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Bombardear o Hamas para livrar-se de Gaza

por Amálgama (08/01/2009)

Jonathan Cook, no Electronic Intifada / 7 de janeiro Há dois mitos persistentes sobre o objetivo de Israel na chacina de Gaza: primeiro, que seria movimento defensivo, um modo para conter os rojões do Hamas; segundo, que visaria a restaurar a confiança no exército, depois do fracasso no confronto com o Hezbolá em 2006. Ninguém […]

Jonathan Cook, no Electronic Intifada / 7 de janeiro

Há dois mitos persistentes sobre o objetivo de Israel na chacina de Gaza: primeiro, que seria movimento defensivo, um modo para conter os rojões do Hamas; segundo, que visaria a restaurar a confiança no exército, depois do fracasso no confronto com o Hezbolá em 2006.

Ninguém duvida de que os israelenses têm interesse em recuperar a imagem do exército, depois de derrotado pelo Hezbolá; e é claro que os rojões criam pressões domésticas, indesejáveis no momento em que o governo enfrenta eleições.

Mas é erro grave e é não entender o que se desenrola em Gaza supor que Israel seja movido hoje por motivos de ocasião, de capricho. Políticos e militares consumiram meses, talvez anos, preparando esse ataque – fato que, por ele só, sugere que os motivos sejam mais relevantes do que se supõe.

Israel escolheu esse momento – quando os políticos ocidentais estavam em férias de Natal, e há troca de comando em Washington – porque assim assegurou para si o maior tempo possível sem enfrentar interferência diplomática significativa. Mas a pressão para que Israel ceda e aceite algum acordo político começará a crescer, à medida que se aproxima a posse de Barack Obama, dia 20. E assim, quando Israel atinge com violência máxima o coração urbano das áreas de influência do Hamas, começa-se a ver melhor o seu plano.

Apesar do que diz (que teria chance real de derrotar o Hamas), Israel de fato não precisa derrotar o Hamas. O objetivo de Israel pode ser alcançado com o Hamas no poder ou com o Hamas fora do poder – desde que o Hamas seja politicamente contido, se possível, paralisado.

Israel não deseja reocupar o enclave, nem quer continuar responsável pelo 1,5 milhão de habitantes. Tanto não quer, que já evacuou colonos e soldados, em 2005, exatamente porque os custos demográficos, econômicos e militares de policiar os campos de refugiados de Gaza são considerados altos demais.

Em vez de ocupação, Israel precisa de outro cessar-fogo, similar ao que expirou dia 19 de dezembro do ano passado. O problema é: quem “assinará” o cessar-fogo e em que termos?

No The Jerusalem Post esta semana, Martin Kramer, importante liderança dos neoconservadores de Washington, sugeriu que o objetivo de Israel seria firmar um acordo com Máhmude Abbas e restaurá-lo no poder, em Gaza. “O Hamas engoliria a pílula, em nome da unidade nacional”, diz ele.

A idéia de que Abbas e seu partido Fatah venham a dominar a Faixa de Gaza montados nos tanques de Israel parece não passar de fantasia dos neoconservadores e só parece fazer sentido para eles, que já nos brindaram com a “troca de regime” no Iraque. Além do mais, poucos, no governo de Israel ou no exército, consideram-na realista ou exequível.

De qualquer modo, Israel parece interessado em manter o “controle” do partido Fatah nos guetos que Israel criou na Cisjordânia e a permanência do Hamas na prisão em que se transformou Gaza. O que Israel fará da Cisjordânia, da qual estão anexadas partes significativas, depende da relação de forças políticas que consiga implantar em Gaza.

Hoje, Israel pratica outra vez sua diplomacia preferida: estrito unilateralismo. Conforme funcionários citados na imprensa local, Israel quer um acordo aprovado pelos EUA e governos ocidentais e atropela o Hamas e os palestinos.

Em recente reunião do Gabinete, Tzipi Livni, ministra do exterior, disse que “ninguém aqui tem interesse em firmar acordo diplomático com o Hamas. Precisamos de acordos diplomáticos contra o Hamas.”

Conforme as últimas declarações, o cessar-fogo exigiria, como antes, que o Hamas suspenda os rojões na região sul da Faixa, mas introduziria o que os funcionários tem designado, vagamente, como “um mecanismo” específico para a única fronteira com Gaza que não está sob controle de Israel.

Mediante o longo bloqueio, Israel tem conseguido impedir que entrem na Faixa suprimentos (inclusive comida, remédios e combustíveis) pelos pontos de passagem que controla em terra e que seus navios patrulham no litoral. Mas Gaza também tem uma pequena fronteira terrestre no sul, próxima da cidade de Rafah, com o Egito.

Antes da retirada, em 2005, Israel tentou controlar essa quarta fronteira destruindo casas de palestinos e criando uma terra-de-ninguém entre Rafah e o Egito. Essa área, controlada por militares, é conhecida como “Corredor Philadelphi”.

Depois da retirada, Israel esperava que, com o muro de ferro ao longo da fronteira de Rafah e com estrito controle sobre a passagem para o Egito, garantiria que nada entraria ou sairia sem aprovação.
Mas uma pequena indústria privada de construção de túneis logo prosperou ali, e converteu-se em linha de suprimento para os habitantes de Gaza, tanto quanto via de entrada de armas para o Hamas.

O Egito pouco podia fazer além de fingir que não via, por mais que sempre tenha sido incômoda, também para o Egito, a presença de um partido islâmico no poder, logo ali, do lado de casa; e também enfrenta hoje pressões domésticas, por não interferir no aprofundamento da catástrofe humanitária que, ninguém mais duvida, está instalada em Gaza.

Do ponto de vista de Israel, a invasão de Gaza terá resultado zero, a menos que, dessa vez, consiga implantar total controle sobre a fronteira de Rafah, o que impediria que o Hamas continue a dizer que controla toda a Faixa. O “mecanismo”, portanto, implica tirar dos ombros do Egito toda a responsabilidade pela fronteira de Rafah.

Segundo o plano dos israelenses, a responsabilidade passaria para os EUA, cuja expertise será convocada para impedir que se abram novos túneis e para impedir que o Hamas recomponha seu arsenal depois de a invasão estar consumada.

É possível que Israel esteja buscando envolver forças internacionais para, assim, diluir o protesto dos povos árabes também contra o Egito.

Com o Hamas impedido de rearmar-se e sem recursos para prover estrutura social de bem-estar para os habitantes de Gaza, é razoável supor que Israel permita a entrada de ajuda humanitária para tranquilizar os governos ocidentais, preocupados com o efeito que tenham, sobre seus cidadãos, as imagens das crianças de Gaza, com fome e com frio.

Ghassan Khatib, analista palestino, crê que, nesse cenário, Israel passará a exigir que os suprimentos cheguem exclusivamente pela fronteira egípcia. Assim Israel alcançará seu outro objetivo estratégico: Gaza passará a ser responsabilidade do Egito.

Então, tirada Gaza do pescoço de Israel, Abbas e seu regime na Cisjordânia estarão mais isolados do que nunca.

Não há dúvidas de que Israel espera, tão logo consiga jogar Gaza no lixo, e quebrar o Hamas, poder aumentar a pressão sobre a Autoridade Palestina, para que, mediante um acordo de “paz”, ceda ainda mais terra palestina, além de Jerusalém Leste e da Cisjordânia.

 
* Jonathan Cook é escritor e jornalista. Seus livros mais recentes são Israel and the Clash of Civilisations (Pluto Press) e Disappearing Palestine: Israel’s Experiments in Human Despair (Zed Books). Mora em Nazaré, Israel. Para ler o artigo no original, clique aqui. Tradução: Caia Fittipaldi.

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