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Top 10 mitos sobre a guerra na Líbia

por Juan Cole (23/08/2011)

Qaddafi progressista? Guerra civil? Os EUA lideraram a intervenção? Petróleo foi um fator decisivo?

por Juan Cole

-- Opositores da ditadura líbia nas ruas de Trípoli --

 

A revolução líbia, em grande parte, já cumpriu seus objetivos, e este é um momento de celebração, não apenas para os líbios, mas para a geração de jovens no mundo árabe que vem perseguindo abertura política por toda a região. O segredo do sucesso dos últimos dias na Líbia pode ser encontrado numa revolta popular dos distritos da classe trabalhadora da capital, que foi quem fez a maior parte do serviço em se livrar das rédeas da polícia secreta e dos grupelhos militares. Eles foram tão bem sucedidos que, quando as brigadas militares entraram na cidade vindas do oeste, muitas encontraram pouca ou nenhuma resistência e foram direto para o centro da capital.

A fase final, em que o povo de Trípoli derrubou os Qaddafis e se uniu ao Conselho de Transição Nacional, é o melhor dos cenários entre os que eu havia sugerido como os mais prováveis desenlaces da revolução. Venho elaborando esse argumento há algum tempo, e ele causou certa incredulidade quando o expus em uma palestra na Holanda em meados de junho, mas desde sempre foi meu melhor palpite. Eu acertei onde outros não acertaram porque minhas premissas se mostraram mais sãs, isto é, que Qaddafi havia perdido apoio popular entre todos os setores da sociedade e se mantinha no poder apenas através da força crua. Uma vez que o bastante da capacidade de seus armamentos pesados foi interrompido, e seu combustível e suprimentos de munição bloqueados, a hostilidade subjacente do povo comum em relação ao regime pôde mais uma vez se manifestar, como ocorrera em fevereiro. Além disso, eu estava convencido de que a maioria dos líbios se sentia atraída pela revolução e pela ideia de abertura política, e que isso não apresentava grande risco para a unidade nacional.

Não tenho a intenção de subestimar os desafios que ainda existem – vitórias em áreas ainda dominadas por pessoas leais ao regime, reestabelecimento da lei e da ordem em cidades atingidas por revoluções populares, reconstituição da polícia e do exército nacional, levar o Conselho de Transição para Trípoli, fundar partidos políticos e construir um novo regime, parlamentar. Mesmo em sociedades muito mais institucionalizadas e menos baseadas em clãs, como Tunísia e Egito, essas tarefas se mostram nada fáceis. Mas seria equivocado, neste momento de triunfo para a Segunda República líbia, demorar-se sobre as dificuldades porvir. Os líbios merecem um momento de júbilo.

Levei um bocado de pressão devido ao meu apoio à revolução e à intervenção da Liga Árabe e da OTAN, autorizada pelas Nações Unidas, que evitou que a revolução fosse esmagada. No entanto, a pressão não foi maior do que a sofrida pelos jovens de Misratah que lutaram contra as barragens de tanques de Qaddafi, então está tudo bem. Eu odeio guerra, tendo presenciado uma de perto no Líbano, e odeio a ideia de pessoas sendo mortas. Os críticos que me imaginaram vibrando durante operações de bombardeio da OTAN estavam apenas sendo cruéis. Mas aqui eu concordo com o presidente Obama e sua citação de Reinhold Niebuhr. Você não pode proteger todas as vítimas de assassinatos em massa, em todos os lugares, o tempo todo. Mas onde você puder fazer algum bem, você deve fazê-lo, mesmo se você não conseguir fazer tudo adequadamente. Eu lamento as mortes de todas as pessoas que morreram nessa revolução, especialmente devido ao fato de que muitas das brigadas de Qaddafi foram claramente coagidas (elas desertaram em grandes números na primeira oportunidade que se sentiram em segurança). Mas para mim sempre esteve claro que Qaddafi não era um homem para se entrar em acordo, e que sua máquina militar chacinaria os revolucionários se tivesse a chance.

Além disso, aqueles que questionam se houve interesse americano na Líbia me parecem um pouco cegos. Os EUA têm interesse em não haver massacres de pessoas por meramente exercitarem seu direito à livre associação. Os EUA têm interesse em uma ordem mundial fundada no direito, e portanto na resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas exigindo que líbios sejam protegidos de seu governo assassino. Os EUA têm interesse na OTAN da qual fazem parte, e membros da OTAN como França e Grã-Bretanha investiram muito nessa intervenção. Os EUA têm um profundo interesse no destino do Egito, e o que ocorreu na Líbia poderia ter afetado o Egito (Qaddafi alegadamente tinha oito oficiais egípcios em sua folha de pagamento).

Dadas as controvérsias acerca da revolução, vale a pena revisar os mitos sobre a revolução líbia que levaram tantos observadores a cometerem tantas afirmações fantásticos ou simplesmente erradas sobre ela.

1) Qaddafi era um progressista em política interna. Se é verdade que lá nos anos 1970 Qaddafi era mais generoso no compartilhamento da riqueza do petróleo com a população, comprando tratores para fazendeiros etc., nas últimas duas décadas essa política mudou. Ele se tornou vingativo contra tribos do leste e do sudoeste que cruzavam seu caminho, as privando de sua justa porção da receita nacional. E na última década e meia, corrupção extrema e ascensão de oligarcas ao estilo pós-soviético, incluindo Qaddafi e seus filhos, desencorajaram investimentos e arruinaram a economia. Trabalhadores sofriam controle ferrenho e eram impedidos de barganharem coletivamente pela melhoria de suas condições. Havia muito mais pobreza e má infraestrutura na Líbia do que deveria haver em um estado petroleiro.

2) Qaddafi era um progressista em política externa. Novamente, ele mudou as posições, ou poses, que tomou nos anos 70. Em anos recentes, ele desempenhou um papel sinistro na África, engordando a poupança de ditadores brutais e ajudando no fomento de guerras ruinosas. Em 1996, esse suposto paladino da causa palestina expulsou 30.000 palestinos de seu país. Após sair da geladeira, com o fim de sanções europeias e americanas, ele começou a aparecer em companhia de George W. Bush, Silvio Berlusconi e outras figuras direitistas. Berlusconi chegou mesmo a dizer que considerou renunciar como primeiro ministro quando a OTAN começou sua intervenção, dada sua relação pessoal com Qaddafi. Que progressista.

3) Era natural que Qaddafi enviasse seu exército contra os manifestantes e revolucionários; qualquer país teria feito o mesmo. Não, não teria, e esse é o argumento de um cretino moral. Na verdade, o corpo de oficiais tunisiano se recusou a atirar nas multidões tunisianas a pedido do ditador Zine El Abidine Ben Ali, e o corpo de oficiais egípcio se recusou a atirar em multidões egípcias a pedido de Hosni Mubarak. A disposição do corpo de oficiais líbio em oferecer violência macabra a multidões de manifestantes derivava da centralidade que os filhos e camaradas de Qaddafi tinham no topo da hierarquia militar, e da falta de conexão entre o povo e os soldados profissionais e mercenários. Empregar o exército contra não-combatentes foi um crime contra a humanidade. Qaddafi e seus filhos serão julgados por esse crime, que não é “perfeitamente natural”.

4) Havia uma longa paralisia na luta entre os revolucionários e o exército de Qaddafi. Não havia. Essa ideia foi alimentada a partir do ponto de vista de muitos observadores ocidentais em Bengazi. É verdade que havia uma grande paralisia em Brega, que acabou antes de ontem quando as forças pró-Gaddafi se renderam. Mas as duas frentes mais ativas na guerra eram Misratah e arredores, e a região das montanhas ocidentais. Misratah lutou uma batalha épica, estilo Stalingrado, uma batalha de autodefesa contra os ataques dos blindados e da infantaria de Qaddafi, finalmente se mostrando vitoriosa com ajuda da OTAN, e a partir de então eles foram lutando cada vez mais a oeste, rumo a Trípoli. As batalhas e avanços mais dramáticos foram em grande medida na região montanhosa ocidental berbere, onde, novamente, as unidades de blindados de Qaddafi impiedosamente bombardearam pequenas cidades e vilas, mas foram rechaçados (inicialmente com menos ajuda da OTAN, que eu acredito que não deu a devida importância a essa área). Foram os revolucionários voluntários nessa região que finalmente tomaram Zawiyah, com a ajuda da população dessa cidade, na última sexta, e com isso cortaram as rotas de petróleo e munição que abasteciam Trípoli, vindas da Tunísia, e tornaram possível a queda da capital. Qualquer observador mais próximo da guerra, desde abril, terá visto constante movimento, primeiro em Misratah e então nas montanhas ocidentais, e nunca houve uma paralisia completa.

5) A revolução líbia era uma guerra civil. Não era, se por isso entendemos uma luta entre dois grandes grupos dentro do corpo político. Não houve nada parecido com a viciosa luta sectária civil-contra-civil na Bagdá de 2006. A revolução começou com protestos públicos pacíficos, e apenas quando as massas urbanas foram sujeitadas a artilharia, tanques, morteiros e bombas de fragmentação é que os revolucionários começaram a se armar. Quando a batalha começou, era combatentes voluntários representando seus respectivos bairros contra soldados regulares bem treinados e mercenários. Isso constitui uma revolução, não uma guerra civil. Apenas em algumas poucas áreas, tais como Sirte e arredores, civis pró-Gaddafi se opuseram aos revolucionários, mas seria errado elevar um punhado de escaramuças daquele tipo à condição de guerra civil. O apoio a Qaddafi era limitado e centrado demais no exército profissional para nos permitir falar de guerra civil.

6) A Líbia não é um país real e poderia se ver dividida entre leste e oeste. Alexander Cockburn escreveu: “Não é preciso muita presciência para ver que isso vai acabar mal. A recusa de Qaddafi em entrar em colapso no tempo esperado aumenta cada vez mais a pressão para o início de uma guerra terrestre, já que a operação da OTAN é, em termos de prestígio, como os bancos que Obama afiançou, Grande Demais Para Falhar. A Líbia provavelmente será balcanizada.”

Eu não entendo a propensão de analistas ocidentais em continuarem declarando nações do sul global como “artificiais” e à beira da divisão. É um tipo de orientalismo. Todas as nações são artificiais. Benedict Anderson localiza o surgimento do Estado-nação no final do século 18, e ainda que ele seja um pouco mais antigo, trata-se de uma coisa nova na história. Além disso, a maioria dos Estados-nações são multiétnicos, e muitos entre aqueles estabelecidos em longa data têm subnacionalismos que ameaçam sua unidade. Assim, os catalães e os bascos estão desconfortáveis dentro da Espanha, os escoceses podem cair fora da Grã-Bretanha a qualquer momento, etc. etc. Em contraste, a Líbia não tem qualquer movimento separatista bem organizado e popular. Ela tem divisões tribais, mas estas não são base para separatismo nacional, e alianças tribais e fissuras são mais fluidas do que etnicidade (que é ela mesma menos fixa do que costuma-se acreditar). Todos falam árabe, embora para os berberes ele seja uma língua pública; os berberes estão entre os herois líbios da região central, e serão premiados com uma Líbia mais pluralista. Essa geração de jovens líbios que travou a revolução em sua maior parte frequentou as escolas estatais e tem um forte comprometimento com a ideia de Líbia. No decorrer da revolução, o povo de Bengazi insistiu que Trípoli era e continuaria sendo a capital. Ocidentais procurando por rachaduras em pós-ditaduras estão fixados nos eventos dos Bálcãs após 1989, mas no geral não há um análogo exato no mundo árabe contemporâneo.

7) Teria que haver brigadas de infantaria da OTAN no terreno para que a revolução tivesse sucesso. Todo mundo de Cockburn a Max Boot (é assustador quando esses dois concordam em algo) propagou essa ideia. Mas não há nenhuma brigada de infantaria estrangeira na Líbia, e é improvável que veremos alguma. Líbios são bastante nacionalistas e deixaram isso claro desde o início. Da mesma forma, a Liga Árabe. A OTAN teve alguns recursos de inteligência no terreno, mas eles eram numericamente pequenos, requeridos por trás das cenas pelos revolucionários para ações de conexão e localização, e não chegaram a constituir uma força de invasão. O povo líbio nunca precisou de brigadas estrangeiras no terreno para ter sucesso em sua revolução.

8 ) Os Estados Unidos lideraram a marcha para a guerra. Não há a menor evidência para essa alegação. Quando perguntei a Glenn Greenwald se uma recusa americana em se juntar à França e à Grã-Bretanha em uma frente militar em que a OTAN está em ação não poderia ter destruído a organização, ele respondeu que a OTAN jamais teria agido a menos que os EUA tivessem uma queda pela intervenção desde o primeiro momento. Temo que a resposta foi menos baseada em fatos e mais doutrinária do que estamos acostumados a ouvir do Sr. Greenwald, cuja pesquisa e análise sobre questões domésticas é em geral de primeira categoria. Como alguém que não é estranho à história diplomática, e que na verdade ouviu na Europa algumas instruções de ministros do exterior e oficiais de países membros da OTAN, me sinto ofendido com a lubricidade de uma resposta dada sem mais substanciação do que uma ideia fixa. O excelente serviço de telégrafos McClatchy informou as razões pelas quais o Secretário de Estado Robert Gates, o Pentágono e o próprio Obama estavam extremamente relutantes em se envolver em mais uma guerra no mundo muçulmano. É óbvio que os franceses e britânicos lideraram a marcha nessa intervenção, provavelmente porque acreditaram que uma luta entre a oposição e Qaddafi, se prolongada por anos, a radicalizaria e apresentaria uma abertura para a al-Qaeda, portanto apresentando várias ameaças à Europa. O presidente francês Nicolas Sarkozy havia sido antes politicamente malhado depois da oferta de sua ministra da defesa, Michèle Alliot-Marie, de enviar tropas para ajudar Ben Ali na Tunísia (Alliot-Marie havia sido convidada de bem Ali em férias extravagantes), e pode ter desejado tanbém restaurar os tradicionais créditos franceses no mundo árabe, bem como parecer um homem resoluto para o eleitorado interno. Quaisquer que tenham sido as motivações da Europa ocidental, elas foram as decisivas, e o governo Obama claramente foi junto como um parceiro menor (algo que deixou o senador John McCain amargurado).

9) Qaddafi não teria matado ou aprisionado grandes números de dissidentes em Bengazi, Derna, Al Bayda e Tobruk se tivesse conseguido concluir sua blitzkrieg de março em direção às cidades do leste que o desafiavam. Mas temos exemplos do mundo real de como ele teria se comportado – em Zawiyah, Tawargha, Misratah e em todo lugar. Seus bombardeios indiscriminados de Misratah já haviam matado entre 1000 e 2000 pessoas em abril último, e continuou durante todo o verão. Pelo menos uma vala comum com 150 corpos dentro foi descoberta. E a história completa dos horrores em Zawiyah e em outras parte da região ocidental ainda está para emergir, mas não será nada bonito. A oposição alega que as forças de Qaddafi mataram dezenas de milhares. Estudos de saúde pública podem em breve deixar esse ponto claro, mas nós definitivamente sabemos do que Qaddafi era capaz.

10) Essa foi uma guerra pelo petróleo da Líbia. Isso é tolice. A Líbia já estava integrada ao mercado internacional de petróleo e tinha acordos de bilhões de dólares com a British Petroleum, Ente Nazionale Idrocarburi, etc. etc. Nenhuma dessas companhias gostaria de colocar seus contratos em risco em nome de se livrar de um governante que assinou com elas esses contratos. Elas já estavam com trauma por terem que competir pelos contratos pós-guerra no Iraque, um processo em que muitas se deram menos bem do que gostariam. Os lucros da ENI sofreram com a revolução líbia, como sofreram aqueles da Total SA e da Repsol. Além disso, tirar o petróleo líbio do mercado por meio de uma intervenção militar da OTAN poderia previsivelmente aumentar o preço do barril, o que nenhum líder ocidental eleito gostaria de ver, especialmente Barack Obama, com o perigo de que um pico nos preços de energia poderia prolongar o marasmo econômico. Um argumento econômico para denunciar o imperialismo é sempre bom quando faz sentido, mas esse em questão não faz, e não existe boa evidência para sustentá-lo (o fato de Qaddafi ser errático não é o bastante), e é portanto apenas uma teoria conspiratória.

Juan Cole

Professor de História na Universidade de Michigan, há mais de três décadas estuda as relações entre o Ocidente e o mundo muçulmano. Comentarista em diversos canais de tevê, é autor, entre outros, de Engaging the Muslim World (2009). Seus textos são reproduzidos no Amálgama com sua autorização.