conjuntos que trabalham no disco têm uma característica em comum: alternam entrosamento perfeito com a qualidade de solista de cada um dos músicos. Este efeito fica potencializado no encontro dos conjuntos com o MPB4, e diria também que os músicos têm neste disco um marco em suas carreiras pessoais e de conjunto. Isso é perceptível em todas as músicas, mas fica cabalmente comprovado no solo de violão de José Paulo Becker em “Quizás, Quizás, Quizás” – simplesmente memorável.

O único defeito do disco? É que a versão que comprei pelo iTunes não tem encarte, o que significa que não tenho acesso à ficha técnica de cada música, letras, fotos, etc. Tenho certeza que na versão em CD isso não é problema. A questão é se vale a pena pagar mais por isso (R$ 34,90 é o preço de tabela) e ainda lidar com o problema de espaço para guardar discos em casa.

Se você instalar o iTunes (gratuito) dá pra ouvir uns pedaços de todas as músicas aqui.


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