Signos em putrefação – de uma rotação a esmo à existência pela morte

Sobre o "Aleijão" de Eduardo Sterzi.

Aos homens, a madrugada inicial se mostra apenas no final.
Martin Heidegger

Antes de ser uma apresentação da obra Aleijão (7 Letras, 2009), de Eduardo Sterzi, esta é uma procura pelo sentido do signo que arrebenta espumando a leitura. Um eu, um mero defeito, uma condição do humano? O aleijão convoca ao questionamento de sua identidade e remete ao caráter pessoal e arquetípico do gênero lírico, o gênero do presente. Isso de ser a arte do instante é a virtude, constatada por Otávio Paz em Signos em Rotação, “por obra da qual o poeta escapa à sucessão e à história”, e é simultaneamente ligado a ela de maneira inexorável. A contradição instala-se dentro do próprio gênero tendo em vista que é apreensão de um instante subjetivo, mas se recria a cada leitura em outra subjetividade. A poesia está viva nessa interação que recompõe o momento, mesmo não sendo o que a originou, e o próprio ser que, ao ler o poema, é já o eu dessa lírica.

Assim, com o olhar voltado ao aleijão, recriado neste agora, ressalta-se que esta leitura abstém-se de atentar para o aspecto formal da obra, embora reconheça o quão indissociável vem a ser a forma do sentido para essência da lírica. Todavia, o que inquieta e convoca, no momento, é a imagem desse aleijão. Explorar esse ser que desponta em resposta a uma visão do homem moderno como alguém diante de um horizonte sem imagens; alguém que entorna a dúvida acerca de seu esgotamento criativo e aposta no provisório como palavra de ordem do porvir. O efêmero e o difuso parecem ter (des)norteado esse homem incapaz de ir além da indefinição de seus contornos. Avesso a esses prognósticos, contudo, o aleijão de Sterzi irrompe presença: está aí e é, a um só tempo, o eu e o tu da poesia. Aleijão é um resultado desvirtuado, imundo, contaminado de mundo, disforme e podre – o ser do novo século:

MERDA, Sérgio, o ano é de merda,
e o século todo não fede
(mal começa) a outra matéria (p. 109).

Seu estar lancinante não contempla o vazio, seu olhar não vaga perdido em um horizonte difuso, o aleijão encara a si mesmo, sente a carniça de seu tempo e engendra seu fim.

Mais uma vez, em Signos em Rotação, Otávio Paz afirma que, na hipótese de uma projeção de um mundo ideal para o homem do séc. XX, renunciar à ideia de uma “comunidade universal”, onde (1) não exista domínio de uns sobre os outros, (2) a moral da autoridade e do castigo seja substituída pela da liberdade e pela responsabilidade social, (3) desapareça a propriedade privada e (4) a distinção entre o trabalho e a arte, seria o mesmo que renunciar o irrenunciável, renunciar a ser (p. 100).

Eis que se está diante do novo século e a comunidade descrita por Paz localiza-se cada vez mais distante das realidades que ora se interpõem. Este o cenário em que desponta o aleijão, resultado dessa profecia que se cumpre às avessas e inaugura o novo século com a presença inexpugnável do ser no deixar de ser. O aleijão é, à revelia do fluir da vida, a clareza estanque perante a metástase da violência extrema, as mortes reiteradas, o próprio processo de morrer. Essa noção do estar morrendo/morto atravessa e permeia a obra de Sterzi: “Foram tantos/ que me mataram” (p. 26); “me mata/ de novo/e de novo” (p. 32); “meu corpo,/ com licença/estou morto” (p.78); “sigo imóvel – morto – neste taxi” (p. 79).

O ato de morrer, tanto quanto o fenômeno da morte, são contingências inexoráveis. É essa a consciência e a (falta de) alternativa que se impõem ao aleijão: admitir a morte como tentativa de existir no sentido heideggeriano do termo, isto é, no mundo, habitando-o de maneira inextrincável. Em A Questão da Técnica, Heidegger alerta para o perigo do equívoco ante o descoberto. Atenta para a ilusão humana de arrogar-se como dominadora da terra conhecendo apenas parte dos fenômenos existentes, o que conduziria ao precipício. Perdido nesse engodo do assenhoramento, o homem não encontraria sua essência, visto que, para o filósofo, não há maneira de existir senão nesse imbricamento com o mundo. Contudo, Heidegger também entende que o germe da salvação encontra-se no próprio perigo apontado, qual seja: a soberba de um agir sem compromisso com o espaço, sem se dar conta da responsabilidade de ser agente instado a compreender o universo em que habita e agir para transformá-lo de forma cônscia a partir de tal compreensão. Heiddeger conclui seu pensamento acerca da técnica entregando à arte o lugar em que ainda lhe pareceu possível o questionamento para evitar o abismo.

É nesse sentido que o Aleijão de Sterzi é espaço de questionamento onde se contata um universo absolutamente sem alívio. Lá, o perigo é mais que uma ameaça: acontecimento. E é na presença tesa da morte que sequer se tencionou evitar, que o eu interroga sobre o instante seguinte:

ESTE CADÁVER é nosso
almoço

Qual será a
sobremesa? (p.11).

O dêitico “este”, que tanto pode invocar o agora na sua função temporal, quanto remeter ao eu que enuncia no âmbito de uma referência discursiva, permite observar que, se por um lado esse eu extrapolou os limites do mundo que fez de seu corpo cadáver, a carne servida é alimento compartido. O almoço é atividade social em que o anfitrião se distribui aos pares, o ato antropofágico não é, portanto, uma ação individual, antes um rito conjunto em que o fim é simbolicamente deglutido. Todavia, é como verso e anverso do signo da morte que se constata o germe de um recomeço no término que lhe é imanente: a arte, prenhe da imagem da morte é, em si, uma proposta de salvação; o homem sonhando dominar o mundo pela técnica é engolido no processo e convertido em aleijão: eis o recomeço pressuposto no fim. Logo na epígrafe da obra, está sintetizada a natureza desse ser que, ao perceber sua condição de matéria decomposta, admite ser essa mesma a hipótese que o pode redimi-lo:

tu és um excremento
tu és um monte de lixo
tu vens para nos matar
tu vens para nos salvar

Canto de investidura real dos Mossi,
segundo René Girard, La violence et le sacré (p. 6)

Dividido em seis partes, Aleijão instaura-se como alegoria da condição humana de uma pós-modernidade que se surpreende diante do próprio ser; um ser que se vê contemplando e elaborando a si mesmo em seu processo de deixar de existir. Se houve um momento em que a consciência histórica colocou o homem diante do abismo de onde vislumbrou absorto a indecisão de seu E agora?, já não é essa a maior agonia a que está submetido. Presente na morte e no corpo que apodrece, o aleijão mira-se e são perspectivas de sua des-existência o que enxerga nas circunstâncias apreendidas:

EM GERME, a morte está anunciada na refeição do cadáver (p. 11) e não há refúgio nem dentro de si mesmo, posto que “o cão morde dentro” (p. 9), tampouco do lado de fora, onde a imagem celestial do aconchego se insurge deserto (p. 14).

COÁGULO é antítese de vida que talha quando deveria fluir, a infância e o lugar de origem, alentos a que se poderia recorrer, apresentam-se por hematomas e feridas mal curadas causadas pela “lâmina/ da infância/ cravada/ na lembrança” (p. 22).

ESCRITÓRIO é espaço para a metalinguagem; no fazer poético o tempo reivindica para si o agora: “Mas não Não caio/ na lábia do poema/ seu não ter/ De Quê nem Porquê/ Aqui se faz Aqui/se prega” (p. 45).

NA TREVA é comum a imagem da vigília, na ausência de luz a representar a falta de perspectiva, o desconsolo diante do que não se controla, não se evita. É nessa parte onde se encontra o poema “Mão Morta” (p. 85), uma das notórias referências a Drummond dentro da obra. Os versos desse poema, em contraposição aos de “Mãos Dadas”, de Drummond, remetem à oposição ôntica entre esses entes que evocam seu agora. Se a mão de Drummond é “a vida presente”; a de Sterzi é a própria matéria decomposta que “salta do bolso” para oferecer-se ao outro: “queres apertá-la?”. A “mão cadáver”, diferente da de Drummond que convoca à união pela vida e recolhe nos outros as “grandes esperanças”, contraria em uma“dança involuntária e desengonçada”, é mais certo que nem se ofereça.

Em DOIS, o aleijão compartilha sua vida íntima e está a perceber o outro fora de seus contornos: “Não sei o que é ser mulher/ (…)/ Nem o que ela quer” (p.122); “outro/o desejo cão que late” (p. 125).

TERRITÓRIO é onde habita, o interno ou o externo, a intimidade ou o espaço público, tudo é desabrigo, tudo é permeado, invadido de mundo: “Podes/vagar tranqüilo/pelo território inimigo:/tua casa.” (p. 129); “nenhum pouso ou/repouso/em vasto inimigo céu” (p. 132).

– Eduardo Sterzi (foto:Veronica Stigger) -

Segundo Paz, ainda, a propósito da relação com o outro, a poesia foi desde sempre uma tentativa de resolver a discórdia entre as contradições do diálogo e do monólogo pela conversão do eu do diálogo (que fala consigo mesmo) no tu do monólogo (o outro a ouvir o que digo a mim mesmo) declarando: “meu eu és tu” (p. 102). É essa a imagem retomada nas boas-vindas do aleijão que enuncia e as endereça por meio de um vocativo ao aleijão interlocutor, feito à imagem do próprio eu. Assim, parece que a outridão, essa faculdade de ser o outro a partir de si mesmo, revela-se no resgate da fórmula “meu eu és tu”, proposta pelo ensaísta. Está-se diante do aleijão que se reconhece enquanto presença na presença do outro. É no jogo de espelhamento linguístico que a obra estabelece, desde o início, o resgate dessa outridão que ora acontece no reflexo do apodrecimento mútuo, ora na compreensão da fusão de tudo e todos em uma única presença: a matéria em estado putrefato.

A experiência da morte, portanto, proporciona a conscientização de que a transcendência desse aleijão requer a atitude de encarar o aqui e o agora do fim e permanecer ali: “Entenda: estou seco, e nada (nem tente) me arranca deste pacto” (p.32). Sabe-se que não se transcende sem morrer e só se morre em definitivo ao admitir essa morte olhando-a nos olhos. Assim, não é possível conceber no aleijão outra proposta que não a da entrega à morte como aposta de um reviver; morre-se para nascer outro, em outro lugar: “assim/teu corpo, exausto/e raro (sangue/do sangue/do poema), nasce/de novo/a cada aniversário” (p. 116); “desencaixotamos/nossas roupas/sujas de outra/vida, de outra/paisagem” (p. 103). A esperança, se sugerida em algum silêncio dessa obra, está além; se há possibilidade de salvação, é preciso sepultar essa vida para encontrá-la. É, de fato, essa renúncia de perpetuar o ser vigente no lugar da violência reiterada a possibilidade encontrada na poesia de Sterzi como “movimento que gera movimento, ação que transmuta o mundo material”, para repetir as palavras de Paz (p. 98).

Se o ensaísta enxergou na antiguidade um poeta que se nutria da linguagem e da mitologia como alimento indispensável para a existência da imagem de mundo e de civilização, e se na modernidade o mundo como imagem desvanece para que a técnica interponha-se entre o homem e o mundo, fechando toda perspectiva à sua mirada, o aleijão do séc. XXI, por seu turno, oferece-se ao descobrimento por meio da fusão, como resultado de um mutualismo entre ser e mundo que morrem. A abertura encontrada pelo aleijão de Sterzi está nesse ambiente homeostático, na falta de limites entre o universo construído e o ser que o habita e simultaneamente, tece, a si mesmo e a esse espaço. Se a outridão está na solução da dicotomia entre a separação e a reunião, essa questão dilui-se à medida que se imiscuem os seres entre si, bem como entre eles e o universo ao qual estão imersos: “Como amestrá-los/ (…) se os amantes – invertebrados –/ confundem-se aos detritos” (p. 115), ou em: “Enquanto deslizo – serpente/metálica – ao longo do arroio,/a proa rasgando o/asfalto (…)” (p. 112).

As imagens que, portanto, se desenham são de híbridos: um mundo antropomorfizado e um aleijão informe e mundanizado, que jaz inebriado pelo cheiro da própria decomposição: “fundir-se/– enfim –/ao granito” (p. 67); “cortinas metálicas mascando” (p. 71); “o sangue das cobertas” (p. 73); “o corpo extenso/ de vidro e vergonha” (p. 123). Pode ser que esse aleijão esteja na iminência de romper a membrana da morte para um porvir sem verde e renascido. O certo é que, diferentemente do homem moderno e desorientado do século anterior, o aleijão está desperto para o que lhe acontece e percebe-se em si mesmo, no instante, em seu espaço e no outro: “poderia ser o fim do mundo,/mas aqueles óculos/mudaram a percepção/de tudo, e ela pôde,/ao meu lado, mesmo/assustada, sorrir (…)” (p. 113); “o animal pedra/ – tímido que só –/ não respira/ repousa/ – dia sim –/na treva” (p. 141).

Como despertará desse presente é resposta para além da obra, para além deste tempo, conforme está anunciado no próprio prefácio de Aleijão. O que se constata é o tom messiânico de Paz ao declarar a que poesia, “arte da festa”, aguarda sua ressurreição ser subvertida pela sagacidade sarcástica do poeta que a promove pela imagem da finitude: “vulto/ que sobre a carne se projeta/e nela emprenha quanto impregna/ (porém, de treva)/ (…) menos sina quanto tarefa.” (p. 133). As realidades já têm rostos, embora disformes; não há espaço vazio, mas escuridão. Com Aleijão, de tudo, o que não se pode afirmar é que se vive em um tempo sem imagem, nem signo.


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