PESQUISA

Um exercício de autoanálise

por Maurício de Almeida (06/06/2014)

Neste romance, um psiquiatra vai seguir obsessivamente os passos de um ex-paciente

"Sérgio Y. vai à América", de Alexandre Vidal Porto. (Companhia das Letras, 2014, 184 páginas)

“Sergio Y. vai à América”, de Alexandre Vidal Porto. (Companhia das Letras, 2014, 184 páginas)

O novo romance de Alexandre Vidal Porto nasceu premiado: em 2012, Sergio Y. vai à América foi vencedor da categoria Romance do prêmio Paraná de Literatura. Já conhecido no meio literário (ele publicou Matias na Cidade em 2005), o diplomata e colunista da Folha de S. Paulo se destacou entre os 878 inscritos no concurso ao apresentar um livro que trabalhava temas como deslocamentos, sexualidade e busca por felicidade. Entretanto, ao longo da leitura, outras camadas surgem e esses temas se entrelaçam e ganham força de tal sorte que o enredo ultrapassa a história que conta.

Em linhas muito gerais (uma vez que se trata de um romance algo detetivesco), Sergio Y. vai à América é o relato do psiquiatra Armando sobre um dos pacientes dele: Sergio Yacoubian. Jovem de 17 anos, Sergio é filho de uma próspera família paulistana, estudioso e saudável, isto é, e tal como resume Armando, “tudo lhe indicava felicidade”. No entanto, Sergio é triste. Armando tenta compreender o mal que aflige o rapaz, mas não tem tempo. Depois de passar um período de férias em Nova Iorque, Sergio retorna ao consultório apenas para entregar ao psiquiatra dois presentes, agradecer as dicas de viagem e encerrar o tratamento.

Armando é pragmático e desapegado dos pacientes, mas Sergio Y. permanece no imaginário dele. Encontros fortuitos com a família do rapaz também nutrem suas recordações e atualizam seu paradeiro: Sergio mora em Nova Iorque, estuda gastronomia e pretende abrir um restaurante. Mas uma inesperada matéria de jornal recoloca o antigo paciente na vida dele de forma incontornável, quase obsessiva. Desenrola-se então a empreitada de Armando em refazer os passos de Sergio para compreender a participação e responsabilidade dele nas escolhas que o jovem fez.

Estruturado em capítulos curtos e numa linguagem polida, inteligente e articulada própria de um senhor de setenta anos que é tido por seus pares como um dos melhores psiquiatras do país, o romance de Alexandre Vidal Porto transcende a história de Sergio, que é, afinal, o mote do enredo. Não há dúvidas de que a trama detetivesca é ponto importantíssimo na construção da narrativa; afinal a vida do personagem título apresenta-se cheia de reviravoltas, em grande medida devido às discussões a que se propõe (morte, deslocamentos e, sobretudo, identidade e sexualidade). Todavia, elemento discreto e fundamental ao livro é a narração de Armando. E, tão discreto e fundamental quanto a narração, é a posição central que o narrador assume na história que conta.

Neste sentido, muito embora soe apenas um artifício narrativo, o primeiro capítulo (“Tudo que você precisa saber sobre mim”) não se trata apenas de tomarmos conhecimento de um personagem secundário, justificativa utilizada pelo narrador para se habilitar a contar a história de outrem. Trata-se, sobretudo, de conhecermos o personagem que, tal como no processo psicanalítico, assume a centralidade da trama que relata. Ainda que fale sobre outro, ele fala sobre si mesmo.

Acostumado com uma rotina cotidiana de trabalho, Armando só suspende esse hábito nas férias na casa de veraneio no litoral ou nas esporádicas visitas à filha em Nova Iorque. Ele é metódico, algo obsessivo com limpeza e muito controlado. Desde a morte da mulher, com a qual lidou de forma lógica e distante, até o modo como trata os pacientes, deduz-se que Armando é (quase excessivamente) comedido, nada temperamental e pouco aberto a concessões.

Contudo, a partir do momento em que se envolve com o paradeiro de Sergio Y., Armando entra num processo de rompimento desses hábitos e (ainda que não elabore diretamente) uma revisão de suas características mais marcantes. Mesmo que resuma o impacto da história do paciente na vida dele como um aprendizado de humildade, Armando passa por um processo maior, que, muito embora não nomine (talvez sequer tenha consciência), o faz rever a vida como um todo. Assim, a história que ele conta, ainda que seja guiada pelo drama de Sergio, é sua própria história de transformação.

Não por acaso o livro é notadamente marcado por paralelismos. Na medida em que Armando estabelece o paralelo entre a história de vida de Sergio e a de Angelus, um livro biográfico que descobriremos fundamental às escolhas do jovem, fica claro o paralelo que o próprio Armando cria com Sergio – ainda que o psiquiatra não se dê conta disso.
O paralelo Armando/Sergio é explicitado quando Armando se vê obrigado a ir para Nova Iorque acompanhar a formatura da filha. Nessa viagem, ele trava contato com a realidade em que Sergio Y. viveu e, de certa forma, a refaz:

Parado ali em frente ao consultório da dra. Coutts, me vinha a imagem de Sergio Y. diante da porta. Seu dedo tocara o mesmo botão do interfone que eu tocaria. Sua mão tomara a mesma maçaneta de latão que a minha mão tomava; empurrara aquela mesma porta de ferro fundido e vidro que eu agora abria. Exatamente como eu fiz. Estávamos juntos no lugar, mas separados no tempo. (p. 100)

A epígrafe do livro, um trecho do poema “Saudação a Walt Whitman” de Fernando Pessoa,

(E conforme tu sentiste, sinto tudo, e cá estamos de mãos dadas,
De mãos dadas, Walt, de mãos dadas, dançando o universo na alma)

é retomada justamente nesse momento da história, que deflagra um aprofundamento de tal paralelismo, sugerindo abertamente uma sobreposição:

Como no poema em que Fernando Pessoa saúda Walt Whitman, enxergava Sergio Y. na paisagem durante todo o caminho até o consultório da dra. Coutts. “Ei, Sergio, sou eu, Armando. Sabe a excitação que você sentiu andando por esta cidade, indo ao encontro de sua médica, querendo mudar sua vida? Eu sinto a mesma coisa. Sabe o vento que você sentiu na cara naqueles dias de calor? Eu o sinto agora. Eu sei como você é. Estamos de mãos dadas”. (p. 111)

Essa sobreposição denuncia que o desejo de se redimir da culpa que sente por se julgar responsável pelas escolhas do antigo paciente é apenas um início, o primeiro passo de Armando em busca de conquistas maiores. Se Armando reconstrói a trajetória de Sergio como forma de compreendê-lo e entender a participação dele na vida do rapaz, ao longo do discurso sempre ponderado, lógico e organizado de Armando, nota-se um entremeio que ele jamais deixa transbordar, mas que permite entrever um desejo (inveja?) de sentir a felicidade que Sergio conquistou e viveu.

Por fim, um saldo melancólico se sobrepõe à felicidade que buscam os personagens de Sergio Y. vai à América. É verdade que muitos deles viveram a felicidade que almejaram – ainda que para isso tenham pagado um preço alto. No entanto, no percurso por redenção, é possível deduzir que Armando não conquistou a felicidade de Sergio, muito embora tenha encontrado alguma esperança.

Maurício de Almeida

Antropólogo e escritor, já participou de diversas coletâneas. Seu livro de contos Beijando dentes venceu o prêmio Sesc de Literatura e foi publicado em 2008 pela Record.