Duas semanas em 2013

Não é só a frustração brusca das expectativas que produz a revolta, mas a percepção de que o que está emperrando o progresso é o sistema político.


malddad

Desde que comecei a acompanhar o que, aparentemente, é a maior mobilização popular da história brasileira (ao menos em tamanho), me impressionou muito o quanto as opiniões sobre o movimento iniciado pelo MPL flutuaram bruscamente. As mudanças de opinião foram muito rápidas, e confesso que nunca vi tantas autocríticas (com direito a autocríticas da autocrítica) em período tão curto. Enquanto escrevo, a atuação dos radicais mais violentos que tentaram invadir tudo na Praça dos Três Poderes está produzindo um novo movimento de overcorrecting, desta vez contra os manifestantes (já teve uns dois desses, e alguns overcorrecting a favor). Talvez fosse o caso de modularmos melhor o diagnóstico.

Como bem disse Antonio Luiz Costa, a revolta de 2013 lembra o elefante tateado por cegos da fábula budista, cada um descrevendo o que apalpava sem ter noção de como era o bicho. O que poucos sabem é que, enquanto isso acontecia, as tropas do regime teocrático tibetano invadiram o recinto e levaram os cegos para trabalhar na colheita do arroz, fundamental para sustentar a elite monástica. O elefante aproveitou para se mandar, mas cruzou com chineses fugindo da grande fome causada pelo Grande Salto à Frente de Mao Tse Tung, que o assaram no maior rolete de churrasco da história. Ou seja: tanto os elefantes difíceis de interpretar quanto seus intérpretes precisam tomar cuidado com a realidade política a seu redor.

Eu também não sei bem como explicar a revolta de 2013, mas, atendendo a esse emocionado apelo, dou aqui meus vinte centavos (dsclp) para ajudar o eventual grande intérprete que ainda não temos.

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Eis a dinâmica como a entendi até agora, por agente e por ponto de entrada no evento: o Movimento pelo Passe Livre tinha uma pauta bastante específica, foi muito inteligente em manter o foco o tempo todo, e conseguiu uma vitória que é muito difícil não chamar de sensacional (dada sua probabilidade de sucesso no começo da briga). Não comprei a tese principal do movimento, mas isso é outra história. Em volta do MPL, os partidos e movimentos à esquerda do PT, que usaram e foram usados pelo MPL; vale dizer, duvido que os membros do MPL votem em partidos muito à direita deles, e acredito que eles sejam razoavelmente sinceros em incorporar a pauta do MPL. Em seguida, os petistas (e membros de outros partidos da base, como o PCdoB) interessados em trazer o PT mais para a esquerda, ou, simplesmente, em voltar a um campo de batalha que provavelmente lhes soa bem mais natural do que os gabinetes dos últimos dez anos. Em torno de cada um desses partidos e movimentos, suas redes: contatos virtuais, movimentos sociais próximos, simpatizantes. Essa é a turma que fez o movimento, que esteve mais ou menos desde o começo, e que é o ponto focal da mobilização.

Mas a violência policial em São Paulo, e a correção de rumos (mais do que necessária) da cobertura de imprensa, trouxe para as passeatas petistas mais convictamente governistas e, do outro lado, a oposição conservadora ao PT. É claro que cada uma dessas forças tentou levar o movimento para o lado que lhes interessava, mas é difícil negar que a entrada em campo dos dois segmentos ajudou o movimento a ganhar status de “grande conversação nacional” que lhe permitiu a vitória em sua demanda inicial.

Ao mesmo tempo em que essa dinâmica favorecia o movimento, a competição pela hegemonia nas extremidades do espectro político se acirrava. Eu interpretaria a violência dos grupos de extrema-esquerda como uma competição para determinar quem são os “verdadeiros revolucionários”. A competição por militantes entre os grupos do PSTU para lá é muito intensa, até porque há poucos militantes em disputa, ninguém tem grandes recursos para propaganda, e o gesto (ou a coreografia) revolucionário acaba se tornando um instrumento de atração. Os grupos radicais, e os alucinados que se entusiasmaram com suas táticas (será que alguém ali vai entrar nos partidinhos? Acho improvável), provavelmente trouxeram visibilidade para o movimento no começo, mas queimaram capital político nos últimos dias com a velocidade de um Lehman Brothers cheio de crack nas ideias.

Quem venceu? Ainda é difícil saber, porque sequer sabemos se o movimento acabou com a conquista dos vinte centavos (a passeata de quinta-feira, pelo que pude entender, foi tensa em várias cidades). Mas arrisco o seguinte: está meio com cara de que o MPL vai, corretamente, se contentar por enquanto com sua sensacional vitória, e que a resultante das outras (fortíssimas, muito intensas) tendências vai ser nula. Mas nenhuma dessas forças políticas vai desaparecer, e as aberturas para a conversa, bem como os rancores surgidos em 2013, vão ser parte de nossa vida política de agora em diante.

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Mas o MPL já existia antes de 2013; os partidinhos radicais já denunciam o PT como traidor desde os primeiros quinze minutos da Comuna de Paris; o desconforto da militância petista com os compromissos necessários à governabilidade (a propósito: muitos deles são mesmo necessários) faz tempo que é proporcional ao conforto de certas lideranças petistas em cargos públicos; o pessoal Marina/Gabeira sempre faz umas passeatas; e a direita caixa-de-comentários-de-portal quer derrubar o PT desde que FHC começou a botar a faixa no Lula. Por que, afinal, a roda engrenou só agora?

Entre os modelos mais tradicionais para explicar revoluções, o que mais claramente parece se aplicar aqui é o de Tocqueville: a revolta vem não quando tudo vai mal, mas quando um período de progresso, durante o qual as expectativas crescem muito, é bruscamente interrompido. Os indicadores de bem-estar brasileiro cresceram muito nos últimos anos (nem tudo é mérito do governo do PT, muita coisa obviamente é). Mas PIB de 0,9% com inflação subindo é uma interrupção bem brusca. A pertinência do Tocqueville para o caso brasileiro foi notada por Tyler Cowen, mas deve ter tido mais gente falando disso.

Na verdade, não é só a frustração brusca das expectativas que produz a revolta, mas a percepção de que o que está emperrando o progresso é o sistema político. Essa percepção não é totalmente verdadeira (há uma crise mundial razoável, não sei se alguém ainda está prestando atenção; inclusive, tem umas outras revoltas por aí), mas está longe de ser absurda. O evidente esgotamento do modelo de combate à crise mundial por incentivo ao consumo pode exigir decisões políticas difíceis. Marcos Nobre tem certa razão quando identifica a revolta, em parte, contra o “peemedebismo”, um certo equilíbrio político por conchavo que congela os impasses, embora eu ache que a tese do peemedebismo mereça ser melhor discutida.

Discordo de Nobre quando ele vê também uma revolta contra a tecnocracia, o que me parece aplicação mecânica de diagnósticos sobre o 68 europeu, e, o que é mais importante, ignora que a melhora dos serviços públicos, bem identificadas por Fernando Dantas como um horizonte possível e provável para a evolução das manifestações, provavelmente passa por mais e melhor tecnocracia, entre outras coisas.

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É difícil saber o que vai acontecer com o sistema político em função da revolta. Em um primeiro momento, naturalmente, nada. As chances dos revolucionários e/ou golpistas dentro do movimento conseguirem derrubar o governo Dilma, ou o técnico do Taiti, me parecem bem pequenas. Não há uma crise imediata da capacidade do Estado de se manter.

Entretanto, eventualmente, o impacto do movimento vai chegar dentro do sistema. Isso, aliás, pode não ser bonito. As depredações no Rio e em Brasília se tornam piores, e a reação da polícia novamente perde qualquer medida. Há um cenário bem ruim em que a direita moderada, que manteve alguma abertura para ouvir os manifestantes, perde espaço para o muar-reinaldazevedismo, denunciada por ser molenga com os petistas. Há outro cenário em que o PT se entusiasma em pedir mais esquerdismo do governo, o que pode ter também consequências bem feias (como estourar as contas públicas, o que agravaria a crise).

Esse novo despertar do petismo pode ser uma boa ideia, por exemplo, se bolarmos uma reforma tributária que favoreça o investimento e a progressividade (podem parecer objetivos contraditórios, mas são apenas difíceis de conciliar), ou se a pauta ambientalista receber mais atenção. Talvez tenha havido potencial para um reembaralhamento das identidades partidárias brasileiras, o que poderia vir a favorecer, por exemplo, Marina Silva; mas acredito que isso não se concretizou. Me parece que a polarização até se acirrou em alguns momentos. Não sei. Devo dizer, de todas as dimensões do evento, a que menos me sinto capaz de prever é como evoluirão as identidades políticas pós-2013.

Suspeito que, após a conquista das passagens de ônibus mais baratas, e o aniquilamento mútuo dos agregados do movimento hoje e nos próximos dias, o movimento reflua. Vai surgir muita gente dizendo que, no fundo, não foi nada. Foi sim. Podem acreditar que os líderes políticos brasileiros, digam o que disserem, vão lembrar desses quinze dias em 2013. Falta foco na melhoria dos serviços públicos, e se tem um troço que pode fazer o sujeito ter mais foco é um susto.

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PS: Todos sabemos em quem os anti-partido votam, né não?





Celso Barros

Mestre em Sociologia pela Unicamp e doutor por Oxford.








MAIS RECENTES


  • Tiago Mesquita

    Celso, não seria a hora de pensarmos a forma desses protestos? Aqui em São Paulo foram todos feitos sem carro de som, sem liderança e sem assembleias nas ruas. Será que isso não abriu a possibilidade da direita interpretar o que acontecia como quisesse e fizesse o uso que quisesse dos acontecimentos?

    Eu não tenho certeza de nada, mas acho que a forma em que os protestos foram conduzidos, parece importar.

  • Pablo Vilarnovo

    Para mim isso é a revolta da classe média. Não aquela classe média inventada através de tortura estatística e diminuição de parâmetros. A classe média de fato. Aquela de olhos azuis. Aquela que a Chauí chama de fascista. Aquela que paga a conta. Em outras palavras: o copo transbordou.

    Como não existem partidos de direita no Brasil, se o PT quer ter um novo despertar como você diz, terá que caminhar, obrigatoriamente para a direita.

  • Denis Correa

    Celso, sou teu fã. Sério. Concordo com teu sóbrio diagnóstico sobre como tudo isso vai atacar os gabinetes do PT e as eleições.

    Mas faltou um questionamento aí: e o MPL? O que o MPL tinha de tão especial? Como ele conseguiu causar tudo isso?

    Você apenas menciona que não comprou a tese do movimento (qual, a tarifa zero?). Mas aí vamos buscar a raiz disso, a revolta do buzu em Salvador 2003, os quebras quebras em várias capitais em 2004 e 2005 por causa do preço da passagem (antes da boa fase econômica se consolidar, note-se). Dali surgiu um movimento com pauta, objetividade (que é o que mais falta em universidade brasileira), e que chegou em 2013 com força e conseguiu pautar a discussão e levar o povo pra rua. Lógico que o pessoal se chocou quando descobriu que o “povo” é conservador pra dedéu, e a coisa fugiu do controle.

    Mas o que o MPL tem que outros movimentos sociais não tem? Porque os sindicatos de professores do ensino básico não conseguem fazer pela educação o que o MPL fez pelo transporte. Esta é a questão que faltou na sua análise, e todo o pessoal do facebook que ficou fissurado com a ideia de que vai ter golpe a qualquer momento.

    Eu não conheço ninguém do MPL, mas não dá pra negar que os caras fizeram um trabalho foda demais.

  • Bárbara

    Não é que a Marilena Chauí diga que a classe média é fascista.
    É que ela É, de fato, fascista.
    A classe média sempre apoiou – e sempre apoiará – iniciativas, governos e ditaduras totalitaristas. Foi assim na Europa, foi assim na América Latina, será assim em qualquer lugar do mundo onde tenha gente fascista disposta a tomar o poder.

    (Mal sabem eles que eles pagam a conta de qualquer jeito, com direita, esquerda, ditadura do proletariado ou ditadura fascista…)

    • Gerson B

      Tão simplista que dá pena. Então apenas por pertencer a um grupo de uma faixa de renda a pessoa é fascista? As classes médias de TODOS os povos são fascistas, em todas as épocas? As escandinavas são igual às dos EUA? Nos EUA, a classe média californiana é igual à do Bible Belt? A classe média que foi às ruas pelas Diretas Já era fascista? Apoiava a ditadura? A classe média do RJ que se mobilizou pra impedir a fraude contra o Brizola era fascista?

      É cada uma que se lê…

      • Antonio

        A classe média sempre apoiou – e sempre apoiará – iniciativas, governos e ditaduras totalitaristas.

        Como disseram, E a classe média que saiu às ruas contra a ditadura militar ? E a classe média que saiu às ruas na revolução do veludo? E a classe média que saiu às ruas para as revoluções 1989? E a classe média que sai às ruas contra os governos bolivarianos da Bolívia, Venezuela e Argentina ?

        Essa revolta esquerdista contra a classe média porque é justamente na classe média onde se encontra a maior resistência aos regimes totalitários comunistas.

  • Pablo Vilarnovo

    Realmente foi a direita que gritava: Sem burguês! Enquanto destruia a fachada da prefeitura de SP. Foi a direita que destruiu a ALERJ aqui no Rio. Aliás, a direita tem uma enorme predileção para destruir bancos.

    É mais que óbvio que quem está espalhando esse negócio de golpe é a própria esquerda como tentativa de conter os danos dos protestos. Pricipalmente se a pauta da corrupção colar. Ai vai sobrar para muita gente da esquerda. É esse o medo.

    • Antonio

      Sim, de repente a esquerda virou pacifista e a classe média virou revolucionária ? Se você ver essas pessoas que estão destruindo os bancos, as lixeiras etc tem o mesmo perfil das pessoas que invadiram a reitoria da USP e tocaram o terror lá dentro.

      O medo da esquerda com a pauta da corrupção é justamente essa, o Mensalão. Quando alguém pensa em corrupção, esse é o primeiro caso que vem a mente.

  • José Guilherme

    A coisa que estou sentindo falta é de pesquisas que envolvam toda a população brasileira pelo Datafolha e do Ibope sobre esses protestos. Não quero as pesquisas feitas entre os manifestantes, internautas utilizadores das mídias sociais ou pelo telefone no programa do Datena…
    Isso porque, bem como observa o Sakamoto em sua coluna, a grande maioria da população brasileira é bem conservadora. Fora o que foi dito por aqueles que participaram do ato, o que os demais estão pensando disso. Não me refiro apenas ao fato de achar justa ou não a manifestação pela redução das passagens:
    http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2013/06/21/e-em-sao-paulo-o-facebook-e-o-twitter-foram-as-ruas-literalmente/
    Todos os usuários do facebook representariam 30% da população Brasileira. Assim, mesmo que todos os usuários estivessem a favor das manifestações, isso representa apenas 30% da população. Quem arrisca algum palpite?

  • angela xavier

    Meu querido, independente de achar que muito tem que ser mudado, desde o início das manifestações suspeitava que aquela explosão toda de civismo por um lado, e violência (policial e de parte dos manifestantes) não era espontânea hoje ao navegar pela rede deparei com doi vídeos : um anterior às manifestações :

    e outro do dia 18/06:

    Nenhum dos dois vem do povo, nem da juventude que vive e mora aqui, que vai para escola, que labuta, que pega onibus, barca ou trem lotado. Nenhum deles faz parte da massa que acorda às 5:30 e chega em casa depois de 12;00 ou mais trabalhado. Deixo os links aqui para sua reflexão e dos seguidores.

  • Pingback: Pequenas anotações de viagens virtuais 67: de volta! - Uma Malla Pelo Mundo()

  • Vanildo Oliveira

    Tenho investido tempo em tentar entender um pouco melhor o que está se passando em nosso País. Busco informações a partir de diversas fontes. Direita, esquerda, etc.

    Um ponto que é comum é que independente da análise, seja de vertente sociológica, política, econômica, antropológica, e afins, sempre se valoriza ou se ataca os avanços sociais nos últimos 10 anos, que deliberadamente amplio para 15.

    Porém pouco se fala de que uma parcela significativa da população, majoritariamente composta pela classe média (que não sabia que era sinônimo de fascismo) tem hoje conhecimento prático do que é bem estar social e serviço de qualidade. A grande fonte de transformação da sociedade foram as filas nos aeroportos, mesmo que seja para ir a Miami. Viajado descobrimos o quanto avançamos em comparação com outros, porém o quanto estamos atrasados em relação ao que se chama de países desenvolvidos.

    Associado a isso, o já falado fator da superconectividade, aonde o Mundo realente se tornou uma aldeia, faz com que a informação e o conhecimento não tenha fronteiras. De tudo se sabe e de tudo se vê.

    As transformações que estamos passando espero que sejam de caráter social, para uma nova consciência e não meramente a busca por um remanejo político.

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