Super 8, de J. J. Abrams

por Ana Al Izdihar

J. J. Abrams é o diretor deste filme sob a batuta do mestre e produtor Steven Spielberg. Uma super produção, com efeitos especiais muito bons, atores razoáveis e tema um tanto batido, mas que funciona. Abrams é basicamente um diretor de TV, tem um estilo bastante previsível que, porém traz suspense, emoção, susto, risadas, tudo na hora certa. Uma direção firme, mas leve, sem grandes auteurismos.

Nisso, Abrams é o contrário de Spielberg, que praticamente redefiniu o estilo de ficção científica – mesmo que para depois revesá-la com algumas excelentes aventuras e dramas – e está no patamar dos diretores auteurs de Hollywood nos anos 80, como Martin Scorcese, Oliver Stone, Terry Gilliam, F. F. Coppola entre outros. Spielberg saiu da influência dos filmes de ficção científica dos anos 50, que assistia quando menino, misturou com Kubrick e outras influências, criando um perfil muito bem definido e conhecido do público.

Como disse muito bem Christopher Hauke em artigo sobre as narrativas de Spielberg, há sempre aquele personagem masculino, menino ou homem, frequentemente sentindo a falta de um dos pais ou que não se enquadra na comunidade ou mesmo no seio familiar. E seu sentimento de orfandade ou não-pertencimento vem projetado na sombra arquetípica na forma de um extraterrestre, alienígena, um deslocado que no fundo passa pelo mesmo dilema.

Em Super 8 não é diferente. Abrams aprendeu a lição direitinho, somente agora explorando uma faixa etária um pouco diferente, a adolescente, com direito a primeira paixão e tudo.

O sentimento unheimlich relembrado por Hauke – o un-home-like, ou seja, o “sem-lar” – aparece no personagem Joe Lamb, que acaba de perder a mãe em um acidente, tendo em seu pai um homem distante emocionalmente e cujo único conforto vem dos amigos. Um menino com uma perspectiva muito peculiar do mundo, extremamente sensível e sensato.

Aliás, o símbolo recorrente do filme é o olhar! O olhar da câmera super 8 que capta o impensável; olhar da mãe de Joe que o fazia se sentir real; o olhar da nova namoradinha; o olhar do próprio Joe, que quebra o coração do pai e quebra a teimosia do monstro. E somente ao fitar o monstro – que é a projeção de sua ira contra o mundo sem a real presença dos pais – é que ele se liberta do passado (individual) e consequentemente livra a comunidade do mal das mágoas do passado (coletivo).

Super 8 é dinâmico, emocionante, redondinho, mas está longe de se aproximar dos clássicos do extra-pop Spielberg, fiquem avisados. Boa diversão, sem grandes consequências.

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