Breve resumo da crise política que levou à queda de Dilma Rousseff e do PT

De 2010 ao impeachment em 2016, a trajetória de uma queda.

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Dilma Rousseff foi eleita em 2010 com a desculpa de que seria ela a pessoa mais indicada a manter lá em cima o crescimento econômico atingido pelo último ano do governo Lula. Por isso vendiam a ideia de que ela seria uma “gerentona”. Por isso chamavam a ministra da Casa Civil de “mãe” do Programa de Aceleração do Crescimento.

Mas o primeiro erro estratégico do PT estava sendo cometido por um ainda opositor, Gilberto Kassab, então prefeito de São Paulo pelo Democratas. Sem a obrigação de concorrer a nada, aproveitaria as eleições presidenciais para sondar parlamentares sobre a fundação de um novo partido. E em 2011 surgiria com o PSD, uma tentativa bem sucedida de subtrair de um dos principais partidos de oposição qualquer parlamentar com viés minimamente adesista. Desde então, apenas um domesticado PSDB teria alguma voz significante do lado da minoria.

Em 2012, o crescimento proporcionado pelo PAC já comprovava não ter passado de um voo de galinha. E a inflação começava a responder ao populismo econômico do PT. Nada disso, contudo, impediria o partido de conquistar a prefeitura de São Paulo. É quando Dilma e Guido Mantega acreditam poder fazer da capital financeira do continente um mero instrumento do Palácio do Planalto.

Se tivesse ajustado o preço das passagens de ônibus em janeiro de 2013, como fez qualquer prefeito mais calejado, Fernando Haddad pegaria o movimento estudantil de férias e enfrentaria protestos mais amenos sob o sol do verão. Contudo, foi convencido por Dilma a adiá-lo para maio. Reajuste feito, o Passe Livre, grupo que, a exemplo do PSOL, acredita fazer uma “oposição à esquerda” do PT, começou a destruir a cidade.

O PT nunca teve medo de gente na rua e tentaria colocar em prática um roteiro manjado no qual tomaria as rédeas da manifestação. Para isso, o governo tucano de São Paulo precisava morder a isca. Mas a PM vinha se comportando como reza a cartilha progressista, apenas acompanhando inerte a destruição nas caminhadas do Passe Livre.

É quando a imprensa paulistana cobra em editoriais uma reação enérgica das forças policiais e ela vem, para deleite dos jornalistas governistas ávidos por uma narrativa que confronte opressor e oprimido. De repente, milhares de esquerdistas vão às ruas de todo o Brasil reagindo ao que ocorrera em São Paulo. E, como um passe de mágica, o motivo não mais era os tais “20 centavos”. Em outras palavras, o alvo não mais era o prefeito petista, mas qualquer outro.

O problema é que, ao girar a metralhadora contra “tudo isso que está aí”, a esquerda atingiu principalmente o comando do “tudo isso que está aí”. E a aprovação de Dilma desabaria de 65% para 30% naquele junho de 2013.

Desesperada, Brasília entraria em modo “pauta positiva”. E caminharia com a Lei da Delação Premiada que a própria Dilma sancionaria dois meses depois. Ou um mês após a presidente começar a gastar o que não tinha para reverter a queda de popularidade.

Esses gastos em excesso já eram chamados de “pedaladas fiscais” naquela época. Quanto à Lei da Delação Premiada, era tudo o que um juiz de Curitiba implorava desde 2004 para que pudesse combater com mais eficiência a corrupção. Uma década depois, em março, Sérgio Moro tornaria pública a Lava Jato, uma operação que vinha caminhando a curtos e silenciosos passos desde 2008.

Foi também em março de 2014 que o PT convocou Gilberto Kassab para repetir a missão bem sucedida de 2010. Contudo, o alvo não mais seria o Democratas, ou mesmo um partido de oposição, mas o PMDB, a maior fatia da base aliada.

Um peemedebista vinha percebendo a manobra e, mesmo pedindo voto para Dilma Rousseff em 2010, formaria dentro do próprio partido uma ala oposicionista. O nome dele? Eduardo Cunha.

Todo o resto é consequência deste cenário.

Gritos tímidos de impeachment são ouvidos quando a Lava Jato entra pela primeira vez na Petrobras em abril de 2014. Durante as eleições presidenciais, a operação conquistaria as primeiras delações premiadas de peso. E, a dias do final do segundo turno, a Veja estamparia na capa que Dilma e Lula tinham pleno conhecimento do que acontecia no Petrolão.

Na semana seguinte, o que era tímido em abril vira 5 mil pessoas no vão do MASP pedindo a queda de Dilma Rousseff, para desespero da mesma imprensa que exigira em 2013 uma reação da PM e agora tentava destacar a minoria que falava em intervenção militar.

O PMDB frustraria a missão Kassab e faria de Eduardo Cunha o presidente da Câmara em fevereiro de 2015 — um mês e meio antes de os protestos de 15 de março obrigarem o jornalismo nacional a, após décadas, estampar em suas manchetes o termo “impeachment”.

Sabendo que seria Cunha o primeiro a, por lei, filtrar qualquer iniciativa ligada ao processo, a propaganda do PT transformaria o presidente da Câmara em inimigo número um da nação. Em julho, o peemedebista convoca a imprensa para deixar claro que não mais fazia parte da base deste governo.

Nos seis meses seguintes, os dois lados tentariam a salvação acordando uma trégua com o inimigo. Em uma montanha russa de forças, ora interessava ao PT a aliança com Cunha, ora o inverso. Nesse meio tempo, não sem antes muito protelar, o TCU reprovaria as pedaladas fiscais cometidas por Dilma Rousseff, que, sem conseguir domar a própria base, veria em dezembro o presidente da Câmara aceitar o pedido de impeachment assinado por Janaína Paschoal, Miguel Reale Júnior e Hélio Bicudo.

Agora, na semana da cassação do mandato do ex-líder do governo por tentar obstruir a Justiça a mando da presidente da República; na semana seguinte à queda de Cunha; três anos após o aumento das tarifas pela prefeitura de São Paulo; cinco anos após a fundação do PSD de Kassab, o PT está caindo graças aos esforços do mesmo PMDB que queria desidratar ao tentar ressuscitar o PL em 2014.

O petismo encontra seu fim graças ao próprio projeto de poder, que buscava não uma harmonia democrática, mas uma hegemonia autoritária, ditatorial, onde mandaria e seria obedecido por quem tivesse juízo. O PT entrou nessa saga com apoio de 87% da população. Sairá dela contando apenas com a força de figuras toscas como Lindberg Farias, Sibá Machado, Silvio Costa, Waldir Maranhão e tantas outras aberrações que o parlamento brasileiro consegue produzir.

Já vai tarde. Saiu caro. Por décadas os brasileiros quitarão toda essa irresponsabilidade e não deixará de ser justo uma vez que, em dado momento, nove em cada dez destes cidadãos apoiavam um grupo político que flagrantemente comprava apoio parlamentar. O Brasil novamente colherá aquilo que plantou.

Contudo, que o PT nunca mais volte. Que esses mesmos brasileiros entendam de uma vez por todas que o populismo latino-americano é o veneno que mais atrasa esta nação, uma nação com tanta vocação para a prosperidade, mas nenhuma disciplina para buscá-la. Que percebam que este populismo já veio na forma de ditadores civis, de ditadores militares, de salvadores da pátria, de salvadores dos pobres e tentará um novo ciclo disfarçado de algo que nem somos hoje capazes de prever.

Que o brasileiro saiba manejar a mesma arma usada em novembro de 2014, quando dos primeiros protestos pelo impeachment de Dilma Rousseff: a liberdade de expressão.

Uma mentira repetida mil vezes transforma-se em verdade? Uma verdade repetida mil vezes tem potencial muito mais devastador. Do tipo que derruba presidentes.

O PT que o diga.


publicado inicialmente no Ápyus.com

O Brasil tem jeito? Talvez

O desafio é refazer drasticamente a classe política.

Michel Temer, Dilma Rousseff e Lula

No curto prazo, é claro que o Brasil tem jeito. O primeiro passo é afastar a atual presidente; o segundo, cuidar para que Lula não faça outro estrago como o de 2010, quando a inventou.

Michel Temer tem uma extensa experiência parlamentar e faz um tipo ponderado e prudente, traços importantes num momento tenso como esse que o Brasil atravessa. A mudança de governo, deixando para trás as alucinações de Dilma Rousseff, mostrando um ministério à altura dos desafios e uma clara decisão de equacionar as contas públicas deverá produzir um substancial choque de credibilidade, começando a recuperar a confiança dos agentes econômicos dentro e fora do país. Sinalizar o compromisso com políticas sociais enérgicas, mas sensatamente concebidas, sem o viés populista e eleitoreiro da era Lula, e uma política externa realista, reforçarão a tendência positiva.

É possível antecipar algo a respeito do apoio no Congresso? Os fatores acima indicados serão suficientes para assegurá-lo, ou o fisiologismo logo ressurgirá, vendendo dificuldades para colher facilidades? Longe de mim apostar num quadro róseo, mas penso que pelo menos durante um ano o governo poderá contar com uma base do tamanho da que apoiou o impeachment (367 votos).

Na contramão da hostilidade generalizada em relação à classe política, tendo a pensar que os congressistas sentem o peso do compromisso assumido ao votar pelo impeachment e da responsabilidade que o momento exige. Tanto quanto qualquer cidadão, eles sabem que o Brasil precisa sair urgentemente do atoleiro em que o governo Dilma o meteu. Como toda sociedade, eles sabem que Temer assumirá não só o governo, mas um país em escombros. Uma massa falida.

Mas, claro, o fardo é pesado. Por muito tempo ainda, o Brasil enfrentará problemas ardidos, difíceis e interligados, e aqui não me refiro apenas às mazelas sociais que estamos cansados de conhecer, à insegurança generalizada, às deficiências educacionais, ao atraso tecnológico etc. Há muitas outras dificuldades, algumas ainda muito mal compreendidas pelos meios políticos e pensantes do país. Tentarei delinear uma delas.

D’abord, la politique” – primeiro, a política, como sentenciou De Gaulle. Venho há muito tempo defendendo que a estrutura política brasileira não corresponde às necessidades do país. Procuro imunizar-me contra toda forma de idealismo; não imagino que a vida política de algum outro país seja um mar de rosas. Digo apenas que a estrutura existente muito mais dificulta que ajuda o Brasil a saltar da mediocridade do “semi-desenvolvimento” econômico e social para o desenvolvimento de verdade.

Uma (não a única) consequência desta reflexão é a necessidade de uma reforma política séria, mas tenho três singelas razões para não me estender sobre esse tema. Primeiro, a reforma política não deve ser tratada como uma panaceia. Segundo, na entressafra política que o Brasil tem vivido há pelo menos duas décadas, são poucas as lideranças com força política, clareza de ideias e convicção para empreendê-la. Terceiro, com pouco mais de dois anos de mandato e uma montanha de problemas acumulados, é pouco provável que o governo Temer possa encarar tal desafio.

O problema principal parece-me transcender a atual composição das casas legislativas. Entre os atuais integrantes do Congresso Nacional, poucos têm condições de protagonizar de uma forma consistente os novos posicionamentos que se manifestam na sociedade. Dito de outra forma, o Brasil de hoje não tem uma elite política – um centro liberal – comparável ao que liderou o processo de redemocratização: gente como Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Montoro, Covas e mesmo Roberto Campos e Delfim Netto, que à época ocupavam cadeiras na Câmara Federal.

O desafio, portanto, é refazer drasticamente a classe política, renovar uma parcela considerável da atual, estimulando o surgimento de parlamentares mais qualificados, mais abertos a outros entendimentos do país e a novos valores. Para alterá-la nessa escala, é evidente que estamos sem material humano.

O desaparecimento da elite civil do período militar e o consequente esvaziamento do centro parece-me ter ocorrido por três razões principais:

(1) vários de seus integrantes faleceram num curto espaço de tempo; daí eu ter me referido a uma “entressafra”;
(2) o prolongado estertor do regime militar – especificamente os seis anos do general Figueiredo – teve como consequência uma debilitação simétrica: de um lado, as Forças Armadas, sem fôlego e sem condições de renovar sua legitimidade, do outro, os líderes civis, desgastados por duas décadas de oposição apenas discursiva, sem acesso a posições de poder real;
(3) consumada a transição em 1985, no clima de ingenuidade e utopia que se instaurou e depositando esperanças excessivas na reintegração do sistema político por meio da Constituinte, uma grande parte da sociedade subitamente se encantou com Lula e o PT, passando a ver o aparecimento deles como a chegada do milênio, demiurgos da grande redenção nacional após cinco amaldiçoados séculos de história.

Naquele transe, o Brasil não tomou a nuvem por Juno. Fez pior. Julgou que o céu lhe enviara uma infinidade de bênçãos, quando na realidade o que de lá descia era uma nuvem de gafanhotos. No embalo da utopia, acolheu o PT como uma força política moderna, responsável e consistente, capaz não só de ocupar o centro, mas de efetivamente revitalizá-lo. Saldar os custos de tal equívoco não é algo que possamos fazer da noite para o dia.

Produzir uma geração de políticos que seja nova não só no sentido temporal, mas porque encarne de fato um novo modelo, não é uma questão trivial. Requer um reexame das concepções vigentes acerca da própria atividade política: de sua natureza, dos diferentes papeis de que ela se compõe e dos componentes éticos que deve conter.

Lula e seu “recurso ao método”

O impeachment é um desfecho da farsa montada por Lula e Dilma em 2010.

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O balcão montado por Lula no Hotel Golden Tulip para comprar votos contra o impeachment é um dos quadros mais obscenos da história política do Brasil. Uma cena que o país não merece.

Ali está, de um lado, dando expediente full-time, um ex-presidente da República; um ex-presidente investigado pela Justiça, é certo, mas ainda admirado por uma parcela expressiva de nossa sociedade, que, já por esta razão, devia se dar ao respeito. Do outro, o segmento mais frágil da Câmara, aquele mesmo baixo clero a que Lula certa vez se referiu como “um bando de 300 picaretas”. Lula age sem a menor preocupação quanto ao efeito aviltante de sua ação sobre a instituição legislativa, à qual, como todo bom proto-ditador, sempre devotou mal disfarçado desprezo.

De que recursos ele se vale nessas indecentes transações? De dinheiro público, evidentemente; dos impostos que você, eu e todos nós pagamos, com o agravante, porém, de ser dinheiro transformado na mais suja das moedas que ameaçam toda República: a distribuição de funções relevantes na estrutura do Estado a indivíduos desprovidos de caráter e credenciais para as exercer.

Mas deixemos de lado o método – de Lula e do PT, ele é o que se haveria de esperar –, e reflitamos sobre a substância. O objetivo de tal operação, qual é, exatamente? Contrapor-se ao impeachment, já o disse acima. Mas contrapor-se com base em quê, em nome de quê? Para defender os milhões de desempregados que vivem dias de penúria, vítimas da desumana obtusidade de Dilma Rousseff, que arrastou a economia brasileira para uma catástrofe sem precedentes? Para aliviar a desesperança que se abateu sobre milhões de jovens recém-chegados ao mercado de trabalho, que já pressentem que tão cedo não encontrarão emprego? Para abrir ao menos uma fresta pela qual o cidadão brasileiro possa vislumbrar um futuro em que as leis serão observadas e as autoridades se lembrarão do que o artigo 37 da Constituição estipula, desincumbindo-se de suas funções com um mínimo de probidade?

Claro que não. Evidente que não.

Afora a tragédia em que o governo Dilma se transformou – pensando só no terreno criminal, e carecendo a presidente da grandeza da renúncia, que pouparia o país de mais riscos e sofrimentos –, há motivos para levarmos a luta ao extremo do impeachment? “Sobram crimes”, como disse a jurista Janaína Pascoal, num primor de síntese.

Fora parlamentarista o nosso regime de governo, 1/10 dos malfeitos de Dilma Rousseff seria suficiente para lhe apontarmos a porta da rua. Mas nosso regime é o presidencialismo, e neste o remédio disponível é a pedreira do impeachment.

O problema, infelizmente, é que esse é o desfecho previsível de uma farsa arquitetada a portas fechadas pelo Sr. Luís Inácio Lula da Silva e pela Sra. Dilma Rousseff. Refiro-me à eleição de 2010, naturalmente. Lula queria duas coisas: um poste que lhe esquentasse a cadeira até 2014, e impedir o surgimento de uma liderança rival dentro do PT. O candidato natural à sua sucessão seria evidentemente José Dirceu. Dilma queria continuar subindo na vida, expressão que, em sua estreiteza de horizontes, tinha um só significado: subir na escala do poder burocrático. Aquiesceu, pois, em participar da farsa, evidenciando o que em outras oportunidades já demonstrara ser: uma farsante.

Essa, meus caros leitores e leitoras, é a história sem retoques do descalabro que se abateu sobre o Brasil. A origem nua e crua desse novo espetáculo de indecência cívica a que Lula recorre para satisfazer sua desmesurada gana de poder.

Nossa esperança é que o tiro de Lula saia pela culatra. Que uma parcela importante dos deputados que tenta aviltar na física e na jurídica – como indivíduos e como detentores de mandatos eletivos –, tomem-se de brios, mobilizem o resto de hombridade que trazem no peito, e se comportem como o que são: representantes de verdade dos eleitores que neles confiaram.

O vício do golpe

Qual desinformado quer estar a favor de um golpe de estado?

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Não me aprofundarei no significado político e cultural da jabuticaba por meio da qual artistas populares se tornaram intelectuais, pensadores do Brasil. O fato é que Chico Buarque esteve novamente – terá alguma vez saído? – no centro do debate público brasileiro. Ele talvez não tenha culpa. Mas não será à toa. Quem mais poderia bordar de saudade a última – única – bandeira dos desesperados, os nostálgicos de uma ditadura contra a qual achar nova existência?

Refiro-me à banalização da palavra golpe, este coringa militante, fetiche da camaradagem nacional, refúgio derradeiro dos que buscam formas – direi românticas, porque sou um homem bom – de disfarçar, de camuflar a defesa de um corrompido Partido dos Trabalhadores.

Pois de outra coisa não se trata – a própria presidente da República dá o tom do delírio calculado: instrumentalizado em estandartes generosos contra o tal golpe, contra o impeachment e a favor da Constituição (que não subscreveram) e do Estado Democrático de Direito (de que muitos tomaram conhecimento ontem), tem-se, a rigor, a defesa do PT, de Dilma Rousseff, de Lula, de um projeto profissional de poder e, portanto, das barbaridades reveladas, por exemplo, na delação de Delcídio do Amaral.

Se existe desespero na origem do uso corrente e vulgar da palavra golpe (há um a cada esquina, de fazer corar as carolas alarmistas de 1964), existe também – sobretudo – método. Ao aplicar esse recurso, tão velho quanto eficiente, exerce-se controle social e exercita-se uma ferramenta de dominação-sedução pela memória, ainda que distorcida, papel para o qual Dilma Rousseff, ex-guerrilheira, é perfeita; um movimento que, agora pela difusão do medo, tenta restaurar e reservar para si um inimigo contra o qual encenar um herói – ocasião em que até o Chico Buarque político faria sentido.

Afinal, qual desinformado quer estar a favor – quer correr o risco de estar a favor – de um golpe de estado?

Mas o Brasil é outro. Felizmente.

Já lá se vão 52 anos. A desgraça de 1964 está morta e enterrada. (Os vivos estão no poder.) As forças armadas, sucateadas, não têm dinheiro sequer para o lanche dos recrutas. (O exército parece ser sindical, conforme indicam os R$ 35 bilhões arrombados da Petrobras.) O país tem instituições democráticas sólidas. (E nada houve até agora, na crise em curso, que escapasse dos trilhos da República.) A imprensa é livre. (E a que não é, no bolso do governo, tampouco é imprensa.) O Chico agora é o César. (Caso em que – oh! – ressinto-me do Buarque.) A juventude que vai às ruas e pede impeachment – dispositivo constitucional, registre-se, celebradíssimo quando contra Fernando Collor – nada deve ao regime militar e despreza a meia dúzia de cavalos que clama por intervenção militar. (Melhor seria que se prestasse atenção, no coração das manifestações populares, na interessante ascensão de um verdadeiro movimento liberal brasileiro.) E, no entanto, claro: golpe! (Botão que se aciona ao primeiro aperto, ao raiar da voz do contraditório: golpe!)

De quem? Para quem?

Onde está Carlos Lacerda? Será Michel Temer vice-presidente à revelia de Dilma Rousseff e de seu partido? Onde está Magalhães Pinto? E Eduardo Cunha, terá ascendido à condição de presidente da Câmara no governo de quem, anabolizado por integrar a base aliada corrompida de que gestão? Juscelino, onde está? É Renan um inimigo do partido? Cadê os malditos ianques? (Go home!)

Não se precisa refletir muito para concluir qual seria o único grupo organizado – organizadíssimo – capaz de dar um golpe hoje neste país. Não é decerto a Rede Globo. Certamente não a Editora Abril. Seguro é que nunca antes na história brasileira tantos bilhões – dinheiros públicos e progressistas, por óbvio – foram desviados para financiar, criativa e patrioticamente, a defesa do Estado Democrático de Direito.

“Estamos diante de um raro caso de involução de um pensamento não evoluído”

Entrevista com Celso Arnaldo Araujo, autor de “Dilmês: O Idioma da Mulher Sapiens”.

O autor
O autor

Quando Dilma Rousseff ainda estava na Casa Civil de Lula, o jornalista Celso Arnaldo Araujo começou a se interessar pelo dilmês – o idioma bastante peculiar em que aquela criatura se expressava.

Araujo se tornaria pioneiro nesse subcampo pouco auspicioso da linguística, analisando infinitos pronunciamentos da líder do Brasil. Seu livro recentemente lançado, Dilmês: O idioma da mulher sapiens (Record), é um incrível passeio pelo universo mental da presidente. Com toda probabilidade, Dilmês é a obra mais importante sobre o legado de Dilma que já foi ou ainda será lançada. Sem dúvida, a mais engraçada – a não ser que André Singer lance algo.

Procurei o autor para saber mais sobre o idioma e sua criadora. Os colegas Andrei Ribas e Ana Ribeiro Olson colaboraram.

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Amálgama: Você é pioneiro do estudo do dilmês. Quando o idioma primeiro lhe chamou a atenção, e quando percebeu que o tema era farto o bastante para caber em um livro?
Celso Arnaldo Araujo: Foi em 2009, quando ouvi pela TV, sem querer sintonizada no canal estatal NBR, fragmentos de uma palestra da então ministra-chefe da Casa Civil sobre o pré-sal. Há mais de 30 anos habituado a conversar com pessoas dos mais variados estratos sintáticos, me chamou a atenção, instantaneamente, a incapacidade dessa senhora em concluir um único raciocínio e a quantidade de vícios de linguagem acumulados numa mesma sentença. Isso não teria a menor importância ou gravidade não fosse a ministra, já àquela altura, a aposta de Lula para sucedê-lo na Presidência. Depois de ouvir Dilma em outras duas ou três circunstâncias, cheguei à conclusão que se tratava de um fenômeno – aparentemente, a pessoa mais desarticulada que eu já tinha ouvido, com a agravante de que tinha tudo para ser presidente da República, e a primeira mulher a ocupar o posto em nossa História. Cioso de minha descoberta – que no livro chamo de epifania, ou uma revelação das altas (no caso baixas) manifestações do espírito -, passei a segui-la, como um stalker verbal. E, para não guardar comigo o resultado dessas incursões ao universo baldio do cérebro de Dilma Rousseff, comecei a enviar notas sobre o “dilmês” – expressão que surgiu naturalmente, fruto da formação semântica lógica de inúmeras palavras que designam idiomas – a meu amigo Augusto Nunes, titular de uma das mais frequentadas colunas políticas do país, no site da Veja. Assim nasceu uma nova cadeira não acadêmica: a dilmologia. Durante pelo menos quatro anos, o ano da campanha e os três primeiros anos de seu primeiro mandato, fui titular exclusivo dessa disciplina, que só contava com um punhado de ouvintes (os leitores contumazes da coluna do Augusto), nenhum deles na grande mídia. Nesse período, nenhum colega meu, de nenhum órgão de imprensa, grande ou pequeno, detectou algo de errado no pensamento primitivo de Dilma Rousseff. Como costumo dizer: já no decorrer de sua primeira campanha a coleção de frases desconexas e deformadas de Dilma que acumulei nos meus arquivos seria suficiente para, inicialmente, inviabilizar a primeira eleição. Eleita, para derrubá-la do poder, por incapacidade atroz e despreparo agônico. Encerrado seu primeiro mandato, para devolvê-la à casa – não a Civil, mas à sua. Palestrante é que não seria, depois de deixar a Presidência… O material que passei a acumular era tão copioso, tão abundante, que a ideia do livro foi natural. Mas só se materializou com a ameaça de impeachment. Então, corri contra o tempo – e em um mês, tinha mais de 200 páginas sobre o Dilmês, com sobras que me permitiriam fazer mais uns três volumes, pelo menos – fora o que Dilma perpetrou este ano.

Quais os vícios de linguagem mais comuns da presidente, e o que isso revela sobre o funcionamento de sua mente?
Bons e maus oradores há em qualquer atividade humana, e esse contraste é mais acentuado na política. Mas, no caso de Dilma, não estamos falando de problemas de oratória – e meu livro não é, em absoluto, sobre isso. O Dilmês – e o chamo assim porque, a exemplo das línguas humanas, tem método e regras próprias – é a expressão de um raciocínio rudimentar sobre virtualmente qualquer área do pensamento humano. Falando dela mesma, Dilma é um horror – como exemplifico fartamente no livro. Ela é incapaz de reproduzir fielmente inclusive ditados e aforismos consagrados, ou expressões populares intocáveis. Esta semana mesmo, no café da manhã com a imprensa, disse que tinha sido virada “dos avessos”. Quem mais falaria isso, em vez de “do avesso”? Quanto aos vícios de linguagem, consulte um tratado de gramática e vá ao capítulo correspondente. Selecione todos os vícios – barbarismos, apedeutismos, redundâncias, anacolutos, gongorismos: estão todos reunidos no Dilmês, às vezes numa única sentença. Um dos mais comuns é a redundância de sujeito: “Essa bola ela é uma bola que…”

Muita gente pode achar que as peculiaridades da fala de Dilma expressam simplesmente ansiedade e falta de treino, não um problema mais profundo de raciocínio. O que você diz?
Se fosse isso, ela já teria melhorado. Falando em público há seis anos, já deveria ter se articulado um pouco. Ao contrário, Dilma piorou muito. Não é à toa que, em 2015 – e foi aí que o Dilmês saiu do meu gueto e enfim passou ao domínio público -, ela cometeu algumas das mais acachapantes dilmices conhecidas, como a meta zero que é dobrada quando alcançada, a saudação à mandioca, a mulher sapiens e a Caixa de Pândora. Reveja um discurso de Dilma na campanha de 2010 e assista a um deste ano. Estamos diante de um raro caso de involução de um pensamento não evoluído.

Políticos brasileiros em geral não falam muito bem (estou colocando o discurso empolado na categoria de discurso pobre). Mas o que diferencia e eleva Dilma Rousseff entre a espécie?
Não falam bem, na média, mas até o Sibá Machado – uma excrescência do universo parlamentar brasileiro – poderia dar uma surra na Dilma num debate, por exemplo. Aliás, José Serra, em 2010, e Aécio, em 2014, estão entre os responsáveis pelo desastre que vivemos hoje. Não conseguiram – ou nem tentaram – expor a fraude chamada Dilma Rousseff. Razoavelmente treinada, minha filha de 11 anos trucidaria a Dilma num debate – para Dilma, um terreno pantanoso, cruel, fatal. Como pôde Dilma ter sobrevivido à rodada de debates sem que sua fragilidade mental tivesse sido exposta?

Você destacaria a obra falada ou escrita de algum outro político brasileiro?
Eu diria que o brasileiro, incluindo políticos portanto, que melhor dominou sua língua foi, de longe, Jânio Quadros. Como repórter da revista Manchete, tive a oportunidade de entrevistá-lo várias vezes – eu, pouco mais que um menino, ele um político já em ocaso de carreira. Meus diálogos com Jânio dariam outro livro – baseado na excelência, não na pobreza do pensamento. Em compensação, Jânio era ciclotímico – e cheguei a ser expulso por ele da porta de sua casa, sem mais nem menos. Bem, Dilma – dizem todos os que convivem com ela – é insuportável. Aliás, esse traço de sua personalidade foi a pedra de toque não apenas de sua sobrevivência no serviço público, malgrado sua incompetência, como de sua eleição para a Presidência. Todos nós já tivemos chefes incompetentes que se impuseram pela grosseria no trato pessoal. É um disfarce que funciona bem. Dilma presidente é, seguramente, o mais lamentável erro de pessoa já cometido nas altas esferas do poder. E o próprio PT tem consciência disso. Dilma não saberia dizer o nome dos 26 estados brasileiros e suas capitais. Não sabe de cabeça quanto é 7 vezes 8. Não sabe nada de nada. E isso é bem sabido.

João Santana teve sucesso no trabalho com Dilma para os debates televisivos em 2014?
Bem, se ela foi reeleita, sim. Mas mais por culpa da oposição do que por mérito do seu coach. Dilma é intreinável, é impermeável a qualquer progresso pessoal.

Você acha que Dilma tem consciência de que maltrata a língua?
Entre os múltiplos defeitos de Dilma está a falta de autocrítica e de autopercepção. Todos nós, quando falamos em público, percebemos a um átimo de segundo da frase dita se cometemos uma gafe, se fomos imprecisos, redundantes ou se agredimos a gramática. Dilma, evidentemente, não. E seus áulicos, que certamente conhecem as profundezas da fragilidade de raciocínio da chefe, fingem não perceber. Tanto que os discursos de Dilma são transcritos ipsis literis no Portal do Planalto, sem qualquer mudança ou constrangimento. Mas em situações específicas, quando se perde completamente e fica sem fala, Dilma tem um artifício: disfarça um mal maior. Chegou a fingir um mal súbito numa entrevista que deu ao SBT após o debate na emissora na campanha de 2014. E, em outra ocasião em que ficou sem fala, simulou um engasgo, passado o qual produziu uma de suas pérolas: “Desculpe, gente, engasguei comigo mesma”, como se fosse possível engasgar com outra pessoa.

É possível fazer uma viagem ao centro do cérebro dilmista e voltar são e salvo? Qual foi seu método? É uma jornada que recomenda a outras pessoas?
Não me contaminei – espero. E, para falar a verdade, virou um vício. Só agora, depois do livro, me livrei da dependência. Mas, mesmo como especialista, confesso uma dificuldade: não consigo decorar algumas pérolas maiores do Dilmês. A sintaxe cerebral dela – como no caso da fábula do cachorro oculto atrás de cada criança, top 1 do Dilmês – impede a reprodução fiel, mesmo com intenso treinamento, pelos cérebros ditos normais. Mas um dia chego lá. A Dilma é que não chega.

O livro
O livro

Por que votar em Dilma Rousseff

O avanço brasileiro resulta das particularidades que diferenciam Lula e Dilma dos seus antagonistas

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O governo Dilma Rousseff é indissociável do programa político-partidário inaugurado na primeira gestão de Luiz Inácio Lula da Silva. Dilma elegeu-se canalizando o imenso respaldo público do antecessor para uma proposta inequívoca de continuidade. Sua nova candidatura parte do mesmo princípio e remete, portanto, ao trabalho iniciado em 2003. Por isso a opção pela presidenta, além de possuir fortes apelos biográficos, técnicos e éticos, também agrega o êxito do projeto nacional que ela personifica.

E não se trata de um sucesso qualquer. Todas as estatísticas relevantes de escopo federal melhoraram no ciclo petista. Mesmo quando não chega aos índices históricos da miséria e do desemprego, o viés evolutivo contempla setores díspares como ciência e tecnologia, produção cultural, infraestrutura, exportações, transportes, meio ambiente, educação, moradia, esporte, saúde, turismo etc.

Seria ocioso realizar aqui levantamentos específicos de tamanha abrangência, mas eles estão disponíveis para averiguações. De qualquer maneira, um panorama abrangente pode ser obtido através dos Índices de Desenvolvimento Humano. Ali notamos que a melhoria da qualidade de vida do brasileiro teve uma guinada radical e inédita a partir de Lula, sem interrupção até o momento.

A imprensa oposicionista esforça-se para diluir as conquistas do período 2003-2014 em longas curvas históricas, que agreguem os anos FHC (1995-2002) e até os anteriores, como se fossem gestações das melhorias futuras. A eterna mitificação da “estabilidade monetária” que teria catapultado o lulismo alimenta a falácia de que o país vive há três décadas um processo homogêneo e inevitável de aprimoramento. Tudo isso para não admitir que o avanço brasileiro resulta exatamente das particularidades que diferenciam Lula e Dilma dos seus antagonistas.

Ocultar as distinções qualitativas das principais forças do cenário eleitoral é uma forma de validar o discurso oportunista que prega a mudança de governo sem esmiuçar as conseqüências dessa opção. Quando os maiores inimigos do protagonismo estatal admitem preservar os bem-sucedidos programas federais vigentes (Bolsa Família, PAC, Minha Casa, Minha Vida, Mais Médicos, Pronatec, Brasil Sem Miséria, entre tantos outros), eles querem minar o cerne identitário da trajetória petista, apropriando-se exatamente das marcas administrativas que justificam a sua manutenção.

O cerceamento das comparações também ajuda a amenizar o retrospecto negativo dos adversários da presidenta. Esquecendo as privatizações escandalosas, a compra de votos parlamentares, as máfias bilionárias, o apagão elétrico, o sucateamento infraestrutural e outras máculas da fase demo-tucana, o cidadão deixa de notar que jamais tiveram equivalentes, em porte e gravidade, nos governos Lula-Dilma.

É graças à amnésia coletiva acerca dos verdadeiros desastres administrativos do passado que se disseminam os factoides irrisórios destinados a provar uma suposta incapacidade gerencial de Dilma. A memória da torturante instabilidade vivida pelo país nos anos 1990 revelaria o viés manipulador dos diagnósticos sombrios atuais, baseados nos mesmos critérios que outrora serviam para incensar aquelas gestões econômicas e para relativizar nossos problemas diante das crises internacionais.

Ninguém precisa ser petista de carteirinha para rechaçar os projetos políticos que têm alguma chance de vencer Dilma. Primeiro porque escamoteiam uma essência neoliberal, privatista e elitizada incompatível com o modelo de inclusão social inaugurado por Lula. Segundo, e talvez mais importante, porque agregam forças conservadoras que impediriam os avanços legislativos necessários e levariam a graves retrocessos para os direitos individuais, a democratização dos bens culturais e educativos, a regulamentação da mídia, os movimentos populares etc.

A ameaça está bem representada nos porta-vozes do antipetismo: os reacionários doentios da internet, os hipócritas da mídia corporativa, os terroristas do mercado financeiro, a grã-finagem demófoba, os moralistas fariseus que aplaudiram as execuções sumárias de Joaquim Barbosa enquanto ele presenteava os mensaleiros tucanos com a impunidade certa. É inconcebível que tais espectros ideológicos usufruam os enormes benefícios políticos do pré-sal, dos Jogos Olímpicos, da infraestrutura dos transportes, das novas reservas elétricas e de todas as melhorias sociais construídas por Lula e Dilma.

Entre as plataformas viáveis da corrida eleitoral, a defendida por Dilma é a única de caráter verdadeiramente progressista. A campanha de Marina Silva afasta-se dessa linha já nos perfis de seus assessores mais próximos, egressos do grande capital e do tucanato arrependido. Ela própria expressa valores típicos do conservadorismo, que preenchem a vaziez programática da Rede com um incômodo ranço personalista.

Ademais, a falta de base partidária forçaria um eventual governo Marina a aliar-se com a direita parlamentar (PSDB, DEM, PPS, Solidariedade, PSD), especialmente se o apoio desta for decisivo no segundo turno. Administração neófita, liderada por figura de reconhecida incapacidade aglutinadora, a aventura da “terceira via” tende a virar um mal disfarçado regresso dos interesses que orbitam ao redor de Aécio Neves, José Serra, Agripino Maia, Roberto Freire e assemelhados.

Resumindo, o voto em Dilma Rousseff tem duas sólidas justificativas complementares. A de viés positivo baseia-se no fato de que a reeleição permitirá a continuidade do ciclo administrativo mais bem-sucedido da história democrática brasileira. A de viés negativo nasce da rejeição aos seus adversários, que ameaçam os avanços petistas e acenam para o retorno de um programa nefasto, já amplamente desaprovado pela população.

Marina Silva, Dilma Rousseff e a pauta LGBT

Marina assumiu um risco. Sua religião não pode mais ser facilmente usada contra ela

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Escrever programa de governo alegando que vai defender LGBT com termos genéricos é uma coisa que não é incomum mais. A campanha da Dilma fez isso em 2010, e volta a fazer em 2014. Em certos aspectos, o programa de governo de Aécio Neves soa mais comprometido que o seu, embora tão etéreo quanto. Assim como a própria Dilma, a campanha dela não é específica no que exatamente fará por essa parcela da população. Em seu governo, Dilma foi aos órgãos de direitos humanos alegar que fez muito por LGBT, quando qualquer pessoa minimamente envolvida nisso, especialmente ativistas independentes, sabem que isso simplesmente não é verdade. Sua gestão no executivo foi marcada pelo desgaste com a pauta LGBT.

Cedo no primeiro ano do governo Dilma, em maio, houve o muito mal assessorado veto ao kit Escola Sem Homofobia, preparado com dinheiro público pelo Ministério da Educação. Digo veto “mal assessorado” porque poderia ter sido um veto menos incendiário do que foi: bastava que uma assessoria bem preparada em direitos humanos sentasse com Dilma para evitar que ela fosse à imprensa emitir a infame declaração sobre “propaganda de opção sexual”. Mesmo para 2011, a frase é de alguém tão informado sobre o assunto quanto Silas Malafaia.

O kit nunca foi unanimidade entre ativistas. A qualidade técnica dos vídeos, por exemplo, era baixa, e o vídeo sobre bissexualidade tinha uma “matemática” bizarra. Para um país com agências muito competentes de publicidade audiovisual (inclua-se as usadas pelo próprio PT em suas campanhas), a qualidade do kit não valia o preço pago. O veto poderia ter usado a desculpa da baixa qualidade evitando uma condenação explícita da mensagem inclusiva (mesmo mal fraseada) do kit, mas o que se viu foi uma concordância mais ou menos explícita com o conservadorismo.

De mancada em mancada, há duas em particular que considero, pragmatica e simbolicamente, o ápice do descompromisso do governo Dilma com esse assunto:

  • A demissão de Dirceu Greco do Ministério da Saúde, feita por Alexandre Padilha e assinada por Gleisi Hoffmann (então Ministra da Casa Civil). Dirceu Greco era responsável por um departamento dedicado ao combate a DST’s em geral e AIDS em particular. Foi desse departamento que saiu um plano de campanha anti-HIV para o carnaval de 2012, que incuía vídeos para a TV com a qualidade que o kit anti-homofobia não tinha. O plano dizia explicitamente que botaria um desses vídeos, com um casal gay masculino, na TV. Padilha vetou a propaganda e mentiu repetidamente para a imprensa que o vídeo nunca tinha sido planejado para a TV. Saiu então um vídeo genérico, com dois atores falando o que todo mundo sabe sobre o assunto. Coincidência ou não, esse vídeo tapa-buracos sumiu do YouTube do Ministério quando saiu o plano de candidatura de Padilha para o governo de São Paulo. Mais tarde, o departamento de Greco lançou uma campanha para o dia da prostituta, chamando a atenção por defender sua dignidade profissional enquanto conscientizava sobre o HIV. Foi aí que o demitiram. A piora dos números de infectados com HIV durante a gestão da Dilma, especialmente entre homens gays, embora não possa ser atribuída inteiramente a isso, não conta a favor.
  • Depois das manifestações de junho de 2013, Dilma Rousseff começou a receber freneticamente líderes dos mais diferentes segmentos, na esperança de remediar os baixos índices de aprovação que os protestos lhe renderam. Recebeu figuras do movimento LGBT, até algumas independentes como a professora trans Marina Reidel. Dias depois, recebeu líderes evangélicos, o que é natural que fizesse. No entanto, entre esses estava Mara Maravilha. Menos de um mês antes, Mara havia chamado gays de “aberrações” num programa de TV. Mais uma vez, a assessoria poderia ter evitado o problema, evitando chamar figuras evangélicas tão abertamente homofóbicas.

A pauta LGBT não diz respeito a uma porção pequena do eleitorado. Uma pesquisa IBOPE/CNT de janeiro deste ano estimou que 60% dos brasileiros apoiam que líderes religiosos respondam por crime de homofobia se fizerem discurso de ódio e 55% acham que o tema deve estar em educação sexual. Mas, por algum motivo, aparentemente a campanha de Dilma Rousseff prefere continuar tímida na questão. Os poucos avanços que aconteceram em seu mandato parecem se resumir a uma coleta de estatísticas de crimes de homofobia e transfobia de uma forma um pouco melhor do que fazia há vários anos o Grupo Gay da Bahia.

A campanha da Marina Silva, por sua vez, está sendo específica nesta pauta. O programa de governo da acreana defende uma série de pautas específicas como facilitar a adoção por casais do mesmo sexo, empurrar para que o casamento igualitário seja aprovado pelo legislativo em vez de depender sempre da comiseração do judiciário, e a equiparação da homofobia ao racismo na lei penal como previa o agora extinto PLC122/06. A campanha chega a defender a lei João Nery, que atende a reivindicações básicas de pessoas trans, a parte da pauta LGBT que costuma ser a mais ignorada.

Evidentemente, é muito improvável que essas pautas socialmente liberais partam da figura de Marina Silva: é herdada, integralmente, da campanha de Eduardo Campos como pretendida antes da tragédia. Os sinais disso surgiram já em dezembro de 2013. No boletim “A Paloma nº 3”, editado pelo setorial LGBT do PSB, Eduardo Campos disse:

Crimes de ódio (os que envolvem preconceito) são crimes contra grupos sociais, não apenas contra o indivíduo. Uma pessoa ser atacada na rua por estar de mãos dadas com alguém do mesmo sexo é tão assustador quanto alguém ser linchado por ser negro, perseguido por sua etnia ou queimado na fogueira por sua religião. E essas não são situações hipotéticas. Aconteceram no passado e ainda acontecem das mais variadas formas. Os crimes que envolvem preconceito têm uma dinâmica própria, componentes que precisam de dados específicos para que a polícia possa combatê-los. E foi por isso que o Governo de Pernambuco incluiu essas informações como necessárias nos boletins de ocorrência. Há princípios dos quais uma pessoa pública não pode abrir mão, mesmo que em algum momento não seja bem entendida. A luta pelo fim dos preconceitos, para mim, é uma delas.

Esta declaração contrasta bastante não apenas com as escorregadas de Dilma, mas também com o tom mais etéreo de suas falas positivas no assunto. Contrasta também com as percepções imaturas de Marina Silva sobre essa e outras questões de direitos humanos, em que ela parece crer que é democrático deixar os direitos de minorias serem decididos por voto em plebiscitos – opinião que também tem o selo Silas Malafaia de (baixa) qualidade.

Para alguém cujo crescimento eleitoral depende em sua metade do voto evangélico, a explícita defesa de pautas específicas LGBT é um risco para Marina Silva, e além disso uma concessão que ela faz por ser ainda um corpo estranho numa candidatura que provavelmente difere dela nessa e em outras questões (embora estejam de acordo no conservadorismo em questões tão importantes quanto essa, como o direito à escolha do aborto). Mas talvez Marina esteja sendo sincera quanto à sua mudança de opinião de 2010 para cá em questões como o casamento gay – a mudança de opinião neste assunto está longe de ser coisa estranha, afinal a opinião pública nos EUA virou de ponta-cabeça em apenas dez anos. Evidentemente, é difícil falar em opiniões sinceras quando se trata de campanha eleitoral. Ainda fazendo as vezes de bagre ensaboado como todo político experiente, a candidata que neste momento parece ganhar o planalto no segundo turno em outubro só tem a oferecer, na questão LGBT, sua palavra. Mas isso é exatamente a mesma coisa que Dilma oferece, de forma mais superficial, e depois de quatro anos de governo em que essa palavra não se cumpriu.

Tenta-se criar um pânico em torno do mero fato de Marina ser evangélica, o que lembra um papo velho sobre “crente” que percola vários setores da sociedade brasileira há muitas gerações, especialmente entre católicos. O velho preconceito contra evangélicos é inegável. Pode ter sido isso que a motivou, inclusive, a sair em defesa do incultíssimo Marco Feliciano (coisa que também fiz quando ele começou a reclamar que os comentários sobre seu cabelo e sobrancelhas feitas eram homofobia). Mas também há a possibilidade de Marina estar usando de truques insinceros, informada pelas pesquisas de opinião que crescentemente favorecem ao menos marginalmente LGBT no Brasil, em um programa de governo que eventualmente não vai cumprir. Rumores de que realizava cultos evangélicos no Ministério do Meio Ambiente, quando ministra do governo Lula, além de suas derrapadas conservadoras, põem em dúvida essa aparente inclinação pró-laicidade.

Em nota de “esclarecimento” de seu site oficial, no entanto, a campanha de Marina Silva informou que o programa com as pautas específicas que chamou a atenção da imprensa não é exatamente a versão final da seção sobre LGBT no programa de governo. A nota mantém várias das pautas específicas, importantemente a lei João Nery, mas é claramente uma jogada eleitoreira para não deixar desgostoso demais o eleitor conservador. No lugar de casamento civil, fala-se em “união” civil como eufemismo. Mas a campanha, tanto quanto Marina, erra na terminologia (talvez de propósito): união estável, que é o único tipo de “união”, com esse nome, alternativa ao casamento civil, não tem os mesmos direitos do último. Tentar amaciar a proposta mudando “casamento” para “união”, se for tomada ao pé da letra, passa por cima da decisão do STF e do CNJ que diz respeito a casamento entre pessoas do mesmo sexo e não mera “união”.

Minha conclusão não é que quem leva a sério as liberdades individuais nas questões afetivas e sexuais estará mais feliz com Marina do que esteve com Dilma. Em termos de programa de governo, está claro quem está com a vantagem, em termos de especificidade de pauta e promessas. O que ocorre é que neste momento, quando Marina assumiu este risco frente ao eleitorado evangélico, sua religião não pode mais ser facilmente usada contra ela para alegar que deixará o conservadorismo prosperar tanto quanto Dilma deixou. Neste momento, é uma palavra contra a outra, e se Dilma quer ganhar voto com a parcela socialmente progressista do eleitorado, não poderá apelar para governos anteriores como tapa-buracos e terá de ser mais convincente do que foi nos últimos quatro anos.

No fio da navalha: os dois primeiros anos do governo Dilma

Em linhas gerais, o governo vem fazendo diagnósticos corretos da realidade do país e de seus desafios

O ano ainda não acabou, mas acho que já é possível tentar uma análise da primeira metade do mandato de Dilma Rousseff na presidência do Brasil. Em primeiro lugar, gostaria de remeter a alguns textos que podem balizar o que vai ser esta reflexão. Logo no início do governo Dilma eu apontei para dois fatores em análises aqui para o Amálgama. Um deles era a necessidade de Dilma se afastar do governo Lula, mais ou menos no sentido de deixar claro que “quem manda” no governo é ela, e não o ex-presidente e seu principal mentor político. Isso está no artigo “Dilma jogando Lula para escanteio“, que escrevi em 12 de janeiro de 2011, prevendo a “fritura” de Palocci, que viria a se concretizar em 7 de junho.

Outro fator é a nova marca que o governo Dilma iria tentar imprimir: o de ser um governo que consolidaria um país de classe média. Lula foi o presidente que governou para os pobres, Dilma tentaria se posicionar como a presidenta que transformou o Brasil num país majoritariamente médio-classista. Isso eu escrevi no artigo “Um governo mais para a classe média“, de março de 2011, para uma série do Amálgama que avaliava os primeiros meses do novo governo. (Os outros textos da série foram “O governo Dilma visto pela esquerda“, de Rafael Garcia, “Sob Dilma, pragmatismo econômico dá lugar à ideologia“, de Felipe Salto, e “Ana aos leões“, de Guilherme Scalzilli.)

No meu artigo, eu apostava que a virada em direção à classe média, setor econômico meio abandonado no governo Lula, iria se consolidar no governo Dilma. Àquela época, isso era mais uma esperança do que uma constatação. De lá pra cá, o governo se consolidou de maneira bastante convincente. A ponto de o marqueteiro que fez a campanha vitoriosa de Lula em 2006, Dilma em 2010 e Haddad em 2012 apostar numa reeleição da presidenta em primeiro turno em 2014. Esta tudo nesta interessante entrevista dada ao jornal Folha de São Paulo. Hoje dá pra dizer o tal governo para a classe média é mesmo a estratégia e a principal marca da gestão de Dilma Rousseff.

O que demonstra visão estratégia e inteligência política. O principal risco que ameaçava o PT ao final do governo Lula era ver o sucesso do combate à miséria cavar a sepultura eleitoral do próprio PT. A imagem seria mais ou menos a seguinte. O governo Lula se empenhou em amainar a dura vida dos pobres, que eram a grossa maioria da população brasileira desde tempos imemoriais. Políticas de transferência de renda, aumento real do salário mínimo e manutenção da estabilidade de preços garantiam o sucesso em tirar amplos contingentes da miséria extrema e lançá-los à tal “nova Classe C”, que é na verdade uma mudança de país extremamente pobre para país pobre simplesmente.

Ao mesmo tempo, o governo Lula não descuidava de manter satisfeita a elite econômica (industrial, financeira e do agronegócio). Ao contrário do medo atávico que foi sempre cultivado pela imprensa oligárquica, o governo Lula não arriscou nenhuma medida que prejudicasse o lucro da grande indústria, dos bancos ou do setor agroexportador. Quem se sentia abandonado politicamente nos tempos de Lula era a classe média das capitais e dos grandes centros, o que explica em grande parte a sanha oposicionista de grandes setores da imprensa. A revista Veja e assemelhados não têm posição política, têm necessidades comerciais, e adotam a linha editorial que agrada seu público comprador. O risco que corria o PT era o de ver o país virar classe média e o eleitor cair nos braços do PSDB, o partido de representação política médio-classista por excelência.

É provável que Lula já contasse com todos estes fatores ao sustentar a candidatura de Dilma para sua sucessão. A genialidade política do ex-operário incluiu enfraquecer as instâncias do partido, que quase foi dizimado quando veio à tona o caso do valerioduto petista, e jogar aos leões os dois principais candidatos à sua sucessão: Palocci e Dirceu. Houve um tempo em que se dizia que Lula era meio que um boboca, enquanto Palocci era o inteligente que garantia o sucesso econômico do governo, e Dirceu o articulador que garantia apoio político. Ficou provado que Lula podia sobreviver politicamente sem os dois, e um dos fatores que levou o metalúrgico a terminar o mandato em alta (uma coisa meio sem precedentes na política brasileira desde, digamos, Getúlio Vargas) foi o fato de não ter candidatos à sua sombra.

O outro aspecto desta genialidade foi escolher para a sucessão uma candidatura sem vida própria, que dependeria totalmente dele, Lula, para se eleger. Mas que teria todas as condições de desenvolver um ótimo mandato, e virar a nau petista para o tal país de classe média, impedindo que o sucesso político de Lula jogasse o Brasil nas mãos do PSDB.

Hoje está claro que o plano deu certo. O governo Dilma é uma continuidade profunda do governo Lula, mas também apresenta pontos claros de ruptura. Eu não consigo descobrir se a tal ruptura que eu cantava lá no meu texto de janeiro de 2011 é efetiva ou é jogo de cena político. De uma coisa tenho certeza: as tensões internas são fortes entre Dilma e a turma de José Dirceu. Eu quase diria que o tal caderninho que Dirceu tinha com uma lista quase infinita de nomeados para todos os escalões do governo é bastante coincidente com a lista de gente que a imprensa está investigando e a Dilma está demitindo em suas inúmeras “faxinas”.

Essa ideia de um governo que não tolera a corrupção, que é uma mudança de imagem bem forte em relação ao governo Lula, faz parte do tal trânsito para uma política mais do agrado da classe média. A gente podia saber que o governo Dilma ia enveredar por esta linha quando ela foi visitar o pessoal da Folha de São Paulo, marcando uma aproximação do governo com a mídia tradicional com a qual o Lula nunca se deu minimamente bem. Ou quando ela deu declarações que indicavam que a política externa do Brasil ia se afastar do Irã.

Estas grandes linhas de mudança (política externa, relação com a imprensa e tratamento da corrupção entre os aliados políticos) são, digamos assim, uma mudança mais de discurso ou de imagem – sem implicações muito diretas na vida dos brasileiros.

As mudanças mais diretas estão sendo empreendidas na política econômica, na qual o governo Dilma vem provocando uma verdadeira revolução surda. Costuma se dizer que um país como o Brasil é um “transatlântico” econômico, no qual não é possível “dar cavalinho de pau”. (Se não estou enganado, a frase era de Delfim Neto.) Com dois anos em perspectiva, já podemos dizer que o governo Dilma colocou o Brasil no caminho de mudanças econômicas tão profundas quanto a abertura comercial da era Collor, ou a estabilização da moeda da era FHC, ou a retomada do crescimento e a distribuição de renda da era Lula.

Entre as grandes mudanças, podemos elencar:

* a redução dos juros básicos, de níveis em que o patrimônio se multiplicava rapidamente em aplicações financeiras de baixo risco (aplicações de renda fixa), para níveis em que se terá de arranjar jeitos de ganhar dinheiro novamente em atividades produtivas, como em países normais;

* a migração do financiamento da previdência de impostos sobre o salário para impostos sobre o faturamento, coisa que o governo teve a sabedoria de fazer aos poucos, de modo que todo mundo pode se adaptar com calma. A medida beneficia setores mais intensivos em mão de obra, e colabora para reduzir o tal custo Brasil e mitigar a transferência de produção industrial para a China;

* a retomada dos investimentos em infra-estrutura: não apenas o Minha Casa Minha Vida, mas os ambiciosos programas de investimento em hidrelétricas, portos, rodovias, ferrovias e aeroportos. Coisa que está parada no Brasil há quase 40 anos, e que causa boa parte dos transtornos que aperreiam a vida da classe média nas grandes cidades.

* o novo regime automotivo, que está ampliando e aprofundando os investimentos da indústria automobilística no Brasil, com profundos impactos em toda a cadeia produtiva;

* os embates na renovação das concessões de usinas elétricas que visam baixar a tarifa de energia, às custas das margens das empresas do setor e em benefício de todo o conjunto da economia;

A lista poderia aumentar um bocado mais.

Em linhas gerais, o governo Dilma vem fazendo diagnósticos corretos da realidade do país e de seus desafios macroeconômicos. E vem tendo grande capacidade gerencial de implantar mudanças significativas que apontam para um novo rumo. O novo rumo é de aumento geral do bem-estar da população, pequeno mas constante e, principalmente, consistente numa perspectiva de longo prazo.

Inúmeras armadilhas aparecem no caminho, com o desenvolvimento empreendido causando sérias ameaças aos direitos humanos e às minorias, e com a transformação econômica não sendo acompanhada de uma modernização política e de democratização institucional à altura. Também não está afastado o risco de que o país seja tragado por um aprofundamento da crise no hemisfério norte, ou ainda que o fantasma da inflação seja despertado por um erro na definição da taxa de juros (como na brilhante imagem que aparece em segundo neste post).

Mas temos avanços consistentes em relação às estruturas históricas que fizeram do Brasil o país do latifúndio e das oligarquias. Transformar nosso arcabouço cultural, econômico e institucional para uma configuração que seja mais funcional com um país em que a maioria viva em condições decentes de bem-estar é uma tarefa hercúlea: implica desmontar toda a estrutura que foi cuidadosamente montada para que pouquíssimos vivessem muito bem à custa do terrível desfavor da maioria absoluta.

É devagar (não sei se seria possível ser muito mais rápido), mas os dois anos de governo Dilma vão apontando um caminho consistente. Interessante que esse novo caminho seja tentado por alguém que na juventude acreditou que só era possível colocar o Brasil no rumo certo por uma via revolucionária. Décadas de derrotas políticas foram transformados num duro aprendizado.

O estilo Dilma

Seja lidando com aeroportos ou com a previdência, a presidente mostra mais pragmatismo que Lula

Fernando Collor era autocrático, Itamar Franco adorava um confronto com integrantes de seu governo, Fernando Henrique Cardoso era cordial e afável com todos, mas definia os caminhos do governo por detrás dos holofotes. Luiz Inácio Lula da Silva era populista, elogiando todos em igual medida, e definindo o rumo por meio da disputa interna em seu governo (entre Banco Central e Fazenda, entre correntes do PT, entre centrais sindicais, entre partidos da base, etc.).

Dilma Rousseff é pragmática e irredutível.

Tal como Collor, Dilma é centralizadora, uma vez que concentra em si todas as principais decisões de governo. Cobra que os ministros e principais secretários perguntem a ela se podem conceder entrevistas — negadas, via de regra. É por isso que nomes fortes do governo Lula estão mais discretos sob Dilma (caso de José Sérgio Gabrielli, na Petrobras, Luciano Coutinho, no BNDES, e dos ministros Edison Lobão, Paulo Bernardo e outros). Dilma, no entanto, não é autocrática. Exige muito dos ministros e ouve atentamente ao que cada um tem a dizer. Mas perde a paciência com facilidade — no primeiro sinal de enrolação ou de desconhecimento, a presidente logo começa a desviar o olhar e perder a calma. Detalhista e workaholic, Dilma lê muito e cobra muito de si — e, por extensão, de seu grupo de ministros.

A presidente não entra em conflito público com ninguém, como fazia Itamar, e também não permite que os ministros e secretários tenham a falsa ideia de que a convenceram — o que a distancia do estilo FHC. Ela também não permite distúrbios na comunicação, como gostava de ver Lula, que agia como maestro de Brasília. Dilma gosta de sintonia, de governo unido, com discurso único. O pulso de Dilma mantém o mesmo ritmo.

É uma mulher pragmática, e detesta política partidária. Ainda na Casa Civil de Lula, em 2007, Dilma percebeu que os aeroportos brasileiros eram uma zona: a CPI do Caos Aéreo, naquele ano, elencara uma série de problemas estruturais. A demanda aumentara muito e continuaria aumentando, e a péssima gestão da Infraero não seria capaz de reverter o quadro de aeroportos de quarto mundo. Pragmática, Dilma entendeu, naquele momento, que era preciso passar a gestão dos aeroportos à gestão privada: não a privatização, mas a concessão de longo prazo dos aeroportos. Lula barrou os planos. Não queria nada que associasse privatização ao PT ou a seu governo. Quem me relatou isso foi um confidente privilegiado de Lula e Dilma, que já estava no Palácio do Planalto em 2007 e que continua em 2012.

Tão logo tomou posse, em janeiro de 2011, Dilma mandou que os técnicos de seu governo estudassem a concessão dos aeroportos. Numa decisão corajosa (goste ou não da medida, não há dúvida quanto à coragem da presidente em enfrentar o PT, a CUT e outros movimentos da esquerda anti-privatização), a presidente levou a cabo a concessão de três aeroportos, na última segunda-feira.

Três grupos arrebataram os aeroportos de Guarulhos (SP), Viracopos (Campinas-SP) e JK (Brasília), ao preço total de R$ 24,5 bilhões. Eles tem a obrigação de melhorar a gestão e ampliar a capacidade dos aeroportos, e as primeiras metas devem ser cumpridas em até 18 meses. Os grupos terão polpuda ajuda do BNDES, algo que turva o capitalismo brasileiro, e que a presidente ainda não conseguiu solucionar. Mas ela quer, e provavelmente vai, reduzir a participação do BNDES no total de crédito na economia. Já cobrou isso do presidente do banco, Luciano Coutinho, na reunião com oito ministros da área econômica que realizou no sábado 20 de janeiro no Palácio do Planalto. O BNDES recebeu do Tesouro Nacional o equivalente a R$ 100 bilhões em títulos públicos em 2009, R$ 80 bilhões em 2010, e R$ 55 bilhões em 2011. Deve ser menor neste ano, e menor ainda em 2013, por determinação de Dilma.

O BNDES é importante, mas mesmo antes de se tornar presidente, durante a campanha no segundo semestre de 2010, Dilma já sugeria à equipe econômica que encontrasse formas de estimular o mercado de crédito privado a ocupar o espaço do BNDES. Uma vez eleita, passou a exigir. Ainda em dezembro de 2010 o Ministério da Fazenda esquematizou o projeto que viabilizaria as debêntures para projetos de infraestrutura e também o crédito privado de longo prazo. Isso está saindo do papel agora, no primeiro trimestre de 2012, já que a regulamentação só veio no Diário Oficial da União (DOU) um ano depois do projeto, em dezembro do ano passado.

Outra briga que a pragmática ocupante do terceiro andar do Palácio do Planalto comprou é a reforma da previdência do setor público federal. Dilma deu prioridade, em 2011, ao Projeto de Lei (PL) 1.992/07, que altera o regime de previdência pública. O projeto foi todo modelado sob Lula, que, tal qual com os aeroportos, recuou na hora da negociação no Congresso. Lula não quis se indispor com a CUT e o sindicalismo de servidores, categoria que o presidente ampliou muito, e também muito aumentou os salários.

Hoje, o equivalente a 953 mil servidores federais aposentados e pensionistas consomem um déficit de R$ 56 bilhões — já os 28,1 milhões de aposentados pelo setor privado (INSS), consomem déficit de R$ 36,5 bilhões. Esta bisonha diferença começará a mudar quando o PL 1.992 for aprovado no Congresso. O projeto prevê a criação de um fundo de previdência complementar para os servidores. A aposentadoria daqueles que ingressarem no serviço público estará limitada pelo teto do INSS, hoje em R$ 3.691,00 por mês, como ocorre com todos os demais trabalhadores brasileiros. Se quiserem ganhar mais na aposentadoria, os servidores deverão contribuir para o fundo de pensão que será criado — e ainda terão o aporte do Tesouro Nacional, que vai entrar com até 8,5% do que o servidor contribuir com seu salário que superar o teto do INSS. O projeto tem regime de emergência constitucional e trava a pauta de votações na Câmara dos Deputados, onde o governo já costurou acordo pela aprovação. Dali vai ao Senado, onde terá 45 dias para ser votado. Dilma segurou as contratações de servidores públicos em 2011 e neste começo de 2012 justamente para evitar um rombo maior das contas públicas na Previdência — os concursos só serão retomados quando entrar em vigor o novo regime previdenciário.

Dilma é pragmática, e exige um crescimento mínimo de 3% para o Produto Interno Bruto (PIB). Sabe que a economia não deve ter crescido isso em 2011 e sabe que será muito difícil bater em 4,5% ou 5% em 2012, como gostaria. Mas não aceita que 2012 seja mais fraco que 2011, e por isso cobra da equipe econômica medidas de estímulos. Ao mesmo tempo, não aceita negociar sobre o aperto nas despesas, e quer fazer um superávit primário forte em 2012 — como fez em 2011. Promete poupar R$ 139,8 bilhões neste ano para pagar os juros devidos por sua dívida — ela provavelmente vai entregar.

O que a equipe econômica ainda não sabe como fazer é compatibilizar mais estímulos à economia, para fazer o PIB crescer forte em 2012, com a exigência de poupar quase R$ 140 bilhões em gastos. Mas isso é problema dos economistas, pensa Dilma, que diz a pessoas próximas a ela que sim, é possível. Hoje, a Junta Orçamentária (criada pela presidente e formada pelos ministros da Fazenda, do Planejamento e da Casa Civil) discute duas possibilidades para amarrar as contas: um corte de R$ 61 bilhões em despesas do orçamento deste ano, de forma a guardar recursos para o superávit primário; ou um corte próximo a R$ 40 bilhões, inferior aos R$ 50,6 bilhões retidos do orçamento de 2011 em fevereiro do ano passado, que abririam caminho para mais investimentos públicos. A decisão sai na semana que vem, e será toda de Dilma.

Os juros vão cair. Dilma vê os juros brasileiros como uma anomalia, e sente que a sintonia recente do Ministério da Fazenda com o Banco Central é crucial para abrir espaço para novas reduções nos juros. Hoje, a taxa básica de juros é de 10,5% ao ano, mas o BC deve cortar os juros em mais 0,5 ponto percentual nas duas próximas reuniões, de março e abril, deixando o juro em 9,5% ao ano em maio. Deve chegar a 9% ou até menos, no final do ano. A mínima histórica foi 8,75% ao ano, entre o fim de 2009 e abril de 2010, quando a economia brasileira se recuperou fortemente da crise econômica mundial desencadeada pela falência do Lehman Brothers em 15 de setembro de 2008.

Aí está, pensa Dilma, um dos principais caminhos para estimular a economia. Com juros menores, os recursos disponíveis para aplicações mais arriscadas, como ações, são maiores, o que vai estimular o caixa das empresas. Ao mesmo tempo, os bancos estarão mais dispostos a emprestar e as empresas, por verem juros menores, a investir.

Se os juros chegarem em 8,5% ao ano, algo que Dilma deseja, a caderneta de poupança terá de mudar. Ela sabe disso, e já cobrou o Ministério da Fazenda por uma reforma que torne a poupança menos rígida (desde 1940, quando foi criada, a caderneta de poupança, a mais popular modalidade de aplicação financeira dos brasileiros, paga 0,5% ao mês mais a Taxa Referencial). A Fazenda estuda uma medida que extinguiria o rendimento de 0,5% ao mês (6,2% ao ano), substituindo pela Selic com um redutor de 20%.

Quando foi colocado diante dessa encruzilhada — da Selic em 8,75%, próximo ao limite — o então presidente Lula estudou introduzir o Imposto de Renda (IR) sobre as aplicações mais altas, mas não foi à frente porque não queria comprar uma briga impopular — mexer na caderneta de poupança, onde estão 106 milhões de brasileiros, é sempre sensível. Dilma já descartou o IR, mas vai reformar a poupança. Sabe que é o único jeito de abrir espaço para novas reduções da Selic.

O segundo semestre será melhor que o primeiro, fala-se muito aqui em Brasília. E 2013 será melhor que 2012, por sua vez superior a 2011. A única política a que se dá direito é esta: o Brasil precisa entregar uma boa Copa do Mundo em 2014 e, assim, abrir espaço para uma reeleição. Dilma é pragmática e sabe que quatro anos é muito pouco.

Perspectivas para o PT no pós-Lula

ANDRÉ EGG – O presidente cumpriu sua missão e já vai tarde

-- José Eduardo Dutra e Dilma Rousseff --

por André Egg – Votei em Lula nas duas vezes em que ele ganhou. Mas não me considero um lulista. Sou mal-e-mal um petista. Já trabalhei de fiscal do partido na apuração, em 1994 – tempos de cédula de papel, um horror para fiscalizar. Já votei muito no PT, mas sou um eleitor de centro-esquerda – já votei no PDT, no PPS (no tempo em que era de esquerda), no PMDB (no Paraná é um partido meio de esquerda ainda), no PSTU.

Tô dizendo isso pra você, leitor, saber com quem está mexendo.

Porque o negócio é que eu considero que o governo Lula foi um bom governo, e por isso fez o sucessor. Isso está longe daquela bobagem de que Dilma foi na popularidade de Lula: a popularidade de Lula é que veio, em grande parte, da competência administrativa de gente como ela – ou da competência política dele em montar equipe, o que dá na mesma.

Mas tergiverso, para usar um verbo que Dilma usou até gastar no primeiro debate do segundo turno.

O que estou tentando dizer, é que o governo Lula foi bom – arrisco dizer que foi o melhor que o Brasil teve, o que é uma temeridade pois pretende uma comparação com governantes que responderam a situações totalmente diversas. Não acho que seja possível deixar de reconhecer que Lula aproveitou, e bem, as boas coisas que fez o PSDB nos 8 anos em que esteve no governo (controle da inflação, diminuição do tamanho mastodôntico do Estado, consolidação das instituições democráticas, implementação de políticas sociais eficientes). Também devo lembrar que dizer isso não significa creditar o bom governo de Lula aos méritos de FHC, que isso é bobagem da grossa.

A macroeconomia estava toda lascada, dívida pública estratosférica, déficits comerciais, infra-estrutura de transportes em frangalhos, desindustrialização, desemprego, arrocho salarial, e uma inflação ainda não totalmente controlada (eu não me esqueço dos 34% de 1999, que podiam significar ter metade do disponível no ano anterior para comprar comida, para uma família que gastasse 30% do orçamento em alimentação e não tivesse aumentado proporcionalmente a renda – um funcionário público, por exemplo, categoria que teve 0% de reajuste salarial nos tempos de FHC).

Pra encurtar a história, o governo Lula não foi mera continuação de FHC, como já está amplamente demonstrado.

Mas não é disso que estou falando.

Estou contando tudo isso só pra dizer que acho que o governo Lula foi bom, mas muito pior do que deveria ter sido, ou muito pior do que se esperava de um governo do PT.

Porque o PT tinha toda uma trajetória promissora, que foi em grande medida abortada para eleger o Lula em 2002.

Em primeiro lugar, o PT era um partido que vinha da base do novo sindicalismo brasileiro. O sindicalismo no Brasil era uma coisa muito sui-generis: nascido de movimentos anarquistas, só na década de 1920 o comunismo começou a ter papel importante nos sindicatos brasileiros, e foi muito importante para conquistar toda a legislação trabalhista surgida nos anos 1930-40. Só que o Getulião, esperto que só ele, amarrou a legislação (salário mínimo, jornada, férias, justiça trabalhista – a tal CLT) a uma estrutura sindical de inspiração fascista, onde os sindicatos passaram a ser instrumentalizados e controlados pelo Estado (o tal do “peleguismo”). O PT surgiu da insurreição contra esse estado de coisas, na década de 1970, dentro do movimento contra a carestia, do combate à política de arrocho salarial com a qual o Regime Militar atraiu as multi-nacionais. Era um partido que surgia da rebeldia dos trabalhadores, que não aceitavam mais nem a opressão do capitalismo nem a tutela do populismo. Veio daí o basismo, o assembleísmo, as formas dinâmicas de construir consensos e projetos políticos. Veio daí o próprio Lula.

Mas o PT não era só isso – era também o partido oriundo das Comunidades Eclesiais de Base, dos católicos e evangélicos filiados à Teologia da Libertação, da opção pelos pobres, da leitura radical do Evangelho sob a ótica da igualdade, da fraternidade, da justiça, da paz – invertendo uma tradição milenar da Igreja a serviço da opressão, da aristocracia, do Estado.

Também não era só isso: era o herdeiro do PCB, muito mais do que uma versão brasileira do movimento comandado de Moscou. O PCB era, pelo menos desde 1945, um movimento político intimamente ligado à produção do que teve de melhor na cultura brasileira (basta saber que eram militantes do PCB Monteiro Lobato, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos, Oswald de Andrade, Claudio Santoro, Guerra Peixe, Eunice Catunda – para ficar apenas na literatura e na música). O PCB tinha diversas revistas culturais, e seu ideário mobilizou a literatura, a música, as artes visuais, o teatro, o cinema e a teledramaturgia nacionais. Essa grande tradição cultural de artistas engajados, idealistas, nacionalistas, revolucionários, mas ao mesmo tempo rebeldes contra a disciplina do partido e os esquemas teóricos rígidos desaguou no PT nos anos 1980.

Isso liga a uma quarta vertente petista: o PT foi desde sempre uma Nova Esquerda – termo que indica os grupos que continuaram revolucionários e/ou socialistas, rompendo com o marxismo clássico e o comunismo soviético. Esses grupos incluem, e foi o caso do PT no Brasil, intelectuais independentes, artistas, ecologistas/ambientalistas, militantes homossexuais, feministas, movimento negro, entre outros.

Por tudo isso que o PT tinha no seu DNA, existia uma larga expectativa sobre o que poderia representar um governo do partido. Mais ainda, não só por tudo o que o PT representava em termos de uma esquerda democrática, moderna, nacionalista, mas também porque nos anos 1990 o PT demonstrou que não era apenas um partido de oposicionistas porra-loucas, mas sabia governar. Assumindo em 1988 prefeituras importantes como São Paulo, Porto Alegre, Fortaleza e Vitória, o PT iniciava uma nova e importante fase: demonstrar que era mais que um partido utópico, demonstrar que poderia sobreviver às experiências de gestões complicadas.

E o PT venceu o desafio de governar municípios. Sempre manteve o equilíbrio orçamentário, reduziu endividamento, direcionou recursos prioritariamente para os serviços públicos e o atendimento à população carente, fez ótimas políticas de saúde pública, educação, moradia, cultura, transporte coletivo, coleta de lixo, entre outras coisas. Além de criar mecanismos de participação cidadã, cujo maior exemplo foi o orçamento participativo.

Em governos estaduais o PT ainda não tinha se firmado como uma alternativa eficaz aos partidos tradicionais das oligarquias que comandaram o Brasil durante o Regime Militar. Boas experiências com a gestão de Cristóvam Buarque no DF e Olívio Dutra no RS foram interrompidas por derrotas eleitorais. Outros governos como o de Zeca do PT no MS e Victor Buaiz no ES não tiveram tanto êxito.

Qual seria o caminho natural para o PT? Seguir construindo bancadas fortes, com atuação parlamentar destacada, melhorado o nível político do Congresso, passando ao largo das negociatas, fazendo oposição responsável e colocando o legislativo num novo patamar de qualidade, que havia sido totalmente comprometida pelas práticas autoritárias dos governos militares.

Continuar administrando prefeituras de maneira competente, solucionando alguns dos principais problemas que assolam o país, associados às dificuldades de operacionalizar a vida em metrópoles gigantescas com péssimo planejamento urbano, péssimos serviços públicos e, conseqüentemente – péssima qualidade de vida.

Além disso, precisava construir uma alternativa viável para governos estaduais, na gestão de projetos de desenvolvimento econômico regionais, solução de problemas de infra-estrutura de transportes e sobre-tudo uma resposta efetiva ao grave problema da segurança pública.

Se pudesse fazer tudo isso e ainda assumir o Governo Federal para desatar o nó górdio da macro-economia de FHC, tanto melhor.

O problema é que eleger Lula custou o sacrifício do PT como partido que se propunha como alternativa real no quadro político brasileiro. Significou o tipo de arrecadação de campanha que levou à morte de Celso Daniel, prefeito de Santo André: recursos obtidos de forma fraudulenta, para fazer campanhas milionárias, onde a discussão política era substituída pela construção fantasiosa de uma imagem, onde o militante voluntário era substituído pelo serviço pago, onde os ideais e utopias eram sufocados em prol da “governabilidade” e de uma ampla aliança capaz de abarcar a escória política que o PT pretendia superar, lavando a direção do partido a coadunar com as práticas antes combatidas.

Eleger um presidente nestas condições, só poderia resultar num governo engessado, de poucas possibilidades de mudança e transformação política. Como líder de uma coalizão que não era nada de esquerda, mas aceitou de bom grado partidos como PL, PP, PTB, além de irregulares PDT, PSB e PV, o PT abriu mão de tudo que representava como renovação do quadro político brasileiro.

Como partido dinâmico que era, seus principais quadros não aceitavam passivamente o processo: muitos saíram, outros foram expulsos. Alguns tentam até hoje refazer uma alternativa no PSOL, coisa que está se mostrando muito difícil. A base social do partido se desmobilizou, à medida em que os avanços do governo Lula na área de emprego e renda melhoravam sensivelmente a vida de uma geração que nunca tinha visto o Brasil crescer.

Mas o governo Lula foi pífio. Posso dizer isso, eu que sou petista por lutar por uma série de transformações que só o PT representava. Mas devo dizer que não vi nada disso no governo Lula: foi um governo preguiçoso, um governo que fez o mínimo, que repetiu (sem precisar enunciar) o bordão de FHC: “o governo do possível”.

Ora, para fazer um “governo do possível” não precisávamos do PT. Deixássemos os tucanos que estava bom, com alguns ajustes que Serra faria. Para fazer um governo do possível, não precisávamos colocar na presidência o maior líder popular do mundo do pós-segunda guerra. Não precisávamos mobilizar os melhores quadros políticos gerados numa geração que viveu nos porões da repressão do Regime Militar.

O governo Lula não significou nenhuma melhoria em políticas na área de esportes, segurança pública, saúde pública, infra-estrutura de transportes, política de inovação, urbanização, moradia. Fez melhorias na geração de emprego e aumento da renda. Sua política industrial usou recursos públicos para fortalecer ainda mais setores já hipertrofiados – especialmente na produção de commodities. O servidor público foi recuperado com contratações e pequenos reajustes, a universidade pública foi dinamizada. Mas e a educação básica? As políticas capazes de cruzar educação e cultura, educação e esporte, educação e protagonismo político juvenil, educação de adultos?

Cadê as políticas capazes de tirar o Brasil do abissal atraso tecnológico, por exemplo na indústria eletrônica? Cadê as políticas capazes de fazer o Brasil exportar produtos culturais, uma vocação natural da nossa economia? Cadê a transformação da estrutura fundiária? A reforma política? A reforma tributária?

Essa mediocridade do “governo do possível” foi simultânea com o processo de desmonte do protagonismo do PT. Pode-se dizer que o governo Lula foi um governo onde o PT pouco apitou. Esteve atrelado aos interesses da carreira pessoal de Lula e de um grupo de dirigentes: José Genoíno, José Dirceu, Antonio Palocci, Luis Gushiken, Ricardo Berzoini – não por acaso, todos paulistas. Esse Komintern paulista foi capaz de sacrificar o partido sempre que achasse necessário para seu projeto de poder pelo poder. Foi assim quando obrigou o diretório do Rio de Janeiro a apoiar Garotinho em 1998, só pra ter Brizola de vice na chapa de Lula.

Foi assim de novo este ano, quando obrigou o diretório de Minas Gerais a apoiar Hélio Costa, só pra ter Michel Temer de vice na chapa de Dilma.

Foi assim quando o PT fez coligações espúrias nas eleições proporcionais, para garantir o apoio no Congresso. Por exemplo, nas eleições municipais de 2004, o PT de Curitiba caiu de 6 para 3 vereadores (num total de 33) por se coligar com o PTB, que recebeu o benefício dos votos de legenda petistas. O mesmo PTB que no ano seguinte protagonizou o escândalo do “mensalão” na pessoa de Roberto Jeferson.

Para eleger o sucessor (Dilma), Lula não hesitou em sacrificar o PT da forma que fosse possível. Hoje o PT tem diante de si um grande desafio: recuperar a rebeldia do militante, capaz de derrubar os acordos de cúpula (como fez Luiziane Lins para ganhar a prefeitura de Fortaleza em 2004) impor utopia à realpolitik dos dirigentes cujos interesses carreiristas passam a sobrepujar outros mais nobres.

Em 2010 esse protagonismo não esteve com o PT: esteve com Marina Silva. O PT pode recuperar essa posição? Pode. E deve.

Porque Marina não tem partido – está no PV. Não terá como transformar o PV numa coisa que ele nunca foi, e aí está o seu limite para 2014.

Enquanto isso, ao PT se apresenta o desafio: voltar a construir-se como alternativa séria na disputa por prefeituras em 2012, construir candidaturas fortes aos governos estaduais em 2014. Recuperar o horizonte utópico que moveu o partido desde o seu nascimento. Confesso que fiquei muito animado quando vi, no início do segundo turno, que as pesquisas davam algo próximo de um empate técnico. A perspectiva de ter o PT de volta como oposição significaria a recuperação do que o PT tem de melhor: sua face crítica, seu horizonte utópico. Valeria a pena sacrificar o lado burocrata-dirigente-carguista-governista.

Mas a campanha de Serra tomou outros rumos, e a vitória de Dilma significou mesmo a vitória da civilização contra a barbárie. E ao PT resta a difícil missão de continuar equilibrando uma “governabilidade” na chefia de uma coalizão ampla demais (com PSB, PDT, PCdoB e também PMDB, PR, PSC, PP) ao mesmo tempo em que tenta restabelecer-se como o partido de algo mais que o famigerado “governo do possível”. Nos próximos anos, mais do que à coalizão federal, os olhos dos petistas devem estar atentos às experiências que estarão em curso no Rio Grande do Sul e na Bahia: é daí que nos vem as melhores esperanças de utopia e de um novo horizonte para o PT.

E Lula? Cumpriu, em parte, sua missão. E já vai tarde…