A morte de Kadafi. E o que vem depois

por Juan Cole

-- Kadafi e Mubarak (Sirte, 2005) --

 

As últimas semanas da violenta e coerciva vida de Muammar Kadafi me lembraram vividamente Jim Jones e o culto do Templo dos Povos. Estava óbvio desde o final de agosto último que Kadafi havia perdido. A população da própria capital Trípoli se levantou contra ele, com exceção de uns poucos pequenos bairros, corajosamente desafiando suas assassinas forças de elite.

Em mais de uma ocasião Kadafi teve oferta de exílio, mas preferiu evadir-se para sua cidade natal de Sirte para oferecer uma suicida última resistência. Seus subordinados com olhos de vidro atiraram com determinação até a última bala de tanque e de artilharia que haviam estocado, destruindo a própria cidade que os abrigava, a fim de deter o avanço das tropas do governo. Essa monumentalmente estúpida última resistência transformou Sirte na Beirute dos anos 1980, à medida que edifícios reluzentes se deterioravam em queijos suíços e por fim em escombros escuros. Kadafi havia favorecido Sirte com magníficos centros de conferência e salas de conferência revestidas de madeira, enquanto privava de fundos as cidades do leste, e à beira da morte ele tomou de volta todos os presentes que dera à cidade de seu nascimento, forçando-a a beber o veneno de seu maníaco desafio da realidade.

Entre os que atacavam, havia milícias de cidadãos de Misratah, a cidade de 600 mil habitantes que Kadafi cercara antes, subjugando sua população civil a bombas de fragmentação e balas de tanque e artilharia, até mesmo bombardeando-a dos ares, antes do CS da ONU intervir. O Conselho de Segurança estritamente o instruiu que parasse de atacar sua própria população simplesmente pelo fato dela ter se erguido pacificamente para protestar contra seu regime. O cerco de Kadafi transformou um levante popular ao estilo Tahrir em uma guerra civil, com inexperientes jovens civis na cidade sitiada pegando em armas para lutar contra as divisões blindadas das Brigadas Khamis e salvar seus pais e irmãos mais novos da terrível ira daqueles apavorantes impositores dos malevolentes desígnios de Kadafi.

Seu desafio à ordem do CS o transformou em um reconhecido criminoso de guerra, pelo que ele foi acusado pela Corte Criminal Internacional. Mas é claro que o bombardeador do voo 103 da PanAm sobre Lockerbie, Escócia, o carniceiro da prisão de Abu Salim, o agressor do vizinho Chade e o fomentador de guerras, tirania e rivalidades em Serra Leoa e Libéria já era um criminoso de guerra desde quando poucos ainda ousavam dizê-lo em público.

É difícil ver como o desejo do CS de que a população civil fosse protegida de Kadafi pudesse ter sido implementado somente em uma base defensiva. Enquanto ele tivesse capacidade ofensiva, claramente a empregaria, empilhando torres de caveiras de inocentes. Tão logo ele cercou e assassinou implacavelmente os não-combatentes de Misratah e Az Zawiyah, todas as apostas em contrário haviam sido perdidas. Ele começou com 2.000 tanques, que enviou contra os manifestantes. Quando já não lhe sobrava mais nenhum tanque, pronto, acabou-se, ele se reduziu a secretar a si próprio em um cano de esgoto.

Em contraste com o cerco de Kadafi a Misratah durante meses e o uso de bombas de fragmentação em áreas habitadas por crianças, as tropas do Conselho de Transição Nacional avançando rume a Sirte regularmente recuavam, para permitir que os residentes evacuassem, tentando convencê-los a se unir à nova Líbia. Kadafi nunca fez favor semelhante aos civis de Misratah ou Az Zawiyah.

A última resistência em Sirte foi muito parecida com a última resistência de Jim Jones nas selvas da Guiana. Jones era um líder religioso americano que gradualmente se tornou louco, exigindo mais e mais sacrifício e obediência dos membros de sua congregação do Templo dos Povos, que então gradualmente se transformou num culto. Eu defino culto como um grupo no qual o líder faz exigências muito elevadas de obediência e autosacrifício, os valores dos quais divergem daqueles da maior parte da sociedade. Quando o mundo exterior parecia claramente estar no encalço do Templo dos Povos na Guiana, com um congressista aparecendo em Jonestown para resgatar um punhado de aderentes que queriam ir embora, Jones reagiu com fúria, primeiro mandando uma milícia para matar o congressista e os desertores, e em seguida instruindo seus seguidores a beber veneno. Muitos levaram injeções de cianeto misturado a líquidos, ou levaram um tiro. O segundo método se aplicava àqueles que não concordavam em ser voluntariamente “traduzidos” para o outro mundo junto com seu líder messiânico.

A resistência de Kadafi em Sirte salientou o caráter de culto de sua atuação política, com os Comitês Revolucionários e as Brigadas Khamis assemelhando-se aos executores no acampamento de Jim Jones. O trágico episódio ilumina a irracionalidade, fanatismo, violência e tirania de seus acólitos.

Teria sido melhor se Kadafi tivesse sido deixado vivo para ir a julgamento. As circunstâncias exatas de sua morte são sombrias, mas parece que alguns dos que lhe eram leais tentaram resgatá-lo do poder das tropas do governo e ele morreu na troca de tiros, ou resolveram despachá-lo antes que conseguisse escapar e servisse como ponto de reunião para o punhado remanescente de adeptos do culto.

* * *

Aqueles que agora esperam uma fragmentação da Líbia, ou que ela se transforme numa Bagdá norte-africana, provavelmente se desapontarão. É improvável que o culto de Kadafi o sobreviva por muito tempo, pelo menos em qualquer escala significativa. A Líbia não tem divisões sectárias do tipo sunita-xiita. Quase todo mundo é muçulmano sunita. Ela tem uma divisão étnica, entre árabes e berberes. Mas os berberes são bilíngues em árabe, e não têm dúvida em relação à sua identidade líbia. Os berberes juntaram-se com força à revolução e mais ou menos conseguiram salvá-la, e é muito provável que sejam agraciados pelo novo estado.

A divisão leste-oeste se tornou séria apenas porque Kadafi cada vez mais mostrou favoritismo em relação ao oeste. Um governo mais ou menos democrático que espalhe a enorme renda do petróleo de forma mais equânime poderá facilmente contornar essa divisão, que é contingente, e não estrutural.

A identidade líbia não está em questão, e a maior parte dos líbios é alfabetizada e passou por escolas públicas. A maioria dos líbios vive em cidades onde lealdades tribais se atenuaram.

Haverá conflitos, e o faccionalismo é um fato. O governo é uma bagunça, com apenas uma pequena burocracia e limitados grupos de pessoas com habilidades administrativas. Mas estados petrolíferos no Golfo que passaram por problemas similares nos anos 1960 e 70 os resolveram importando burocratas e administradores egípcios, e atualmente Egito e Tunísia têm um excedente de bem educados administradores em potencial, que enfrentam subemprego em casa. Estados petrolíferos frequentemente geram emprego o bastante não apenas para seu próprio povo, mas também para uma ampla força de trabalho expatriada. Assim como os pessimistas ficaram surpresos ao ver que a Trípoli pós-Kadafi estava relativamente calma e rapidamente superou os problemas iniciais com comida, água e serviços, eles provavelmente também descobrirão que o país como um todo seguirá em frente.

O novo governo já está conseguindo significantes somas a partir da produção de petróleo. Em setembro, o Conselho de Transição Nacional extraía 100 mil barris por dia. Atualmente ele extrai 200 mil b/d, e analistas esperam uma extração de 500 mil b/d em janeiro.

A derrota final de Kadafi e do kadafismo é uma vitória para a Quarta Onda de democratização que começou na Tunísia e continuou no Egito. Há agora um bloco contíguo de 100.000.000 de árabes no norte da África que jogaram fora suas ditaduras e aspiram a governos parlamentares (as eleições na Tunísia ocorrerão domingo agora). Aqueles que repudiam esse movimento porque forças religiosas muçulmanas se beneficiarão, exibem dois pesos e duas medidas. O catolicismo romano se beneficiou da Terceira Onda de movimentos democráticos em países como Polônia e Brasil, assim como a Igreja Ortodoxa Oriental em outros países. Se a democracia irrompesse agora em Myanmar, o budismo Teravada se beneficiaria. E daí?

A Liga Árabe, o presidente Obama e a OTAN foram provados corretos em sua decisão de evitar o massacre em cidades do leste líbio, como Bengazi. Os tiranos sanguinários que ainda existem na região, sem escrúpulos em massacrar não-combatentes por exercerem o direito de reunião e protesto pacífico, devem compreender que assassinato em massa é uma passagem apenas de ida para os canos de esgoto da história. Como eu disse hoje ao New York Times, “A verdadeira lição aqui é que existe uma nova onda de política popular no mundo árabe… As pessoas não estão com humor para tolerar ditadores semi-genocidas.”

Vi George Friedman, do grupo de estudos Stratfor, no programa de Erin Burnett na CNN apocaliticamente prevendo uma Bagdá mediterrânea na Líbia. Aqueles com capital de investimento que tiverem tais preocupações e excluírem a Líbia de seu portfólio perderão uma grande oportunidade. O Conselho de Transição Nacional precisa agora do nosso apoio, e a nova Líbia, libertada, lembrará daqueles que a ajudaram nestes tempos incertos. As apostas estão correndo em Tripolitânia e Cirenaica.



  • José Mendes

    Os abutres estão satisfeitos, mais uma guerra por petróleo bem sucedida. Se ele tivesse cooperado mais com o grande irmão, igual a Arábia Saudita, estaria até hoje no poder. Lutou até o fim. RIP.

  • Bryght Kapisâba Netto

    “A verdadeira lição aqui é que existe uma nova onda de política popular no mundo árabe… As pessoas não estão com humor para tolerar ditadores semi-genocidas.”
    Está corretíssimo! O próximo a cair tem que ser o Chávez para este parar de dizer insanidades.
    A Primavera Árabe veio para sedimentaro caminho da Democracia e da Cidadania.

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