Viagem ao centro de Cuba – V

Na educação, os números são positivos, mas estão longe de retratar a revolução propagada pelo regime.

[ leia os primeiros quatro posts da série ]

1. Números no lugar: O blogueiro Fernando Dámaso fala sobre saúde e educação em Cuba

A saúde e a educação são as duas principais bandeiras do regime cubano. São também o principal argumento de quem insiste que uma ditadura totalitária pode ter seus méritos. É lugar comum em um debate sobre Cuba ouvirmos como resposta às denúncias de falta de liberdade na ilha argumentos como este: “Mas… a saúde e a educação são maravilhosas”.

De fato, o regime dos Castro melhorou alguns aspectos nestas importantes áreas, mas há uma imensa lacuna entre este fato e a propagada transformação que o governo cubano diz ter ocorrido após a revolução de 59. O blogueiro Fernando Dámaso, que há menos de dois anos edita o blog Mermelada no portal Desdecuba, tem se dedicado a desmistificar alguns destes aspectos. “Minha preocupação é resgatar a história politicamente manipulada, distorcida”, explica.

Segundo o blogueiro – que foi publicitário e militar e agora dedica-se a expor a realidade cubana na internet – Cuba já ocupava na década de 50 os primeiros lugares em quantidade de médicos, leitos de hospital e baixos índices de mortalidade infantil. “Não era perfeito, havia muito o que melhorar, mas já estávamos no 2º ou no 3º lugar no ranking dos países ibero-americanos nestes quesitos”.

“Naquela época”, continua, “muitos hospitais estavam equipados com o que havia de mais avançado em termos tecnológicos. Hoje esses hospitais estão em condições muito piores”. Para Fernando, a propagada excelência na saúde é um mito: “A saúde não é grátis, nunca foi. O salário que deixamos de reivindicar é o que financia o que há de saúde. É um mito”, opina.

“Existe uma fila imensa de pessoas esperando para serem operadas. Muitos morrem por falta de medicamento adequado para fazer transplante. Temos amigos que estão há 18 anos fazendo hemodiálise e não se transplantam porque não têm coragem de operar, pois conhecem os fracassos. Todos que aqui fazem cirurgias são contaminados por hepatite B, pois os equipamentos são contaminados. Quem pode, recebe agulhas, luvas e medicação de parentes que vivem fora”, afirma.

Fernando e os demais blogueiros que compõem o portal Desdecuba também denunciam os exageros relacionados à excelência da educação. Ele garante que o ensino oferecido antes da revolução era de melhor qualidade. “Nossa educação hoje é péssima. O aluno sai sem ortografia, sem cultura nenhuma, não sabe ler e escrever corretamente”.

Remexendo suas lembranças e experiências, Fernando afirma que a qualidade do ensino começou a degringolar quando, na década de 60, o governo concluiu que os professores formados antes da revolução não podiam educar os filhos da revolução, pois eram burgueses. “Obrigaram todos os professores com mais de 25 anos a se aposentarem. Houve quem se aposentasse na plenitude de sua profissão. Começaram a suprir a falta de professores com camponeses. Professores instantâneos, preparados em seis meses”.

Nos anos 70 e 80 a qualidade do ensino melhorou (com o apoio financeiro do leste europeu), para desabar novamente junto com o comunismo. A estratégia do governo hoje, segundo Fernando, é a de forçar os professores a aprovarem seus alunos: “Os alunos não repetem o ano, pois se avalia o professor pelo rendimento do aluno. E esta política não é de hoje, vem desde o início da revolução. Há uma obrigação de aprovar 100% dos alunos, quando sabemos que em uma escola com 500 alunos há os medianos, os bons e os ruins”.

Como todas as profissões cubanas que não têm ligação com o turismo (e, em consequência, com a possibilidade de receber gorjetas em moeda forte), o magistério também é muito mal remunerado. Na década de 1940, afirma Fernando, todos os professores cubanos eram contratados pelo Ministério da Educação, possuíam titulação e tinham que começar a profissão no campo. “Tinham uma boa posição econômica, os professores eram de classe média alta. Com um salário das férias podiam passar três meses em Nova Iorque, Miami, México. Hoje com o que ganham mal podem tomar banho com sabonete todos os dias”.

Segundo o blogueiro, tanto na saúde quanto na educação a revolução partiu de sistemas que já funcionavam. O crescimento teria se dado de forma natural para uma sociedade que era composta por 100 mil habitantes e que hoje atinge os 11 milhões: “Tudo se desenvolveu, mas há muita propaganda. O Estado tem o monopólio da informação e é ele quem divulga os índices de analfabetismo, mortalidade infantil, mas não são dados confiáveis”, assegura.

De acordo com os números propagados oficialmente, Cuba tem sistemas invejáveis de educação e saúde, com índices de eficiência dignos de país desenvolvido. Quase não há analfabetos na ilha, enquanto o número de professores, médicos e leitos de hospital por habitante é o maior da América Latina. No entanto, números da Organização Mundial de Saúde (OMS) e da Unesco mostram que Fernando tem razão em alguns aspectos. De acordo com estes estudos, Cuba já apresentava bons indicadores de desenvolvimento social e humano antes de Fidel chegar ao poder.

A revolução teve efeito positivo sobre alguns desses indicadores. O número de médicos e dentistas, por exemplo, era de 128 para cada 100 mil habitantes em 1957 (3º melhor índice da América Latina). Hoje, é de 680 (1º lugar entre os países latino-americanos). Nos últimos 50 anos, o país multiplicou por cinco o número de profissionais de saúde. O problema tem sido a exportação dos profissionais mais capacitados para trabalhar no exterior e o mercado negro de remédios que viceja no sistema.

Na educação, os números são positivos, mas estão longe de retratar a revolução propagada pelo regime. Cuba é o país com maior índice de alfabetização do continente. O ensino é gratuito até o nível superior. Em compensação, segue a cartilha do Partido Comunista, que vê cada aluno como futuro soldado da revolução. Em 1957 o nível de alfabetizados era de 76% (3º lugar na América Latina), hoje atinge os 99,8% (1º lugar na América Latina).

Proporcionalmente, o investimento na educação caiu para menos da metade em 50 anos de revolução. Ainda assim, Cuba manteve-se em 1º lugar no ranking latino-americano de países que mais aplicam dinheiro público no setor da educação. Em 1957 o percentual do PIB investido no setor era de 23% (1º na América Latina). Hoje o país mantém a posição com um investimento de 10% do PIB.

O avanço no que se refere ao combate á mortalidade infantil foi enorme – com redução de 82%. Mas isso ocorreu em quase todos os países do mundo. No ranking internacional, os cubanos caíram 30 posições da década de 1950 para cá. Estavam na 13º no mundo e hoje estão em 43º (de 1950 para cá eles se mantêm em 1º na América Latina).

Por outro lado, algumas estatísticas são francamente desfavoráveis. Em 1957, por exemplo, o consumo diário de calorias por cubano era o 3º maior da América Latina (2.730 calorias/dia). Passadas cinco décadas de regime comunista, Cuba agora está em 11º lugar com o consumo de 2.291 calorias/dia. Para os defensores do regime, a alimentação piorou nas últimas cinco décadas por culpa do embargo econômico. Mas para os críticos o verdadeiro problema é outro: ineficiência crônica da agricultura.

2. Imprensa agrilhoada: Rebeca Monzo fala do jornalismo em Cuba

Quando a professora Rebeca Monzo retornou de Paris – onde permaneceu por quatro anos como integrante do corpo diplomático cubano – foi convidada para trabalhar no órgão oficial do comitê central do Partido Comunista Cubano, o Granma. Ciente de que o jornalismo praticado em seu país não se coadunava com as funções básicas da profissão, Rebeca recusou a proposta. “Me dei conta de que em Cuba não se podia exercer o jornalismo, não o jornalismo que eu considerava que deveria exercer”, explica.

Rebeca trabalhava no Ministério do Comércio Exterior, onde foi introduzida na juventude comunista devido seu rendimento e pontualidade no trabalho. Houve uma convocação feita pela União dos Jovens Comunistas para quem quisesse estudar Jornalismo e ela se apresentou.

“Frequentei o curso na Escola Superior do Partido com o programa e professores da Universidade de Havana. Entre 1964 e 1967. Então nomearam meu esposo como Conselheiro Comercial de Cuba na França e eu o acompanhei como sua secretária. Ao regressar a Cuba em 1971, o então diretor do Granma me disse que as portas do jornal estavam abertas para mim. Mas não aceitei. Segui no Comércio Exterior pois já não pensava como eles. Em 1989 trabalhei com rádio jornalismo até 1992, quando abandonei de vez a área devido ao excesso de censura”.

O tempo passou, Rebeca tocou sua vida em frente, trabalhou como vendedora e artista plástica e até na Unesco. Desde 1986, no entanto, atua exclusivamente como artesã (veja seus patchworks aqui). “Rompi meus vínculos com o Estado – até certo ponto, pois não há como romper totalmente. Hoje sou o que chamam de artista independente, embora de fato não sejamos independentes, pois para poder comercializar nossos produtos temos que pertencer a uma organização ligada ao Estado”.

Em meio à labuta diária para ganhar a vida, o germe jornalístico ficou encubado até que Rebeca descobriu a possibilidade de se expressar livremente por meio de um blog. Assim como Regina Coyula e Fernando Dámaso, ela também foi “infectada” pelo vírus da liberdade de expressão espalhado na ilha por iniciativa de Yoani Sánchez.

“Meu blog se chama Por el Ojo de La Aguja. Tudo começou quando, há pouco mais de dois anos, Regina me contou sobre um curso que daria Yoani Sánchez sobre blogs. Eu não sabia o que era isso. Não tinha a mínima ideia, mas me interessei. Fizemos este curso e ali mesmo decidi abrir meu blog. Faz dois anos que o mantenho. Sigo escrevendo sobre comportamento, receitas de cozinha (de que gosto muito), mas, sobretudo, sobre temas sociais com uma carga política tremenda. Vivências, anedotas reais sobre o nosso dia a dia”, explica.

Quando o assunto é jornalismo, Rebeca se arrepia. “Não há liberdade de imprensa neste país. Existe apenas uma escola de jornalismo e o acesso se dá com aval político. Quando estudei jornalismo no princípio da revolução eu era marxista-leninista, por isso me escolheram. O ensino era basicamente doutrinário. Me perguntava quando iríamos estudar jornalismo de fato. Quando voltei de Paris percebi o que era imprensa, o que era jornalismo de verdade. Não havia como aceitar fazer este tipo de jornalismo que em Cuba se impõe e que hoje ainda impera como modelo. Um jornalismo doutrinário que serve mais como porta-voz do Partido e do governo do que como elo de ligação entre a sociedade”.

De fato, em Cuba não se pratica o jornalismo nos moldes em que a profissão se fundou. Ou seja, uma profissão cuja fiscalização do poder e a liberdade de expressão são objetivos primordiais. Todos os veículos de comunicação cubanos são autorizados e controlados pelo Estado através do Partido Comunista Cubano, que reconhece a liberdade de imprensa apenas quando “em acordo com os objetivos da sociedade socialista”. Qualquer conteúdo que ofenda esta premissa é passível de censura e, seu autor, de processo criminal.

Aos jornalistas independentes e blogueiros sobra a blogosfera mantida em sites hospedados no exterior e atualizados nas embaixadas estrangeiras ou em caríssimas conexões dos hotéis (onde até há alguns anos os cubanos eram proibidos de entrar). O governo cubano continua perseguindo estes profissionais com detenções arbitrárias, vigilância constante, campanhas difamatórias nos meios de comunicação oficiais e até mesmo agressões físicas efetuadas por “milícias populares” a soldo do governo.

“O Estado tem o monopólio da informação e é ele quem divulga os índices de analfabetismo e mortalidade infantil que encantam o mundo. Mas não são dados confiáveis”, afirma Rebeca. Da mesma forma, ela desmente a ideia de que há liberdade de expressão na ilha. “O único canal aberto para a população no Granma é o espaço Carta do Leitor, que se publica às sextas. Lá você não lê uma palavra sobre o contraditório político”.

Não é à toa que o presidente de Cuba, Raúl Castro, se mantém na lista anual de “depredadores” da liberdade de imprensa divulgada recentemente pela organização Repórteres sem Fronteiras (RSF), por ocasião do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. “Os ataques contra a imprensa independente e os blogueiros não cessaram até agora”, destacou a RSF em seu relatório, no qual argumentou que Raúl “não se comporta melhor que seu irmão mais velho”, Fidel Castro, desde que assumiu oficialmente o poder em 2008. Segundo a entidade, Cuba continua vivendo uma “brutalidade policial” contra a liberdade de imprensa.



  • carlos-fort-ce

    pelo que o articulista contou, cuba continua a casa de noca desde o tempo de batista. “la revolucion de los barbudos” não adiantou coisíssima nenhuma. educação, saúde, segurança, direitos humanos são uma lástima. só falta agora convidar os leitores pro enterro. tem um problema: falta combinar com o “pueblo”.
    adios!

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