Viagem ao centro de Cuba – IV

Quando Yoani Sánchez criou a Academia Blogger de Cuba, Regina Coyula foi uma das primeiras a se matricular no curso.

[ leia o primeiro, segundo e terceiro posts ]

1. Leandro e seu Coco Táxi

O embargo dos Estados Unidos sobre Cuba completou 50 anos no último dia 3 de fevereiro sem perspectivas de chegar ao fim. Segundo Havana, até 2010 as perdas relacionadas a ele superavam os US$ 104 bilhões, mais que o triplo do Produto Interno Bruto (PIB) do país. A medida, originalmente uma represália legal às nacionalizações de propriedades dos EUA logo após a chegada de Fidel Castro ao poder, vem sendo condenada sistematicamente pela ONU desde 1992. A última condenação, de 2011, teve 186 votos a favor, dois contra (Estados Unidos e Israel) e três abstenções (Ilhas Marshall, Micronésia e Palau).

De fato, o embargo é muito prejudicial à economia da ilha. Só na exportação de açúcar e tabaco (charutos) para os EUA desde 1962 o país deixou de ganhar US 116,9 milhões. US$ 264,64 milhões é o cálculo do prejuízo advindo da proibição do turismo americano. Além disso, calcula-se entre US$ 216 milhões a US$ 416 milhões por ano o aumento estimado na receita de exportações americanas se o país pudesse comercializar livremente com Cuba.

No entanto, o embargo – e suas consequências nefastas para o povo cubano – não é o único vilão nesta história. Cinquenta anos de centralização econômica e de destruição do poder de iniciativa dos cubanos é o grande entrave ao desenvolvimento do país. Colocar a culpa por todas as mazelas nacionais no bloqueio é um esporte nacional. Leandro Munhoz, por exemplo, reclama ao volante de seu Coco Táxi (uma espécie de riquixá motorizado): “O bloqueio é terrível. Nos prejudica muito. É uma tentativa imperialista de nos dominar. Mas vamos seguindo, com todas as dificuldades”. O discurso de Leandro, que tem 25 anos e amealha cerca de 50 dólares por mês guiando o Coco Táxi pela ilha 12 horas por dia, é similar ao da maioria dos cubanos arguidos sobre o tema.

“Não fosse o bloqueio, nossa situação seria muito melhor”, aponta Túlio, um taxista empreendedor. A mesma opinião tem Abdel, um garçom que atua em um restaurante luxuoso no balneário turístico de Varadero: “Sem o bloqueio, as nossas condições econômicas estariam muito melhores. Muitas coisas o governo não pode fazer devido aos problemas causados por esta agressão dos Estados Unidos”, afirma.

O bloqueio é um rebotalho da Guerra Fria que fez apenas uma vítima: o povo cubano. O regime, a quem a iniciativa pretendia atingir, aprendeu usar a arma do inimigo. O feitiço contra o feiticeiro. O economista e dissidente cubano Oscar Espinosa Chepe explica: “O embargo serviu como álibi, justificativa, para o desastre nacional, que não é produto do embargo, e sim da má condução da economia. Não há justificativa para sua manutenção. O embargo era para causar dano ao regime, mas beneficiou o totalitarismo em Cuba”, afirma.

Os malefícios do embargo servem, ainda, para uma estratégia maquiavélica do totalitarismo cubano, que vende a ideia de que os dissidentes que lutam por liberdade de expressão – entre outras “ninharias pequeno-burguesas” – apóiam a ação dos Estados Unidos. Para a blogueira Yoani Sánchez, o assunto tem sido manipulado à exaustão pela imprensa estatal. “O prolongamento por cinco décadas do bloqueio tem permitido que cada descalabro que temos padecido seja explicado a partir dele, justificado com seus efeitos. O cerco econômico tem contribuído para alimentar a ideia de praça sitiada, onde dissentir equipara-se a um ato de traição. O bloqueio externo fortaleceu, desse modo, o bloqueio interno. O governo não reconhece, sequer, que entre os que discordam do sistema muitos se opõem, também, às restrições comerciais dos Estados Unidos à Ilha. No Granma se dá por certo que os que exigem uma abertura política aplaudem ipso facto a existência do embargo”, afirma.

Esta estratégia totalitária encontra eco no Brasil, em especial entre os socialistas autoritários que elegeram Cuba como o sétimo céu de uma ideologia que só prospera pela força. Uma síntese deste pensamento amedrontador pode ser visto nas palavras do sociólogo Emir Sader, em recente artigo publicado na Carta Maior. Diz ele: “Aqueles que se preocupam com o sistema político interno de Cuba, têm que olhar não para Havana, mas para Washington. Ninguém pode pedir a Cuba relaxar seus mecanismos de segurança interna, sendo vítima do bloqueio e das agressões da mais violenta potência imperial da história da humanidade. A pressão tem que se voltar e se concentrar sobre o governo dos EUA, para o fim do bloqueio, a retirada da base naval de Guantanamo do território cubano e a normalização da relação entre os dois países”.

Ou seja: a agressão estadunidense justifica o totalitarismo…

2. Regina Coyula: a blogueira

Quando em 27 de outubro de 2010 a filóloga Yoani Sánchez criou a Academia Blogger de Cuba, Regina Coyula foi uma das primeiras a se matricular no curso, que pretendia, com a ajuda de 28 pessoas, ser um centro de estudos dedicado à formação de blogueiros. A ideia era ensinar aos interessados técnicas de administração de um blog, jornalismo cidadão, fotografia e vídeo, cultura e jurisprudência cubana. Regina foi uma das 27 pessoas que passaram a se reunir semanalmente no pequeno apartamento de Yoani e que formaram o núcleo de uma revolução midiática que deu voz a dezenas de cubanos até então calados pela ausência de canais de comunicação na ilha.

Como resultado, há dois anos e meio ela edita o blog La Mala Letra (situado no portal Desdecuba), onde fala de assuntos relacionados à sociedade cubana. Foi na casa de Regina, em um bairro residencial de Havana, que pude conhecer e conversar por cerca de duas horas e meia com outros blogueiros que integram esta fauna midiática que tanto inferniza os velhos generais e burocratas do PC.

“Em 2008 Yoani me disse que ia criar um blog. Como funciona isso, perguntei. Ela tentou me explicar, mas para quem não conhece é como se não existisse. Ela me dizia ‘é como um correio de guerra’. Não entendia e a deixei com seu projeto. Só descobri o que era um blog em 2009, quando pude ir à Espanha. Voltei à Cuba obsessiva com a ideia de ter um. Foi pouco antes de Yoani organizar o curso”, explica.

Licenciada em História, Regina Coyula trabalhou entre 1972 e 1989 no departamento de Contra-Inteligência do Ministério do Interior. Em 1990 resolveu se desvincular ao máximo do Estado. Foi motorista, massagista, artesã, vendedora e dona de casa. Mas foi no jornalismo cidadão exercido através do blog que ela se realizou. “Por meio dele leio e estudo, me interesso por coisas que havia praticamente esquecido. O blog me dá vida”, explica.

O fenômeno dos blogs em Cuba é uma resposta à ausência de canais de expressão fora da esfera oficial. “Se quero organizar um protesto porque estão cortando as árvores de minha rua, ou jogando lixo indiscriminadamente, algo totalmente inócuo do ponto vista político, isso é motivo para comoção. Já é um problema”, diz Regina. O blog, neste contexto, surgiu como uma válvula de escape.

Como os cubanos não possuem internet em casa, as postagens são feitas em hotéis ou em embaixadas estrangeiras que abrem suas portas para que os cubanos acessem a rede por algumas horas semanais. No caso de Regina, que utiliza a plataforma WordPress, as postagens são feitas via email. “O acesso em um hotel custa o equivalente ao salário de um médico rico. Às vezes alguém nos dá um cartão de internet de uma hora, que, comprovadamente, nunca dura uma hora. Quando olha para a tela, já se acabou…”, reclama. Sem acesso a rede, poucos cubanos podem ler à profícua produção destes blogueiros rebeldes. Num primeiro momento, diz Regina, “cada postagem era como se jogássemos mensagens engarrafadas ao mar”.

No entanto, seus textos recheados de um realismo social cubano que pode parecer surreal a quem procede de uma democracia capitalista chegaram a muitas praias, atingindo um público variado mundo afora. Os cubanos também leem o que seus compatriotas espalham pela internet. Mesmo sem acesso a rede, eles fazem seus textos circular através de CDs e pen drives que passam de mão em mão.

“É um fenômeno que vai se tornando mais conhecido e que nos faz sentir um pouco comunicadores. Do núcleo original de blogueiros surgiram outros grupos, que por sua vez levaram esta semente a outras pessoas. Em princípio, o sentimento era o de que éramos náufragos, atirados a um mar virtual. Hoje, o portal [Desdecuba] está crescido e existem muitos outros blogs. Parece um anúncio da Color Benetton [risos]. Assim vamos falando ao mundo sobre o que ocorre em nosso país”, afirma.

Expor o contraponto político em Cuba não é brincadeira para iniciantes. Muita gente já foi ameaçada, espancada e presa por levantar a voz contra o regime. Apesar do perigo, os blogueiros que compõem este “coletivo de individualidades” não se rendem. Por meio da insistência em exercer seu direito à opinião, criaram um espírito, uma artéria, uma espécie de comunidade de interesses afins com o objetivo de irromper o medo, exorcizar seus demônios.

“Hoje, a coisa mais subversiva que digo é que não tenho medo, me nego a viver todos os dias de minha vida com medo. Terei medo de um dia morrer, claro. Eu costumo calar quando tenho à minha porta a polícia política. Eu tenho que calar quando falo ao telefone. É sempre uma possibilidade que ocorra algo. No subconsciente, esta possibilidade é sempre presente. Não penso ‘comigo não vai acontecer nada’, pois pode acontecer… mas o temor dessa consequência é o preço a pagar por esta liberdade interior que encontrei”, finaliza Regina.

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na próxima semana, o quinto e último post da série.


  • http://som-imaginario.blogspot.com Luis Henrique

    A série está ficando cada vez mais ideológica do que jornalística. Não que o jornalismo seja isento de ideologia, mas assim já é demais: falou-se muito pouco da vida de Leandro, e da blogueira desta ‘esfera yoanística’ já sabemos muito através dos meios tradicionais de comunicação. Eu recomendo um portal que abriga muitos blogueiros cubanos: o Havana Times que, ao contrário do da dona Yoani, abre espaço para livre discussão na seção de comentários sem que alguém cuja posição difira da autora seja bloqueado ou trollado. Há um outro blog muito bom de jovens universitários de Matanzas, o La Joven Cuba

    • G3rm4no

      Se Cuba é tão bom assim por que você não vai morar lá?

      • Luis Henrique

        Meu Deus do céu onde eu disse que ‘Cuba é tão bom’? Só porque contrariei o autor lá vem um repetindo o clichê direitista mais batido do universo.

  • Smiliguido

    Uma passada dolhos no Ultimo Soldado da Guerra Fria também ajuda entender um pouco essa pendenga…o autor sabe do que fala…

    • Luis Henrique

      Exato. A fala de Leandro: “O bloqueio é terrível. Nos prejudica muito. É uma tentativa imperialista de nos dominar. Mas vamos seguindo, com todas as dificuldades” não é esporte nacional. É a expressão de um povo sitiado. E em nenhum momento implica algo como: “O bloqueio é responsável por todos os nossos problemas” como o autor insinua.

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