A obra póstuma de Lars von Trier

por Estêvão dos Anjos * – O Ocidente cresceu sob a égide do fálico. Sob um mundo patriarcal. Mundo esse erguido após séculos e séculos de opressão, perseguição e morte do gênero feminino. Como a maioria dos crimes apresentam o seu mentor intelectual, podemos afirmar que, no caso do feminicídio, foi a igreja Católica.

Um dos principais mitos que compõem a Bíblia, o de Adão e Eva, pode ser considerado a origem do feminicídio. Antes, um parêntese: existe feminicídio e femicídio, o primeiro relacionado à sexualidade e o segundo a questões políticas. A culpa atribuída à Eva por ter comido do fruto proibido pode ser considerada política, afinal uma regra foi infringida, mas ela assumiu conotação sexual: não foi apenas Eva que passou a ser punida, mas todo o sexo feminino.

O feminicídio na Idade Média é o tema de estudo de Ela, personagem vivida de forma incrível pela atriz Charlotte Gainsbourg no mais novo e polêmico trabalho do diretor dinamarquês Lars von Trier: Anticristo (2009). Ela é casada com Ele (Willem Dafoe), e divide com ele a culpa de um acidente que poderia ter sido evitado: a morte de seu filho após cair da janela de casa. Cena essa mostrada numa das passagens mais belas do filme, mesmo sendo trágica e chocante – além da morte temos um close numa penetração sexual. A tomada possui um ritmo poético e que acompanha os passos da trilha executada.

Após o prólogo – é assim que Trier nomeia essa parte do filme – tudo parece cair num profundo pesadelo. Sentindo-se culpada, Ela passa um mês em estado de luto diferenciado, conforme os médicos classificam. Cansado do tratamento que é aplicado à sua esposa, Ele decide retirá-la do hospital e, como terapeuta que é, ele mesmo cuidar dela. Profundamente depressiva e sofredora, Ela inicia o tratamento que seu marido se propôs levar a cabo. A base desse tratamento é descobrir o que mais Ela teme e fazê-la enfrentar esse medo. O resultado é completamente diferente do esperado e uma série de acontecimentos estranhos acontecem, despertando em Ela um instinto assassino.

Esse seria o resumo do filme, caso não fosse uma obra de Lars von Trier. Recheando-o de símbolos e alegorias – uns bastante compreensíveis, outros nem tanto –, o diretor faz desse simples roteiro uma obra que vai de encontro a toda uma tradição cultural do ocidente.

O MITO REVISITADO
Conforme dito no início do texto, Adão e Eva foi o primeiro casal que habitou o planeta, segundo a tradição cristã. Para outros segmentos religiosos, o mito de Adão e Eva é apenas parte da verdadeira história, que teria sido moldada pela igreja Católica. Para a Cabala, segmento religioso-filosófico do judaísmo, Adão teria sido criado homem e mulher ao mesmo tempo e, na sequência, dividido. Assim teria surgido Lilith. Deus deu-a em casamento a Adão, mas ela não aceitou se submeter e fugiu do Paraíso, seguindo os passos do diabo.

Esse teria sido o princípio da divergência entre o homem e a mulher, entre o Ele e o Ela. O resto da história é bastante difundido: Deus jogou Adão em um profundo sono e retirou-lhe uma costela, criando Eva, sua futura esposa. Para alguns, a sociedade patriarcal inicia-se no ato da retirada da costela do homem para se fazer a mulher, ou seja, já existe um vínculo de dependência. Hoje Lilith é vista como um símbolo da não-submissão feminina. Segundo alguns escritos hebraicos e aramaicos, ela se incomodava, inclusive, de ser aquela que ficava por baixo nas relações sexuais.

Trier, em seu filme, resgata o mito de Lilith, evidenciado, de início, por meio dos nomes dos personagens. Ao optar por não nomeá-los, chamando-os apenas Ele e Ela, Trier deixa claro que o confronto gira em torno de uma disputa sexual. Em uma sinopse do filme divulgada antes do lançamento, dizia-se que o filme contava a história da criação do mundo pela ótica do Demônio. E é isso que acontece.

Após a perda do filho, Ela afirma que no último verão havia estado no Éden para estudar com mais tranquilidade o feminicídio para sua tese, porém algo estranho a fez perder a concentração e não concluir seus estudos. Esse “algo estranho” que Ela afirma ter sentido, foi uma espécie de insight provocado pelos seus estudos que a fez ver a verdadeira condição da mulher dentro da sociedade, só que essa percepção acontece em seu inconsciente. É por esse motivo que ao voltar ao local, dessa vez para o tratamento, Ela parece ser acometida de dupla personalidade, uma violenta e instintiva (Lilith), e outra insegura, medrosa (ela mesma).

Trabalhando com as imagens sugeridas, Lilith desperta em Ela, e retorna ao paraíso a fim de recontar a história humana como a vê: ela quer, dessa vez, submeter o homem ao julgo da mulher. A cena em que ataca o homem com uma madeira e faz sexo com ele é um exemplo dessa nova conduta que Ela quer impor, para isso basta ver que o ato sexual é feito com a mulher por cima do homem, simbolizando a dominação. Para colocá-lo ainda mais ciente do que é ser mulher na sociedade patriarcal, Ela prende à perna de seu esposo uma roda de concreto, uma referência ao peso da culpa que todas as mulheres carregam ao longo da história.

Porém, a personagem é, a partir do momento que chega ao Éden, um constante embate entre Lilith e Ela, a força de uma, contra a submissão da outra. Após Lilith fazer sexo com Ele, o lado inseguro da personagem reaparece e, dando-se conta do que havia feito, pune-se cortando o próprio clitóris.

A forte cena dessa ação remete, mais uma vez, ao feminicídio, hoje ainda praticado em alguns países africanos como parte de um ritual que consiste em retirar a parte sexual da mulher que mais lhe dá prazer, como uma forma de lembrar a todos qual o sexo culpado pelo “pecado original”.

É nesse contexto que surge a imagem do Anticristo. Pois, ao ir de encontro ao patriarcalismo, ao feminicídio e aos valores pregados em relação à mulher, Trier ataca, principalmente, a igreja Católica por ser a difusora desses valores e, consequentemente, Jesus Cristo, símbolo da instituição. Observando a obra por esse viés, podemos apontar tanto a personagem Ela como o Anticristo que o título menciona, como o próprio Trier.

O nome do filme é um tributo a Friedrich Nietzsche, um dos principais pensadores da filosofia mundial e responsável por construir uma linha de raciocínio que ataca toda a moral ocidental erguida pelo Cristianismo. Segundo o diretor afirmou em entrevista, o Anticristo do filósofo é seu livro de cabeceira. Mas um filme não se restringe apenas ao conteúdo, devemos levar em consideração também a sua forma.

RENÚNCIA AOS DOGMAS
Lars von Trier [ao lado] é conhecido por ser um dos criadores do movimento cinematográfico Dogma 95. Este movimento contrapõe-se ao cinema de Hollywood e se propõe a fazer algo mais realista. Com fortes influências do teatro de Bertolt Brecht, os integrantes do Dogma 95 lançaram cartilha na qual algumas das regras a serem seguidas são: a filmagem não pode ser feita em estúdio e deve capturar o som ambiente; não deve haver nenhuma iluminação especial; a câmera é usada em mãos; efeitos visuais estão proibidos; e são inaceitáveis filmes de gênero.

Apesar de ser o ícone dessa escola, Trier não a segue tão à risca em Anticristo. Alguns dos critérios foram seguidos (como a câmera na mão e as tomadas externas), mas isso não faz dele um filme pertencente à estética do Dogma 95, pois algumas regras são burladas (uso de efeitos visuais, simulação de realidade, preto e branco, trilha sonora).

Essa quebra de preceitos cinematográficos que o diretor vinha pregando em seus trabalhos anteriores pode ser interpretada como um novo caminho que sua vontade de se expressar resolveu trilhar. Em algumas entrevistas, Trier afirmou que escreveu e dirigiu o filme em forte estado depressivo; logo, ele teria surgido mais como uma vontade de externar fantasmas do que seguir certa tendência cinematográfica.

O mais curioso nisso tudo é que a renúncia ao Dogma veio justamente em um filme em que o diretor ataca uma instituição que se mantém por meio de dogmas, ou seja, a escolha por essa forma se complementa com o conteúdo perfeitamente: tanto um quanto outro descarta a ideia de dogma. Porém, até que ponto isso tudo foi consciente, talvez, continue um mistério.

Durante anos, as alegorias apresentadas ao longo do filme deverão ser motivo de discussão. A queda do bebê representa a queda da inocência? O que representa o filhote de veado natimorto? A raposa que come suas próprias entranhas? O defeito no calcanhar da criança? São muitas dúvidas, questionamentos que precisam ser melhor pesquisados para que se chegue a uma compreensão. Nesse sentido, Trier se assemelha, mais uma vez, a Nietzsche, quando esse pôs no prólogo de sua obra que alguns homens nascem póstumos, pois só serão compreendidos futuramente, por estarem à frente de seu tempo. Talvez a citação viesse a calhar como uma epígrafe da obra de Lars von Trier.

[ veja o trailer ]

* Estêvão dos Anjos, jornalista, mora em Maceió. Blog: artenaarteria.blogspot.com.

  • http://caducando.wordpress.com McFly

    Bueno, bueno, mas acho que Von Trier vem fugindo do Dogma há alguns anos (pelo menos desde Dançando no Escuro). Não?

  • fred.k

    A temática desse filme -vide roteiro- é muito impressionante e se expõe às mais diversas interpretações, que vão desde a religiosa, muito bem colocada por você, até a psicológica, como uma que li no Estadão.
    O que me incomoda mesmo é a parte estética. É aí que eu acho que Von Trier derrapou. E feio.
    A superestilização da cena inicial, na minha opinião, só serve para afastar o espectador em relação ao que acontece na tela. Em oposição, veja como ele faz com que “entremos” no filme em obras como “Europa” ou “Dançando no escuro”. Assim, não sentimos a dor de Ela como sentimos, por exemplo, a dor da personagem em “Dançando”.
    Outro problema, a meu ver, é o empilhamento de situações. Só um exemplo: quando finalmente ficamos sabendo o que havia no envelope que ele recebeu lá no começo, logo o filme já faz ele descobrir fotografias que justificam aquilo -e apontam a loucura de Ela. E há muitas outras situações dessas, em que parece ter que explicar imediatamente o mistério que coloca na tela.
    Há também a questão do gênero -repudiado, por sinal, pelo Dogma-, pois parece-me que Von Trier faz um uso errado da música para criar o clima de terror. Ele não precisa dela para criar o clima. Na verdade, ela é até anticlimática, frente ao mais assustador som daquelas bolinhas caindo no telhado. E o banho de sangue do quarto final da obra é, a meu ver, abrupto demais, quase como se Von Trier tivesse que entregar finalmente o terror nos instantes finais do filme.
    Assim, “Anticristo” é boa ideia, mas má execução.
    p.s: Não é a primeira vez que Von Trier subverte o Dogma. Basta ver o já citado “Dançando no escuro” e -por que não?-, o díptico “Dogville”/”Manderlay”, pois a estetização aqui também vai, de certa forma, contra os preceitos estéticos do Dogma.

  • Guerrinha

    Muito bacana a crítica e acho que o feminicídio rola realmente o tempo todo no filme.

    Adicionalmente acho que o nome Anticristo vem também da forma como as coisas se desenrolam no filme como uma oposição da Bíblia: A morte de uma criança em oposição ao seu nascimento, a volta ao Éden, os três mendigos que viajam até a cabana ao invés dos 3 reis magos. A própria morte da criança se revela como um ato premeditado da mãe. Ao acostumar a criança a usar os sapatos trocados, deformar seus pés – o que levaria à sua morte – temos outra demonstração de feminicídio na tela. É a mulher que renega o filho, uma das características que a tornam o que é. Acho que as simbologias (como a do filhote natimorto do veado em que o parto é interrompido pela metade) têm muito a ver com essa renúncia da feminilidade.

  • Adriana Godoy

    Excelente análise! Parabéns.

  • http://miltonribeiro.opsblog.org/ Milton Ribeiro

    Uma cobrança de coerência? Não acredito!

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  • Poliana Dantas

    Estêvão, já tinha lido esta resenha no seu blog e confesso que gostei muito dessa vez . Apesar de não ter tido a oportunidade de assistir a esse filme no cinema (por questões de idade mesmo), eu tenho um largo interesse em apreciá-lo, pois ultimamente, como mulher que sou, venho desconstruindo esses mitosque permeiam o imaginário e a realidade feminina em pleno século XXI, impregnada de preconceitos acerca da nossa condição de más e culpadas, ideia pregada principalmente pela Igreja e pela medicina (inclusive foi através desse seu texto que me surgiu o interesse de estudar mais sobre o mito de Lilith; e eu pretendo brevemente estar escrevendo um ensaio relacionando essa segunda versão do Gênesis com as ideias de Yung sobre a anima presente em todos nós e a situação feminina hoje). Meus parabéns, caro colega de análises críticas.

  • Kleber

    Acredito que o Lars é um tabu negativo, basta aceitar ou não! Maravilhosamente conduzido e terrivelmente concebido!
    Não posso idealizar a idéia de que o Lars consiga ver o mundo e o ser humano em visões coloridas, mas em Preto e Branco por vezes sepias.
    Depois que assist ao filme pude comprovar que além de ser triste como o diretor, é impossivel acreditar que ele consiga algo sem ser de autor expondo o que ele é e acha sobre a humanidade.
    Não é a toa que ele entrou em uma depressão que quase não sai…Ame o ou deixe o. Eu deixei!

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  • Lucas de Barros Ferreira

    Analise interessante, não havia pensado nisso, alem de que não conhecia a história de Lilith.
    Você meio que esclareceu as coisas para mim, obrigado, e gostaria de dizer que sinto grande ligação dos três mendigos com os três reis magos da bíblia e penso tembem que cada animal representa um deles, sofrimento, dor e desespero. Acho que o que o Lars queria passar talvez (não sou um entendedor de cinema que entende a fundo as mensagens, mas eu tento) é que quando Cristo nasceu ele ganhou esses três presentes por ser tornar um ser mortal. Afinal todos nós tememos a morte e isso nos causa muita dor e desespero.
    Com relação ao sapato e a morte do menino não cheguei a nenhuma “conclusão” ainda.
    Talvez o menino represente cristo, não dizer…

  • Herrivan DBoys

    Primeiramente penso que, a simples iniciativa de permitir um comentário, é uma atitude louvável para a finalidade a que se destina e no portal em que se destina.
    Fundamentado nisso, exponho minha discordância quanto a citação “A culpa atribuída à Eva por ter comido do fruto proibido”.
    A culpa não foi atribuída a Eva, mas ao seu companheiro, por, no contexto, ter desobedecido uma ordem direta do Criador. A recomendação não foi para ela, mas, para ele, tanto que, após também ter comido o fruto – que alguns insistem em dizer que é uma maça -, Deus ‘O CHAMOU’ e ele respondeu escondido porque estava nu, e foi questionado “comeste do fruto…?”. Ele é que, numa tentativa de eximir-se da responsabilidade e subtetivamente culpando a Deus, falou: “a mulher que tu me deste, me deu e eu comi”.
    Portanto culpa dele, não dela. Obrigado.
    No demais, Parabéns!

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