Não sei, não posso saber e tenho raiva de quem sabe!

Como a terapia é uma busca contínua de autoconhecimento, não poderia ser de outra forma: ela dói horrores.

Ser senhor do seu destino e dono da sua razão ou uma marionete controlada por dedos e cabos invisíveis? Ter livre arbítrio e escolher, ou deixar-se levar com o confortável atestado de inocência que a ignorância carimba? Não dá nem pra saída! O caminho preferencial da maioria é o da bendita cegueira.

Como a mulher que tem um marido que a trai ou um filho que usa e é abusado pelas drogas; a cidade inteira sabe, menos ela, que, se soubesse, não poderia mais aceitar e seria forçada a tomar uma providência. Ou então aquele sujeito com olhar de desejo, que qualquer um de olhos minimamente abertos percebia, menos ele, que declara ter sido atropelado pelos fatos: “Eu não queria que isso acontecesse! Quando eu vi: já era. Não foi culpa minha.” Conversa pra bois e consciências dormirem.

O fato é que a lucidez carrega consigo o peso da responsabilidade. O conhecimento ou não de um fato é a diferença que pode nos transformar de meras vítimas em cúmplices.

Como a terapia é uma busca contínua de autoconhecimento, não poderia ser de outra forma: ela dói horrores. Dói porque furungamos em feridas; porque vamos na contramão das nossas defesas; mas dói também porque nos tornamos mais responsáveis pelas nossas escolhas.

Quando uma pessoa inicia uma avaliação para análise, em pouquíssimo tempo ela recebe informações sobre o que aconteceu com ela, o que está acontecendo, e o que ela vai ter que fazer acontecer para melhorar. Ali, agora, ela tem dois caminhos possíveis. Em menos tempo ainda a maioria escolhe o rumo da porta da rua. Abandonar o papel de vítima e tornar-se uma pessoa mais madura? Eles pensam em voltar daqui a alguns anos, quando já tiverem inventado alguma técnica de terapia sem dor. Muitos realmente voltam, várias vezes até, para ouvir a mesma opinião e fugir de novo. E é das coisas mais tristes e frustrantes da profissão ver o estrago que o tempo mal vivido faz, e que poderia ter sido evitado. Mas, como já disse, não sem dor.

Não foram poucas as vezes em que escutei pacientes dizendo que preferiam estar doentes ou, até mesmo, morrer para não ter que tomar a atitude que agora sabem ser necessária. Outros se arrependem de ter descoberto algo que estava tão tapado e pedem para ajudá-los a enterrar tudo novamente. Existem ainda os que buscam refúgio na loucura (não é uma força de expressão, e nem ao menos raro), parando deliberadamente de tomar um medicamento antipsicótico, ou expondo-se a situações de risco para eles, como diabéticos a se fartarem num bufê de doces.

Os que conseguem aguentar o calor e a pressão têm a chance, enfim, de fazer as suas próprias escolhas. Só então recuperam – ou conquistam pela primeira vez – o pouco de controle que todos temos sobre as nossas vidas.

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18 comentários

  1. marina trindade  04/08/2012 at 9:09 am

    excelente artigo. diz o que sinto e não queria sentir, nem saber…
    parabéns dr. rônei, pela simplicidade ao escrever…
    marina

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  2. Bosco  04/08/2012 at 11:37 am

    Eu imagino!

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  3. maria clara  05/08/2012 at 5:42 am

    Somente quem deitou em um divã tem noção do tamanho da dor! Precisa ter coragem !!

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  4. Mathias F. Schuh  05/08/2012 at 1:12 pm

    Como disse uma vez Schopenhauer: “A verdade fica mais bonita nua, e a impressão que ela causa é mais profunda quanto mais simples for sua expressão”. É dessa forma simples e desnudada que o autor consegue tocar os leitores. Quando assim se escreve,o efeito provém do próprio assunto e não da prolixidade que pode conter.
    Parabéns Dr. Rônei! Muito sucesso nessa caminhada!

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  5. Renata  05/08/2012 at 4:43 pm

    Rônei, adorei o artigo!! Parabéns pelo sucesso, não somente como escritor, mas também como médico!! Tuas palavres fluem suavemente e de repente………….a gente já leu tudo!!
    Abraço,
    Renata

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  6. lucas  05/08/2012 at 6:04 pm

    propaganda de freud doutor? máfia esses médico

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  7. Maria Odete Pellicel  05/08/2012 at 9:34 pm

    Só quem já trilhou, ou está trilhando esse caminho, sabe o quanto dói. Mas, feliz daquele que tiver em seu caminho, um Dr. Rõnei. Parabéns, Doutor e ainda por cima, escritor. Forte abraço.

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  8. Rita Maria  07/08/2012 at 1:47 pm

    Dói! Dói enfrentarmos nossos monstros e vencê-los. Porém, a satisfação de vislumbrarmos uma caminho, ou vários, é muito maior. A lucidez , às vezes, nos faz sagrar, mas fortalece nosso olhar. E como diz Saramago : ” Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”.
    Parabéns! Sucesso! Abraço.

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  9. Denise Zaccaro  07/08/2012 at 1:53 pm

    …”ter sido atropelado pelos fatos”….traduz muito do que senti….e tempo que perdi.
    …um diagnóstico perfeito pra mim.
    …fiquei encantada com a crônica….te felicito…bjs.

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  10. Rosângela Gil  07/08/2012 at 2:58 pm

    Parabens Ronei.

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  11. Zenaira Barbosa Machado  08/08/2012 at 11:26 am

    Adorei essa crônica! Um beliscão na gente! Abraço

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  12. Jonathan de Souza  08/08/2012 at 11:10 pm

    Um belo resumo da vida. É interessante que nós seres humanos, como mostrado na crônica, somos realmente dessa forma. Fugimos da dor, fugimos do que pensamos que irá nos fazer mal. Não que isso seja ruim. Mas, nos impede de ver realmente o que precisamos ver. Achamos que a vida é simplesmente, o que aparece aos nossos olhos e não difícil, como ela é. Tal quadro é belamente retrado nessa crônica. A fuga da dor!

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  13. Gustavo  08/08/2012 at 11:15 pm

    Muito interessante.

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  14. Helen  09/08/2012 at 1:48 pm

    Adoro tudo que o dr. Ronei escreve.

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  15. ruth consiglio cardoso  15/08/2012 at 11:03 pm

    Fantástico Roney. Excelente crônica. É sempre maravilhoso ler um texto teu. Abraços.

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  16. Orlando Sanchez Jr  29/08/2012 at 10:41 pm

    Eu já tinha postado aqui meus parabéns, mas não sei porque não foi publicado. Então vai de novo, parabéns pela crônica, vc é o orgulho da ATM Julho-92. Abços.

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  17. Campos  06/09/2012 at 8:48 am

    Nunca fiz análise mas tive um amigo psicanalista e acho que este post pede uma trilogia, então se me permite o dr. Ronei sugiro o próximo título: memórias de um psicanalista: pimenta não é refresco ou o dia em que deitei no divã.

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  18. Ana  10/02/2013 at 6:09 pm

    Lucidez vicia. É pior do que crack.
    Sim, Maria Clara, pra deitar no divã tem que ter coragem. Mais nada.
    Obrigada, Dr. Ronei, pelo texto.

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