Em defesa do idealismo na filosofia

por Maria Ivonilda

O que me interessa na postura idealista de Kant e dos chamados idealistas alemães é menos uma preocupação com a centralidade da razão que uma afirmação das condições do indivíduo: enquanto sujeito de um mundo e no mundo.

De certa forma, quando Kant iniciou seu projeto de combater o conhecimento absoluto acerca dos objetos, ele definitivamente não tinha a intenção de simplesmente colocar a razão humana no centro do debate; o que ele pretendia era deixar claro que não há esse tal conhecimento absoluto, sendo o absoluto aqui tomado como um incondicionado. Não é o caso que com isso se afirme também uma “relativização” da razão, pois o simples fato de os objetos terem que se adequar às condições que o sujeito do conhecimento possui para assimilá-los indica que a razão exerce sua parcela de importância.

Confesso que estudar o projeto filosófico de Hegel sempre foi um dos meus interesses, mas não de acordo com algumas leituras que existem no sentido de afirmá-lo como aquele que negou a lógica para afirmar categoricamente a dialética na realidade, sendo a dialética o meio onde tudo é possível e através do qual tudo pode ser explicado.

Menos que isso, vejo a dialética hegeliana como uma outra forma de negação desse modo absoluto de considerar as coisas. O interessante é que muitos se identificam com a afirmação de Heráclito segundo a qual as coisas são transitórias, mas, ao mesmo tempo, são incapazes de identificar essa mesma transitoriedade como elemento fundamental na dialética hegeliana.

É justamente nesse sentido que se deu o insight dos “hegelianos de esquerda”: segundo eles, a forma do discurso de Hegel (a dialética) constitui um elemento de fundamental importância na assimilação dos fatos históricos. Nesse sentido, esses pensadores tinham menos interesse no “dever ser” – que alguns intérpretes atribuem ao pensamento de Hegel como se este fosse um “kantiano” – que na própria configuração do saber de uma realidade.

Aliás, é necessário frisar a importância em ver as coisas desta forma. O esloveno Zizek atentou para esse fato, se não me engano, quando participou do programa Roda Viva em uma edição de 2009, e elogiou a leitura de Hegel feita pelos marxistas do Brasil. Quer dizer, é importante combater a ideia de que Hegel só se apoiou em uma visão dialética para chegar à conclusão de que o estado é a expressão máxima da racionalidade em termos concretos. Não é esse o caso. Antes do “estado”, há toda uma consideração acerca das necessidades que se colocam como mais urgentes em cada sociedade; e como as sociedades podem ser caracterizadas a partir desse pressuposto básico. Ora, é muito mais intuitivo assumirmos que uma sociedade pode desejar algo diferente de outra; bem como uma mesma sociedade pode desejar algo em um tempo e em outro tempo desejar algo completamente diferente.

Bem entendido, por vezes é difícil identificar em Hegel um modelo fixo no qual os fatos estão assentados. Por isso, o autor vê a necessidade de afirmar o próprio caráter histórico como chave de interpretação para os contextos. Soma-se a esse caráter histórico, a presença da dialética como a negação de padrões ao longo dos tempos. Pois, para Hegel, não há alguém situado fora do espaço e do tempo, fora da sociedade e sem interesses, desejos, pensamentos, ideias. Reiterando, não há nesse sentido uma “razão” relativa: o autor não afirma isso, mas o contexto é certamente a contraposição que Hegel efetua a um modelo “puro” de assimilação de situações.

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PS: Continuando o raciocínio, na próxima semana apresentarei uma forma de conciliar a leitura dos clássicos com a ideia do meu colega Raphael Douglas no texto “É possível descolonizar o pensamento?”.


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