O céu (e o inferno) dos suicidas

De repente, o protagonista idiossincrático e cheio de manias vê-se enredado em duas buscas paralelas.

“O céu dos suicidas”, de Ricardo Lísias

Maimônides e G. K. Chesterton enxergavam nele “o mal absoluto” e “a destruição de um mundo inteiro”; Immanuel Kant, em seus Fundamentos da metafísica da moral, classificou o ato como antiético, por pressupor a existência do indivíduo como sendo apenas um meio, e não um fim em si mesma; Hobbes, no Leviatã, argumentou contra o ato invocando a lei natural segundo a qual todo homem seria proibido de fazer algo capaz de lhe destruir a vida (e ir contra tal lei configuraria irracionalidade e imoralidade); por outro lado, David Hume ponderava que não haveria, na atitude, uma ofensa a Deus maior do que salvar a vida de alguém que, outrossim, acabaria morrendo; em O mundo como vontade e representação, Schopenhauer, inspirado por Heródoto, defendia-o como um direito inalienável, comparando-o com despertar do sono após um terrível pesadelo; Sêneca, Epíteto e Marco Aurélio acreditavam que era sempre uma opção legítima e, muitas vezes, mais honrosa do que uma existência de prolongada miséria; Albert Camus considerava-o como o único problema relevante da filosofia; para Ricardo, o protagonista-narrador do mais recente romance de Ricardo Lísias, O céu dos suicidas, o suicídio (praticado por um ex-colega de faculdade) revela-se fonte de sentimentos conflitantes:

Até o suicídio do meu grande amigo André, nunca tive vontade de voltar atrás com nada. Agora, comecei a sentir saudades de tudo. (…) Quando tudo começou, minha primeira reação foi sentir ódio do André. Tenho vergonha de dizer: mal ele tinha sido enterrado, eu o xingava, falando sozinho na rua.

A história narrada no livro pode ser descrita como um exemplar do que Tatiana Salém Levy, certa vez, ao buscar definir seu romance A chave de casa, denominou “autoficção”, ou seja, um texto que usa, de forma criativa, o material da memória e os fatos vividos pelo próprio autor sem compromisso com os fatos em si, mas privilegiando os significados afetivos dos acontecimentos e seu potencial literário. Na narrativa de autoficção, portanto, apesar de serem explícitos inúmeros pilares de sustentação clara e declaradamente retirados da vida do autor, os demais elementos da arquitetura textual são oriundos da fabulação. Exemplares de autoficção, aliás, são bastante comuns na literatura produzida por jovens escritores brasileiros contemporâneos. Além de Tatiana Salém Levy e do próprio Lísias, podemos citar, apenas como mais um exemplo emblemático, as obras de Michel Laub, destacando-se seu mais recente romance, Diário da queda, e até mesmo o conto “Animais”, publicado há pouco na Granta brasileira. É verdade universalmente aceita entre os apreciadores e conhecedores de prosa de ficção que confundir autor e personagem não passa de uma redonda estultice; porém, em todos os casos aqui mencionados, uma certa dose de tal confusão não é apenas inevitável: trata-se de algo bem-vindo e até mesmo demandado pelo escritor. Em O céu dos suicidas, o protagonista Ricardo guarda inúmeros traços biográficos comuns com o Ricardo autor: ambos possuem ascendência libanesa, ambos graduaram-se em uma importante universidade sediada em uma cidade interiorana e ambos tiveram um amigo André que tirou a própria vida. Em 2008, quando lançava o seu O livro dos mandarins, um grande amigo de Ricardo Lísias suicidou-se (no simpaticamente aberto e acessível Facebook de Lísias, pode-se ver uma foto do rapaz, o André do plano da realidade, esboçando um improvável sorriso).

O personagem Ricardo é um especialista em coleções que, no entanto, já não possui coleção alguma; desfez-se, há tempos, de suas coleções (de tampinhas de garrafa, de selos, etc.) para firmar-se como consultor para colecionadores, isto é, um profissional disposto a auxiliar as pessoas a compor, organizar e manter suas próprias coleções. De repente, esse personagem idiossincrático e cheio de manias vê-se enredado em duas buscas paralelas.

A primeira, diretamente relacionada com sua faceta de colecionador, é a busca por desvendar a natureza das relações que seu avô, nos anos 70, já radicado no Brasil, ainda mantinha, através de cartas, com pelo menos três pessoas do Oriente Médio. Essa busca tem início quando um tio-avô entrega a Ricardo uma caixa repleta de antigos envelopes vazios para que o rapaz coletasse selos para sua coleção, e, nessa oportunidade, familiares demonstram preocupação com o presente dado a Ricardo, receando que alguma missiva ainda restasse esquecida entre os papéis, o que insinua (e assim Ricardo percebe) a presença de algum segredo no passado da família.

A segunda é a busca que Ricardo empreende para entender os motivos que levaram o amigo André ao ato extremo, para reconstituir seus passos, para penetrar a sua mente, e também para lidar com as repercussões do ocorrido nele mesmo: após o suicídio de André, Ricardo passa a ter rompantes de raiva, lapsos de memória, instabilidade no sono, oscilações de humor (e tudo isso, é claro, torna o narrador do romance altamente não confiável).

Ambas as buscas, que são, em essência, buscas por estabilidade e pelo resgate do passado, levarão Ricardo a deslocamentos internos que, na trama, se refletem em deslocamentos geográficos (ou vice-versa).

No que tange à primeira busca, desconfiando de terrorismo ou coisa parecida, Ricardo decide empreender uma intempestiva viagem a Beirute para tentar elucidar a questão das cartas do avô. Ali, além de andar a esmo pelas ruas da cidade e tentar contato telefônico com parentes muito distantes, Ricardo encontra um arquiteto com o mesmo sobrenome de sua família, conversa com um professor universitário e colecionador de objetos e papéis ligados aos conflitos do Líbano na década de 80 e acaba espantando os dois interlocutores com suas perguntas sobre terrorismo internacional.

– O autor -

Já a segunda busca o leva de volta à cidade onde fica a universidade em que ele e André haviam estudado, a cidade na qual André passara seus últimos dias. Ali, Ricardo perambula, vai até a universidade, fala com um antigo professor, visita as clínicas psiquiátricas por onde o amigo passara nos meses antecedentes ao suicídio; torna-se, enfim, um colecionador de fatos esparsos e indícios fugidios do que teriam sido os derradeiros momentos (e dramas) da vida do amigo.

Sem planejamento, sem saber sequer o que exatamente procura, a errância de Ricardo em ambas as buscas revela-se infrutífera. Os elementos coletados por ele são, de fato, escassos: resta-lhe, portanto, recordar o passado familiar, rememorar os últimos contatos que teve com André e, enfim, imaginar respostas para as tantas perguntas que as circunstâncias se negam a responder. Entre os questionamentos que perseguem o protagonista, talvez o mais contundente seja a respeito do lugar que cabe aos suicidas no pós-morte – haverá céu para aqueles que aniquilam a própria existência? Haverá paz para a alma de quem se mata? Essa indagação, de cunho metafísico e religioso, repete-se em diversificadas formas ao longo da narrativa, pontuando-a, feito estribilho, e Ricardo a compartilha com um pastor, um padre, um grupo de espíritas, sem nunca obter uma resposta positiva, ou pelo menos alentadora, o que o leva a sucessivos ataques de desespero e ódio:

(…) ele [o pastor] me olhou com um rosto de piedade e começou a dizer que o suicídio, por mais dolorido que fosse o sofrimento do pecador, é uma das faltas mais graves e exigirá, não lembro os termos exatos, um esforço muito grande da alma desgarrada e infiel para se expiar. (…) Saí furioso da igreja enquanto o pastor, de longe, pedia perdão pelos meus palavrões. Para mim, já estava se tornando um hábito: gritei na rua, sentei em uma praça e comecei a chorar. – Esses filhos da puta não conhecem Deus. – Eu alternava um soluço muito forte com os berros: – Esses filhos da puta não conhecem Deus.

Ricardo, sentindo-se culpado por não ter percebido os sinais da tragédia que se aproximava e não ter ajudado o amigo, anseia por uma resposta pacificadora que não encontra em lugar algum, seja em suas próprias errâncias, seja na codificação das religiões organizadas. Ricardo, colecionando todas as impressões que pode a respeito dos últimos dias da vida do amigo, apossa-se, de certo modo, da vida de André e, portanto, é preciso que ele próprio (Ricardo) encontre a paz para que André também a encontre. E é essa a verdadeira busca empreendida pelo protagonista: uma busca por redenção.

O céu dos suicidas está organizado em capítulos curtíssimos que se engatam de maneira ágil, o que ajuda a fazer do livro um legítimo page-turner. No plano da linguagem, o investimento do escritor Ricardo Lísias consiste na limpeza e na concisão; o texto vem construído em frases geralmente curtas, enxutas, em um estilo quase telegráfico de narrar os episódios, sejam aqueles mais banais ou aqueles mais dramáticos, como exemplificam os dois trechos seguintes: a chegada no protagonista a Beirute e agressão por ele sofrida quando resolve interpelar dois indivíduos suspeitos e indagá-los sobre o terrorismo no Líbano:

Consegui dormir o voo inteiro. Quando despertei, o avião taxiava no Aeroporto de Beirute. Minha insônia tinha passado. Por causa da excitação, levantei-me antes da hora e levei uma bronca do comissário. A passagem pelo controle foi tranquila. Brasil e Líbano têm uma relação amigável há muito tempo. Expliquei que sou especialista em coleções e que tinha vindo atrás de um certo material. Além disso, minha família é de origem libanesa e quero conhecer um pouco mais das histórias dos meus antepassados. O oficial sorriu e carimbou meu passaporte.

Logo voltaram e com alguma violência colocaram uma algema nos meus braços. Depois, vendaram-me e começaram a gritar algo que o medo já não me deixava entender. Senti o cano de um revólver no lado direito da minha cabeça, bem acima da orelha. Contaram até três e nesse momento meus intestinos se soltaram. Ficaram furiosos e me empurraram sem tirar a venda por uns dez minutos. Quando me soltaram, eu estava na travessa de uma grande avenida.

O texto, de fato, como se pode verificar nesses excertos, caracteriza-se por economia de palavras e foco na descrição superficial, restando ao contexto e ao leitor estabelecer significados. O minimalismo narrativo e o tom distanciado, monocórdio, seco, aliados ao vocabulário trivial, podem desagradar aos leitores que preferem uma prosa mais caudalosa, descritiva, densa, com maior profusão de figuras de linguagem (mais “poética”, talvez); no entanto, além de ser bem adequada aos gostos da contemporaneidade, essa escolha de registro se mostra apropriada para a composição da psique do protagonista-narrador, esse ex-colecionador que, entre alguns surtos e atitudes impensadas, ainda se revela muito metódico, objetivo, até mesmo frio e, por conseguinte, cultivador de uma couraça dentro da qual busca proteger seu gênio instável das angústias que o ameaçam. E é através dessa couraça que Ricardo fala ao leitor. E é preso a essa couraça que ele atravessará infernos para, enfim, após encarar a destruição de muitos mundos, despertar do seu próprio pesadelo e contemplar um céu humanamente possível – para si mesmo e para o amigo querido.

::: O céu dos suicidas :::
::: Ricardo Lísias :::
::: Alfaguara, 2012, 192 páginas :::
::: compre na Livraria Cultura :::



  • http://zonacurva.wordpress.com Fernando do Valle Barbosa

    Boa crítica sobre esse bom livro de Ricardo Lísias, também escrevi sobre em http://wp.me/p1YOKS-4C abraço!

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