Paraguai: Os conflitos por terra e o impeachment de Lugo

A oposição usa seu controle do Congresso para tentar apoderar-se do cargo e estar no poder para manejar as eleições de 2013.

Está em curso no Paraguai um golpe de Estado travestido de processo de impeachment. A oposição contra o presidente Fernando Lugo usa seu controle do Congresso para tentar apoderar-se do cargo e estar no poder para manejar as eleições de 2013. O pretexto utilizado são conflitos agrários nos quais o mandatário não teve responsabilidade direta. Falei ontem à Globo News a respeito do tema, este texto aprofunda minha entrevista.

O Paraguai ainda é um país de forte caráter rural, que na última década teve significativa expansão do agronegócio, sobretudo soja e algodão. Empresas brasileiras estão muito presentes nesse setor. O processo aprofundou a concentração de terras, que tem piorado desde as manipulações da longa ditadura de Alfredo Stroessner (1954-1989), que distribuiu propriedades para seus aliados. Muitos pequenos camponeses perderam seus sítios e fazendas e engrossaram as fileiras de um ativo movimento de sem-terras, uma das bases de apoio a Lugo.

Fernando Lugo tem falado em reforma agrária, mas não tem feito movimentos significativos para implementá-la, às voltas com um Congresso dominado pelos conservadores e com as pressões brasileiras para proteger os interesses do agronegócio. Na semana passada, houve um conflito entre polícia e sem-terras numa fazenda pertencente a um ex-senador do Partido Colorado – grupo que governou o país por 70 anos, até a vitória do atual mandatário. Morreram 18 pessoas, de ambos os lados, e caíram o ministro do Interior e o chefe de polícia. É esse massacre de Curuguaty que a oposição cita como pretexto para o impeachment de Lugo.

O presidente foi eleito à frente de uma frágil e heterogênea coalizão de partidos e movimentos sociais. Seu principal aliado, o Partido Liberal, passou para a oposição, embora mantenha a vice-presidência. Se Lugo sofrer impeachment, a sigla se apossa da chefia do Estado. O presidente teve apenas um voto de apoio na Câmara dos Deputados e tudo indica que a situação no Senado será semelhante.

Lugo sofreu desgaste junto à sua base pelos escândalos sexuais de seu envolvimento amoroso com mulheres quando era padre e bispo. Enfrenta também um câncer, há dois anos. Ainda assim, os movimentos sociais paraguaios reagirarm prontamente à ameaça contra o presidente, já organizam protestos em frente ao Congresso e caravanas de camponeses rumam para a capital Assunção. É uma situação tensa que pode degenerar em conflito armado.

A Unasul enviou às pressas uma missão de alto nível formada pelos ministros de relações exteriores do bloco, num esforço de mediar a crise. Em momento de impactos regionais da crise global e uma sucessão de conflitos na Argentina, Peru e Venezuela, ninguém precisa de mais instabilidade na América do Sul. A pressão internacional tem sido decisiva nas crises paraguaias e conseguiu impedir outra tentativa de golpe de Estado na década de 1990. É um bom sinal que as Forças Armadas estejam calmas e se atendo a seu papel constitucional.


  • http://carlosorsi.blogspot.com Carlos Orsi

    Desculpe, mas por que “golpe”? Se o rito previsto na constituição paraguaia foi seguido, como é possível aplicar o conceito de golpe ao caso? Pode-se, talvez, argumentar que a constituição paraguia é ruim, mas aí é outra história.

    Processos de impeachment são sempre políticos, e um presidente que só conta com um voto a favor na Câmara — composta por represenantes eleitos pelo povo — certamente não tem mais condições políticas de governar. Se os paraguaios não gostarem, eles sempre têm a opção de dar o troco na próxima eleição.

    • Hugo Silva

      Primeiramente, não estou dizendo que vc esteja certo ou errado (nem que o autor do texto esteja), só acredito que não temos material para fundamentar, atualmente, uma resposta mais objetiva (num sentido político e jurídico) à questão do golpe (se houve ou não houve).

      A Constituição (tanto paraguaia como qualquer outra) deve ser interpretada como um todo. Certamente a paraguaia, assim como a nossa, prevê impeachment mas não prevê um processo, sendo esse processo regrado em uma lei ordinária. Assim, cumprir a parte da constituição atinente ao impeachment não parece ser difícil.

      Entretanto, se a Constituição prevê ampla defesa, contraditório e devido processo entre os seus direitos fundamentais, já que esses três direitos impedem processos sumários (no sentido de serem tão rápidos que impossibilitam uma defesa). Assim, fica difícil dizer que o processo de impeachment foi constitucional e não um golpe branco, uma vez que ele parece ter durado menos de uma semana (da Câmara dar licença para abertura de processo até o julgamento pelo Senado)! Isso cheira (e bem forte) a golpe.

    • João Paulo Rodrigues

      É golpe porque manipula o impeachment. Se o Paraguai possui uma constituição democrática, isso significa que uma pessoa só pode ser condenada mediante provas (ou pelo menosa presentação das mesmas) e após garantido seu amplo direito de defesa. Isso não foi seguido. Portanto, o processo não cumpriu com as garantias mínimas que o Estado de Direito manda assegurar. Portanto, foi um golpe.

    • http://relances.wordpress.com Vinícius de Melo Justo

      Golpe: processo ilegal que depõe um governo e estabelece outro.

      Ilegal: fora da legalidade, ou seja, em desacordo com os princípios legais estabelecidos.

      Princípios legais do Paraguai, como de qualquer outra democracia: império das leis e estado democrático de direito (leia-se: devido processo legal em todas as questões).

      Se se acha que o impeachment-miojo (boa, Mauricio!) aplicado contra Lugo devido a um confronto com mortes cujo inquérito policial ainda nem sequer foi concluído é correto, vão ter que aceitar a seguinte analogia:

      Seria correto, então, impichar o presidente brasileiro devido ao massacre da Candelária, do Carandiru ou de Eldorado dos Carajás. Se fosse Collor, por exemplo, seria conveniente à beça (especialmente se faltassem indícios de corrupção) para o Congresso brasileiro que lhe era desfavorável.

      Geralmente achamos que é golpe apenas quando é contra nossas simpatias. O caso de Lugo é tão golpe quanto os estratagemas chavistas, todos dentro da “legalidade” mas voltados a transformar a democracia num mero teatro avalizado pelas elites políticas. Não que ela já não seja isso, mas não cabe defesa dentro da própria democracia a esse estado de coisas.

      • http://carlosorsi.blogspot.com carlos orsi

        Oi, Vinícius, obrigado pelo esclarecimento. Ainda acho meio estranho aplicar a um processo de impeachment o mesmo padrão de “devido processo legal” aplicado a um julgamento criminal. Se fôssemos fazer isso aqui no Brasil, o impeachment do Collor seria golpe, também.

        A mim me parece que impeachment é mais uma medida das condições políticas de um governante em se manter no exercício do cargo do que qualquer outra coisa. O “devido processo”, no caso, é o rito descrito na lei específica, que pode (ou não) estipular prazos, meios de defesa, etc.

        • Hugo Silva

          Se a lei que disciplina o processo de impeachment não estipula prazos que garantam o devido processo legal e a ampla defesa (se aplicam a qualquer processo, administrativo, político, ou judiciário) essa lei é inconstitucional. A Constituição tem que ser obedecida como um todo e não apenas em partes (ainda mais em se tratando de direitos fundamentais). Transformar a garantia constitucional em mera garantia formal (se existe uma lei disciplinando um processo, então já está atendida a garantia) acaba com a efetividade da Constituição.

          O devido processo é aquele informado pelo contraditório que garante a ampla defesa, que tem uma acusação baseada em provas e refutável (ou, para vc q gosta de ciência, falseável), e no qual a sentença decide baseada em um processo lógico (permitindo o controle de todo o processo).

          O processo Collor teve instrução, acusação explicitando pontos, baseada em provas e tempo para defesa (e isso que a nossa lei que disciplina o processo é omissa e ruim).

          Por fim, com certeza o impeachment é um julgamento de natureza política, mas não deixa de estar sujeito aos controles democráticos e aos direitos fundamentais de todos os cidadãos (presidentes inclusos).

          • Varela

            Minha resistência, no tema, é admitir que os países da região devem julgar se processo de impeachment, realizado pelo congresso paraguaio, obedeceu a constituição paraguaia, substituindo, em tal função, a justiça paraguaia.
            Sem dúvida, a situação é diferente de Honduras, onde o presidente foi expulso por militares, com base numa ordem maluca da Corte.
            A medida para diferenciar “golpe” de “destituição constitucional” é a aparência de legalidade. Não há outra. Não existe uma autoridade suprema competente para definir um conceito de devido processo legal de aplicação compulsória a todos os países.

            • Hugo Silva

              Não creio que seja, necessariamente, uma questão de definir um conceito de “devido processo legal” universal. Entretanto, a questão pode ser abordada por esse lado: a comparação do dever ser do direito com o direito como ele é, isto é, utilizando conceitos de democracia e estado de direito para estabelecermos um mínimo e comparando estes com o direito nacional de um dado país.

              Porém, acredito que se abordarmos a questão a partir da Constituição paraguaia podemos chegar a mesma conclusão que houve um golpe por desrespeito aos direitos estabelecidos naquela carta. A Constituição paraguaia dispõe no seu artigo 17 o que ela chama de “derechos procesales” e ali temos direitos que compõe o devido processo legal: ampla defesa, acusação baseada em provas, contraditório, proibição de juízos de exceção, de julgamentos secretos, etc. Estes direitos processuais se aplicam, segundo o próprio artigo, “En el proceso penal, o en cualquier otro del cual pudiera derivarse pena o sanción”. O processo de impeachment (ou “juicio político”, segundo a Constituição paraguaia) é um processo do qual pode resultar pena ou sanção: a perda do mandato. Assim, podemos chegar a conclusão que o impeachment constituiu-se em um golpe pela violação da Constituição paraguaia (tomada como um todo, como um sistema, e não como artigos ou regras soltas).

              A Constituição paraguaia está disponível em PDF aqui: [http://www.diputadosmercosur.gov.ar/paises/paraguay/constitucionparaguay.pdf]. Autores brasileiros que tratam do impeachment (exceto pelas considerações específicas ao direito brasileiro, suas palavras podem ser aplicadas ao processo paraguaio): Cretella, José Higino e Paulo Brossard, por exemplo.

              • Varela

                Sim. Concordo. Aparentemente é inconstitucional a deposição.
                Mas, volto a insistir, os países da região não podem substituir a Corte na análise do estrito cumprimento da constituição paraguaia.
                Mais cauteloso, na análise de processos políticos de outros países, seria se restringir à verificação da competência constitucional dos órgãos que tomaram a decisão. Por exemplo: a suprema corte de Honduras não teria competência para destituir o presidente e expulsá-lo do país, com a ajuda dos militares, num processo proposto para evitar um plebiscito.
                A análise de conteúdo e rito de decisão tomada pelos órgãos competentes é muito problemática porque a gente não sabe onde deve parar.

                • Hugo Silva

                  Entendo agora a sua preocupação. Ela é mais com a autodeterminação dos povos do que com a (i)legalidade do impeachment. Realmente uma questão complicada, tendo em vista, ainda, os tratados envolvidos que possuem “cláusulas democráticas” (mercosul, unasul, etc).

  • paulo

    é lamentavel éssa cituaçao pois somos naçao ermanos e a agricultura é a mola mestre pra alimentarmos nossas familia e manter nossa saude e educaçao e sonhor presidente por favor preste mais atençao néssa gente que se sujeita a trabalhar na agricultura pra levantar a riqueza dos povos dos nossos irmaos brasileiros e paraguai com a melhor intençao de ajudar de ajudar nossos irmaos deixe de ser sem sabediria senhor presedente reforma agraria já é a soluçao com respeito e responssabilidade e deixe de usar a iguinorancia matando gente inocente o pais nao é seu é do povo e o povo merece respeito e comida na mesa .

  • Bosco

    Orsi;
    Se os poderes são independentes e hamônicos, uma constituição mau feita não pode ser pretexto para o legislativo derrubar um presidente eleito democraticamente sem que ele tenha infrigido a lei ou a constituição do país. Golpe sim, a oposição derrubou o presidente para se locupletar do poder sem nenhuma justificativa plausivel. Qual foi a justificativa para esse ato arbitrário contra um presidente eleito pelo povo democraticamente?
    A constituição da Venezuela permite a reeleição do Chaves através do sufrágio democrático do eleitor venezuelano e você insiste em chama-lo de ditador. Dois pesos e duas medidas?

  • Bosco

    O processo de Lugo durou dois dias e o presidente teve duas horas para se defender. Mesmo assim há no Brasil gente da mídia golpista nacional defendendo este processo. O Orsi, que chama o presidente venezuelano reeleito pelo sufrágio popular de ditador é um deles.

    • http://carlosorsi.blogspot.com carlos orsi

      Oi, Bosco!

      Não estou entrando no mérito de se o impeachment foi causado por motivos “puros” ou inconfessáveis, mas apenas questionando a classificação de “golpe”. Golpe envolve quebra institucional (o que Chávez, pode-se argumentar, fez quando redesenhou à força o mapa eleitoral venezuelano para garantir-se maioria no Legislativo [http://politiconomico.blogspot.com.br/2010/09/chavez-usa-artificios-para-manter.html], manobra na qual a ditadura militar brasileira, como no Pacote de Abril do governo Geisel, foi pioneira, mas não vi ninguém da esquerda latina reclamando), suspensão de eleições, etc. Até onde entendi, todo o sistema institucional do Paraguai continua igual, só mudou o nome do cara que tem o cargo de presidente.

      De novo: se o povo paraguaio achar que o instrumento do impeachment foi mal usado pelos políticos que se encontram no Legislativo (políticos que o povo paraguaio pôs no Legislativo), ele tem os meios para punir esses políticos (não votando mais neles, por exemplo, ou indo às ruas para exigir que renunciem ou que se retratem). E esse é um juízo que cabe aos peruanos fazerem, não ao Hugo Chávez, à Dilma ou a qualquer outra potência de fora do Paraguai.

      Não sei se estou sendo claro: existe uma diferença entre o mau uso de uma norma legal e a quebra do princípio da legalidade. O primeiro caso é um problema interno do país. O segundo é um problema do conjunto do mundo civilizado democrático. O Paraguai me parece estar no primeiro caso. Se virmos tanques na rua e outras coisas do gênero, posso até mudar de opinião.

      Quanto a presidentes eleitos e ditadores, que confusão tosca é essa? Desde quanto ter voto faz de um governante uma figura democrática? Hitler e Mussolini foram eleitos. Saddam Hussein era reeleito há décadas, sempre com mais de 90% dos votos.

      O que define uma democracia não são os votos do chefe do executivo, mas as liberdades populares de crítica, manifestação e expressão, a igualdade de todos perante a lei, a transparência e a honestidade dos meios de acesso ao poder e a proteção do cidadão contra os excessos do Estado.

      • GRG

        Proteção do cidadão aos excessos do Estado? Existe melhor definição desta proteção do que o “devido processo legal”? E existe maior violação deste “devido processo legal” do que um impeachment realizado, inteiramente, em menos de 48 horas?

        • http://carlosorsi.blogspot.com carlos orsi

          Claro que existe! Um menor de idade ser espancado por um policial numa favela, por exemplo. E nem por isso o Mercosul suspende o Brasil do bloco.

          Não nego que o impeachment de Lugo seja problemático, e provavelmente uma tremenda sacanagem. O que questiono é ele ser classificado, pela comunidade de governos sul-americanos, no mesmo “folder” que a tomada de La Moneda.

          • GRG

            Tá misturando alhos com bugalhos. Quer dizer que, depois do “devido processo legal”, um menor de idade poderia ser espancado por um policial numa favela?

            E se uma Constituição legalizasse a tortura e o estupro? Caso o governo deste hipotético país saísse a trucidar seus oponentes, torturando-os e estuprando-os, tu realmente teria o penacho de dizer que só haveria o “mau uso de uma norma legal”?

      • Hugo Silva

        Exatamente como disse a outra pessoa, seu conceito de estado democrático de direito está quebrado por desconsiderar ampla defesa, contraditório e devido processo. Nenhum processo de impeachment que dure 48hs pode ser considerado democrático (isso considerando só a duração do processo, visto que parece haver outras facetas não democráticas).

  • Dawran Numida

    Uma coisa que deveria estar muito clara nesse caso, seria que o povo paraguaio é adulto o suficiente para tomar suas decisões e arcar com as consequências delas.
    Pelo que consta, ao ser membro do Mercosul, não garante que outros membros da união aduaneira possa imiscuir-se em aspectos da política interna do país, é de crer-se. Nem a Unasul teria tal poder, como não há nenhuma instituição supranacional capaz disso. Exceto a ONU, em questões humanitárias, ou quando guerras causam vítimas civis em proporções incabíveis.
    Mesmo assim, a ONU, foi praticamente inerte em Ruanda quando do genocídio de mais de 800 mil pessoas. E ainda, conforme relatos sobre caso, não se usava a palavra genocídio, para não ser obrigada a ONU a entrar para proteger, de forma armada, as pessoas que estavam sendo trucidadas por mera questão “racial”. Então, falava-se em “guerra civil” e não em genocídio.
    Voltando ao caso do Paraguai, ficam estranhos os atos que praticamente isolam o país, colocando o Congresso e a oposição paraguaias como “golpistas”. Da mesma forma que fizeram com Honduras.
    Oras, o Paraguai é o único país do Mercosul que ainda não votou a entrada da Venezuela no Mercosul. Por quê? Porque está usando sua prerrogativas de país soberano e não sujeitando-se a aspectos outros que não sejam de seu interesse, é de crer-se.
    E ai? Nesse caso também implicaria em obrigar os paraguaios a seguirem o que fizeram Brasil, Argentina e Uruguai, aceitando a entrada da Venezuela no bloco aduaneiro? Caberiam sanções ao Paraguai por essa decisão?
    Não é isolando o país que as coisas serão resolvidas. Qual país poderá, após tais atitudes isolacionistas, credenciar-se como interlocutor válido para a questão?

    • Marcos

      Dawran, você está confundindo as coisas. O Paraguai é um país soberano. É soberano, por exemplo, pra recusar a entrada da Venezuela no Mercosul enquanto não acha que ela cumpre a cláusula democrática (mas os outros países também podem pressionar, porque esse não é um assunto interno do Paraguai).

      A questão da ruptura da ordem democrática está no tratado que o Paraguai, soberanamente, assinou. Assim, a ruptura da ordem democrática deixou de ser uma “questão interna” do Paraguai e passou a ser a quebra de um compromisso assumido com seus parceiros. A Unasul e o Mercosul têm esse “poder” porque o Paraguai (como o Brasil) assinou um tratado se comprometendo a uma certa conduta com seus vizinhos. Essa conduta inclui a manutenção da ordem democrática.

      Há muitas coisas que Estados soberanos não podem fazer no século XXI. Não podem, por exemplo, torturar sua população (viola as convenções de direitos humanos que assinaram). Não podem acabar com a propriedade intelectual (ao menos se são e querem continuar Membros da OMC). E não podem sair defenestrando líderes políticos eleitos sem mais nem aquela (ao menos se se comprometeram a isso em tratados internacionais).

      O direito internacional é como qualquer outro direito: o fato de que você possa apontar esse ou aquele caso em que uma violação ocorreu e não houve punição não significa que uma violação deixe de ser uma violação. :)

      Quanto a julgar se foi golpista ou não, acho que é preciso ser um pouquinho kantiano. Se Sebastián Piñera, Presidente do Chile e direitista, sofresse processo exatamente nas mesmas condições de um Congresso dominado por esquerdistas, o que você acharia? A opinião sobre o que é golpe e o que é política democrática precisa valer independente da cor partidária de quem está do outro lado. Acho que muita gente está comentando com base em princípios mudaria na hora de princípios caso os atores da comédia fossem outros…

  • WALTER MANOCCHI

    É difissíl de engolir que que em pleno seculo XXI, ainda prevaleça e impere as oligarquias das burguesias e da elites podres do mundo. Tudo isto devemo a um capitalismo caniball e antropofagico, onde prevalece a lei do mais forte, e onde o proletariado e um instrumento descartavel, onde não serve mais joga-se no llixo. Podemos afirmar com toda convicção que 90% das elites do mundo, não merecem o ar que respiram. Nós estamos cansados de ver golpes e mais golpes, militares ou civis, e um grande mestre em promover essas situações é aquele maldito pais que todos conhecem que é o EUA. Não tenham nenhuma duvida de que esse pais está envolvido em todos os conflitos arabes. Tudo para fazer paises com pouco armamento bélico engolir a força o capitalismo canalha. É só aparecer um governo mais humano e que tente ajudar os pobres, lá vem o golpe. 90% orquestrados pela CIA. Essas elites putrefatas, estão procurando acontecer o que acontenceu na Russia em 1918, onde surgiu o 10 dias que abalaram o mundo. Onde a burguesia se atiriavam de cima dos castelos, para não morrer nas mãos do povo. Essas malditas elites estão cutucando a onça com vara curta, até chegar uma hora em que cair nas mãos do povo, e ai eles vão ver o que é bom para a tosse.

  • Dawran Numida

    Marcos-25/06/2012 em 7:05 pm.

    Não há confusão alguma. Há, sim, no fato, uma afoiteza dos demais membros em adotarem punição ao Paraguai. E não um processo de mediação.
    Agora, neste ponto, está claro que o Paraguai foi suspenso e a Venezuela foi aceita, no bloco, á revelia do Paraguai que ainda não tinha votado sobre a entrada ou não daquele país no Mercosul.
    E isso representaria o que, em sua visão? Obediência às tais cláusulas democráticas?
    Por que essas valem para a entrada da Venezuela, mas não valem para um ato soberano do Paraguai?
    Em Honduras já houve um equívoco e uma derrota incontrastável. Tanto que Honduras ainda existe e nem se fala mais em Zelaya.
    “Cor partidária” deve ter no Paraguai e seu povo é adulto o suficiente para ser de tal e qual partido, como no Brasil.
    Exceto se o conceito de Democracia só valha quando o punido seja de determinada “tonalidade”. E tom seria esse?
    Não há tom algum. O que há é uma interferência indevida em um país soberano e um povo adulto. Se houver algum tom este é de arrogância e despreparo diplomático para mediar.
    Criar mais problemas, como suspensões e adotar a Venezuela passando por cima do Paraguai etc. é fácil.
    Resolver as pendências entre Brasil e Argentina no plano do Mercosul deve ser muito difícil. E nada, nesse aspecto ainda foi resolvido.
    Agora, respondendo sua questão sobre o Chile, num suposto acaso assemelhado, a resposta simples e direta é: o Chile não daria a mínima atenção a quem quer que seja ou fosse meter-se em seus assuntos.
    E o que você acharia? Se achasse algo?
    Quer dizer que os chilenos têm de pedir licença para eleger seu presidente e seu parlamento? Oras…

    • Marcos

      1. A entrada da Venezuela no Mercosul efetivamente contraria não apenas a cláusula democrática (que é ambígua e fala em ruptura da democracia, deixando um pouco de margem para manobras à la Chávez) mas principalmente o texto do tratado. O Paraguai permanece Membro do Mercosul e seu acordo é necessário para a incorporação de um novo Membro.

      2. Essa teoria de soberania absoluta (pra matar, torturar, fazer guerra, derrubar e colocar governos) é do século XIX e nunca deu em boa coisa. Mas no caso nem é preciso discutir se o fato de a Síria ser soberana permite ao governo sírio matar cidadãos sírios, ou se a Coreia do Norte, por ser soberana, pode manter sua população em semi-escravidão. No caso, temos tratados internacionais assinados pelo Soberano Paraguai nos quais o Estado paraguaio se compromete a não romper com a democracia. Daí você pode discutir se o que houve foi ou não foi “ruptura da democracia”.

      (Mas, pela sua menção a Honduras, acredito que você não está preocupado com isso, quer saber só se houve uma “derrota incontrastável”. No seu raciocínio uma vitória justifica qualquer rupturazinha da democracia, acordar o Presidente de madrugada, apontar uma arma pra ele e mandar pra fora do país, essas coisas necessárias pra evitar ameaças à Boa Ordem Democrática.)

      Mas não tenha dúvida. Esse seu conceito de soberania está totalmente desconectado da realidade. Na verdade, nem você acredita nele. Aposto que não o aplica a países como a Líbia, Síria, Coreia do Norte, Bolívia ou Cuba, onde gostaria que o Brasil interviesse. É apenas uma ferramenta útil quando você está de acordo com o resultado da quebra da democracia.

  • Dawran Numida

    Marcos-25/06/2012 em 7:05 pm

    Os atores da comédia são os mesmos que tentaram agir em Honduras e deram com a cara na porta.

    Caso ocorresse algo assemelhado no Chile, a resposta é simples: os chilenos não dariam atenção alguma a arrogantes metidos a tutores do mundo.
    Sequer perderiam tempo em argumentar com quem quisesse ensiná-los como agir dentro de suas leis em seu próprio país.
    Simples, assim.
    E a cor das coisas, seria mais simples ainda: como dizem no interior, seria cor de jumento quando foge.

  • Dawran Numida

    Marcos-05/07/2012 em 2:35 am

    O mundo não é assim tão fácil: “…se fosse tal coisa você faria outra, se fosse ao contrário, você faria o quê”?
    Não é assim que as coisas ocorrem. Quem procura cores e posições, quando há distorções nas atitudes, não chega a lugar algum. E esse caso do Paraguai é típico.

    O fato, é que o Paraguai deve ser visto como soberano e capaz de assumir e aguentar as consequência do que assume, conforme suas leis. É isso que deve ser defendido.
    E não defender oportunistas, que tomam decisões quando um membro, não expulso, mas, suspenso, visando colocar outro membro não votado pelo membro suspenso do bloco.

    Pouco importa a “ideologia” do Congresso paraguaio ou a “ideologia” do ex-presidente, para definir se pensaria desta ou de outra forma.

    De todo modo, o Brasil deveria impor-se como medidor e não como rangedor de dentes para ninguém.
    E que fosse objetivo em política externa. Que fosse claro e não tergiverso. Mesmo quando parece que apóia alguma posição, a política externa brasileira não deixa esse aspecto claro, nunca.

    Aliás, com que meios, por suposto, o Brasil faria intervenções externas, que não fossem diplomáticas e mediadoras?

    Isso por não ter condições, nem vocação, de e para projetar forças militares a lugar algum fora de seu território. Que isso fique claro aos rangedores ideológicos de dentes: há mais de 100 anos, o Brasil não troca um tiro sequer contra algum vizinho.
    Isso deve deixar os intervencionistas frustrados.

    Mas, Marcos, o Brasil tem mais respeitabilidade como mediador de Paz. E não como seguidor de teorias ideológicas intervencionistas, de guerras, de desrespeito à soberania de outros povos.
    E no caso de Honduras, quem acabou ficando com o mico na mão, foi o Brasil. Exatamente porque, ao invés de credenciar-se como mediador, alinhou-se aos rangedores de dentes.
    Hoje, Honduras está lá. E o Brasil está em novo enrosco, do mesmo tipo e com iguais aliados, estes, sim, vivendo vários séculos passados.

  • Dawran Numida

    Marcos-05/07/2012 em 2:35 am

    “Aposto que não o aplica a países como a Líbia, Síria, Coreia do Norte, Bolívia ou Cuba, onde gostaria que o Brasil interviesse”.

    Errado, Marcos. Fazem mais de 100 anos que o Brasil não troca tiros com nenhum de seus vizinhos.
    Quanto aos demais países, o Brasil não tem e não terá, condições de projetar forças militares e nem tem tal vocação, a não ser para quem delira.

    O Brasil tem tudo a vencer, se lutar para credenciar-se como mediador para chegar-se à Paz.
    Se quiser ficar um rangedor de dentes, perderá todas, em todas as situações em que for a reboque de rangedores de dentes seletivos ou não.

    Tal como em Honduras, onde ficou com o mico nas mãos e não resolver nada, está com mico nas mãos novamente no Paraguai. E não vai resolver nada também.
    É disso que se trata e não de cores ideológicas. Isso sim, ideologias, é que são do século XIX, sendo otimista.

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