Paulo Francis para a Geração Y

Voltar a ler Paulo Francis em 2012 é um interessante teste para os textos produzidos para a Folha de S. Paulo entre 1976 e 1990.

“Diário da corte”, de Paulo Francis

Para a minha geração (nasci em 1980), Paulo Francis apareceu como o cara de entonação afetada e óculos fundo-de-garrafa que falava de Nova York para o Jornal Nacional. Ainda que eu tenha sido rato de leitura de jornal desde (quase) sempre, não tenho lembranças dos artigos dele – para ser honesto, tenho bem poucas lembranças do que eu lia no jornal há 15 – 20 anos: talvez pouco mais do que o caderno de esportes e os quadrinhos. Francis morreu em 1997, enquanto eu estava obcecado em passar no vestibular, e só fui voltar a me interessar por ele lá por 2001, quando comecei a trabalhar no mercado financeiro. Um amigo me indicou o Waaal: O dicionário da corte de Paulo Francis, coletânea organizada por Daniel Piza e publicada um ano antes da morte de Francis. Waaal é um “quem-é-quem” dos nomes que foram citados nas colunas da Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo entre 1977 e 1996, um glossário de suas admirações, desprezos e preconceitos que li e reli diversas vezes, com grande prazer.

Se é exagero dizer que Francis mudou minha vida, não é notar que por conta dele procurei (e muita gente, creio) ler obras de Norman Mailer, George Bernard Shaw, H. L. Mencken, John Updike e tantos outros autores. Por um tempo, um texto dele pretensiosamente entitulado “Um guia para ter cultura” pautou quase obsessivamente minhas compras de livros – e só não segui a lista porque, também obsessivamente, não conseguiria fazê-lo fora da ordem que ele menciona os títulos, e nunca consegui, mesmo tendo superado a chatíssima primeira parte (“A Terra”), terminar Os Sertões, que já há mais de dez anos me olha da estante, gozador…

Voltar a ler Paulo Francis em 2012, na coletânea montada pela editora Três Estrelas (do Grupo Folha), é um interessante teste para textos produzidos para o jornal entre 1976 e 1990. Escrever a história enquanto ela acontece é algo muito ingrato, e isso fica evidente em algumas crônicas, onde, por exemplo, o autor expressa alguma admiração por Fernando Collor e despreza profundamente a alternativa Lula. Porém, assim como o passar do tempo fez mal para algumas opiniões de Francis, outras mostraram-se precisas, podendo ser publicadas, sem estranhamento, no jornal de hoje. Francis percebeu as mudanças irreversíveis na conjuntura mundial em 1989, antes da queda do muro de Berlim e quando muitos consideravam provável a continuação do comunismo depois de reformas cosméticas; malhou José Sarney bem antes de malhar José Sarney ter virado clichê; apontou o domínio da televisão sobre outros meios de comunicação na política; escancarou a imoralidade da guerra do Vietnã; colocou Apocalypse now, de Francis Ford Coppola, no patamar de obra-prima assim que foi lançado e, de forma geral, compreendeu a política e a sociedade brasileiras melhor do que boa parte dos analistas que lemos hoje. Não é pouca coisa.

O escritor Michel Laub opinou, no twitter, que Diário da corte é “¼ bom, ¼ bom e datado, ¼ ruim e datado e ¼ injustificável”. Não concordo com as proporções, mas entendo as divisões, ainda que parte do “injustificável” talvez venha de uma leitura do passado com os olhos de hoje. É fácil, por exemplo, apontar como errada a dura e algo preconceituosa opinião de Francis sobre o Lula de 1989, mas deve-se considerar que suas ideias naquela época – usar os juros da dívida externa para aumentar o salário mínimo, expropriar as propriedades rurais mais produtivas, etc. – provavelmente eram tão ruins como soam, e teriam mantido o Brasil por mais tempo na rota do atraso (ou, para os pessimistas que acham que ainda não saímos dela, pisado mais forte no acelerador). O que talvez seja injustificável é o sexismo e um certo racismo mal disfarçado (ele diz que só evidenciava o que ocorria na sociedade, fica o julgamento para o leitor) que impregnam alguns textos, assim como erros factuais grosseiros (como dizer que o PIB dos Estados Unidos dobrou em cada um dos anos do pós-guerra). O saldo, para mim, ainda é amplamente positivo.

Por que voltar a ler Paulo Francis hoje, qual a sua relevância? Primeiro, pelo prazer de ler uma crônica bem escrita e provocativa (os Diários da corte, narrando seu cotidiano de Nova York entre o deslumbrado e o blasé, são particularmente hilários; assim como a narrativa de um encontro de Francis com Bernardo Bertolucci). Segundo, para relembrar que é melhor a crônica quanto mais a vida do cronista esteve perto do assunto tratado. Nos tempos em que é possível ler sobre tudo sem jamais ter entrado em uma biblioteca, “visitar” museus com cliques do mouse e “debater” no Twitter ou Facebook qualquer tema com pessoas de praticamente qualquer ponto do globo, isso talvez esteja um pouco esquecido. Claro que toda essa tecnologia traz mais benefícios do que desvantagens, mas textos como os de Francis falando da cena cultural de Nova York enquanto vivia lá ou do Ritz de Paris durante as revoltas estudantis de 1968 constituem um registro histórico em primeira pessoa, categoria indispensável. Por fim, Francis cita tantas obras e autores que é impossível suas crônicas não servirem como ponto de partida para a descoberta de novas leituras e temas.

Tentei fugir da comparação de Francis com os que o sucederam, exercício que me parece inútil e uma questão sobretudo de gosto pessoal. Paulo Francis é um homem do século XX, e, como disse Tony Judt da obra de Eric Hobsbawm (e, em certa medida, dele próprio), não se pode apreciar totalmente o século XX sem em algum momento ter compartilhado alguma de suas ilusões, em particular o comunismo. Francis, como Christopher Hitchens, outro grande cronista e ensaísta seu contemporâneo, foi trotskista. À minha geração, que mais do que qualquer anterior chega à idade adulta convencida de que Deus está morto e que não há, portanto, regras a serem seguidas, ainda cabe identificar suas ilusões, desconstruí-las e narrar esses tempos estranhos (ou concluir que todo tempo é estranho quando nele se vive). Sobre nós e a geração de Francis, vale o que ele próprio escreveu sobre os artistas dos roaring twenties:

Esses homens e mulheres viveram numa época mais generosa e arriscada do que a nossa, com seus yuppies tentando sobreviver só comendo legumes cozidos e correndo pelas ruas para preservar ao máximo suas carcaças, que nenhuma marca deixam na Terra, que pode ser de merda, mas é a única que temos.

::: Diário da corte :::
::: Paulo Francis :::
::: Três Estrelas, 2012, 408 páginas :::
::: compre na Livraria Cultura :::


  • http://www.facebook.com/daniel.the daniel

    muito bom, Luciano. esse livro, já vou colocar na fila. ler o Francis é quase sempre um prazer. ontem mesmo eu concluía a leitura de “O Brasil no mundo: Uma análise política do autoritarismo desde as suas origens”, livrinho que o Francis publicou em 85, sobre o 1964 e outras tragédias brasileiras. [quem quiser pegar, tá de graça na EV – http://www.estantevirtual.com.br/q/o-brasil-no-mundo-paulo-francis

    meu maior medo é que a nossa geração (sou de 84) deixe de ler essas coisas e se fixe apenas no debate rasteiro da internet para tirar suas conclusões sobre o passado.

    abs.

  • @bernarducs

    Li muito na faculdade, vai fazer 10 anos, e, fico grato por ter descoberto esse livro contra as tediosas aulas que um curso universitário, de professores não provocativos e apáticos, pode nos oferecer.

    Fico até surpreso desse livro ser resenhado aqui, um coletivo com faróis caindo pra esquerda. Pois, de fato, há muito de preconceito nos escritos dos cara – puxando de memória, há uma passagem no livro onde Francis duvida da identidade negra de certos manifestantes da causa por fazerem piquete (contra ele!), um procedimento europeu, na frente do jornal. Exemplos assim e outros piores existem o bastante para usarem o termo “facista” como um dos adjetivos póstumos relativos ao jornalista.

    Isso faz de mim também um facista quando dou uma risada sobre esses deboches e habituais rasgos elitistas e discriminatórios do velho? No tempo do políticamente correto pedante (ou, do politicamente incorreto rasteiro) essa é a conclusão que muitos fazem, que ninguém quer mexer e que acabam por jogar o legado do Francis à penumbra, fazendo dele e dessas questões tabus.

    Discordei muito de seu pensamento quando lendo-o pela primeira vez, e após todos esses anos, discordo muito mais. Mas é díficil não gostar do Francis pelo seu estilo ímpar, da sua capacidade argumentativa que consegue ao mesmo tempo ter contudência, às vezes ad hominem, e mesmo assim, imensa elegância e refino textual, fora os artifícios humorísticos, que me seria uma honra ser xingado pelo cara. A citação no fim da resenha é a constatação que o difere de seus injustificáveis suspostos sucessores, de Mainardis à Azevedos.

    • http://drunkeynesian.blogspot.com Luciano Sobral

      Nada a acrescentar, Bernardo. E a editoria do Amálgama é, me parece, cada vez mais plural: aparecendo texto bom pendendo à direita, eles publicam, também.

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