A senhorita de Scuderi

Hoffmann é considerado por muitos uma espécie de Edgar Allan Poe da literatura alemã.

“A senhorita de Scuderi”, de E. T. A. Hoffmann

Em boa hora chega ao Brasil a novela A senhorita de Scuderi, de Ernst Theodor Wilhelm (nome que trocou por Amadeus em homenagem a Mozart), mais conhecido como E. T. A. Hoffmann – autor que viveu de 1776 a 1822 e infelizmente ainda é pouco conhecido por estas terras.

O curto livro chega pela editora Civilização Brasileira na coleção Fanfarrões, Libertinas e Outros Heróis, que contempla seus grandes personagens já no título. A senhorita de Scuderi em questão – na verdade, uma idosa que nunca se casou, em pleno absolutismo francês do reinado de Luís XIV – é a primeira detetive da literatura alemã, consagrando o livro como a primeira novela policial da história das letras germânicas.

O gênero novela (Novelle) foi marcante para a literatura que se aproximou do romantismo da época, consagrando grandes nomes da literatura alemã – romântica por excelência – como Arthur Schnitzler. Trata-se de uma trama centralizada em uma reviravolta, mais curta que um romance, mas mais longa do que um conto. Hoffmann é considerado por muitos uma espécie de Edgar Allan Poe da literatura alemã, por contos como o famoso “Homem de areia” (“Der Sandmann“), em que o clima tétrico, uma dose de melancolia reinante e aproximação da realidade onírica se aliam a um só tempo a doses virulentas de ciência e do racionalismo dominante das Luzes, mantendo uma coerência palatável e crível ao padrão em voga na época.

Tal como o detetive C. Auguste Dupin de Poe (de Os assassinatos da rua Morgue e A carta roubada), a senhorita de Scuderi aqui (a marquesa Magdaleine de Scuderi, baseada na escritora Madeleine de Scudéry, como diversos outros personagens baseados em figuras reais) não é uma detetive profissional – como seriam os futuros detetives que marcaram a ficção policial –, mas tem um mistério a resolver com sua arguta perspicácia.

Em uma noite obscura, sua criada Martiniere recebe um embrulho de um homem misterioso na violentíssima Paris de três séculos atrás, onde a polícia está sempre à procura de assaltantes. Quando Scuderi o abre, vê as joias mais perfeitas já feitas lhe dadas de presente, com um ainda mais misterioso bilhete, onde é agradecida por salvar um grupo, Os Invisíveis, de ser perseguido. A joia é obra do maior ourives de Paris, que também parece guardar um segredo e não auxilia muito a investigação. Com crimes sendo cometidos às dúzias pelos becos da cidade (Hoffmann, curiosamente, situa a trama na grande metrópole francesa, evitando o ambiente bucólico de seus conterrâneos alemães), logo os personagens se veem em perigo iminente, exigindo pressa para descobrir como já estão, sem o saber, envolvidos com uma organização marginal.

É uma trama espinhosa, passada em uma Paris aturdida por envenenamentos diabólicos e, como é típico da aristocracia (à qual Scuderi faz parte, tendo inclusive contato com o rei), envolta em sombrias (e fatais) conspirações palacianas.

Aqui começa a se desvelar o gênio de Hoffmann: alma profundamente sensibilizada com a justiça, o cenário do absolutismo francês é mostrado pelas lentes da época – e, portanto, chocante já a seus leitores, que passaram pelas Luzes e seu terror revolucionário e já se encaminhavam para a filosofia das florestas do individualismo romântico. Aqui, a vida sob o jugo do Estado opressor em nome de uma aristocracia decadente começa a apontar para o indivíduo e a voz do “eu” dos filósofos românticos como Novalis, Fichte ou Schelling (posteriormente ainda posta em xeque pelo papel da vontade explicitado por Schopenhauer e pelo eu dialético de Kierkegaard).

— O autor –

A idosa Scuderi usa toda a sua racionalidade para deslindar a trama – cada história policial é, mutatis mutantis, um crime contado em pedaços, com o resultado macabro aparecendo antes da consecução, restando ao investigador juntar as pessoas para revelar o passado. Por outro lado, a questão não é apenas sua capacidade de analisar (muitas vezes o correto seria sintetizar) dados com um encadeamento correto para desvendar o mistério. Scuderi faz o que parece impensável, e um sortilégio para muitos dos detetives que fizeram fama no gênero: age de acordo com a paixão, mas não com os arroubos desesperados das outras personagens – a cômica atitude de desmaiar, exclamar invocando santos e cair aos prantos a cada expectativa desfeita –, e sim com o pathos, o sofrimento que também é entendimento, a paixão de se sensibilizar com o outro, de sofrer as injustiças e entender a polivalência do mundo muito além das regras, da austeridade e tacanhez de autoridades vazias.

A trama, que ainda dá pincelada em fatos históricos (além do rei, até o dramaturgo Racine vira personagem), torna-se uma busca por justiça e pela virtude inocente perdida, e não apenas o desvelamento de um crime. As paixões que ficam marcadas no livro, com onipresentes suspiros, também esclarecem o mistério por afeição às vítimas – com as ainda mais sombrias forças do amor trespassando os personagens de forma irregular e inesperada, como sempre age o amor.

A obra é uma excelente apresentação deste autor tão importante para a história da literatura alemã, além de um panorama cheio de cores do período artístico – e sua visão já mais melancólica e monocromática do período passado. Ainda tem os laivos românticos e apaixonados de um período, ao mesmo tempo em que já apresenta a trama policial: apressada e rocambulesca, que exige uma atitude rápida dos personagens por vidas estarem em risco. É o tempo da própria narrativa que faz o leitor se apressar para conhecer o fim – o delicioso e por vezes secreto deleite do romance de mistério.

Talvez seja isso, aliado à carência do leitor brasileiro pelas obras de E. T. A. Hoffmann, que faz com que esta novela, mesmo sem a atmosfera gótica que marcou o gênero no século seguinte, seja tão apreciada pelo mesmo público fã da literatura vitoriana e dos contos de Poe e seu flerte com a linha limítrofe do macabro, até o folhetim policial que trouxe às letras tantos detetives e tantos mistérios que marcaram a literatura do séc. XX.

::: A senhorita de Scuderi :::
::: E. T. A. Hoffmann (trad. Marcelo Backes) :::
::: Civilização Brasileira, 2012, 140 páginas ::
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  • André Petrakis

    Até que enfim um texto do Flavio que não versa sobre direita vs esquerda, esquerdismo, liberalismo e/ou questões ideológicas político-econômicas.

  • http://flaviomorgen.com Flavio Morgenstern

    É verdade, André. Tento fugir disso no meu blog (ele logo volta ao ar), mas infelizmente (e bota “in” nisso), política é do interesse geral, e literatura, de uns poucos. Bem que gostaria mesmo de poder tratar mais de questões elevadas, como arte e filosofia, ao invés de descer sempre para os reinos putrefatos das agruras do cotidiano. :)

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