Do 11 de Setembro à Primavera Árabe

Christopher Hitchens, no Guardian / 9 de setembro

-- Tunisianos com uma foto xerocada de Bouazizi --

 

Três homens: Mohamed Bouazizi, Abu-Abdel Monaam Hamedeh e Ali Mehdi Zeu – um vendedor ambulante tunisiano, um gerente de restaurante egípcio e um esposo e pai líbio. Na primavera de 2011, o primeiro deles pôs-se fogo na cidade de Sidi Bouzid, em protesto contra apenas mais uma de muitas humilhações nas mãos da baixa oficialidade. O segundo também tirou a própria vida quando egípcios começaram a se rebelar em massa diante da estagnação e falta de sentido do Egito de Mubarak. O terceiro, pode-se dizer, tanto deu como tomou sua vida: carregando seu humilde carro com gasolina e explosivos caseiros e explodindo o portão do quartel Katiba em Bengazi – Bastilha simbólica do detestado e lunático regime de Kadafi na Líbia.

Na longa batalha humana, a ideia de “martírio” apresenta-se com uma face estilo Jano. Aqueles dispostos a morrer por uma causa maior que si mesmos foram honrados desde a Oração Fúnebre de Péricles até o Discurso de Gettysburg. Observados de forma mais cética, aqueles com ardor para morrer foram às vezes suspeitos de excessivo entusiasmo e presunção. O hino do meu antigo partido, o partido Trabalhista britânico, fala apaixonadamente de uma bandeira em vermelho profundo, que “frequentemente envolveu nossos mortos martirizados”. Sob as janelas da minha faculdade em Oxford, encontrava-se – encontra-se – o memorial aos “Mártires de Oxford”, bispos Cranmer, Latimer e Ridley, que foram queimados vivos pela rainha católica Maria em outubro de 1555 devido a heresias protestantes. “O sangue dos mártires é a semente da igreja”, escreveu o pai da igreja Tertuliano na Cartago do final do século primeiro, e a associação do mártir com fé cega tem sido consistente ao longo dos séculos, com a facção sendo queimada frequentemente esperando chegar sua fez de queimar as outras. Acredito que o partido Trabalhista pode ser inocentado dessa acusação. Assim como o pode Jan Palach, o jovem estudante checo que imolou-se na Praça Venceslau em janeiro de 1969, em protesto contra a ocupação soviética de seu país. Ajudei a organizar uma reunião em sua homenagem no Memorial de Oxford, e depois acabei me associando à Prensa Palach, um centro da dissidência exilada e também uma publicação que contribuiu, duas décadas depois, para a “Revolução de Veludo” de 1989. Essa foi uma iniciativa completamente secular e cívica, que nunca causou o derramamento de uma gota de sangue.

Especialmente no curso dos últimos 10 anos, a palavra “mártir” tem sido completamente degradada pela imagem carnívora de Mohammed Atta: um frio e desamoroso zumbi – um assassino suicida – que levou consigo tantos inocentes quanto conseguiu. As organizações que encontram e treinam homens como Atta têm desde então sido responsáveis por indescritíveis crimes em muitos países e sociedades, da Inglaterra ao Iraque, em sua tentativa de criar um sistema onde o frio e desamoroso zumbi seja a norma, e toda cultura seja morta. Eles alegam que vencerão, porque adoram a morte mais do que a vida, e porque amantes da vida são frágeis e corruptos degenerados. Praticamente toda palavra que tenho escrito desde 2001 tem sido explícita ou implicitamente dirigida à refutação e derrota dessas proposições odiosas e niilistas, bem como dos que entre nós tentam racionalizá-las.

Os mártires tunisianos, egípcios e líbios estavam pensando e agindo bem mais como Palach do que como Atta. Eles não estavam tentando ceifar a vida. Eles almejavam, pelo contrário, que ela pudesse ser vivida em um nível mais elevado do que a de um servo tratado como uma inconveniência por uma oligarquia moribunda. Eles não fizeram alegações sórdidas e presumidas sobre como suas ações homicidas lhes renderiam lugar numa fantasia de pós-vida carnal. Eles não desejavam inspirar turbas ásperas e estridentes sacudindo caixões em um mar de histeria. Jan Palach disse a seus camaradas mais próximos que a razão mais profunda para seu gesto era não apenas a ocupação, mas a assustadora apatia que estava tomando conta de Praga enquanto aquela “primavera” dava lugar a um inverno gelado. Ao preferirem uma morte afirmadora da vida a uma vida de mortos-vivos, os precursores da primavera árabe esperaram igualmente galvanizar seus con-vassalos e fazê-los aspirar a ser cidadãos. Marés arrefecerão, ondas recederão, a paisagem se tornará mais uma vez marrom e poeirenta, mas nada pode expelir da mente árabe o exemplo e o espírito de Tahrir. Mais uma vez ficou demonstrado que as pessoas não amam suas correntes ou seus carcereiros, e que a aspiração a uma vida civilizada, àquela “elegibilidade universal para ser nobre”, como coloca tão imperecivelmente o personagem Augie March de Saul Bellow, é própria e comum a todos.

Convidado a dar uma palestra na Universidade Americana de Beirute em fevereiro de 2009, com o título sugerido de “Quem são os verdadeiros revolucionários no Oriente Médio?”, eu dei o meu melhor para identificar as faíscas que então mal pareciam reconhecíveis. Exemplifiquei com a florescente resistência civil no Irã. Citei o grande dissidente e cientista político egípcio (e prisioneiro político) Saad-Eddin Ibrahim, agora reconhecido como um dos pais intelectuais do movimento Tahrir. Elogiei a “Revolução dos Cedros” no próprio Líbano, que trouxe uma temporada de esperança e teve sucesso em colocar um fim à longa ocupação síria do país. Tomei partido das forças curdas no Iraque que haviam ajudado a escrever “finis” no regime Calígula de Saddam Hussein, ao mesmo tempo que começaram o trabalho pela autonomia da mais ampla e oprimida minoria de toda aquela região. Elogiei o trabalho de Salam Fayyad, que estava tentando levar “transparência” à barroca corrupção da “Autoridade Palestina”. Esses eram os fios díspares mas não desconectados a partir dos quais, eu esperava e meio que acreditava, uma nova roupa poderia ser tecida.

Estava claro que uma boa parte da audiência (incluindo, lamento dizer, a maioria dos americanos) me via como uma espécie de ator. Para eles, a autenticidade revolucionária pertencia a grupos como Hamas e Hezbollah, resolutos oponentes do colosso global e incansáveis batalhadores contra o sionismo. Para mim, essa foi mais uma rodada de outra longa disputa histórica. Para ser breve, essa contínua polêmica ocorre entre a esquerda anti-imperialista e a esquerda antitotalitária. De uma forma ou de outra, me tenho envolvido nela – nos dois lados – durante toda minha vida. E, em qualquer que fosse o conflito, eu cada vez mais me resolvia pelo lado antitotalitário. (Isso pode não parecer grande coisa, mas algumas coisas precisam ser descobertas por meio da experiência e não meramente derivadas de um princípio.) As forças que veem o pluralismo como uma virtude, por mais “moderado” que isso possa soar, são muito mais profundamente revolucionárias (e muito mais prováveis, no longo prazo, de constituírem melhores anti-imperialistas).

Desenvolver e forjar esses pontos de vista exigiu discussão constante sobre a ideia de América. Há atualmente bastante papo furado sobre o “declínio” do meu país de adoção, tanto em confiança quanto em recursos. Optei por não me unir a essa denegrição. A república secular com separação entre os poderes ainda é o modelo aproximado, reconheça-se ou não, de várias revoluções democráticas que estão em andamento ou a ponto de acontecer. Algumas vezes os Estados Unidos são merecedores do respeito que tal emulação lhe proporciona, outras vezes, não. Quando não – como na questão do waterboarding –, me esforço para divulgar. Também acredito que a literatura do país, desde sua fundação, demonstra certo comprometimento com a ideia revolucionária e emancipatória.

“A barbárie”, escreveu Alain Finkielkraut não faz muito tempo, “não é herança de nossa pré-história. Ela é a companheira que persegue cada passo nosso.” Ao escrever (bastante) sobre os exemplos e lições de totalitarismos passados, eu tento não banir demais o fantasma. E quão fácil é reconhecer as formas em que reaparecem entre nós os velhos e imutáveis inimigos (frequentemente protegidos por seus novos apologistas) – racismo, idolatria do líder, superstição. Ao longo dos anos, tentei aliviar a mórbida obrigação do combate, escrevendo também sobre autores e artistas que contribuíram para a cultura e a civilização: não palavras e conceitos que podem ser defendidos apenas no abstrato. Levei décadas para arriscar, mas finalmente escrevi sobre Vladimir Nabokov…

As pessoas que jamais deveriam ter poder são as sem humor. A impossíveis certezas de retidão, elas aliam tédio e uniformidade. Como um elemento essencial da ideia americana é sua variedade, sempre tentei celebrar coisas que são divertidas por si mesmas, ou ridículas mas reveladoras, ou simplesmente de interesse intrínseco. Tudo isso pode ser aplicado ao assunto do meu pequeno ensaio sobre a arte e ciência do boquete, por exemplo, ao mesmo tempo que não me redime do mais instantaneamente mal interpretado dos meus artigos, concernente ao déficit de humor com base no gênero. Ainda assim, gosto de acreditar que também essas aventuras de pequena escala contribuem em algo para uma conversação sem limites ou prescrições; a sine qua non do tipo de sociedade que sabe manter o solene e o devoto à margem.

No prefácio à minha primeira coleção de ensaios, Prepared for the worst, de 1988, eu anexei um pensamento de Nadine Gordimer segundo o qual uma pessoa séria deve tentar escrever postumamente. Por isso eu a entendi dizendo que deve-se compor como se as amarras usuais – da moda, comércio, autocensura, público e, talvez especialmente, opinião intelectual – não tivessem peso. Impossível talvez de se obedecer à risca, essa admoestação e aspiração possui lá alguma força, bem como o alerta de como ela pode se deteriorar. Então, há cerca de um ano, fui informado por um médico de que talvez teria tão pouco quanto outro ano de vida. Consequentemente, alguns de meus artigos recentes foram escritos com a inteira consciência de que poderiam ser o último. Sóbria por um lado e divertida por outro, essa prática obviamente jamais pode se tornar perfeita. Mas ela me deu uma ideia mais vívida do que faz a vida valer a pena ser vivida, e defendida.


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