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por Jefferson Maleski * – Você já pensou se as cidades tivessem alma? Sim, uma alma semelhante à que imaginamos nos seres humanos, que mantem a forma de escultura de fumaça invisível assim que desaparece a massa corpórea. Algo que continue através dos tempos mesmo que a cidade não exista mais. Bem, Renato Cordeiro Gomes […]

por Jefferson Maleski * – Você já pensou se as cidades tivessem alma? Sim, uma alma semelhante à que imaginamos nos seres humanos, que mantem a forma de escultura de fumaça invisível assim que desaparece a massa corpórea. Algo que continue através dos tempos mesmo que a cidade não exista mais. Bem, Renato Cordeiro Gomes não só pensou nisso, mas escreveu uma tese interessante sobre como seria esta alma, ou a cidade literária, em seu livro Todas as cidades, a cidade (Rocco, 2008). Para ele, a cidade literária é feita não só de textos, mas também de imagens, esculturas, músicas… enfim, tudo o que se interliga construindo avenidas, prédios, pontes, e outras estruturas formadas de símbolos.

É o livro de registro da cidade. E esse livro vai além: há cidades – e aqui entra Ítalo Calvino, com As cidades invisíveis – que só existem na alma, ou se preferir, em textos, embora nunca tenham existido de verdade. Mas, será que não existiram mesmo? Quem já não passeou pelas ruas da eterna Macondo, de Cem anos de solidão, ou sentiu-se fascinado com os jardins suspensos de Babilônia? Ok, você talvez argumente que Babilônia, diferente de Macondo, existiu como cidade. Entretanto, como sabemos sobre estas cidades antigas? Através do mesmíssimo livro de registro da cidade, composto de artefatos, ruínas arqueológicas, escritos, pinturas… similar ao registro escrito deixado sobre Macondo.

Para explicar melhor, Gomes divide as 208 páginas do livro em duas partes, sendo que na primeira procura embasar referencialmente a sua teoria. Ele analisa passagens do livro de Calvino, em que Marco Polo detalha a Kublai Khan as cidades pelas quais andou. O que cada uma delas possui em comum ou em particular? Talvez, localizar o que define a “individualidade” de uma cidade seja uma tarefa tão difícil quanto dizer o que faz de você, você. Além do mais, há aspectos da cidade tão multifacetados como cristal ou efêmeros como a chama. A cidade literária é isso e mais um pouco.

É o labirinto onde o homem se perde, e muitas vezes é devorado pelo Minotauro. Quem nunca se viu diante de uma situação violenta na cidade e sentiu-se incapaz de fugir? A cidade é Babel urbana, confusa e caótica e, segundo Kafka demonstra na parábola “O emblema da cidade”, dominadora diante dos desprezíveis e servis operários. Torna-se Frankenstein ou Mr. Hyde que dispensam o criador para sobreviver.

Na segunda parte do livro é explorado o registro da cidade do Rio de Janeiro, através dos textos de escritores e cronistas que a revelaram como a primeira capital do país, de influência duradoura e estereótipo de todas as outras cidades provincianas. O Rio é descrito como cidade mutável e constante, maravilhosa, obscena e violenta, cidade do rato e da andorinha, exemplo perfeito da Babel, por aqueles que a vêem e a lêem diariamente, como Rubem Fonseca, Marques Rebelo e João do Rio (personagem do livro homônimo, também escrito por Renato Cordeiro Gomes).

Talvez por causa da sua linguagem acadêmica ou devido à especificidade do tema abordado, mesmo que dentro da literatura, o livro tenha poder de agradar somente a determinado público-alvo: os leitores de As cidades invisíveis, de Calvino, ou dos textos dos autores cariocas acima mencionados, ou aos estudiosos de literatura que procuram significados mais profundos nas entrelinhas da mesma.

 
* Jefferson Maleski é acadêmico de Direito e Filosofia. É paranaense, mas mora a tanto tempo no interior de Goiás que já fala “chega dói”, “corguim” e “num dô conta” naturalmente. Blog: jefferson.blog.br.

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