“Até aqui cheguei!”

Abandonei definitivamente o campo dos que ainda encontravam razões para continuar sustentando Lula como político.

Atrasado em relação aos eventos – um episódio de doença na família afastou-me do mundo alguns dias –, venho recuperar a frase famosa com que José Saramago anunciou em 2003 sua defecção do campo dos defensores de Fidel Castro, quando o caquético regime castrista fuzilou três desesperados cubanos que tentaram sequestrar um barco de turistas para fugir da Ilha. Faço minha a frase para anunciar publicamente – valha isso a ninharia que valer – que abandonei definitivamente o campo dos que, malgrado tudo, ainda encontravam, fazendo do coração tripas, razões para continuar sustentando Lula como político, mesmo depois de o “lulismo”, enquanto política, se mostrar capaz de gerar episódios como o do “mensalão”, de efeitos devastadores para o restinho de credibilidade dos políticos e das instituições políticas brasileiras.

Como meus cinco leitores já devem ter adivinhado, estou me referindo à recente visita de Lula à casa de Maluf para selar o apoio do indefectível Paulo Salim ao candidato do PT que, méritos à parte, Luiz Inácio sacou do bolso para concorrer à prefeitura de São Paulo. A troca de afagos entre o “ex-sapo barbudo” de que falava Brizola e um corrupto de coturno internacional, procurado pela Interpol, foi a gota d´água que, de tão enorme, já não cabia no copo quase cheio. Plof! dans la mer… – como dizia um antigo professor meu de francês.

Tenho uma querida amiga, Valéria Costa e Silva, mantenedora de um blog chamado “A Matéria da Vida” (que recomendo!), que me enviou faz algum tempo um texto chamado “Confissões de uma viúva do PT”, relatando suas seguidas decepções com o que um dia já foi um Partido dos Trabalhadores e acabou tornando-se uma dessas siglas-ônibus onde espertos e sinecuristas de todos os tipos acotovelam-se na fila para arranjar um jeitinho de entrar. É um belo texto de mais uma “desencantada”, no qual se percebe que a autora relutou durante muito tempo em tomar a decisão de tornar pública a sua defecção, a que foi finalmente levada por evidências como as do “mensalão”. Ela chega a desculpar-se por suas relutâncias, só agora fazendo um gesto que lhe pareceu tardio. Nesse caso, o meu é tardíssimo!

Acontece que nunca fui um “encantado”. Sou, por temperamento, um agnóstico. Mesmo na época em que o marxismo era uma religião – da qual cheguei a ser um tímido e obscuro praticante –, sempre encarei com uma saudável desconfiança o projeto estapafúrdio da construção de um “homem novo”. Ora, se sempre cultivei o pecado do agnosticismo em relação a gente muito mais séria como Deus e Marx, por que não manter a mesma atitude em relação a um sujeito que o velho Leonel assegurava ser capaz de “pisar no pescoço da mãe” para chegar ao poder? Passemos.

Sou um cidadão relativamente esclarecido, consciente do que é a realidade e o que são as exigências da chamada “realpolitik”. Não é um jardim de infância. Quem nela entrar deve estar consciente de que será obrigado a engolir batráquios de várias espécies. Mas há limites. Paulo Salim Maluf representa o que há de mais nefasto nesta República dos Bruzundangas – como dizia Lima Barreto. Certo, estou consciente de que muitas vezes “o fim justifica os meios”; mas há certos meios que reclamam uma interjeição com a força de um imperativo categórico: é o fim!


  • http://www.vozdotrovao.wordpress.com Gabriel Cavalcante

    Muito bom o texto! Sobre o episódio, escrevi um post chamado “Realpolitik: o que é e como não usar”: http://vozdotrovao.wordpress.com/2012/06/19/realpolitik-o-que-e-e-como-nao-usar/

    A desilusão com o PT é uma triste constatação, que piora quando olhamos o terreno devastado que é a oposição. Tenho medo de que dois anos (até 2014) sejam muito, muito pouco para que tenhamos o surgimento de um opositor à altura.

  • João Antonio dos Santos

    Caro Luciano Oliveira

    Faço minhas estas suas ‘irreprocháveis’ considerações quanto aos rumos que o PT tomou nos últimos anos com o deplorável ‘lulismo’. Foi uma cacetada e tanto em todos aqueles que realmente acreditivam que o PT faria a diferença e poderia chegar o mais perto possível de uma sociedade melhor – com atuações políticas éticas, transparentes e…E não essa mixórdica digna de qualquer partideco como PSDB, DEM, PMDB, malufimos e quejandos!!!
    Que lástima!! Que frustrações!!

    ab

  • Carlos

    pois muito bem, sr professor.
    me perdoe por lhe lembrar antigos bordões que o articulista aprendeu nos manuais de sociologia: a política é a arte do possível e ela é feita por homens imperfeitos.
    no mais, é mera “choradeira”, sua e de seus comentaristas, essa tal decepção com o pres lula e o pt.
    sigam em frente que os demo-tucanos lhes receberão de asas abertas-ops!-de braços abertos.
    felicidades, então.

  • Luciano Oliveira

    Oh! Oh! Oh… brigado, Carlos pela sugestão de “tucanar”. Vamos ver: vou ler o livro “A Privataria Tucana” e depois lhe digo alguma coisa… eh eh eh.
    Falando sério: é Carlos, a choradeira (no meu caso aliás nem foi isso, foi indignação memso!) parece coisa de seminarista recatado que nunca foi num bordel… Eu sei que a política é a arte do possível, e que a ética de convicção, nela, tem de ceder à ética de responsabilidade (Weber). O problema é ceder a nenhuma forma de ética, o que me parece o caso, porque Maluf não é simplesmente um reacionário, um conservador um direitão, sei lá, qualquer dessas coisas que já por si seriam difícieis de se acomodar com um partido “de esquerda” (Waal – como diria Paulo Francis), mas um delinqüente internacional que se puser o pé no Paraguai, imagine, pode ser preso!
    Abração,
    Luciano Oliveira

    • Marcelo

      ” Certo, estou consciente de que muitas vezes “o fim justifica os meios”; mas há certos meios que reclamam uma interjeição com a força de um imperativo categórico: é o fim! ”

      Não acredito que o argumento de que “o fim justifica os meios” possa ser sustentado em um debate coerente.

      Isso porque não existe qualquer critério objetivo para se delimitar quando uma violação (ética/legal/moral/etc.) é ou não aceitável.

      Sem um limite claro, o subjetivismo desta limitação pode ser usado, inclusive, para sustentar os argumentos dos ‘fanáticos’, que ainda acreditam que ‘Lula’ é um ‘salvador’, o que, pelo que eu entendi, você condenou em seu texto.

      Na minha opinião, “os fins justificam os meios” não pode ser
      nunca invocado para justificar transgressões (de qualquer natureza), por mais nobres que sejam os fins.

      Esse tipo de argumento é que corrobora com fundamentalismos de toda a sorte, bem como reflete um dos mais nocivos pensamentos populares, daqueles que votam em um político que “rouba, mas faz”.

  • Nicole

    O texto confunde a figura de Lula com o partido PT. Não são a mesma coisa. Dilma não deve ser responsabilizada (não integralmente) pelas atitudes de colegas de partido. Há muito deixei de ser petista, considero um partido como outro qualquer, como bem definiu o autor, um ônibus. Mas de certa forma, o PT cumpriu com parte do prometido. Realmente melhorou a situação de muitos brasileiros. É uma pena que não tenha conseguido fazer isso com ética e idoneidade.

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