Valei-nos, Nelson Rodrigues

Não vou falar aqui das benesses do envelhecimento porque, afinal, por favor – não estamos com Alzheimer ainda e não somos velhas de nenhum ponto de vista, exceto o das crianças. Somos jovens.

Quer dizer.

Jovens, porém não mais jóvis, entende?

Você é jovem (ainda não se preocupa com o colesterol), mas não pode mais dizer que, se as coisas estão demorando a engrenar – na carreira, vida amorosa, aprendizado de língua, escrita de blog -, é porque você está apenas começando, e no começo é assim mesmo, difícil, devagar, aos poucos. Você tem um trabalho, um relacionamento, um blog e uma segunda há língua há seis anos, amiga. Se a coisa vai mal em qualquer uma dessas searas, não é o tempo que vai resolver. Quem vai ter que resolver *preguiiiiiça* é você mesma.

Por outro lado, você é jovem (ainda não conta os dias pra chegada da aposentadoria), mas sua personalidade, seu caráter e seus poucos talentos são esses aí mesmo: você já esvaziou a cartola mágica e ela não tem fundo falso. Com o tempo, você até pode, quem sabe, ler as obras completas de Dostoiévski, escrever um post melhorzinho que não apenas o Paulo*, mas uns dez amigos seus compartilhem no Google Reader* e, com muita sorte, conseguir um trabalho incrível que te pague umas duas pilas a mais por mês, aumentando consideravelmente sua possibilidade de tomar lanchinhos na região da Paulista. Mas, convenhamos, nada disso representará uma mudança fundamental na sua vida. Você é quem você é – suas inseguranças e coragens, sua capacidade de amar, perdoar, lutar, relevar e calcular a proporção água / pó de café – tudo isso foi constituído ao longo de laboriosos anos de uma dialética de obedecimento-e-revolta com os conselhos da vovó, goste você disso ou não.

Então, quando você chega neste momento da vida – quando você é jovem, isto é, não-velha porém não-jóvis -; quando o mais importante já está definido mas, ao mesmo tempo, muitas possibilidades ainda podem se descortinar, você se pega pensando em mil atitudes e ideias que, graças a Nelson Rodrigues, foram deixadas para trás.

Pois na minha idade, revolta fashion já não é mais sair na rua com camiseta de banda. Isso se chama mau-gosto. Revolta fashion legítima, contra o status quo e o 1% de Wall Street, é ir a um casamento usando uma bolsinha de couro a tiracolo, só para não estourar o cartão de crédito comprando uma bolsa-carteira toda brilhosa, perfeitamente adequada à ocasião e perfeitamente feia.

Na minha idade, música irritante não é pagode, sertanejo ou a nova geração de cantoras-musas da MPB. Essa revolta, amigas – “sertanojo, que coisa de pobre!”, “ai, essa vaca não canta nada!” – é coisa de jóvis. Um jovem sabe escolher melhor a música que terá o sagrado poder de lhe irritar. No meu caso, trata-se de HELLO MOTO, a musiquinha com que o celular me desperta, sempre antes do que eu gostaria, todos os dias.

Na minha idade, analogamente, escritor péssimo, assim totalmente zé-ruela, passa longe, bem longe de um Paulo Coelho. Acreditar sinceramente que Paulo Coelho é um escritor péssimo é coisa de jóvis – ou seja, de quem ainda não leu o bastante. Se de tudo o que você leu até hoje, Paulo Coelho foi o pior autor que passou diante dos seus olhos, posso lhe garantir: você ainda não viveu o suficiente. E é uma pessoa de sorte.

Na minha idade, você não acha mais que a sua família é que tem de se adaptar aos hábitos da sua casa – custou um pouco, mas enfim você aprendeu o feijão com arroz da boa educação. Afinal, você já não faz nada do que a sua família gostaria mesmo – o que custa, então, servir a água na jarra de vidro em vez de na garrafa de plástico, se isso vai fazer a sua tia mais feliz? Você nem vai precisar lavar a jarra depois mesmo.

Na minha idade, você acredita em biscate tanto quanto acredita em duende – esse conceito de que as pessoas, e especialmente as mulheres, roubam ozómi dazôtra, ficou esquecido em algum momento da segunda série ou do segundo ano da faculdade, já não se sabe bem.

Na minha idade, você já não chuta mais cachorro morto. BBB, Faustão? Ô loco, meu. Você não precisa mais criticar essas coisas se quiser ser inteligente como o Bial.

Na minha idade, você já não pensa mais se deveria ou não adicionar o Fulano das Couves no Facebook. Ele pediu? Você adiciona. Porque as suas fotos, seus amigos, seu blog – e, sobretudo, seus comentários brilhantes sobre temas da atualidade que agregam litros de graça ao seu perfil – no fundo, você sabe que o Sr. das Couves não está interessado em nada disso. Ele só quer chegar logo aos cinco mil amigos para poder criar seu Perfil II, mostrando como é popular e perpetuando a tradição facebuquiana de agregar cada vez mais graça a temas cada vez menos engraçados (tá com câncer? –> hahaha sifudeu glr kkk). Então, na minha idade, você adiciona o mocinho das couves, clica imediatamente no sagrado botão de ocultar, e não perde mais tempo com o assunto.

Na minha idade, você percebe que a pouca sabedoria que conseguiu acumular até hoje cabe inteirinha num post de blog. Só que em vez de se desesperar e achar que você tem que aprender tudo o que importa na vida até a FUVEST, você simplesmente põe um ponto final no post.

E começa a escrever o próximo.

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* Este texto foi escrito antes do apocalipse do Google Reader. Um dia, quando não formos mais jovens nem jóvis, diremos com orgulho aos nossos netos que não poucas vezes figuramos entre os itens compartilhados do Paulo.



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