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Por que votei em Marina e agora votarei em Dilma

por Amálgama (11/10/2010)

Opinião de ALEXANDRE NODARI

-- Marina e Dilma quando ministras --

por Alexandre Nodari * – No dia 3 de outubro, eu, como outros vinte milhões de brasileiros, votei em Marina Silva para presidente. Por um lado, esse eleitorado votou na candidata verde por motivos os mais diversos – seja pela sustentabilidade, pelo foco na educação, pelo apelo à transparência, pela alternância, pela novidade, etc, etc –, mas, por outro, há um denominador comum que o reúne: a necessidade de se pensar e discutir o futuro do país para além da mera discussão de modelos de gestão.

Um dado (que se for encarado como uma trivialidade reforça a despolitização da eleição) é sintomático disso. Logo após as eleições, o filósofo Vladimir Safatle publicou uma coluna na Folha de S. Paulo, em que dizia, a respeito de Marina Silva, que “Cobrando os outros candidatos por não ter um programa, ela conseguiu esconder que, de todos, seu programa era o economicamente mais liberal”. A segunda afirmação – a de que o programa econômico de Marina Silva era o mais liberal – está correta apenas na medida em que a primeira também está: a de que os outros dois candidatos mais votados (Dilma e Serra) não apresentaram publicamente seus programas de governo (algo que Safatle esconde, como ele acusa Marina de fazer, por meio de um artifício retórico em que a inexistência dos programas de governo petista e tucano passa da ordem do fato – eles não existiam mesmo – para a ordem subjetiva – uma mera cobrança da candidata verde).

O programa econômico de Marina Silva, entre os dos três candidatos mais bem situados, era o mais liberal mesmo, pois não havia outro programa para servir de termo de comparação. Nesse sentido, poder-se-ia dizer igualmente o oposto: o seu programa econômico era também o mais estatalista. Quando só um dos jogadores põe as cartas na mesa, compará-las com as dos demais, que as escondem na mão (ou nas mangas), é um puro exercício retórico, por mais indícios que se tenha. A votação expressiva de Marina Silva no primeiro turno quebrou a lógica plebiscitária a que se queria reduzir as eleições e forçou Dilma e Serra a, enfim, colocarem as cartas na mesa.

Não se trata mais da disputa entre a mera continuidade do bem sucedido governo Lula, um dos melhores da história desse país, e as promessas eleitoreiras aliadas ao discurso do ódio e do medo. Trata-se também de pensar o futuro que queremos e iremos construir. Assim, a candidatura de Marina já cumpriu uma de suas missões: a coordenação da campanha de Dilma divulgou que lançará, após o dia 12 de outubro, o seu programa de governo; o que não foi feito no primeiro turno, segundo o presidente do PT, José Eduardo Dutra, porque Serra também não havia lançado o seu – revelando o desprezo pela candidatura verde, uma miopia analítica que transpareceu quando um intelectual petista no dia das eleições afirmou que não haveria onda verde. Em todo caso, o programa de Dilma, dizem as notícias, deverá enfatizar o meio ambiente como modo de se aproximar do eleitorado que votou 43, o que revela o quão rotundamente estava enganado esse mesmo intelectual ao dizer, nas vésperas da eleição, que Marina representava a falência do movimento ecológico brasileiro. Ao contrário, ela conseguiu colocar a discussão ambiental na agenda política do país (coroando uma história que vem dos tempos de militância socioambiental ao lado de Chico Mendes, e que passa, indubitavelmente, pelos seus anos à frente do Ministério do Meio-Ambiente no governo Lula, apesar de todos os contratempos). Além disso, na plataforma mínima que a candidata deve apresentar aos dois postulantes do segundo turno como discussão para um possível apoio, está o investimento de 7% do PIB em educação, que era sua principal bandeira de campanha (medida bem liberal, não?). Se os dois candidatos encamparem a proposta (ou mesmo um número mais próximo aos 7%), será uma imensa vitória política para o país.

Mas enquanto a campanha de Dilma busca incorporar a agenda política de Marina Silva, a de Serra, além de fortalecer o discurso do ódio e do medo (aos incautos que creditam o desempenho eleitoral de Marina a isso, caberia se informar melhor), tenta atrair o eleitorado de Marina por meio da Executiva Nacional do Partido Verde, com a proposta de cessão de Ministérios (dizem que seriam quatro, número que o PV talvez não tivesse nem em um eventual governo de Marina Silva).

Além de ser uma estratégia eleitoral equivocada, na medida em que o eleitorado do Partido Verde é ínfimo sem Marina (a qual já se posicionou contra uma decisão de apoio restrita ao âmbito do PV, propondo uma convenção mais ampla), a negociação é sintomática do modus operandi tucano. No último debate presidencial televisivo do primeiro turno, Plínio de Arruda Sampaio caracterizou, com palavras certeiras, o que é um governo tucano: um governo do “pessoal que tem nome e sobrenome” sobre os “que não têm nome”. Serra já despreza o eleitorado anônimo de Marina, achando que pode conquistá-los conquistando apenas os que têm nome, como Penna e Gabeira. A política e a gestão demo-tucana (se é que se possa separá-las nesse caso) é o do seqüestro da cidadania. Seqüestro econômico (com uma política de desmonte estatal, austeridade e arrocho salarial), político (a criminalização de movimentos sociais e reivindicatórios), da soberania (com uma política externa subserviente), e o que é mais importante, do futuro (uma política educacional e cultural risíveis, em que há ingerência nas universidades, em que não se contratam professores, em que não se expande o sistema universitário, em que a cultura é deixada nas mãos do mercado).

É claro que muito do antigo status quo se manteve ou se agravou com Lula: a política ambiental, a política agrária, os modos de diálogo político com o Congresso, etc. Todavia, é igualmente verdadeiro que a eleição de Lula em 2002, e avanços econômicos, sociais, educacionais e culturais de seus oito anos de governo petista criaram as condições objetivas e subjetivas que possibilitaram uma candidatura como a de Marina Silva (que repetiu, durante a campanha inteira, que era preciso tirar o eleitor do anonimato), trazendo milhões de pessoas para o protagonismo da cena política e social.

Não há como pensar o futuro se o presente é uma terra devastada. O presente de hoje não é, como o de 2002, um deserto sócio-econômico. Mas a manutenção desse rumo fará o presente de amanhã ser um deserto sócio-ambiental. Por isso votei em Marina Silva no primeiro turno. Agora, no segundo, votarei em Dilma. Primeiro, porque a história da militância socioambientalista se forjou dentro do PT. Segundo, porque, ao contrário de Serra, Dilma já sinalizou uma mudança programática (e não meramente discursiva), que contempla propostas de Marina (não há agenda sócio-ambiental possível com Kátia Abreu).

Mas o principal motivo para meu voto em Dilma é evitar o retorno do seqüestro da cidadania. Se alguém tem dúvidas que a política demo-tucana promove tal seqüestro, um dado deveria ser suficiente: a demissão de Maria Rita Kehl. O Estado de S. Paulo, jornal que declarou apoio a Serra, dispensou a psicanalista depois de ela escrever uma coluna em que argumentava como a ascensão social promovida pelo governo Lula implicava um ascensão política: “Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.”

A demissão não revela apenas uma intolerância com a posição diferente, mas com o conteúdo dessa posição, a saber, a de que os formadores de opinião, os “cidadãos”, não podem mais impô-la aos “não-cidadãos”. É para tentar voltar aos tempos em que o nome e sobrenome eram suficientes para determinarem os rumos dos anônimos que o Estadão apóia Serra e demite Kehl. Marina Silva, em seu discurso após as eleições, afirmou que a sua derrota era uma vitória: “Estamos em primeiro lugar de uma nova política que se inaugura no Brasil”. É para não voltar à velha política que agora votarei em Dilma. Como dizia Oswald de Andrade, “Voltar para trás é que é impossível. O meu relógio anda sempre para frente. A História também”.

* Alexandre Nodari é doutorando em Teoria Literária (UFSC). Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura e é editor do SOPRO. Blog: Consenso, só no paredão!

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