Sombras da Noite

O tragicômico da série original de TV tem um charme que Burtonville não conseguiu (ou não quis) repetir.

No mundo onde todos têm olheiras, nem tudo é tão spleen que não possamos dar umas risadas. Burtonville abre seus portões mais uma vez, convidando-nos a ver a vida de mais um de seus habitantes, numa proposta mais cômica.

O sobrenome mais ilustre de Burtonville, formado somente por rapazes, agora mostra a estória de Barnabas Collins Depp VII um pobre vampiro vítima de uma bruxa rejeitada. Aprisionado por 200 anos, ele retorna nos anos 70 para então resgatar coisas do passado. Aliás, era somente o que faltava para os Depp: ter um vampiro na família. Um fetiche dos fãs agora realizado e, claro, vivido brilhantemente até a última gota de sangue.

E por sincronicidade do destino, tudo isso acontece num lugar Stephenkingiano chamado Maine… Ah, o Maine! Longas e assombrosas estórias… Mas numa outra hora falaremos do Maine.

Barnabas não sabe que no século 20 Mefistófeles vende fast food e satã dirige um Chevy. O mal está politizado, mais vendido do que nunca e totalmente diluído na sociedade, mas sem perder o poder de sedução, obviamente. Barnabas e sua sofrida síndrome de Rip Van Winkle rendem umas gargalhadas, e uma grande dose de pena também.

O fog tragicômico desce sobre Burtonville e nos cobre como num manto molhado. As luzes da vila refletem desta vez o azul índigo. Veja que as luzes ganham uma cor predominante a cada estória. Por exemplo, em A lenda do cavaleiro sem cabeça predominava o marrom; em A fantástica fábrica de chocolate, o roxo; e, quando Burtonville invadiu Wonderland, a cor laranja dava o tom. Nesta mistura de fog e brilhos azuis, as sombras da noite se sobressaem para iluminar os rostos pálidos e com olheiras dos moradores.

Não há, porém, uma continuidade nas cenas engraçadas, e em minha opinião elas poderiam ter sido estendidas ao máximo sem prejudicar o desfecho. Fiquei esperando um pouco mais de escracho e menos aventura. Barnabas solto nas ruas dos anos 70 era um prato cheio para mais piadas. O tragicômico da série original de TV tem um charme que Burtonville não conseguiu (ou não quis) repetir.

De qualquer modo é uma estória empolgante de se presenciar. Vale pelo show de Alice Cooper e a homenagem (mais uma vez e em vida) ao grande Christopher Lee – assim como Ed Wood fez a Bella Lugosi. E de fato, para ver mais um Depp destilando seu talento com vias de sangue, dedos longos e finos e olhos penetrantes.

[trailer]


  • Matheus

    Ótimo Ana! Ainda não vi o filme, mas gostaria de ver Tim “sempre o mesmo” Burton inovando um pouco e tirando mais realismo e menos “caricaturismo” do amigo Depp.

  • Gaby

    Muito bom! Sabe que quando eu assisti, eu achei umas coisas muito bizarras….mas depois me encantei com o filme e com a capacidade do Jhonny de nao me fazer lembrar em nenhum momento do personagem mais marcante (pra mim), Jack Sparrow. Eu gosto disso. Pq tem personagens que se agarram ao ator e nao conseguimos imagina-lo em outra história.

    :D

  • Ana Al Izdihar

    Matheus, vale a pena ver sim, apesar de não ser tudo o que prometeu…

    E Gaby, você precisa ver mais os filmes “obscuros” e antigos de Johnny. Jack Sparrow vai parecer teatrinho de criança depois.

    Obrigada, galera.

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