Duas semanas em 2013

por Celso Barros

21/06/2013

A revolta também é produzida pela percepção de que o que emperra o progresso é o sistema político

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Desde que comecei a acompanhar o que, aparentemente, é a maior mobilização popular da história brasileira (ao menos em tamanho), me impressionou muito o quanto as opiniões sobre o movimento iniciado pelo MPL flutuaram bruscamente. As mudanças de opinião foram muito rápidas, e confesso que nunca vi tantas autocríticas (com direito a autocríticas da autocrítica) em período tão curto. Enquanto escrevo, a atuação dos radicais mais violentos que tentaram invadir tudo na Praça dos Três Poderes está produzindo um novo movimento de overcorrecting, desta vez contra os manifestantes (já teve uns dois desses, e alguns overcorrecting a favor). Talvez fosse o caso de modularmos melhor o diagnóstico.

Como bem disse Antonio Luiz Costa, a revolta de 2013 lembra o elefante tateado por cegos da fábula budista, cada um descrevendo o que apalpava sem ter noção de como era o bicho. O que poucos sabem é que, enquanto isso acontecia, as tropas do regime teocrático tibetano invadiram o recinto e levaram os cegos para trabalhar na colheita do arroz, fundamental para sustentar a elite monástica. O elefante aproveitou para se mandar, mas cruzou com chineses fugindo da grande fome causada pelo Grande Salto à Frente de Mao Tse Tung, que o assaram no maior rolete de churrasco da história. Ou seja: tanto os elefantes difíceis de interpretar quanto seus intérpretes precisam tomar cuidado com a realidade política a seu redor.

Eu também não sei bem como explicar a revolta de 2013, mas, atendendo a esse emocionado apelo, dou aqui meus vinte centavos (dsclp) para ajudar o eventual grande intérprete que ainda não temos.

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Eis a dinâmica como a entendi até agora, por agente e por ponto de entrada no evento: o Movimento pelo Passe Livre tinha uma pauta bastante específica, foi muito inteligente em manter o foco o tempo todo, e conseguiu uma vitória que é muito difícil não chamar de sensacional (dada sua probabilidade de sucesso no começo da briga). Não comprei a tese principal do movimento, mas isso é outra história. Em volta do MPL, os partidos e movimentos à esquerda do PT, que usaram e foram usados pelo MPL; vale dizer, duvido que os membros do MPL votem em partidos muito à direita deles, e acredito que eles sejam razoavelmente sinceros em incorporar a pauta do MPL. Em seguida, os petistas (e membros de outros partidos da base, como o PCdoB) interessados em trazer o PT mais para a esquerda, ou, simplesmente, em voltar a um campo de batalha que provavelmente lhes soa bem mais natural do que os gabinetes dos últimos dez anos. Em torno de cada um desses partidos e movimentos, suas redes: contatos virtuais, movimentos sociais próximos, simpatizantes. Essa é a turma que fez o movimento, que esteve mais ou menos desde o começo, e que é o ponto focal da mobilização.

Mas a violência policial em São Paulo, e a correção de rumos (mais do que necessária) da cobertura de imprensa, trouxe para as passeatas petistas mais convictamente governistas e, do outro lado, a oposição conservadora ao PT. É claro que cada uma dessas forças tentou levar o movimento para o lado que lhes interessava, mas é difícil negar que a entrada em campo dos dois segmentos ajudou o movimento a ganhar status de “grande conversação nacional” que lhe permitiu a vitória em sua demanda inicial.

Ao mesmo tempo em que essa dinâmica favorecia o movimento, a competição pela hegemonia nas extremidades do espectro político se acirrava. Eu interpretaria a violência dos grupos de extrema-esquerda como uma competição para determinar quem são os “verdadeiros revolucionários”. A competição por militantes entre os grupos do PSTU para lá é muito intensa, até porque há poucos militantes em disputa, ninguém tem grandes recursos para propaganda, e o gesto (ou a coreografia) revolucionário acaba se tornando um instrumento de atração. Os grupos radicais, e os alucinados que se entusiasmaram com suas táticas (será que alguém ali vai entrar nos partidinhos? Acho improvável), provavelmente trouxeram visibilidade para o movimento no começo, mas queimaram capital político nos últimos dias com a velocidade de um Lehman Brothers cheio de crack nas ideias.

Quem venceu? Ainda é difícil saber, porque sequer sabemos se o movimento acabou com a conquista dos vinte centavos (a passeata de quinta-feira, pelo que pude entender, foi tensa em várias cidades). Mas arrisco o seguinte: está meio com cara de que o MPL vai, corretamente, se contentar por enquanto com sua sensacional vitória, e que a resultante das outras (fortíssimas, muito intensas) tendências vai ser nula. Mas nenhuma dessas forças políticas vai desaparecer, e as aberturas para a conversa, bem como os rancores surgidos em 2013, vão ser parte de nossa vida política de agora em diante.

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Mas o MPL já existia antes de 2013; os partidinhos radicais já denunciam o PT como traidor desde os primeiros quinze minutos da Comuna de Paris; o desconforto da militância petista com os compromissos necessários à governabilidade (a propósito: muitos deles são mesmo necessários) faz tempo que é proporcional ao conforto de certas lideranças petistas em cargos públicos; o pessoal Marina/Gabeira sempre faz umas passeatas; e a direita caixa-de-comentários-de-portal quer derrubar o PT desde que FHC começou a botar a faixa no Lula. Por que, afinal, a roda engrenou só agora?

Entre os modelos mais tradicionais para explicar revoluções, o que mais claramente parece se aplicar aqui é o de Tocqueville: a revolta vem não quando tudo vai mal, mas quando um período de progresso, durante o qual as expectativas crescem muito, é bruscamente interrompido. Os indicadores de bem-estar brasileiro cresceram muito nos últimos anos (nem tudo é mérito do governo do PT, muita coisa obviamente é). Mas PIB de 0,9% com inflação subindo é uma interrupção bem brusca. A pertinência do Tocqueville para o caso brasileiro foi notada por Tyler Cowen, mas deve ter tido mais gente falando disso.

Na verdade, não é só a frustração brusca das expectativas que produz a revolta, mas a percepção de que o que está emperrando o progresso é o sistema político. Essa percepção não é totalmente verdadeira (há uma crise mundial razoável, não sei se alguém ainda está prestando atenção; inclusive, tem umas outras revoltas por aí), mas está longe de ser absurda. O evidente esgotamento do modelo de combate à crise mundial por incentivo ao consumo pode exigir decisões políticas difíceis. Marcos Nobre tem certa razão quando identifica a revolta, em parte, contra o “peemedebismo”, um certo equilíbrio político por conchavo que congela os impasses, embora eu ache que a tese do peemedebismo mereça ser melhor discutida.

Discordo de Nobre quando ele vê também uma revolta contra a tecnocracia, o que me parece aplicação mecânica de diagnósticos sobre o 68 europeu, e, o que é mais importante, ignora que a melhora dos serviços públicos, bem identificadas por Fernando Dantas como um horizonte possível e provável para a evolução das manifestações, provavelmente passa por mais e melhor tecnocracia, entre outras coisas.

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É difícil saber o que vai acontecer com o sistema político em função da revolta. Em um primeiro momento, naturalmente, nada. As chances dos revolucionários e/ou golpistas dentro do movimento conseguirem derrubar o governo Dilma, ou o técnico do Taiti, me parecem bem pequenas. Não há uma crise imediata da capacidade do Estado de se manter.

Entretanto, eventualmente, o impacto do movimento vai chegar dentro do sistema. Isso, aliás, pode não ser bonito. As depredações no Rio e em Brasília se tornam piores, e a reação da polícia novamente perde qualquer medida. Há um cenário bem ruim em que a direita moderada, que manteve alguma abertura para ouvir os manifestantes, perde espaço para o muar-reinaldazevedismo, denunciada por ser molenga com os petistas. Há outro cenário em que o PT se entusiasma em pedir mais esquerdismo do governo, o que pode ter também consequências bem feias (como estourar as contas públicas, o que agravaria a crise).

Esse novo despertar do petismo pode ser uma boa ideia, por exemplo, se bolarmos uma reforma tributária que favoreça o investimento e a progressividade (podem parecer objetivos contraditórios, mas são apenas difíceis de conciliar), ou se a pauta ambientalista receber mais atenção. Talvez tenha havido potencial para um reembaralhamento das identidades partidárias brasileiras, o que poderia vir a favorecer, por exemplo, Marina Silva; mas acredito que isso não se concretizou. Me parece que a polarização até se acirrou em alguns momentos. Não sei. Devo dizer, de todas as dimensões do evento, a que menos me sinto capaz de prever é como evoluirão as identidades políticas pós-2013.

Suspeito que, após a conquista das passagens de ônibus mais baratas, e o aniquilamento mútuo dos agregados do movimento hoje e nos próximos dias, o movimento reflua. Vai surgir muita gente dizendo que, no fundo, não foi nada. Foi sim. Podem acreditar que os líderes políticos brasileiros, digam o que disserem, vão lembrar desses quinze dias em 2013. Falta foco na melhoria dos serviços públicos, e se tem um troço que pode fazer o sujeito ter mais foco é um susto.

—— PS: Todos sabemos em quem os anti-partido votam, né não?

Celso Barros

Mestre em Sociologia pela Unicamp e doutor por Oxford.