“Orgulho Hétero”: Guilherme Fiuza e a racionalização da idiotia e da excrecência


por Daniel Lopes

-- Carlos Apolinário (DEM-SP) --

 

A mais recente coluna de Guilherme Fiuza é um ótimo exemplo do quão tosco pode se tornar a crítica do politicamente correto. Como eu reconheci outro dia, não podemos passar sem alguma crítica do politicamente correto, que às vezes é mesmo maléfico, mas a crítica dogmática é tão maléfica quanto, porque afinal de contas quem há de negar que o politicamente correto muitas vezes é… correto? Pelo menos pelos padrões dos que supostamente são fãs do progresso social no primeiro mundo.

O texto “Dia do Orgulho Hétero: a guerra inútil do sexo” está na Época. Veja. No sexto de seus nove parágrafos, Fiuza faz referência ao aumento porcentual pífio no número de alunos carentes nas universidades federais, não obstante 15 anos de cotas raciais – cujos apologistas dizem que cota por faixa de renda apenas não resolve o problema, porque a pobreza no Brasil “tem cor”. O jornalista observa que esse murro em ponta de faca dos apologistas é um dos efeitos danosos do politicamente correto. Eu tendo a concordar. Mas o que estranha é ver essa crítica razoável presente em um texto sobre o Dia do Orgulho Hétero.

Quer dizer, estranha até você lembrar que, para a Grande Teoria Unificada do Politicamente Correto, da qual Guilherme Fiuza é um dos mais destacados propagadores, se uma porção do politicamente correto está errada, as outras também estão. Não há discriminação nem pausas para pensar. Por isso que, entre cotas e gays, Fiuza insere Obama. Isso é antológico: foi o forte sentimento de conquista que se seguiu à eleição do primeiro negro à presidência dos EUA (sentimento politicamente correto, sem dúvida) que, no final das contas, agravou a crise da dívida daquele país. Porque a negralhada teria açodado os republicanos, que então se levantaram para bater de frente. Claro, claro. E os linchamentos de negros e a crise de 1929 ocorreram devido às comemorações que cercaram a indicação, de outra forma bem sucedida, de um moreno-escuro para a secional Mississípi da agência federal de hortigranjeiros.

Fiuza concorda que o bem sucedido projeto do Dia do Orgulho Hétero, de autoria do vereador evangélico paulistano Carlos Apolinário (DEM), é “idiota” e “uma excrecência”. Mas ele também acha que trata-se de um passo “coerente”. Por quê? Porque vindo de alguém do background do nobre político? Porque, em uma sociedade preconceituosa como a brasileira, esse tipo de reação é previsível? Não, nada disso. É coerente porque, segundo Fiuza, “é para esse tipo de aberração que a história ‘progressista’ caminha.” A agenda e as ações dos homossexuais estariam além da conta, havendo uma “exacerbação” – “o que poderia ser um movimento saudável, de afirmação dos que foram (e são) oprimidos por sua natureza afetiva, ganha tons de arrogância e até revanchismo.”

Parei para pensar: arrogância e revanchismo são posturas salientes das principais correntes de ativistas pelos direitos dos homossexuais? Não, não são. São periféricas, bem periféricas, e o fato do jornalista não aparecer com nenhum exemplo só reforça meu juízo. No quesito arrogância, consigo pensar no máximo em indivíduos com santinhos de gesso em paradas gay, mas isso não é a mesma coisa que invadir bêbado, portando a bandeira do arco-íris, uma missa de domingo de manhã no interior da Paraíba. No quesito revanchismo, realmente não consigo pensar em nada. Talvez se o Fiuza me disser que sites e blogs anda lendo, eu possa me informar melhor.

Os ativistas gays, em sua esmagadora maioria (para não falar dos gays que não fazem parte do movimento), não querem uma ditadura gay, que é o que o artigo da Época no final das contas insinua. O que eles querem é, até onde for possível em uma democracia, o fim de uma homofobia disseminada por toda a sociedade e pregada em diversos palanques e púlpitos. E estamos longe desse universo possível. Homofobia não envolve apenas o direito à liberdade de expressão. Homofobia custa lágrimas e sangue, e é incrível como pessoas que se acham liberais ainda não lhe dão a mesma atenção que dão a outros discursos de ódio.

Guilherme Fiuza é da opinião de que “figuras retrógradas, como o deputado Jair Bolsonaro, ganham combustível e até se declaram vítimas de ‘heterofobia’ – miseravelmente com razão.” Ora, não se pode pegar deputados “retrógrados” e vereadores que propõem projetos “execráveis” como termômetro ideal das ações de um grupo de ativistas de direitos humanos! Caro leitor, quantos heterossexuais, além de gente do calibre do Bolsonaro, você conhece que se acreditam vivendo em um ambiente de crescente heterofobia?

Não, não há equivalência entre a “exacerbação” de uns poucos gays e o clima de desrespeito e violência contra homossexuais. Que Apolinários e suas ideias geniais aparecerão ao longo do caminho da conquista de direitos e respeito, não há dúvida. Sempre foi assim, no mundo todo. Que os batalhadores por estes direitos e respeito devam graduar sua atuação de acordo com a reação desse tipo de gente, é duvidoso. Apolinários são o fardo do homem civilizado, e nada mais do que isso. Pelo que eu vejo, já não digo do projeto de sua autoria, mas da maneira como esse vereador se expressa, concluo que ele só deve ter QI superior ao de seus eleitores. Se até muitos evangélicos com certeza relutariam em dar-lhe voto sobre questões de moral cristã, por que ele deveria ter sua voz levada mais a sério no que diz respeito à relação dos homossexuais com o restante da sociedade?

Tanto no caso dos EUA quanto no caso do Brasil, opinólogos como Guilherme Fiuza parecem achar que, não fossem os supostos excessos daqueles que vibram com conquistas progressistas de alto valor simbólico e daqueles que militam pela causa gay, a sociedade seria poupada das ignomínias de tea partiers e pastores da Assembleia de Deus. Mas por que não dizer que a “exacerbação da cultura gay” é ela mesma reação à existência de figuras como Apolinário? De fato, eu poderia brincar de ação e reação e levar o leitor até o momento em que, no Período da Roda Quadrada, um respeitado ancião flagrou duas jovens expressando sua natureza afetiva minoritária e pregou que a Mãe Lua poderia não gostar do ato, ouvindo como resposta um “Sifudê!” (para efeito mais realista, imaginar essa resposta dada de forma exacerbada, com sotaque do Crescente Fértil Oriental).

Fiuza acredita que os politicamente corretos não se aquietarão enquanto “gays e héteros não entrarem definitivamente em guerra.” Que bobagem. Pegue a estatística de homossexuais agredidos por serem homossexuais (e de heteros que os agressores pensaram ser homossexuais), depois pegue a estatística de heteros agredidos por serem heteros. Compare as proporções. No caso extremo de haver um conflito, seria menos parecido com a guerra imaginada pelo colunista do que com uma campanha de extermínio.





Daniel Lopes

Editor do Amálgama.








MAIS RECENTES


  • Paulo Roberto Stockler

    Excelente!!

  • Flavio P. Nogueira

    Com todo respeito, apenso minha opinião:
    Conservadores são tanto homos como heteros; generos distintos por forma de exercer em forma o ser-humano, ha historia não mente; retrata. Minoria ou maioria em democracia, iguais são, por tanto legislados são por padrão. Diferenciar o genero unico – humano por situação é, na minha opinião gerar confusão. Leis para minorias em uma democracia é fora de padrão e, sem padrão oque é democratico?.
    Palanque não conheço, não me disponho. No entanto familia conheço, hetero sou, obvio é o padrão da familia que defendo.

    • Nelson Góes

      Flávio, fiquei confuso já que o seu texto diz que “Diferenciar o genero unico – humano por situação é, na minha opinião gerar confusão” e logo após se coloca como hetero. Somos sistematizadores natos e em grande medida a sistematização é importante na nossa sociedade, o problema é quando tentamos reduzir um ser humano a apenas um rótulo e achar que ele cabe mesmo ali, achar que quando algo foge a essa sistematização o problema sempre está no objeto e nunca no modelo criado.

      Também não vejo como se dizer heterossexual deixe óbvio o padrão de família que defende, explico: Nunca senti atração por homens, sou muito bem casado e pai de três filho, ou seja, também heterossexual. O padrão de família que defendo nada tem a ver com a minha orientação sexual. A família que defendo é aquela baseada no amor, na confiança, no respeito, na cumplicidade, características que faltam a numerosas família constituídas por casais heterossexuais. Um casal heterossexual não implica necessariamente na formação de uma família estável, tampouco é garantia de segurança para os filhos.

      Gostaria também de discordar da sua assertiva em relação à democracia. Creio que a democracia visa o bem comum, o que é bem diferente de fazer a vontade da maioria. Direitos iguais sim, mas tratamentos desiguais diante de desigualdades é um pressuposto do estado democrático de direito. Certamente que a minha heterossexualidade nunca foi barreira ou impeditivo para o convívio social. Homossexuais são alvos de discriminações de todo tipo, desde a tenra idade experimentam o mais cruéis adjetivos em função de um comportamento que em nada ofende o direito alheio, não raras vezes são agredidos ou assassinados em função da orientação sexual.

      No mais não posso discordar quando diz que conservadores (ou ortodoxos, como prefiro chamar os radicais) estão mesmo por toda parte, sendo estes, na minha opinião, os que transformam qualquer ideologia em um verdadeiro atentado contra a humanidade.

  • Erica

    Gente, não é por nada não, mas, a quem esse Apolinário quer enganar? Ele me faz lembrar o quadro do Chico Anísio, aquele que o “Aroldo, o macho hétero” tenta sufocar seu homossexualismo e sua colega de ‘métier’ pede para que se libere aos gritos de “Luana, volta pro reduto!!”.

  • Billy

    Aplausos para o Deputados que levaram o projeto adiante. Dia do orgulho heterossexual é uma manifestação democrática que representará a opção sexual da população de bem, ou seja, aquela que D’US determinou a cada um no nascimento. MACHO ou FÊMEA. A esquerdalha autoritária não gostou nada, já que as suas armas estão sendo usadas pela população de bem. É isso aí, para cada movimento desses ímpios, um movimento nosso na mesma intensidade e de sentido contrário. Também é importante ficar de olho, o projeto força as autoridades a saírem de cima do muro, veremos quem está contra a população ordeira. VIVA A DEMOCRACIA !

  • elvissantos

    O reacionário de primeira fala em democracia…ahahah…menciona pertencer a “população de bem” e utiliza como argumento preceitos religiosos…ao mesmo tempo que menciona deus demonstra seu extremo preconceito. Que deus é este? Só pode ser o dos néscios, que só atrasam o processo de estabelecimento da tolerência. Que se apegam a religião, mas nada sabem sobre igualdade, justiça, tolerância, fraternidade (aliás, bem característico das religiões monoteístas). Fala em “esquerdalha “sem observar (aliás, coisa típica de néscios) que foi exatamente as ideias de “esquerda” que estabeleceram os princípios democráticos modernos. Mas falar isto pra este tipo de gentalha e esmurrar ponta de faca, haja vista, que nem desenhando, um coitado deste entende alguma coisa de política.

  • Heber

    Pode contar comigo naquele quesito “quantos heteros vc conhece que sentem que estão sofrendo heterofobia”. E eu não sou do bando de Bolsonaro.

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