Alteridade, indução, Orkut e xenofobia

por Raphael Douglas – É óbvio, e todos sabem, que nordestinos são pobres, mal nascidos, medem 1,65 cm, comem sobretudo farinha com rapadura e vivem em cidades cadavéricas cujo solo é permanentemente seco e rachado por conta da eterna ausência de chuvas. Os paulistanos são todos nazistas, vaidosos, workaholics e prepotentes. Os cariocas são, sem exceção, traficantes ou apreciadores de drogas, falecem constantemente devido a balas perdidas, têm como atração principal os bailes funk, torcem todos para o mengão (o time com a maior torcida do universo), acham que uma tropa de elite é o melhor paradigma de segurança e um a cada três mora em favelas. É fato notório que no norte do país só há latinfundários, pistoleiros e índios convivendo com jacarés no meio das cidades. Todos nós conhecemos a informação que todos os gaúchos são separatistas e espelham-se no modo de vida argentino. Todo paraibano é péssimo motorista. Todo negro é ladrão, todo cabeleireiro é homossexual, todo norte-americano é imperialista e cultua o uso de armas de fogo, todo jogador de futebol é mercenário, todo judeu é muquirana, todo alemão é um pouco nazista, todo francês é pedante, todo paraguaio é sacoleiro, todo colombiano é usuário de cocaína, todo cubano ama Fidel, todo pernambucano é o maior bairrista da América Latina, todo baiano é preguiçoso, todo cearense é comediante, todo argentino é execrável, todo árabe é muçulmano e todo muçulmano é terrorista.

Calma, respirem e não me odeiem!

Não sou eu quem diz isso. O primeiro parágrafo desse texto denota bem o discurso generalista e totalitário que, de maneira deprimente, toma conta das nossas percepções médias, automáticas e inadvertidas. O indutivismo apressado é uma regra tão dolorosa que chego a pensar que faz parte da própria constituição existencial do homem.

Mas calma novamente! Fico apenas triste ao constatar que o ser humano médio não se dá ao trabalho de entender em que consiste a diferença. Aliás, existe mesmo essa tal de diferença? É ela tratada e exposta de maneira correta e legítima? Mais mórbido ainda é notar que a maioria dos seres humanos ou optam em permanecer desta maneira (mesmo depois de desalienadas de certas informações errôneas) ou continuam sendo enganadas pela mídia, que tende geralmente a incutir uma visão de mundo mais fácil na cabeça dos indivíduos e trabalha por uniformizar nossas percepções sobre todas as coisas presentes a nossa volta.

Será que, como pensa o filósofo judeu Emmanuel Lévinas, “a filosofia [e o fazer ético] ocidental foi no mais das vezes uma ontologia: uma redução do Outro ao Mesmo, pela interposição de um termo mediano e neutro que assegura a inteligência do ser”? Será que a coexistência e suas implicações foram sempre mal concebidas entre nós devido a certa exacerbação da egoidade, de um excessivo conhece-te a ti mesmo?

É claro que, como ainda remarca o próprio Lévinas, “a relação com o outro não é uma idílica e harmoniosa relação de comunhão, nem uma simpatia pela qual, colocando-nos no seu lugar, nós o reconhecemos como semelhante a nós, mas exterior a nós; a relação com o outro é uma relação com um mistério. É sua exterioridade ou, antes, a sua alteridade…que constitui todo o seu ser”. Será que desvendamos o mistério do Outro de maneira equivocada? Ou seria destinamental que certas refregas e estranhamentos sempre aconteçam em qualquer micro-região do mundo ou entre qualquer amontoamento de seres humanos?

É óbvio que nem todos os nordestinos não passam fome e que nem todos os árabes têm tendência ao terrorismo. No caso supracitado dos nordestinos, por exemplo, sabe-se, operando uma simples busca das mais superficiais, que a indústria da seca entope os bolsos dos políticos da região. Imaginemos que se chega a Brasília a notícia que nessa região há boas universidades, grandes metrópoles e uma produção intelectual crescente, o que aconteceria? Fico me perguntando se as pessoas que moram em coberturas em Boa Viagem (Recife-PE) ou em lugares como o bairro da Graça (Salvador-BA) sequer cogitam migrar até São Paulo para tentar uma espécie de “vida melhor”. Ainda no Nordeste, observamos de maneira burlesca baianos sendo taxados de preguiçosos, quando os mais bem informados sabem que esse estado reúne umas das maiores forças econômicas do país em seus parques industriais e turismo. Entretanto, a imagem que a mídia continua a repassar denota um estado que vive em eternos festejos, a música é monomaniacamente a mesma e os sujeitos vivem estendidos em redes.

Por que o raciocínio induzido ingenuamente é mais fácil? Por que generalizamos informações analisadas apenas algumas vezes? Se eu conheci dezoito cabeleireiros e todos eram homossexuais, isto quer dizer que todos sejam? Se eu conheci dezoito mil políticos e todos eram corruptos, isto quer dizer que todos são? No caso dos políticos, por favor, contenha o sorriso sarcástico! Por que nos é tão difícil aprofundar e expurgar nossa visão em relação ao que nos é estranho? Desde que certas condições sejam satisfeitas, é legítimo generalizar a partir de uma lista finita de proposições de observação singulares para uma lei universal. Em suma, é a famosa passagem dos fatos à lei. Eis aí o risco da fórmula indutivista, comum em qualquer tipo de pesquisa quantitativa. Se um saco de feijão é 85% de feijão preto e 15% de mulatinho, o saco será considerado, no todo, como sendo de feijão preto. Daí surgem deduções extremante arriscadas e insolentes. Todo nordestino passa fome, o autor desse texto é nordestino, logo, o autor desse texto passa fome. Toda indução é abusiva e toda dedução, incerta.

*

A apreciação que até aqui foi levada a cabo apenas se decepciona com o fato de que o solipsismo, misantropia, ensimesmamento, incivilidade, rebeldia, contravenção, beligerância, descortesia e isolacionismo são as alternativas mais cômodas de serem adotadas como postura de vida. Tentar suportar o outro, aquele que “destrói” nossa identidade, que devasta nosso ego, requer força máxima e para isso somos demasiadamente indispostos. A mesmidade, ou seja, a cultura egocêntrica garante uma liberdade comodamente auto-assegurada. É infeliz concluir que uma cabeça obtusa e bruta é a via mais fácil de existir no mundo, através de um discurso ditatorial e totalizante, em suma, covarde.

Pois bem, quem faz uso do Orkut consegue sentir bem que as expressões xenofóbicas já descritas são demasiadamente difundidas. Sabe-se que denúncias contra toda sorte de discriminações contidas nesse site de relacionamentos vêm crescendo com um ânimo preocupante. Sou da opinião que esse espaço virtual não é o demiurgo e nem criador de qualquer tipo de discriminação. Todavia, é ali onde a raiva, a catarse odiosa e a necessidade de rebaixar figuras que são “socialmente reprováveis” encontra lugar e pega corpo, assim como a dengue se refestela em água limpa. O Orkut funciona como um catalisador e um “passe adiante” da humilhação, do ódio, da refrega, da separação, da aversão, da animosidade, da fúria. Uma simples comunidade de futebol pode ser um antro de “foda-se nordestino comedor de farinha” ou “esses paulistas são uns nazistas mesmo”, ou ainda “cariocas são uma sub-raça que deve ser exterminada.”

Sem o Orkut não é tão fácil que mais de cinco mil pessoas se reúnam num espaço físico “real”, numa praça por exemplo, para humilhar um ser humano por perpetrar ideias ou apenas ter tecido um comentário que não agradou. “Só podia ser coisa de emo!”, “bane esse bizarro!”, “esse tipinho de gente deveria ser eliminada!”, “só podia ser um puto de um paraíba mermo!”. Essas são frases muito comuns de se encontrar e não é necessário se esforçar muito para se deparar com comunidades que operam livremente dessa maneira. Umas são explícitas, outras nem tanto. Não cabe aqui colá-las, não vale a pena perder tempo com perpetração de aversão ou odiosidade, mas que um alerta deve ser ligado, deve. Alias, me deixem citar apenas uma: Devolvam o Nordeste pra África (abaixo).

-- E o fórum é de primeira --

Assusta de alguma maneira notar, ainda hoje, a quantidade de reais apreciadores da filosofia purificatória do Nazismo, de movimentos separatistas, de abominadores de expressões religiosas e filosóficas e de depreciadores de classes sociais diferentes.

No Orkut a bestialidade da falta de respeito por outrem tem seu exercício facilitado pelo anonimato, pela distância e pela cúmplice miserabilidade de uma parcela de seres humanos: um verdadeiro déficit de alteridade.

Alguém pode estar se questionando: duvido que quem escreve esse texto não use o Orkut, duvido ainda mais que ele não entre num estádio de futebol e, de maneira vociferante, fale mal de um juiz. Duvido que ele, em dia de jogos entre Brasil e Argentina, não deixe escapar sequer um xingamento aos hermanos. Duvido que ele esteja num ponto de ônibus às duas da manhã e veja ao longe um homem negro e descalço e não desconfie dele. É um hipócrita! Todavia, afirmo que alguém que disser que não possui sequer um único pré-conceito não é ser humano. Entretanto, é inteligente notar que existe uma diferença abissal entre pré-conceito e discriminação. Eu pré-concebo que se comer um pedaço de tijolo, além de quebrar os dentes, prejudicarei o estômago. Eu pré-concebo que, se votar em Collor, ele defraudará novamente qualquer setor da política que faça parte.

Como se resolve isso? Qualquer resposta aqui vai ser considerada proselitismo, excesso de alteridade, discurso de classe oprimida ou pacifismo fast-food on-line. Não estarei também cometendo certa generalização? Uma questão filosófica, mesmo que de antropologia filosófica, se ocupa mais em sofisticar a pergunta para que o fenômeno se evidencie de maneira clara do que oferecer repostas diretas e apodíticas. Discutamos.





Raphael Douglas

Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Pernambuco.










MAIS RECENTES


  • Lírio Santana
    • É, essa primeira comunidade ai tá sofrendo processos devido a brincadeiras infelizes em relação aos desabrigados das enchentes recentes. Lamentável.

  • Passei umas duas horas na semana passada denunciando perfis de uma comunidade que se nomeia: “odiamos nordestinos”. Fiz isso não por um bairrismo cego ou por afetação gratuita, mas porque acho que qualquer tipo de discriminação deve ser combatida com punição. E nesse aspecto sou xiita, já que não cabe discutir com eles esse tipo de coisa, não haverá sucesso – generalizo. Me pergunto várias vezes porque o respeito não vem em gene. Me pegunto também se essas pessoas realmente acham que são melhores do que outras e por que.
    Sinceramente, falta de respeito é fim da humanidade.

    • Milena,

      Na verdade a preocupacão com com nordestinos nem é tão central assim. Na verdade mal conheço quem são esses nordestinos. Afinal de contas, faço parte desse grande grupo e não me identifico com o que apontam quando dissertam acerca desse ajuntamento humano que habita a parte nordeste do Brasil na América do Sul. Para mim são seres humanos cuja condição humana não difere muito dos outros grupos “marcados” . Mesmo nordestinos se mostram extremamente xenofóbicos quando expressam opiniões sobre Rio, São Paulo. Brasileiros gealmente, geralmente, desconhecem o norte do país. O Norte não é nordeste, mesmo assim se continua a misturar tudo num balaio de injustiças culturais. Em suma, nordestinos, argentinos, árabes, húngaros, não importa. A grácil e frágil condição humana ai faz com que todos possuam o mesmo grau de desamparo psicologico num mundo profundamente adoentado.

      • Raoni Franco

        Alma,

        Parabéns pelo texto. Só gostaria de deixar algo que me veio em mente, quando li sua resposta:

        “Mesmo nordestinos se mostram extremamente xenofóbicos quando expressam opiniões sobre Rio, São Paulo.”

        Qualquer tipo de discriminação é triste. Mas para mim, é mais triste ainda ver esse movimento xenofóbico entre os próprios nordestino. Ser rejeitado por um estranho, é compreensível, mas ver um nordestino rejeitar outro, é como não ser aceito por um irmão.

        Eu já viajei por grande parte do país. Vivenciei situações preconceituosas em diversas partes dele, mas nenhuma doeu tanto quanto as que vivencio aqui em Pernambuco.

        Passei por situações desagradáveis em SP e no RS, mas era como se eu já esperasse… Eu já fui meio que blindado para aquilo. Talvez por isso tenha sido mais fácil. Não que meu posicionamento seja correto nesse sentido, pode parecer até que estou aceitando… Mas ai é pano para uma nova discussão.

        O que eu gostaria de dizer é quando isso acontece aqui, tudo parece mais doloroso. Ver um “povo” (entre aspas, pois somos todos brasileiros acima de tudo) tão pobre, tão discriminado, tão lutador, tão nordestino quanto o meu, querer expurgar ou denegrir a minha origem, cultura, tradição, geografia, ou qualquer outra coisa cabível de pejorativos e por fim ainda decretar que não somos nordestinos, por que acham (palavra importante… ACHAM) que não é isso que queremos ser… isso realmente é triste.

        Raoni Franco
        Baiano

        • Raoni.

          Agradeço a observação. Sinto tanto quanto você quão triste é perceber pessoas do mesmo “lugar” se depreciando. Há apreciações estúpidas e seres humanos estúpidos em qualquer lugar. Tenho certeza que na terra em que vives hoje em dia você encontrou uma série de estúpidos. Mesmo eu os encontro diariamente. Mas tenho certeza que deve ter encontrado gente autêntica que direciona a vida para além de percepções regionais. São essas que tu deves cultivar como vizinhos. E as outras levar o máximo de desalienação possível. Gente obtusa e generalista existe em qualquer lugar do país e do globo todo. Entretanto e felizemnte, existem indivíduos que transcendem sotaques, habitos alimentares, condutas e enxergam apenas o essencial: o humano que há ali. Desses conheço muitos do norte ao sul do Brasil. Inclusive você foi uma das pessoas que faxinou um pouco da alienação acerca desse assunto que pairava minha cabeça. No fim, a única rivalidade que deve continuar existindo é no futebol, essa nos diverte hein?

          Abraço.

        • clausius

          devido a minha profissão migratória convivi com o povo de diversos estados e ao contrário do baiano raoni posso dizer que em pouquissimos lugares me sinto tão bem como em pernambuco . Ao longo do tempo aprendi que este povo tem história de sobra pra ser orgulhoso : nenhum povo deste pais perdeu tanto espaço geográfico(alagoas e o oeste baiano – comarca do são Francisco, por exemplo) e tanto sangue ( leiam os livros de Evaldo Cabral de Melo) devido a suas atitudes políticas . De inicio eles são ensimesmados( ao contrário dos baianos , que são abertos) , mas ao penetrar sua couraça você encontrará amigos fraternos e ineligentes que conhecem a história deste pais como poucos . o que quero dizer com isto é que o perfil psicológico de um indivíduo pode impedir sua inserção coletiva ( sociológica-antropológica)

        • Raoni Franco

          Clausius,

          Já que o texto fala um pouco sobre generalizações, vou pegar o gancho: por favor, não vamos generalizar!
          Em nenhum momento, eu disse que não me sentia bem em Pernambuco. Disse, apenas, que me sentia triste (veja bem) quando era discriminado, e principalmente por ter sido uma surpresa para mim. Moro aqui há 7 anos. Se me sentisse mal, já teria ido embora.
          Fiz muitos amigos em Pernambuco, alguns deles poderia chamar de irmão. Sem eles a vida aqui seria muito difícil (como uma vida sem amigos em qualquer lugar do planeta).

          Por fim, mesmo acreditando que não foi intencional, gostaria de solicitar que você fosse um pouco mais cauteloso na escolha de suas palavras. Esse é um espaço público. Distorções podem acarretar em situações desagradáveis no mundo virtual e real.

          Abraço

          Raoni

  • Pois é Raphael, “será que, como pensa o filósofo JUDEU”…

    • Pois é. Ele mesmo se autodenomina assim. Acredita numa necessidade de juntar Israel à Atenas.

      • Então, tá!

        • Dai a expressão filósofo-judeu da qual ele tanto se orgulha. E quem o lê sente-se extremamente impressionado com o que essa fusão pode fazer.

        • Fundir Israel e Atenas, pode até dar numa sociedade judaico-cristã, tão preconceituosa e xenofoba como a nossa. Ou algo melhor, que, creio, ser nosso objetivo. Aliás, quer xenofobia maior que ” ser o povo escolhido” por um suposto Deus todo-poderoso, do qual também somos- cristianismo-herdeiros. E de xenofobia em xenofobia, caminhamos, nós…Ah,sei não, mas prefiro deixar Atenas e Israel em seus devidos lugares.

        • Na verdade, Israel dá em algo realmente que talvez já conheçamos.
          Atenas à Jerusalém melhor dizendo. Canônica Grega + Talmude.
          Soa melhor dizer que ele filósofo e judeu e não filósofo judeu. Dizia: “Eu sou judeu e, ao contrário do que fez a experiência greco-alemã, posso pensar o outro”.

  • Raphael, gostei demais do que tu escreveu. As redes sociais , o Orkut principalmente, têm o poder de difundirem a ignorância; em primeiro lugar devido à facilidade do anonimato em segundo porque não é nescessária grande reflexão para optar por dar apoio total á meia duzia de palavras mal pensadas. o que torna mais intrigante esse comportamento é que se realmente acreditassem nas bobagens que escrevem, eles não teriam tanto MEDO de se identificar.
    Parabéns

    • É rapaz, não que sejamos puros ou santos. Não que não cometamos essas injustiças sequer uma vez na vida. Mas uma postura de vida que assume um desdém ad infinitum para com outros grupos sociais não é algo de tão tranquilo assim.

    • Agradeço. Como eu deixei claro, As redes sociais não são responsáveis por um mal demasiadamente repassado bem antes da invenção de qualquer elemento eletrônico na história das sociedades. Todavia, estão ai, sendo o antro de reprodução de antigas e novas categorias de exacerbação das diferenças.

  • Excelente o texto!

    Só não concordo muito em “nomear os bois”. Não que seja “orkut”, pode ser qualquer sistema que permita criar comunidades que a coisa vai se repetir…

    Mas as pessoas, justamente influenciadas pela mídia, julgam que a solução para todos os problemas é fazer leis penais mais severas e não que a educação, em todos os níveis, é que faz a diferença.

    • Exatamente como eu disse ao Rafael Guerreiro, As redes sociais não são responsáveis por um mal demasiadamente repassado bem antes da invenção de qualquer elemento eletrônico na história das sociedades. Todavia, estão ai, sendo o antro de reprodução de antigas e novas categorias de exacerbação das diferenças.

  • Pingback: Andira Medeiros()

  • Ester

    Concordo com td q vc disse e reconheço a necessidade de pensar a alteridade mesmo num nível micro, individual, falava com uma amiga em comum justo sobre isso! Mas pensando num nível macro, como resolver essas questões? Como fazer as pessoas perceberem q certas “brincadeiras” refletem muito da nossa estrutura social e reproduz preconceitos e q traz com eles inúmeras consequências, inclusive posturas violentas?! Há ainda um abismo no horizonte cultural – entre nossa discursão e a possibilidade dela se tornar generalizada – decorrente do defict educacional de grande parte da população…Enfim, sua colocação é válida, mas vejo dificuldades para q a maioria da populaçao se aperceba delas… Ou estou errada?
    abraços

    • Ester,

      Enxergoas mesmas dificuldades que você em nível macro. Por isso é que não consigo obter respostas sobre uma pretensa solução. Educação? Dminuição de cidades? Renda igual? Acho que qualquer tentativa de uniformização não cabe no ser do homem. Diferença é uma coisa óbvia e necessária. O discurso da tolerância com o diferente é outra.

  • Clara

    Muito bom teu texto! Tava pensando um tempo desse, por ocasião de umas leituras aí… agente é intolerante com o que é diferente, “por formação” mesmo. Agente é ensinado [formal, não-formal e informalmente] que isso ou aquilo é bom ou ruim, feio ou bonito, aceitável ou não-aceitável… Só que o diferente depende do igual. Diferença e igualdade andam juntas e são interdependentes. No caso que vc citou, bem como diversos outros do gênero, julga-se pelo valor que se agrega: cultura, geografia, economia… Por exemplo: se há uma “cultura dominante”, esta vai impor sua “””superioridade”””, mesmo q sutilmente, e as vezes vai até dizer que “VIVA A DIFERENÇA!!”, mas vai ser tarde demais. Bom, foi a essa reflexão que teu texto me levou… Abração!

    • Pois é clara. A coisa agora é tentar entender a diferença como não-indiferença.

  • Pingback: Doni()

  • Linus

    “se ocupa mais em sofisticar a pergunta para que o fenômeno se evidencie de maneira clara ”

    como um bom fenomenólogo, apenas, faz as perguntas. E que o fenômeno se evidencie.

    E discutamos. Por que o negócio é sério.

  • Penso que, não há necessidade de “pré-ocuparmos” com coisas do gênero. Devemos NÃO dar valor para isso.
    É como a Madre Tereza…. Vejam: …………………..

    Madre Tereza de Calcutá era brilhante. Ela dizia que nunca faria parte de uma passeata antiguerra, apenas de passeatas a favor da paz. Ela sabia. Ela entendia o segredo. Veja o que ela manifestou no mundo.

    Então, se você for contra a guerra, seja a favor da paz. Se você for contra a fome, seja a favor de que as pessoas tenham mais do que o suficiente para comer. Se você for contra um político específico, seja a favor do seu oponente. Muitas eleições são vencidas pelo candidato que é rejeitado pela maioria, porque ele recebe a maior parte da energia e do foco.

    Você deve procurar se focar no que você quer e não no que você não quer. Saber o que você não quer não é ruim, porque assim você saberá como se focar no que você quer. Mas o fato é que, quanto mais nós falamos sobre o que não queremos ou sobre quão ruim essas coisas são, ou lemos sobre isso o tempo todo, nós criamos mais disso.

  • LúH

    Esse assunto eh bem mais complexo do que parece.
    Tem várias coisas que devem ser levadas em conta. Não só o aparente odio, como tambem falta d valores existente na sociedade atual. O modo como se “coisifica” os individuos a sua volta não os tratando com o devido respeito.
    O fato eh q o assunto remete a varios outros problemas da sociedade atual, não soha disciminação gerada pela generalização mais tambem a deficiencia no sistema educaional e o exagero com q se comenta certos fatos ignoando outros.
    Talvez não exista uma solução para cada um desses (e de tanto outros) problemas separadamente,mas será q eh possivel encontra uma solução conjunta?!

  • Solução conjunta. Estando nós aqui agora preocupados e a discutir a questão já não seria uma microparte dessa solução?

    • Clara

      Eu digo que uma microparte do átomo! O negócio é tenso demais! Denso demais… na prática mesmo! Não entendo que a solução seja algo que já conheçamos! Não sei nem se há solução ou soluções! Minha perspectiva pode ser um tanto quanto pessimista, mas creio que alicerces da ocidentalização, “europeização”, “branquiamento” do mundo são profundos e firmes demais! Acho que o preto, o pobre, o nordestino, e os demais adjetivos em que enquadram a maioria dos SERES HUMANOS [pq os “menos favorecidos” são a graaaande maioria] estarão sempre submissos, e cada vez mais, enquanto a globalização hegemônica tiver por aí, dando suas diretrizes, e dizendo quem é o quê! AH sei lá… eu tô cansada dessa merda! [Desculpem os termos]

      • Clara,

        Entendo exatamente sua indignação. Em certa medida comungo de um certo pessimismo que você expôs ai. Mas, assim como Hobbes, identificar a essência do homem a um ser de eternas querelas e disputas não quer dizer exatamente ser pessimista. O que faz Hobbes no seu Leviatã? Uma constatação estrutural do que é o homem e como ele se move no mundo. Quase uma psicologia. Mas ele é um contratualista, não nos recomenda nada de fórmulas psicilógicas, não era a época. O caso dele é político. Que forma de governo é capaz de frear o instinto auto-destrutivo do homini lupus homini? Ele propõe um governo cujo poder seja absoluto, ainda que o Rei seja eleito pelo povo. Em suma, a partir dessas constatações estruturais que realizamos agora, como é possível pensar num viés axiológico? (há quem diga que pensar já é agir, enfim). Se se admite que discriminar faz parte de certa regularidade no comportamento humano, as ações devem ser realmente psicológicas e policialescas, como já acontece, é o paradigma reinante. Se discriminar um diferente é um acidente no ser do homem, o que causou esse acidente? Como se tornou um predicado essencial?

        • Clara

          Putz… aí agt vai q chegar no âmago da questão: o homem nasce bom e a sociedade o corrompe? Ou nasce “mau” e é educado e esclarecido pela sociedade? Se a sociedade o comrrompe, quem corrompeu a sociedade? Alguém começou essa merda de corromper. Se ele nasce “mau” e a sociedade esclarece e “domestica”, pq nem todos são esclarecidos? óbvio… temos oportunidades diferentes na vida… contatos com uma infinidade de recursos sociais diferentes… óbvio, óbvio… mas e aí? puff… sei lá… caí no “mal da conversa de boteco” cheia de achísmos… mas é isso que eu acho! :\

        • As inclinações são válidas. O exercício retótico ajuda. Se Hobbes ou Rousseau, não sei precisar. Mas que as duas percepções acerca natureza humana (conceito ja viciado) são válidos, são.

  • Cheguei a este blog através do blog Heresia Loira e gostei muito do que li aqui. Devemos sempre questionar o que lemos,ouvimos e vemos por aí. Compartilho de sua opinião quanto ao Orkut.Infelizmente(creio)o que em tese ”deveria servir para melhorar as relações entre as pessoas na sociedade”,acabou por tomar a direção contrária.Atentemos para isso.Sou filha de cearenses(com muito orgulho!) e me indigna muito que ainda exista esse preconceito absurdo contra um povo tão honesto e trabalhador quanto o povo nordestino(de um modo geral,claro! rs).

    Muito pertinente seu texto.

    =)

    • A própria idéia de povo nordestino, povo gaúcho, povo do bairro X, é um grande complicador. Concorda?

      • Sim,concordo,mas quando digo”povo nordestino” é apenas força de expressão,claro.

        rs

  • Éverton

    Acho que a índole do ser-humano o tempo todo atenta para que ele mostre aos demais que é superior a outro semelhante seu.Mesmo que seja fraco é importante provar que é melhor do que alguém, mesmo que não seja.Faz bem ao ego e ameniza frustrações, impotências….

    Com certeza essas mesmas pessoas xenofobicas daqui do Brasil seriam vitimas certas d a mesma xenofobia ao chegar em algum país estrangeiro…

    É um modo de agir bem retrógrado,é uma ode á ”lei do mais forte”, em detrimento dos direitos universais dos seres humanos.

    Não vou comentar sobre os insistentes ataques a nordestinos feitos por individuos residentes em outras regiões par anão correr o risco de ser preconceituoso em minhas palavras.Porém, o que eu vejo Brasil afora são ”nordestes” hiper-industrializados.

  • Pingback: caetanovilela()

  • Rapaz eu fico analisando sempre as críticas de Montesquieu a Hobbes. Este último vê os homens em eternas disputas por toda sorte de posses: das materias às imateriais. Logo, o ser humano é principal predador de si mesmo. Disputa, mutila, festeja vitórias com sangue, estimula guerras, compara armas de destruição em massa, saqueia, estrupra, humilha, vinga-se, ergue impérios, goza com dominação etc. Em suma, a natureza humana em Hobbes é uma bela bomba de neutrons.

    Mas Montesquieu é extremamente contrário a essa concepção de natureza humana. Ele diz no cap. II do Livro I do Espírito das Leis

    “O desejo que Hobbes atribui em primeiro lugar aos homens de subjugarem-se uns aos outros não é razoável. A idéia de império e de dominação é tão composta, e depende de tantas outras idéias, que não seria ela que o homem teria em primeiro lugar. Hobbes pergunta: “por que, se não se encontram naturalmente em estado de guerra, os homens andam sempre armados? E por que têm chaves para fechar suas casas?” Mas não percebe que está atribuindo aos homens, antes do, estabelecimento das sociedades, aquilo que só pode acontecer após este estabelecimento, que fará com que encontrem motivos para atacarem-se e defenderem-se. Ao sentimento de sua fraqueza, o homem acrescentaria o sentimento de suas necessidades.”

    Logo, o nascimento da discriminação seria no estabelecimento de “organizações” sociais?

  • Eu creio que, se o objeitvo é analisar as origens da discriminação, há que se levar em conta que dispositivo impulsiona esse comportamento, por exemplo, se a discriminação é ativa ou reativa. Na minha opinião o que move um branco, europeu e de classe média a ter um discurso rascita é uma ideologia de dominação, de suposta superioridade histórico-cultural, de imposição violenta, etc. Já o que vai instigar um comportamento rascista em um negro, norte-americano, pobre é, muito provavelmente, um sentimento de reação, é muito mais uma forma de defesa do que uma discriminação autêntica. Não quero dizer que isso legitime esse tipo de discriminação, só que não concordo quando alguns de vocês dizem que é muito pior ver alguém discriminando seu próprio “irmão” . Não. Eu acho que toda discriminação é nociva e vil. Entretanto, me corrói muito mais quando a vejo sendo usada para corroborar discursos de dominação, exploração, violência e subjugo de partes mais vulneráveis.

    • Amanda,

      É justamente o caso. Acho que as operações devem ser arqueologicas, genealógicas. Será que há mesmo a chance de detecção de origem de qualquer tipo de discriminação? Será que entre os primeiros homens, vivendo de maneira selvagem, eles já não demonstravam desprezo ou superioridade para com outrem?

  • retificação: raCismo e não raSCismo. Que feio! Mulher é tudo burra mesmo!

    • Clara

      Nossa! ¬¬

      • Clara, está claro que ela está sendo irônica. Meio que no clima.

        =)

        • Clara

          Sim sim… perdão! Não tinha lido o que vc escreveu antes, Amanda! =)

  • José de Sousa Leite

    Esse tipo de texto ajuda a educar as pessoas.
    valeu Rapha.

    • Grande Zé. Agardeço muito seu elogio. Volte sempre por aqui. Não discutir paradigmas estabelecidos de maneria quase fóssil é corroborá-los.
      Abraço.

  • Essa discriminação, como citou, é mesmo uma ignorância e uma estupidez dessas pessoas que nem sequer conhecem seu País.
    Parabéns pelo texto!
    Disse tudo.

    Abraços

    • Pois é. Fará parte apenas de ignorância? Gente muito bem informada profere uma série de imbecilidades. É uma rede muito complexa de causas, creio.

  • Pingback: [Amálgama] Mais lidos de julho()

  • Por coincidência, ouvir num canal de tv, que as pessoas deviam se concientizar que essas marcações (aqui é Brazil, alí é Argentina, acolá é Chile), não passam de divisões territóriais políticas. Dizia o personágem, que devemos viver buscando a paz e espalhando-a entre todos os povos em vez de ficarmos nos martirizando com o que ,( os que são contra este pensamento) os maus vão falar.
    Preconceito sempre existiu e vai continuar infinitamente. Que estas pobres criaturas que falaram tão mau dos nordestinos venham até nós, conhecer como vivemos, conhecer nossas belezas naturais, a cultura tão diversificada dessa nossa região e que deixem de ser tão obscuros e ocupem seus tempo adquirindo cultura . Que usem a internete para aprenderem em vez de ficarem diminuindo, humilhando um povo que não conhecem.

    No mundo inteiro , existe pobres e ricos, brancos e negros, pessoas com e sem cultura. As diferenças vão sempre existir e vamos trabalhar nosso carater para conviver bem com as pessoas deste mundo.

    Aqui não é um lugar para eu está atrevidamente dando minha opinião, porque você sabe que meu estudo foi muito pouco, e que além de tudo sou muito ante social, e tenho pouquissimos contatos. Mas você pediu que eu comentasse e aí está.

    Abraços.

    • É com orgulho que recebo um comentário desse. Ainda mais vindo de quem vem. Que “Preconceito sempre existiu e vai continuar infinitamente”, não deixo de concordar. Mas que há meios de iniciar uma clarificação de mentes, há.

      Um grande beijo Vó.

  • Esse foi um dos melhores textos que li na internet nos últimos anos. Com uma mensagem belíssima contudo com o inconveniente de precisar ser lido para ser assimilado. Ou seja, para que se atinja as massas deve ser divulgado e lido.
    A sociedade e juventude atual acostumaram-se com a leitura rápida e fácil. Esse texto primoroso não chegará aos usuários da parte nefasta do orkut e outras redes sociais. Infelizmente.

    Mas atingindo uma mente apenas, e fazendo com que ela reflita, você já ganhou.
    Abraços
    Blog de Um Brasileiro

    • Saudações.

      Agradeço demais sua apreciação. Me dá ânimo e força para continuar, mesmo que em pequena escala, discutindo e tentando esfacelar tabus que continuam sendo, propositadamente, mantidos nesse nosso continente heterogéneo chamado Brasil. No dia em que a força, o perigo e a fluido atuante das palavras alcançarem um patamar de percepção mais global, poderemos combater direcionamentos teóricos deletérios e que sustentam uma cômoda desigualdade social e cultural. Mesmo não votando nele, o discurso de Plínio me agrada. É o momento de mudar e não de meras “melhorias”.

  • Eduardo César

    O pior dos preconceitos é o que está acontecendo nas matas amazónicas do Brasil, o descuido, o abandono de nossos irmãos os Índios pelo estado “todo poderoso e etnicamente bem marcado” . Estamos perpetrando o extermínio desse povo conhecedor das leis da natureza no sentido mais profundo do que pretendemos saber. Os ignorantes que nos somos estamos matando os Inocentes, ao invés de os proteger e agasalhar: isto é uma limpeza criminosa de uma etnia sem defesa! O que é que o Nordestino precisa saber? Ele vai ser “limpado” após o Índio, ele é a próxima vitima dos nazistas de hoje. O extermínio pode ser físico, mas sobretudo económico e social! O silencio dos chamados intelectuais é um silencio covarde. Quem se cala, consente!

    Aquele abraço!

    Eduardo, Bruxelas.

  • carlos gilberto gusmão

    Raphael, sem dúvidas o texto em questão é excelente. A falta de informação por parte das pessõas do sul e sudeste com relação ao poder econômico e social dos nordestinos é de fazer inveja a qualquer habitante do alto sertão nordestino. Uma vez quando visitava a cidade de São Paulo a negócio, mostrei um cartão postal do centro do Recife a um paulistano e ele, sem olhar o verso, perguntou que cidade é essa: será na europa?? olha que o cidadão era um grande funcionário da empresa, da qual represento, aquí em Pernambuco. Acho que os governos, pelo menos dos principais estados do nordeste, deveriam investir fortemente, apresentando um apelo visual forte de nossas principais cidades, no horário nobre.Assim a maioria das pessõas destas regiões seriam informadas do que realmente não sabem.