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Como incendiar o mundo muçulmano

por Amálgama (22/01/2009)

Gabriel Kolko, no Counterpunch / 21 de janeiro   Como a história falará da guerra contra os palestinos em Gaza? Outro holocausto, dessa vez perpetrado pelos filhos das vítimas do anterior? Um golpe eleitoral, montado por ambiciosos políticos israelenses, para ganhar votos nas eleições do dia 10 de fevereiro próximo? Um teste para os novos […]

Gabriel Kolko, no Counterpunch / 21 de janeiro

 
Mão de uma garota sob escombros na Cidade de Gaza [foto: Wissam Nassar/MaanImages]Como a história falará da guerra contra os palestinos em Gaza? Outro holocausto, dessa vez perpetrado pelos filhos das vítimas do anterior? Um golpe eleitoral, montado por ambiciosos políticos israelenses, para ganhar votos nas eleições do dia 10 de fevereiro próximo? Um teste para os novos modelos de armamento fabricados pelos EUA? Ou como uma tentativa de encurralar o novo governo Obama numa posição anti-Irã? Ou como tentativa para estabelecer a “credibilidade” do exército de Israel, depois da vergonhosa derrota na guerra contra o Hezbolá no Líbano em 2006? Tudo isso, provavelmente. E muito mais.

Mas uma coisa é certa. Israel matou pelo menos 100 palestinos para cada uma das baixas noticiadas, desproporção tão imensa que causou horror em quase todo o mundo e criou nova causa que já mobilizou um número praticamente incalculável de pessoas – provavelmente, uma oposição tão forte quanto a que se uniu contra a guerra do Vietnã. Israel auto-converteu-se em nação pária – exceto do ponto de vista dos EUA e de um pequeno grupo de outros países. O mais terrível de tudo: Israel incendiou o mundo muçulmano.

Como Bruce Riedel, um “falcão” que foi alto funcionário da CIA por quase 30 anos e é hoje um dos muitos conselheiros do presidente Obama, escreveu há pouco tempo: “o conflito Israel-Palestina é a principal questão que alimenta a al-Quaeda”, e “os muçulmanos têm convicção muito funda quanto ao que, para eles, foi um erro: a criação de Israel; essa convicção contamina todos os aspectos do que eles pensam e fazem e é o argumento-chave para convencer a ummah da correção da luta da al-Quaeda.” Isso, antes de Gaza. Grande parte do mundo hoje odeia Israel, e demorará anos antes para que as atrocidades praticadas em Gaza sejam esquecidas ou, pelo menos, razoavelmente apagadas. Os extremistas muçulmanos se tornarão muito mais fortes.

Os israelenses estão sendo acusados – e com muitas razões – por crimes de guerra. Muitos dos acusados são filhos de famílias que sofreram nas mãos dos nazistas há mais de 60 anos e vivem hoje de repetir que o Holocausto foi a única tragédia que jamais houve – como se o número de mortos não-judeus, no mundo, depois de 1945 não existisse.

A ONU e grupos de Direitos Humanos já exigem que Israel seja julgado por crimes de guerra, pelo número oficial de 1.300 mortos em Gaza, assassinados por descomunal poder de fogo e com munições como a bomba de fósforo, proibida e ilegal. Israel já avisou seus principais oficiais para que se preparem para defenderem-se contra a acusação de prática de crime de guerra. O Procurador Geral de Israel, General Menahem Mazuz, disse que o governo já espera “uma onda de processos internacionais.”

Daqui em diante, Israel terá de viver com as consequências geopolíticas do que fez.

É provável que Israel tenha destruído, talvez de modo irreparável, qualquer possibilidade de estabelecer relações tranquilas com seus vizinhos árabes mais próximos e outras nações muçulmanas – o Catar e a Mauritânia já suspenderam relações diplomáticas com Israel –, menos porque as camadas governantes dessas nações desejem castigar Israel, mas porque os eleitores, ou, em geral, as populações, exigem que Israel seja punido; e esse desejo popular implica grave risco para a estabilidade dos regimes na região.

Talvez ainda mais importante: os EUA sempre apoiaram lealmente Israel durante décadas, com um dilúvio de armas moderníssimas e com total proteção diplomática; mas os EUA enfrentam hoje enormíssima crise econômica e precisam do dinheiro árabe (para não falar do petróleo), como jamais antes precisaram. A estabilidade da aliança crucial de EUA e Israel está mais pressionada hoje, do que jamais, no passado.

Desde o início, um culto machista – chamado “autodefesa” – foi traço sempre encontrado no sionismo; apesar da opinião de alguns idealistas, como A. D. Gordon, a tendência dominante em Israel sempre acolheu sem protesto as respostas violentas contra os árabes circunjacentes. Os militares sempre foram glorificados por isso, inclusive esquerdistas de fachada, como David Ben Gurion. De tal modo, que Israel converteu-se numa Esparta regional, armada com armamento moderníssimo e bombas atômicas, o que lhe assegurou um monopólio virtual sobre uma vasta região. Esse monopólio também será inevitavelmente desafiado.

Uri Avnery, importante ativista dos movimentos pela paz, escreveu, há poucos dias, que “centenas de milhões de árabes que cercam Israel nessa parte do mundo verão os combatentes do Hamas como heróis da nação árabe e, além disso, também verão seus próprios governos nacionais em plena nudez, como são: criminosos, venais, corruptos e traiçoeiros. (…) Nos próximos anos, todos verão com clareza a absoluta loucura que foi a guerra de Gaza.”

Estamos vivendo outra grande tragédia, e as tragédias são insumo básico na história do mundo, há séculos. Dessa vez, as vítimas de ontem e seus filhos são os carrascos de hoje.

 
* Gabriel Kolko é o mais renomado historiador contemporâneo especialista em história das guerras. É autor dos clássicos Century of War e The Age of War. É autor também da melhor história da Guerra do Vietnã, Anatomy of a War: Vietnam, the US and the Modern Historical Experience. Seu livro mais recente é After Socialism. Tradução do artigo: Caia Fittipaldi.

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