Entrevista com Irving Kirsch

a Daniel Lopes

Antes de enveredar pela psicologia, o doutor Irving Kirsch, nascido em 1943 na cidade de Nova York, desenvolveu, entre outras, atividades pró-direitos civis, anti-guerra (chegando a publicar panfleto sob os auspícios de ninguém menos que Bertrand Russell) e de músico — violinista da Sinfonia de Toledo (Ohio). Desde 2007 professor na Universidade de Hull (Reino Unido), em 2008 Irving, junto com uma equipe, causou considerável terremoto ao publicar o resultado de uma meta-análise de testes com antidepressivos. Com respaldo na legislação da liberdade de informação estadunidense, os pesquisadores obtiveram junto à Food and Drug Administration tanto os testes divulgados pelas fabricantes de remédios quanto os escamoteados. A meta-análise revelou que os antidepressivos apenas funcionam como placebos — e, acrescentaria Kirsch, são piores que estes, já que induzem ao vício e têm sérios efeitos colaterais. À época, a análise ganhou cobertura na New Scientist, Newsweek e outros grandes veículos. Os achados influenciaram as novas diretrizes oficiais para tratamento da depressão no Reino Unido.

Em 2009, Kirsch reuniu o básico dessas informações, adicionou novas, e publicou The emperor’s new drugs: Exploding the antidepressant myth (edição estadunidense: Basic Books, 2010). Ele gentilmente concordou em nos responder algumas perguntas acerca de temas-chave do livro.

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AmálgamaVocê esclarece ao leitor que a pergunta correta não é se os antidepressivos funcionam, mas por quê. Segundo os laboratórios, eles agem no balanço químico no cérebro, mas você mostra que a teoria da depressão devido a desajuste químico não é sustentada pelas evidências. O que dizem as evidências?
Irving Kirsch – Os dados mostram que pouco, se algo, da resposta aos antidepressivos é devido à sua ação química. Para a vasta maioria dos pacientes, a diferença entre antidepressivos e placebos não é clinicamente significativa e pode ser apenas um efeito placebo intensificado, que ocorre porque diferentes efeitos colaterais permitem às pessoas sob teste terem consciência de que foram medicadas com a droga real ou com um placebo. Outra razão para duvidar da teoria do desajuste químico é que existem diferentes tipos de antidepressivos. Alguns supostamente aumentam a serotonina no cérebro, uns não têm qualquer efeito sobre a serotonina e outros supostamente diminuem a serotonina. Ainda assim, todos eles têm o mesmo efeito sobre a depressão. Quando o efeito de uma pílula não depende de como ela age quimicamente, então o que ocorre deve ser um efeito placebo.

Se o causa não é química, qual é?
A depressão pode ser causada por estresses que passamos na vida (por exemplo, a perda de alguém querido, dificuldade econômica) e pela forma como as pessoas aprenderam a interpretar e se comportar diante desses estresses.

Se os antidepressivos funcionam como placebos (até mesmo, como você diz, placebos “intensificados”), muita gente pode se perguntar por que então não tolerá-los, já que beneficiam tantas pessoas.
O problema de se usar antidepressivos por seu efeito placebo é que eles são drogas ativas com muitos efeitos colaterais sérios. Eles causam dependência como drogas viciantes e aumentam o risco de suicídio quando ministrados para crianças e jovens.

Quando da publicação do resultado de seus estudos em 2008, as empresas farmacêuticas não apenas não o processaram ou contestaram sua exposição do efeito placebo, como duas delas contrataram seus serviços, certo? Como se deu isso?
O pessoal de duas companhias me disse que os dados não eram surpresa para eles, que eles achavam difícil encontrar drogas que se saíssem melhores do que placebos no tratamento da depressão, e que que gostariam de ter meu aconselhamento sobre como identificar pessoas com potencial para responder a placebos, para que eles pudessem excluí-las dos testes clínicos. Eu lhes disse que a melhor forma de fazer isso era como eles já estavam fazendo: dar placebo aos pacientes durante duas semanas antes do teste começar e então excluir qualquer um que responda ao placebo. É assim que quase todos os testes clínicos são conduzidos.

O melhor tratamento contra a depressão é então a psicoterapia?
A psicoterapia, particularmente a terapia cognitivo-comportamental, que já foi testada mais frequentemente do que outras formas, produz efeitos terapêuticos que duram muito mais do que os advindos do tratamento com drogas.

Apesar de tudo, não é aconselhável, como você frisa, que pacientes depressivos sob medicação abandonem subitamente os antidepressivos. Quais os riscos?
Como antidepressivos causam dependência, se pararem repentinamente de tomá-los, as pessoas podem sofrer sérios sintomas de abstinência. Por essa razão, eles devem ser descontinuados apenas gradualmente e sob a orientação de um médico.

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::: The emperor’s new drugs: Exploding the antidepressant myth ::: Irving Kirsch :::
::: Random House, 2009, 256 páginas ::: Compre na Livraria Cultura :::


  • http://fmlima.blogspot.com/ Fernando da Mota Lima

    Daniel:
    Parabéns pela entrevista com o Dr. Irving Kirsch. Vou enviá-la para alguns amigos submetidos a tratamento químico contra depressão. Um abraço,
    Fernando.

  • http://www.rodrigoepoesia.blogspot.com Rodrigo

    Muito interessante! Parabéns pela entrevista!

  • Bosco

    Por que então os médicos receitam tão facilmente esses medicamentos? Agora começo a entender tantos suicídios de jovens em Teresina.

  • http://presencadapeste.blogspot.com rayssa gon

    eu sempre me perguntei: qual é o sentido de dizer que se esta com depressão quando, hoje em dia, todo mundo está.

    adorei essa ideia de placebo intensificado. ótima entrevista. :D

  • http://balaiodavivi.blogspot.com Viviane

    Daniel, todos e mais todos os aplausos pra vc! Este é mesmo um assunto “da hora”, que tem a ver com a medicação excessiva da contemporaneidade. Muito importante abordar essa questão. Gostei muito das suas perguntas, dos pontos que vc destacou na entrevista. Vc foi muito feliz ao trazer a psicoterapia como forma de tratamento para a depressão. Muitos psicanalistas vêm alertando para o fato que antidepressivos NÃO CURAM a depressão. Há uma cena muito interessante no filme “O Solista” que fala da medicação e diagnosticação excessivas – um comentário feito no filme. Parabéns e um abraço. Vou passar sua entrevista pra frente,,,

    Rayssa, pois é! Vc fez uma Sra. observação. Talvez o sentido esteja em buscar uma saída pra esse cenário triste da humanidade hj.

  • Igor

    Antidepressivo não causa dependência, qm causa são os ansiolíticos. Ah, e boa sorte pra qm pretende tratar transtorno de ansiedade e depressão só com psicoterapia, pq, acredite, não fará tanta diferença. Digo por experiencia propria. Precisa de medicamento sim e os antidepressivos fazem diferença, mas a longo prazo. Não queiram sentir alívio dos sintomas logo no começo pois não sentirão. Tomo antidepressivo há pouco mais que um ano e posso dizer q todo o processo é mt difícil e exige bastante persistência. De efeito colateral, não sinto nada. Cada um reage de um jeito diferente.

  • robson

    MUITA ATENÇÃO NO QUE VOU DIZER, Nem tudo que os médicos receitam pode fazer bem para nós. Sou piloto de avião e devido algumas situações que passei meu nível de estrés aumentou, tive duas ocasiões em que fiquei perto da morte, quase adquiri síndrome do pânico, mas adoro aviação e minha profissão foi mais forte do que a síndrome rsrs, não que a aviação seja perigosa pelo contrário é o transporte mais seguro que existe, mas quem voa quase todos os dias está mais sujeito a acontecer algo. Para diminuir meu estrés eu fumava muito cerca de duas carteiras por dia (quarenta cigarros), descobri então que era uma pessoa muito ansiosa, comecei a fazer um tratamento para parar de fumar, me consultei com um médico psiquiatra ele me receitou o Êxodus (oxalato de escitalopram), comprei, mas antes de tomar fiz várias pesquisas e cheguei a conclusão que não era um bom remédio para mim, pois as reações e efeitos colaterais poderia prejudicar a segurança dos meus voos e então decidi não usar o medicamento (êxodus), apelei então em ocupar minha mente com outras coisas como muito exercício e boa alimentação e muita conversa com amigos queridos, isso fez minha qualidade de vida melhorar muito, até parei de fumar,(foi difícil mas ganhei esta batalha), agradeço a DEUS, minha família e meus amigos. Penso que muitos dos nossos problemas são criados por nós mesmos e acredito que nós mesmos podemos vencer com muita força de vontade, acredito que devemos nos importar com que realmente vale a pena, (Família, Amigos). As vezes queremos soluções rápidas e fáceis que nem sempre são as melhores, pense bem nisso, a solução pode estar com nós mesmo, reavalia sua vida e veja o quanto de coisas boas que temos em nossa volta, veja se vale a pena se empanturrar com medicamentos que as vezes não pode ser a solução, a vida é curta aqui na terra ( eu sei disso), aproveite as pessoas que te amam, garanto que vai te fazer muito melhor do que certos medicamentos, vc economizará no bolso e na saúde, sem enjoos ou má disposição. Não estou discriminando o trabalho dos médicos, pois há gente que realmente precisa, mas no meu caso não, quem sabe vc tambem não precise.

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