Nós e os índios

Brasileiro gosta de mistura, desde que ninguém ameace a nossa cosmovisão e epistemologia ocidentais.


1.

Em nenhum lugar do Brasil, a invisibilidade do índio talvez seja tão visível quanto na Avenida Paulista, em São Paulo. É ali, em frente ao Parque Trianon, dando de cara com o MASP, no meio de pessoas apressadas falando ao celular, buzinas de carros, barulho de motor e poluições de vários tipos, que fica localizada a estátua de Bartolomeu Bueno Dias, também conhecido como Diabo Velho (Anhanguera). Bartolomeu foi um bandeirante, conhecido matador de índio e saqueador de tribo. No entanto, se formos ao Houaiss e procurarmos o verbete “bandeirante”, nenhum desses significados estará lá – o que diz muito também de nosso silêncio e indiferença em relações aos índios. No dicionário, você descobrirá que “bandeirante” é sinônimo de “paulista”, além de significar “aquele que abre caminho; desbravador; precursor; pioneiro”. Os bandeirantes seriam uma espécie de “vanguarda” da colonização, o que casa bem com um lugar como São Paulo, cujos políticos ainda hoje se utilizam da infeliz metáfora da “locomotiva do Brasil” para definir o estado.

Vanguarda, desbravamento, locomotiva, non ducor duco (que está na bandeira da cidade de São Paulo e quer dizer “não sou conduzido, conduzo”) são signos que fazem parte de um mesmo campo discursivo: o do progresso arrojado. Se houve algum progresso no Brasil, esse foi o progresso da colonização, ou melhor, a progressão bandeirante lenta e contínua para o oeste, escravizando indígenas, apropriando-se dos recursos de sua terra, aniquilando sua cultura. Avançamos na terra e na cultura dos outros. Progresso, progressão, invasão. E continuamos fazendo isso: seja com os Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul; seja com os desalojados das construções da Copa do Mundo; seja com os índios da bacia Xingu que serão desterrados pela Usina de Belo Monte. As elites brasileiras continuam progredindo em cima de terras, pessoas e direitos.

Não nos enganemos. Nosso imaginário desenvolvimentista – essa necessidade e desejo de crescer e expandir em moto-contínuo – está calcado no espírito do bandeirantismo, que nada mais é a lógica do colonizador. Bartolomeu Bueno da Silva nos representa mais do que gostaríamos.

2.

Como aprendemos na escola secundária, os romances Iracema (1865) e O Guarani (1857) de José de Alencar são considerados ficções fundacionais da nação. Embora sejam textos fortemente ideológicos – uma vez que deliberadamente escamoteiam a violência genocida do encontro colonial para narrar tal encontro numa moldura conciliatória –, carregam em si um núcleo de verdade: o desejo do letrado brasileiro – o narrador dessa história dos vencedores – de moer qualquer traço de alteridade cultural no moinho da ocidentalização. Nas palavras certeiras de Alfredo Bosi, o indianismo alencarino não passava de um mito sacrificial dos índios, no qual estes só atingiriam a nobreza quando fossem capazes de se auto-imolar. Os índios Peri, de O Guarani, e Iracema, personagem central do romance homônimo, se tornam heróis na medida em que se anulam e se sacrificam em gesto de servidão aos colonizadores portugueses. Peri se converte ao cristianismo para se unir à portuguesa Cecília e, com ela, formar o povo brasileiro. Iracema trai o seu povo tabajara para ficar com o lusitano Martim. Do fruto desse encontro, nasce Moacir, o primeiro brasileiro. Depois de cumprida sua missão no processo civilizatório brasileiro, Iracema morre. O indianismo alencarino foi assim um elogio à submissão do indígena à sabedoria europeia. Bom índio é aquele que se ocidentaliza. Que muda de lado. Que nega seu povo. Que está disposto a aniquilar a sua cultura, e até a vida, para contribuir com a nação.

Um pouco mais de cem anos depois, João Guimarães Rosa, no conto “Meu tio o iauaretê”, se propõe a questionar essa relação colonial, evocando uma outra lógica. Se os mestiços “alencarinos” são cristianizados e ocidentalizados, o que aconteceria se o mestiço escolhesse o outro lado da mistura que o compõe?

“Meu tio o iauaretê” conta a história de Tonho Tigreiro, caçador de onças, contratado por um fazendeiro, Nhô Nhuão Guede, para desonçar um certo território. Em outras palavras, o caçador é chamado para livrar o terreno das onças, permitindo que aquele pedaço de terra possa ganhar uma utilidade econômica. Desonçar a terra faz parte de uma operação bandeirante (sem trocadilhos). No entanto, de tanto viver isolado dos homens, o caçador começa a ter mais simpatia pelas onças do que por gente, e passa a defendê-las. O caçador escolhe claramente um lado: o das onças, da natureza, dos animais, enfim, o lado da terra onde vive. É o mesmo “lado” que os índios defendem no seu esforço de resistência aos (neo)bandeirantes que invadem sua terra. Daí a conclusão da leitura que antropólogo Eduardo Viveiros de Castro faz do conto rosiano:

Não é um texto sobre o devir-animal, é um texto sobre o devir-índio. Ele descreve como é que um mestiço revira índio, e como é que todo mestiço, quando vira índio – isto é, quando se desmestiça– o branco mata. Essa é que é a moral da história. Muito cuidado quando você inverter a marcha inexorável do progresso que vai do índio ao branco passando pelo mestiço. Quando você procura voltar de mestiço para índio como faz o onceiro do conto, você termina morto por uma bala disparada por um revólver de branco.

Tudo que foge da lógica da anexação, da incorporação, da integração, é eliminado. Brasileiro gosta de mistura, desde que ninguém ameace a nossa cosmovisão e epistemologia ocidentais.

3.

Em Tristes trópicos, Claude Levi-Strauss lembra de uma conversa que teve com o embaixador do Brasil na França, Luís de Sousa Dantas, ocorrida em 1934, na qual o diplomata brasileiro havia comunicado a Levi-Strauss que não existia mais índios no Brasil. Haviam sido todos eles dizimados pelos portugueses, lamentava Sousa Dantas. E assim concluía: o Brasil seria interessante para um sociólogo, mas não para um antropólogo, pois Levi-Strauss não encontraria em nosso país um índio sequer. Nós não sabemos se Sousa Dantas nega a existência dos índios por ignorância, ou simplesmente para ocultar um aspecto do país que o diplomata brasileiro certamente considerava “arcaico”, uma vez que a existência de “primitivos” não bendizia os padrões civilizatórios da nação diante de um estudioso europeu.

Mas quem de nós nunca agiu como Sousa Dantas? Qual foi o brasileiro que, no exterior, nunca se indignou com uma pergunta de um gringo mal-informado que sugeria que nós tivéssemos hábitos próximos ao dos índios? Eis o motivo de nossa indignação: como podem nos confundir com tupiniquins (palavra usada pejorativamente por nós brasileiros para nos definirmos como povo atrasado), se nós somos industrializados, urbanizados, temos carros, trânsito infernal, sofremos com poluição e tomamos Prozac para resolver nossos problemas emocionais? Em outras palavras, como podem nos acusar de “primitivos” se desfrutamos de todas estas maravilhas da civilização moderna?

Se por um lado, hoje, os brasileiros sabemos da existência empírica dos índios, por outro lado, negamos sua existência como nossos contemporâneos, e essa é a raíz da indignação diante de uma possível confusão entre nós, brasileiros, e um povo que, na cabeça de tantos, ainda não evoluiu. Ora, de todos os esforços pedagógicos para descolonizar o imaginário brasileiro, talvez esse seja o mais importante: de mostrar como nós precisamos urgentemente do diálogo com os índios. Devemos abandonar a ótica paternalista (do Estado brasileiro) que infantiliza o índio, enxergando-o como artefato do antiquário nacional, que para alguns deve ser incorporado à nação, enquanto para outros deve ser preservado tal como está. Esse é um falso dilema, pois reifica o índio. Devemos, sim, estabelecer com os índios uma relação de interlocução, com a qual temos muito que aprender.

Nossa civilização criou formas de vida que beiram a inviabilidade. Emporcalhamos nossas cidades; poluímos nosso mar, nossos rios, nosso ar; destruímos nossa natureza; criamos necessidades que nunca serão preenchidas a contento, gerando inúmeras frustrações, tamanha é a roda-viva do consumismo que determina nosso estilo de vida. Segundo Celso Furtado (que hoje, graças a Dilma Rousseff, dá nome a um petroleiro), no seu O mito do desenvolvimento econômico, “[o] custo, em termos de depredação do mundo físico, desse estilo de vida é de tal forma elevado que toda tentativa de generalizá-lo levaria inexoravelmente ao colapso de toda uma civilização, pondo em risco as possibilidades de sobrevivência da espécie humana.” Quanto mais universalizamos nosso consumismo predador, mais rápido destruímos nosso ambiente e planeta. O que teríamos a aprender, afinal, com os índios?

O que dizer de um povo que vive há milênios em co-adaptação com o ecossistema amazônico, tirando da floresta o sustento da vida, em vez de tirar a floresta de sua vida (uso aqui o jogo de palavras do próprio texto de Viveiros de Castro)? Os índios são radicalmente cosmopolitas. A palavra “cosmopolita” quer dizer “cidadão do mundo”. Cosmos, na filosofia grega significa “universo organizado de maneira regular e integrada”. Se permanecermos fiéis à etimologia da palavra, cosmopolita seria então o cidadão de um universo harmonioso (cosmo é o antônimo de caos). Por anos, filósofos antigos e modernos têm pensado o termo “cosmopolitismo” como uma técnica de convivência entre povos. O cosmopolitismo radical dos índios nada mais é que uma técnica de convivência e co-adaptação com o cosmo – o universo, o ambiente, o planeta. A destruição do planeta hoje parece mais plausível em decorrência da falta do cosmopolitismo radical dos índios do que do cosmopolitismo dos filósofos. O que teríamos a aprender com os índios? Algo muito simples e complexo: aprender a habitar o planeta.

4.

Pensar o índio no Brasil é particularmente difícil, pois as representações que temos do índio o colocam além da alteridade. O “outro” da cultura brasileira – narrada, claro, da posição do letrado urbano euro-brasileiro – é, com o perdão da redundância, outro. Ou melhor, são outros: o sertanejo, o retirante, o negro, o favelado.

Investigando sobre os motivos que levaram a esquerda brasileira a negligenciar o índio, Pádua Fernandes lembra que a esquerda revolucionária dos anos 70 – de onde saiu boa parte do Partido dos Trabalhadores – discutia a relação entre cidade e campo, mas era incapaz de pensar a floresta. Em parte, isso se deve à importação direta das categorias euromarxistas (e, claro, graças ao abismo das Tordesilhas, que separa o Brasil da América Hispânica; a esquerda brasileira nunca deu muita bola para o indo-socialismo do peruano José Carlos Mariátegui). No entanto, mais do que ser um problema de cegueira por parte de segmentos da esquerda, a invisibilidade do índio talvez se remeta à maneira como pensamos o “povo” brasileiro, dentro do paradigma nacional-popular.

De acordo com esse paradigma, que estruturou a imaginação brasileira durante o século 20, o povo é o sertanejo de Os sertões, “rocha da nacionalidade”; o negro de Casa-grande & senzala e da vasta bibliografia sociológica e historiográfica que veio a seguir; os retirantes desesperados Manuel e Rosa de Deus e o diabo na terra do sol; o ingênuo Fabiano de Vidas Secas; a comovente Macabéa de A hora da estrela, além de tantos outros personagens e temas das nossas produções culturais. A consciência social do letrado urbano brasileiro foi construída a partir da ideia de que o povo brasileiro – na sua imensa maioria pobre, desassistido, negromestiço – necessita ser integrado à modernidade, à cidadania plena, a um sistema educacional justo e ao conforto material.

A eleição do presidente Lula em 2002 talvez tenha sido o evento mais importante de nossa democracia exatamente porque mexeu profundamente com nossa imaginação nacional-popular: pela primeira vez, o povo assumia o poder. Fabiano, Macabéa, Manuel e Rosa estavam todos representados na figura carismática de Lula. E não se pode negar que o governo Lula muito melhorou a vida do “povo brasileiro”, garantindo acesso a bens e direitos antes impensáveis. O progresso finalmente havia chegado ao andar de baixo, que agora podia comprar televisão, andar de avião e até passear de cruzeiro. Nunca antes na história desse país, o povo esteve mais integrado aos padrões de consumo do mundo civilizado.

O mesmo governo que tanto fez para tanta gente (e atuou como uma força descolonizadora no tocante às ações afirmativas e na introdução de história africana no ensino médio), é aquele que age como um poder colonizador na Amazônia, e aliado objetivo dos fazendeiros do agronegócio no Mato Grosso do Sul. Desse modo, o Estado e seus sócios ocupam a terra com prerrogativa desenvolvimentista, como se fosse um território vazio, pronto para o usufruto dos agentes econômicos. Nada muito diferente dos bandeirantes. O que antes vinha coberto com retórica de missão civilizatória cristã, agora é celebrado como a chegada do progresso. Nos dois tipos de bandeirantismo, a destruição vem justificada por um discurso de salvação. O índio que habita nessas terras é tratado simplesmente como obstáculo que deve ser removido em nome do progresso da nação (progresso no caso representa: carne de gado no Mato Grosso e energia elétrica para indústrias do alumínio na Amazônia).

O índio apresenta um desafio para o pensamento da esquerda no Brasil. Um desafio que ainda não foi pensado como desafio, pois a esquerda ainda enxerga a “questão indígena” como um problema que deve ser resolvido. O desafio, ao contrário do problema, não exige uma resolução, mas uma autorreflexão. Os índios nos fazem repensar nosso modo de vida, e até mesmo o conceito de nação. Como salientei, o índio não se insere na matriz nacional-popular que mobiliza tanto a nossa imaginação. E não se insere nela pois, ao contrário do retirante, do favelado, do pobre, do negro, o índio não está buscando integração à modernidade (a grande promessa do lulismo às massas). Os índios parecem querer reconhecimento do seu modo de vida (como se pode ver nessa entrevista de Davi Kopenawa). E, para viver do jeito que sabem viver, é necessário garantir as condições mínimas de possibilidade para sua vida: terra e rios que não sejam dizimados pela usina de Belo Monte, nem pelo garimpo; segurança e tranquilidade para não serem acossados pelos capangas do agronegócio, como no Mato Grosso do Sul. Essas são as grandes lutas hoje.

A luta pelos direitos indígenas vai muito além de uma quitação da nossa dívida histórica. Mais do que um acerto de contas com nosso passado, a garantia dos direitos constitucionais dos índios é imprescindível para o nosso futuro. Precisamos cada dia mais da sabedoria desses cosmopolitas radicais, se quisermos repensar e refundar os pressupostos de nossa existência planetária.





Alfredo Cesar

Professor de literatura luso-brasileira na Universidade de Chicago.








MAIS RECENTES


  • elizabeth capuzzo peixoto

    Forc,a sempre para continuar sua meta, se precisares estarei aqui!

  • Helisso

    Excelente texto, parabéns!

  • andre lage

    Caro, Alfredo

    Muito bom o seu artigo!

    abraços

    a

  • Belíssimo texto, obrigado. Ao(s) ponto(s).

  • helio

    Parabéns pelo texto e pela reflexão. Posso dizer que as ideias aqui apresentadas estão muito além do que nós, meros mortais, poderíamos pensar. Obrigado.

  • claudia costa

    Obrigada pelo excelente texto!

  • Meu querido César:
    Este é talvez seu melhor artigo, tensionado por um radicalismo que em certo grau me surpreende, apesar da nossa longa amizade e convívio. Faço o elogio e todavia introduzo pelo menos uma discordância. Antes dela, endosso a crítica que você faz à civilização técnica citando inclusive, e pertinentemente, Lévi-Strausss. Os valores dominantes que dão linha ao capitalismo, sobretudo em países do tipo do Brasil, cujo passado predador você bem acentua, são de fato do calibre que você ressalta. Não entro nos miúdos explícitos da questão para não parecer apocalíptico. Seu artigo é nesse sentido excelente.
    Mas vamos à minha objeção. Seu radicalismo deságua numa pura utopia que consistiria na manutenção do que resta das culturas indígenas do Brasil (prefiro falar no plural). Não afirmo isso com o fuzil na mão mirando o punhado de índios ainda sobreviventes à margem da mão de ferro do desenvolvimentismo técnico. Ora, César, mesmo Darcy Ribeiro, talvez o mais intransigente defensor das culturas indígenas, admitia realisticamente a inviabilidade histórica dessas culturas que, você bem acentua, expressam a noção de cosmopolitismo que deveria reger nossa marcha civilizacional. Esse é o nosso impasse, o impasse de toda pessoa consciente da fatalidade da civilização técnica que avança devastando os valores radicais que você postula no seu artigo. Digo por isso que seu radicalismo desemboca numa utopia que, como toda utopia, encerra os ideais que você abraça, também eu, mas a razão, ou nossa simples noção de realismo (não confundir com realpolitik) sabe inviável. No mais, não posso levar a sério a má fé de tantos afundados até o pescoço nesse capitalismo de merda que temos e não obstante estão sempre a postos para endossar belas causas na Internet. Não é o seu caso, friso.
    Fernando

  • sabatri

    Prozac não! Sossega leão e antidepressivo. A lucidez persiste ainda que a tristeza e o desespero sejam inevitáveis. Belo texto! Bela reflexão!

  • Luara

    Excelente texto. Fez-me lembrar de um filme que assisti esse último feriado: “O ano da extinção”, que conta a história de vampiros que, em resposta ao baixo suprimento de sangue, procuram e se alimentam dos pouquíssimos humanos restantes enquanto procuram por um substituto ao sangue para prolongar sua existência. É um filme bem violento que mostra as medidas que vampiros e humanos tomam para tentar sobreviver – o que seria uma paródia da situação que vivemos, pois nós TODOS estamos ameaçados: “o custo, em termos de depredação do mundo físico, desse estilo de vida é de tal forma elevado que toda tentativa de generalizá-lo levaria inexoravelmente ao colapso de toda uma civilização, pondo em risco as possibilidades de sobrevivência da espécie humana.” Quanto mais universalizamos nosso consumismo predador, mais rápido destruímos nosso ambiente e planeta. O que teríamos a aprender, afinal, com os índios?”

  • Paulo

    Texto mestiçofóbico e preconceituoso, que reduz o conflito a “brancos fazendeiros versus indígenas”, quando a realidade é que milhares de famílias mestiças e pobres têm sido vítimas das limpezas étnicas nas “demarcações” e dessa ideologia de apartheid bancada pelas ONGs dos “homens brancos” ricos da Europa e dos EUA. O conflito verdadeiro é “ONGs milionárias + governo petista + elitistas de esquerda versus mestiços pobres e discriminados”.

    Preconceituoso também porque passa a ideia de que os indígenas foram um polo passivo que em momento algum decidiu unir-se aos portugueses.

  • Fernando: diferentemente de você, encontrei no texto de Cesar um tom moderado, no qual o radicalismo seria apenas, quando identificado, uma reação à situação sem precedentes de degradação a qual chegamos não apenas se comparamos nosso estilo de vida em relação ao do índio (figura genérica a qual nós nos referimos sempre, no nosso imaginário urbano, dentro dessa generalização conceitual tão extensa). Eu traduziria esses elementos do texto aos quais você se refere como radicalismo, Fernando, de outra forma. O texto, pelo seu teor, não fala exatamente de relações concretas com a natureza( nem dos brancos, nem dos índios), mas do jogo de representações que estão por trás delas (das relações concretas). Tanto é assim, que o texto começa buscando em símbolos invisíveis aos olhos desatentos, as marcas de um passado no qual a colonização permanece – talvez por conta da nossa imensa capacidade de “esquecer” nossa própria violência- quando assimilamos como nossa, as vezes sem perceber, a lógica do colonizador. Nesse sentido, a ideia de um diálogo com a cosmovisão dos índios passaria necessariamente por uma reformulação sobre uma visão que fazemos de nós mesmos por um lado(lembrando do que está esquecido das “escolhas” que fazemos de forma irrefletida), e deles, saindo dessa categoria genérica mesmo, por outro : perceba que um dos focos principais do texto é justamente esse, no qual se revela que sempre reatualizamos uma visão do colonizador em detrimento do diálogo real com nossos contemporaneos índios. Em resumo diria que a única utopia de preservação existente no texto é bem simples: a única forma de não violentar o que sobra da cultura dos índios é se dispondo a um outro tipo de diálogo com ela, partindo do que há de menos ruim da nossa. No texto de Cesar, foi assim que li, a representação positiva e negativa do índio são dois lados de um mesmo recalque impresso como tatuagem em nossas representações literárias (expressões históricas de nossas formas de entender e se realcionar com o mundo), nas nossas reações e relações concretas (que quasse nunca são tão concretas assim) com os índios. Por isso fico achando que o texto não se refere a questão da utopia nesse sentido posto por você, Fernando. Na maneira como li não seria assim porque a questão da “preservação do índio” é tratada como uma possibilidade de diálogo real com a cosmovisão mencionada. Não é algo apenas exterior, e que diz respeito apenas a como nós nos vemos diante dos índios. O apelo é que se possa dialogar com os índios como contemporaneos nossos, não como relíquias do passado ou elementos a serem preservados, considerando suas formas de vida (que são diversas entre si) e de pensar como seres humanos passíveis de uma real interlocução. Eis o desafio que percebi no texto de Cesar. Que achei um belíssimo exercício de coragem também, porque encontramos essa disposição para o diálogo dentro da própria organização do texto: narrativa imbricada, articulada de forma a tensionar essa nossa visão parcelar e grosseira do índio, que é sempre a um só tempo distante e próxima deles, com outra, talvez menos extemporância e, por isso, menos hipócrita.
    Abraço,

    Jampa.

  • Por que você foi estudar nos EUA, onde há menos resquícios de vida indígena do que no Brasil, e não na Bolívia, por exemplo?

  • Silvia Ferrari

    Excelente análise e reflexão.

  • Há algum tempo, um escritor americano, índio, deu uma entrevista a uma publicação britânica dizendo que a imagem do nativo-americano tinha passado do estereótipo negativo (selvagem inculto) para o estereótipo positivo (sábio em harmonia com a natureza), e que ambas as visões são, no fim, imposições externas do colonizador. Povos caçadores-coletores, quando são capazes, também fazem guerra, cometem genocídios e depredam a natureza. Seria melhor encarar a questão indígena como uma questão de direitos dos indivíduos envolvidos, incluindo o direito a existir fora do marco “ocidental”, e com menos romantismo. Senão, corremos o risco de cair na ideia de que os índios nos “devem” algo — deixamos vocês existirem, agora nos ensinem a ser sustentáveis — quando a existência é só um direito deles, que não nos devem absolutamente nada.

    • Pablo Vilarnovo

      Ufa… Um sopro de coerência.

  • Cesar Melo

    Agradeço a todos os comentários. Sobre as restrições: Paulo, o texto está longe de ser mestiçófobo. Não é a mestiçagem ou o hibridismo cultural que está sendo criticado, mas uma determinada política de hibridismo, uma determinada forma de misturar que, a bem da verdade, nunca está aberta para a imprevisibilidade das misturas.

    Don Fernando, você fala da marcha da civilização técnica como se fosse algo inexorável, e parte do pressuposto de que tais comunidades são historicamente inviáveis. Não parece ser o caso das comunidades indígenas da bacia do Rio Xingu, por exemplo, que são muito pujantes. Mas a questão novamente não é de tentar “preservar” essas comunidades do contato do ocidente, até porque tal coisa não existe. Em “Tristes Tropiques” Levi-Strauss registrava isso: não havia tribo que não tivesse feito contato com a cultura ocidental. É preciso, portanto, diferenciar os fênomenos: Uma coisa é haver contato e diálogo – e isso é que muita gente propõe. Outra coisa é haver imposição e destruição de formas de vida e de pensamento, sobretudo quando podemos aprender tanto com tais formas de vida e pensamento. As duas coisas são completamente diferentes. O que voce propõe? Assistir resignadamente a marcha inexorável do progresso que destrói cosmovisões alternativas? Ou tentar ao menos nos conscientizar de que todos perdemos quando o meio ambiente e culturas são destruídas por essa marcha do progresso?

  • Excelente texto. Um convite para se olhar, mais brasileiramente, para o Brasil, sua gente, seu território, sua construção interrompida, pensar a descolonização. Além de Darcy Ribeiro, Mário Pedrosa falou sobre o que poderíamos aprender com os índios. Uma antiga canção lembra: “Todo dia, era dia de índio…”. Estudar no exterior é o de menos, desde que não se afaste das raízes, desde que não se neocolonize. Péssimo exemplo é o dos que, embasbacados por algum modo de ascensão social às custas do dinheiro público ou por serviços prestados às oligarquias absolutas, se bandeiam e vão curtir futilidades no exterior, sem nada de útil e decente acrescentar ao País.

  • Me impressiono com a potencia de suas palavras e com a preciosa dignidade que defende um assunto tão importante e urgente ao esclarecer “A História que a História não conta,” contornando-a com citações propícias e totalmente cabíveis e comprováveis. O Direito do Indio não é uma questão só de ser ou não ser Indio, é uma questão de ser humano para poder continuar desfrutando de nossa própria existencia … por pura sobrevivência e preservação da nossa Espécie! Como brasileiros não temos como ignorar nossa maravilhosa herança cultural como filhos mestiços de brancos com negros e indios e de lutar com eles nesta guerra pela Inclusão.

  • Perfeito, parabéns!

  • Edilaise/ Nita Tuxá

    Caro Alfredo,

    Quero parabeniza-lo pela brilhante escrita e pela reflexão critica que provocou diferente opiniões, levando as pessoas a refletirem…

    Eu me chamo Ediliaise, ou melhor Nita Tuxá. Sou indígena da etnia Tuxá de Rodelas/Ba e gostaria muito de contribuir com essa discussão apresentando o meu Olhar: Nós indígenas e vocês.

    Vou começar partindo do pensamento do grande Paulo Freire que nos diz: “Não há saber mais ou saber menos: há saberes diferentes”. É assim que gostaria que fosse compreendida a cultura indígena e a não-indígena em seu processo relacional.

    Eu costumo dizer que nós indígenas estamos navegando por rios e territórios desconhecidos na luta pela sustentabilidade das nossas comunidades e da nossa cultura. Diariamente travamos batalhas com o “mundo do não-índio” e precisamente com o nosso universo.

    Eu cresci em uma comunidade projetada pela Companhia hidroelétrica do São Francisco (CHESF), pois em nome do “progresso” a aldeia dos meus, foi inundada para levar energia ao Nordeste. Nesse novo ambiente, alimentei a minha identidade étnica com as histórias dos meus pais, avós e lideres comunitário, por vezes, imaginava como devia ser prazeroso viver em um ambiente aonde havia sinergia e respeito. Por outro lado, não posso ser incongruente alegando que o nosso novo “habitat” não nos trouxe benefícios, afinal, temos uma estrutura com saneamento, casas de concreto, água encanada, posto de saúde, entre outros ganhos. Todavia, compreendo que assim como a história de tantos outros parentes (indígenas) o meu povo sofreu imposições. Nós sabemos amigos, que tudo começou no período colonial com a catequese “civilizatória”, em um jogo religioso e político que fizeram dos meus ancestrais sujeitos humilhados por terem crenças, costumes e traços físicos tão peculiares. Desde então, meus caros, não fomos os mesmos, pois o etnocentrismo que nos apresentaram nos causou crise de identidade. Sim, nós indígenas temos crises de identidade e posso falar por mim como jovem, sabe o que é ter que viver, ou melhor, sobreviver como se o seu existir fosse uma ameaça, um afronto, uma aberração. Notem que me apresentei com dois nomes, um nome “civil” e um nome indígena, porque já não se registra nomes indígenas como outrora e também porque não é viável me apresentar profissionalmente como Nita Tuxá, pois as pessoas me fariam coagir com expressões faciais de estranheza, e poucos gostam do “estranho” (isso já me ocorreu várias vezes).

    Sou formada em Psicologia, para estudar tive que sair da minha comunidade e me inserir em um lugar mais desenvolvido e experimentar o universo acadêmico. Durante esse período observei que não importa como nós indígenas venhamos a nos comportar, pois seremos sempre discriminados, se somos “atrasados” deveríamos voltar pra mata e não tomar lugar de quem realmente merece estudar ( criticam as cotas), se somos “instruídos” deixamos de ser indígenas, afinal somos inteligentes e vestimos roupas. Pensem, no quanto é difícil existir enquanto indígena; é como se tivéssemos que corresponder às expectativas do Outro, justo daquele Outro que se quer nos ver, apenas nos leu nos livros e criou o seu Imaginário.

    O Sartre tem um pensamento que carrego comigo: “Não importa o que fizeram de mim, o que importa é o que eu faço com o que fizeram de mim”.

    Eu tenho orgulho ao dizer que nós indígenas saímos dos livros, estamos nas cidades, nas universidades, na mídia pra dizer que existimos e que ao contrario do que muitos pensam, nós somos brasileiros e indivíduos de desejos e direitos. Talvez, em uma analogia, poderíamos enxergar nós indígenas como uma adolescente que se rebela por ter dores existências, pois foi cruelmente violentado fisicamente e psicologicamente na sua infância. Hoje, anseia se tornar um adulto com autonomia, sem tutela, quer gerir e fazer as suas próprias escolhas. E isso parece ser um grande problema, sabem por quê? Porque estamos nos “mostrando”, hoje vocês nos Vêem, talvez não como gostariam, mas já não podem negar o fato de que existimos, persistimos e resistimos. O etnocentrismo do não-índio provocou o que temos de mais valioso: a nossa força e amor ao que somos! Lutaremos dia-a-dia para que sejamos tratados com respeito e tenhamos direito a Viver…

    Por fim, “que a terra seja o índio e o que índio tenha terra”!

    Luz e paz de Tupã!!!

  • Pingback: Nós e os índios (Amálgama) | Uma (in)certa antropologia()

  • Ram

    Cheguei aqui via algum link em comentario do Facebook. Belo texto Cesar! O unico perigo deste texto e que pode tambem servir para questoes partidarias. Foi o progresso economico brasileiro, impulsionado pela abertura do credito, e pela privatizacao de boa parte da infraestrutura, que permitiu esta participacao maior na democracia. O Lula foi importante, como simbolo, mas tambem corroborou o comportamento de seus antecessores: se aliou aos mesmos poderosos, fez uma politica limitada, e permitiu que o sonho maior de uma Republica livre e igualitaria fosse deixada de lado em nome de partido, poder e posicao historica. Infelizmente, nao consigo ver alguem ainda no nosso pais que esteja disposto a encarar a todo este partidarismo, e o peso do nosso passado. Vivemos em eternas questoes de 1930 a 1980, enquanto precisamos de imaginacao para repensar o pais, e garantir que seja uma Republica pujante e justa. Em relacao aos indios, e sintomatico que sejam usados como moeda de troca, e sempre acabam perdendo nas questoes do congresso. A propria base aliada ja votou diversas vezes para abrir reservas para exploracao, diminuir os direitos dos indios, etc. Aonde esta o partido progressista no Brasil para impedir isso? Ao mesmo tempo, o partido progressista nao pode estar ancorado em viuvas do comunismo. Progresso nao e esquerda ou direita, e simplesmente garantir o minimo de educacao e saude para todos, e uma plataforma para permitir que todos possam progredir. Na questao do Indio, devemos incluir tambem a visao limitada que repensa o indio como tribo, como algo para se ver de longe e apreciar, enquanto sao isolados economicamente do progresso para seus filhos e netos. Sem uma boa escola, sem participacao economica ativa, se tornam so museus da nossa consciencia. Eu imagino que seria muito bacana comecar a encontrar indios que sao medicos, trabalham no hospital, mas ao mesmo tempo, nos fins de semana preservam as tradicoes e organizam maneiras de perpetuar sua lingua e historia. Como e hoje, estao ficando para tras, e damos uma esmola como compensacao para nossa propria consciencia…

  • Excelente texto, me senti contemplada por sua reflexao. Parabéns.

  • Muito bom texto, Cesar. E também os comentários polemizadores, quase todos. Creio que não se trata de uma utopia irrealizável e por si mesma suscetível de manipulações ‘partidárias’, nem afirmação de uma ‘dívida’ de ensinamento de sustentabilidade. E é mais do que respeito ao direito individual de quem quer continuar índio, pois índios sobrevivem como índios enquanto povos e comunidades. Trata-se de garantir – em bases republicanas – que os índios contemporâneos possam sobreviver como índios e como queiram – o que implica em manutenção de suas bases naturais e culturais de vida e em respeito aos seus direitos (DhESCAs – humanos, econômicos, sociais, culturais e ambientais) – e interrelacionarem-se livremente com as outras civilizações e culturas presentes no país, de modo a que isso também seja dar e receber contribuições para, mais que a sobrevivência de todos/as e cada um/a, a feliz humanidade, antes que seja tarde, impossível o humano… Penso ser isto o que Cesar disse.

  • O desafio esta ai!!! Há tempos!! O modelo de progresso “da morte” continua avançando!!
    A pintura que este belo trabalho faz sobre Brasil, retrata também a nossa América toda e o Planeta. O desafio é pata todos!! Ou todos vencemos ou ninguém!

  • Pingback: Nós e os índios | Campanha Guarani()

  • roberto de lima cruz

    Texto que me deixou como um nada. Eu não sabia ou, não sei de nada.

  • Há muito tempo não leio artigo tão verdadeiro, realista, contemporâneo, muito me atualizei, parabéns !!!!!

  • Rogério Peixoto

    Excelente texto, pois proporciona reflexão e diálogo.

    Gostei muito da intervenção da Nita Tuxá.

    Cresci aprendendo na escola que índio é aquele personagem de livro e filme. Cansei de escutar aquele tipo de comentário de boteco ao ver algum protesto indígena na televisão: _Ué, que índio fajuto, tá até falando no celular, tá de roupa!

    Nós brasileiros precisamos repensar continuamente nossa identidade e nossa história.

  • Legal no papel. Mas vc ja morou na Amazonia? Ja passou 9 meses na fornteira do Paraguai com Brasil? Conhece Olivença na Bahia, ou escreveu isso tudo do escritorio, com ar condicionado, tomando chá depois de ler uns livrinhos? Por que esta bem fora da realidade meu camarada.

    Indio aqui é tratado igual pobre, negro, branco da periferia, com porrada, descaso e negligencia de tudo quanto é governo. E tem indio racista, traficante, estuprador, líder indígena corrupto, prefeito, dono de bordel, aliciador e muita gente boa também que é a maioria. O que precisamos é de escola, posto de saúde, estradas e trabalho, pq sem isso cumpadi os índios vão continuar na miséria com ou sem terra, pq o mercado, o sistema não respeita fronteiras. Meu camarada eu ando o Brasil inteiro – não como turista – de moto, a pé, de barco e sei do que estou falando e li alguns livros também e sou neto de Alagoano, de indio e de negro. Cai na real vai… volta, pensa e escreve de novo até acertar… a gente espera aqui, de perto e de dentro porque você está de longe e de fora, e só por isso vou te dar um desconto.

    Vida longa!