A crise americana

O que torna o livro muito bom é seu poder de síntese e os esforços para evitar a polarização partidária.

“Éramos nós: A crise americana e como resolvê-la”, de Michael Mandelbaum e Thomas L. Friedman

A nostalgia é tema recorrente na literatura (“Onde estão as neves de outrora?”, já se perguntava François Villon na Idade Média) e mesmo na análise política – com frequência a noção de uma Era de Ouro perdida impulsiona projetos de reforma da sociedade. Esses conceitos estão ainda mais presentes no título original deste livro – That used to be us: How America fell behind in the world it invented and how we can come back. Seus autores são dois intelectuais de grande prestígio e influência: o jornalista Thomas Friedman, colunista de política internacional do New York Times, e o cientista político Michael Mandelbaum, professor da Universidade Johns Hopkins, em Washington. Ambos estão na meia idade e são amigos desde a juventude, e a obra tem um toque muito agradável de cumplicidade, afeto e histórias pessoais, com algumas análises brilhantes, sobretudo no que diz respeito à inovação.

O argumento central do livro é que a crise americana tem quatro causas, que basicamente se agravaram desde o fim da Guerra Fria: incapacidade de compreender as transformações internacionais; fragilidades estruturais nas políticas públicas de educação, infraestrutura, meio ambiente e finanças; abandono dos valores culturais que levaram ao desenvolvimento dos Estados Unidos; impasses do sistema político. O diagnóstico não é particularmente original. O que torna o livro muito bom é o grande poder de síntese dos autores, sua capacidade de se expressar claramente e seus esforços para evitar a polarização partidária e distribuir críticas e elogios tanto a republicanos quanto democratas.

Friedman e Mandelbaum se definem como “otimistas frustrados”: “Acreditamos que a China está obtendo 90% dos benefícios potenciais de seu sistema político de segunda classe. Está atingindo o máximo de seu autoritarismo… [nós, americanos] estamos obtendo apenas 50% dos benefícios potenciais do nosso sistema de primeira classe.” Para eles, boa parte das dificuldades vem da acomodação e do conformismo que cresceram após o colapso da União Soviética. Enquanto potências emergentes como China e Índia se adpataram aos desafios do novo tempo, os Estados Unidos teriam caído em letargia: “Imaginávamo-nos como o leão que, tendo vencido o líder do bando concorrente na savana, torna-se o rei indiscutível de tudo à sua frente. Em vez disso, estávamos, e estamos, correndo o risco de nos tornar dinossauros.”

O sentimento de ter ficado para trás aparece em vários momentos do livro. Há um contraste – talvez um tanto idealista – da energia americana na Guerra Fria com a realidade atual de impasses burocráticos e declínio da educação e dos serviços públicos diante de uma China mais dinâmica e pragmática. Friedman e Mandelbaum argumentam que a globalização e o avanço das tecnologias de informação exigem profissionais muito mais qualificados e inovadores constantes, em todos os setores da economia, de garçonetes a engenheiros e executivos. Embora a tese seja questionável – boa parte dos empregos ao redor do mundo é de trabalho maçante, burocrático, repetitivo, mesmo em empresas de atuação global – os autores defendem bem seus casos. Entrevistando grandes empregadores, das Forças Armadas a CEOs de multinacionais, eles citam um destes – Curtis Carlson da SRI International – para formular uma Lei de Carlson: “A inovação que acontece de cima para baixo tende a ser ordeira, mas tola. A inovação que acontece de baixo para cima tende a ser caótica, mas inteligente.”

Friedman e Mandelbaum identificam “três Cs” fundamentais para os trabalhadores contemporâneos: pensamento crítico, comunicação oral e escrita eficaz e capacidade de colaboração e ação em equipe. Argumentam que essas características continuam muito presentes nos Estados Unidos, no plano local, de governos municipais ou estaduais, ou na atuação de professores e líderes empresariais. Essas experiências precisam ser adaptadas e replicadas nacionalmente.

Nenhum dos dois autores é especialista em economia, e seus capítulos sobre os problemas financeiros do país são interessantes, mas não originais. Eles traçam a anatomia da crise atual nas fragilidades de regulação e na explosão de bolhas especulativas, e defendem uma estratégia conjunta de controles do gasto público e aumento de impostos para equilibrar o déficit governamental. Dada a sensibilidade do tema nos Estados Unidos, é salutar observar Friedman e Mandelbaum ressaltando que a carga tributária americana é muito baixa na comparação com outros países desenvolvidos, e aquém do necessário para manter serviços públicos de alta qualidade, levando o Estado a recorrer a constantes empréstimos.

Essa chamada ao bom senso também se destaca em sua dura análise dos impasses do sistema político, em particular na radicalização ideológica dos partidos e da mídia (em particular de novos veículos de comunicação, como a Fox News e os blogs) e na influência descontrolada dos lobbies empresariais. Novamente, há certa idealização do passado, como se a época de juventude dos autores (anos 1950-60) tivesse sido a idade de ouro da políica americana. O ponto mais impressionante é a capacidade de Friedman e Mandelbaum em criticar segmentos como os idosos, afirmando que recebem benefícios desproporcionais que seriam melhor investidos na educação infantil.

Como em tantos livros sobre a crise dos Estados Unidos, o diagnóstico é melhor do que as propostas de cura, bastante centrada em apelos emocionais para a retomada dos valores e ideais que ajudaram a construir o sonho americano. Será preciso algo mais do que um simples ato de vontade. Mas o quê?

::: Éramos nós: A crise americana e como resolvê-la :::
::: Michael Mandelbaum e Thomas L. Friedman (trad. Ivo Korytowski) :::
::: Companhia das Letras, 2012, 416 páginas :::
::: compre na Livraria Cultura :::


----- Consulte os arquivos do Amálgama ||| Publique ||| Contato ||| Para reproduzir nossos textos -----