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Carta ao embaixador israelense no Brasil

por Amálgama (12/01/2009)

Caro Senhor Embaixador Giora Becher, É com profunda consternação que li o texto “O conflito do Hamas em cores” no site da Embaixada de Israel no Brasil. A importante posição que o senhor ocupa — representando um país em guerra em um outro país com a dimensão e a relevância geopolítica do Brasil — me […]

Giora BecherCaro Senhor Embaixador Giora Becher,

É com profunda consternação que li o texto “O conflito do Hamas em cores” no site da Embaixada de Israel no Brasil. A importante posição que o senhor ocupa — representando um país em guerra em um outro país com a dimensão e a relevância geopolítica do Brasil — me leva a um raciocínio de mão-dupla. Ao mesmo tempo em que, pela força das circunstâncias, seria difícil esperar um posicionamento diferente por parte de um embaixador, a minha inabalável fé na humanidade não me deixa abrir mão da esperança. Penso que sempre vou esperar atitudes surpreendentes por parte de líderes para fazer do mundo um lugar menos desumano.

O senhor, infelizmente, não conseguiu alargar seus horizontes para além da costumeira lupa das ideologias e da defesa do “eu”, do “nós”. Repito que, uma vez representante de um governo e de um país, eu não poderia esperar do senhor uma postura francamente aberta, plural, humana e libertária. Há uma guerra em curso. Porém, eu poderia — e esperava, sim — que o senhor não contribuísse de maneira tão esmerada para este perverso mecanismo de falseamento da realidade e esforço pela construção de um absurdo consenso.

Permita-me, agora, fazer um reparo. O que acontece neste momento em Gaza, em Israel e na Cisjordânia não é uma guerra. O governo que o senhor representa está perpetrando um massacre. O senhor defende um torpe e cruel genocídio amparado pela justificativa da “luta legítima contra o terrorismo e o extremismo assassino”. Senhor Becher, algumas de suas palavras — e o cerne de sua argumentação — estão totalmente afinados com o discurso do presidente George W. Bush. Em um mundo sem espaço para inocência, coincidências não existem. Este mesmo discurso busca legitimar mortes, ocupações, guerras, massacres, assassinatos. O senhor fala em terrorismo? Pois o senhor encampa uma forma tão ou mais cruel de terrorismo: o terrorismo de estado.

Nenhuma morte é necessária. Nenhuma morte é justificável. Nenhuma morte é defensável. Em momento algum, em lugar algum, em contexto algum. Por favor, não caia na retórica fácil de “se vocês se colocarem em algum momento em nossos lugares”. Este argumento é utilizado sistematicamente desde 1947. Eu sinto falta, cada vez que ouço este tipo de discurso, de uma noção elementar. Senhor Becher, não é por não concordar com suas políticas que não nos colocamos em seus lugares. Há um abismo entre entender um contexto e aceitar posições.

Eu me coloco no lugar de vocês. Em Dachau, em Treblinka, em Auschwitz, em Sderot, em Tel-Aviv. Só que a isonomia é um princípio fundamental para um mundo minimamente humano, E, por isso, também me coloco no lugar de quem está em Gaza, em Ramallah, em Jerusalém, em Haifa, em Sabra, em Chatila. Do mesmo modo que também me coloco no lugar de quem está em Peshawar, em Bagdá, em Nova York, em Tbilisi, no Rio de Janeiro, em Sbrevrenitza, em Kigali ou em qualquer lugar em que pulse um coração.

Toda vida é sagrada, senhor embaixador. Deus — sejá lá que noção possa-se ter de Deus, ou até sua ausência — está em todas as pessoas. Dessa forma, não há qualquer argumento que me faça aceitar o massacre que está sendro perpetrado em Gaza. Como também não aceito o cerco, as ocupações e os assentamentos. Não são só bombas, tanques e foguetes que matam palestinos. A fome mata palestinos. As doenças matam palestinos. A falta de água mata palestinos. A falta de dignidade mata palestinos.

Por isso, mais uma vez digo que li seu texto com profundo pesar. São posições como esta que tornam este conflito uma areia movediça intransponível há tantas décadas. Eu me recuso, como ser humano, a aceitar a necessidade destas “operações” (a gramática pode ser muito perversa). E, por favor, furte-se a apontar miopia de minha parte. Como ser humano o Holocausto cala fundo em minha alma. E também como ser humano este novo Holocausto me dói no corpo todo. Israel transformou Gaza num inferno, senhor embaixador. Não há qualquer justificativa possível para tamanha covardia, tamanha crueldade, tamanha ausência de amor, fé e esperança.

O senhor pergunta se qualquer um de nós estaria disposto a viver nas condições enfrentadas pelos cidadãos de Sderot. Não, senhor embaixador, eu não estaria disposto. Como cidadão paulistano, minhas condições já são por si só tristes, sem a necessidade de foguetes caindo sobre a minha casa. E isso justifica que os palestinos devam viver sob as condições que vivem há tantos anos, confinados feito animais? Digo isto porque o que vimos nos últimos 14 dias não pode nem ser chamado de “condições”. Gaza, hoje, é a ausência de condições. O senhor sinceramente acha que este é um caminho possível? Além das mortes, dos ferimentos, além de toda a dor e sofrimento, Israel não está conseguindo nada além de semear mais ódio. Ou o que o senhor acha que pode brotar em solo tão arrasado?

Permita-me, por fim, não fraquejar na consistência de minha posição. O que está acontecendo em Gaza neste exato momento é um crime cruel contra a humanidade. Quisera eu poder dizer que é “sem precedentes”. Não é. A história, mais uma vez, se repete como tragédia, sob o verniz da farsa cada vez que um texto como o do senhor é veiculado. Frente a uma situação tão grave, é absolutamente necessária a condenação total de tais ações. E é aqui que concluo, senhor embaixador: essas quase oitocentas mortes, e todas as que vieram e virão na esteira dessa postura inflexível e covarde, habitam a sua consciência. A sua e a de todos que buscam justificar esse genocídio — esse verdadeiro campo de concentração, sim, em que Gaza foi transformada — sob qualquer argumento. Os silogismos, a “guerra contra o terror” e a retórica empertigada de que “as casualidades civis são profundamente sentidas” estão sujos de sangue. Casualidades, senhor embaixador? Esta palavra não ressoa em seus ouvidos ao deitar sua cabeça no travesseiro à noite?

Não espero, com essa carta, atingir mudanças minimamente significativas. Se, no entanto, ao menos por um breve momento, eu conseguir lhe promover alguma reflexão, penso que minha iniciativa já terá alguma valia.

Que a esperança nunca nos abandone. Espero sinceramente que o meu filho que ainda não nasceu possa brincar com os filhos do senhor em um mundo com menos casualidades e mais compreensão, respeito à vida e um sincero sentimento de amor aberto a tudo o que é humano.

Obrigado por sua atenção.

Paz,

Guilherme Conte, jornalista e escritor
São Paulo-SP

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